Metade dos estudantes brasileiros já sofreu humilhações

Uma jovem olhando um celular, na tela aparecem várias mensagens ofensivas

Cada vez mais próximo de nós e, principalmente, de nossos filhos, o bullying é um fenômeno que está aumentando nas escolas e pode ocorrer na forma de violência pessoal, moral, física ou psicológica

Ana Cristina Cocolo

A última edição da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (Pense/2015), divulgada em agosto, aponta que quase metade dos 2,6 milhões de alunos entrevistados (46,6%) já sofreu algum tipo de bullying, principalmente em relação à aparência, e se sentiu humilhado por colegas da escola. Na pesquisa anterior, realizada em 2012, esse índice era de 35,3%. Entre os que praticam estão quase 20% dos estudantes.

Ao contrário do que muitos acreditam, o bullying não pode ser encarado como parte do processo de crescimento do indivíduo. A experiência pode ser altamente destrutiva e traumatizante para quem a sofre, necessitando até mesmo de acompanhamento médico e psicológico. Em 2014, pesquisadores do King’s College, em Londres, verificaram os efeitos físicos e mentais do bullying, como depressão e pensamentos suicidas. Eles são visíveis nas vítimas até 40 anos depois.

A escola, que deveria ser um lugar de transformação social, hoje, tornou-se uma zona de exclusão para muitas crianças e adolescentes. Não raro, informações de atos violentos entre jovens dentro do mesmo colégio ocupam parte dos noticiários e preocupam cada vez mais os especialistas das áreas da Educação e da Saúde. 

Fragilidade entre profissionais

Nessa balbúrdia, as unidades educacionais, professores e pediatras estão preparados para lidar com a situação? Uma pesquisa, apresentada como dissertação de mestrado na Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (EFLCH/Unifesp) – Campus Guarulhos, aponta que talvez não. 

Marcelo Reis Clemente, pedagogo e autor da pesquisa, fez análise de conteúdo de entrevistas com 16 professores e oito médicos pediatras, de três instituições públicas (duas escolas – uma municipal e outra estadual – e um hospital de atendimento infantil) do município de Guarulhos, cidade localizada na região metropolitana de São Paulo, sobre conhecimentos, opiniões e atitudes a respeito do bullying em adolescentes. Os participantes da pesquisa, necessariamente, deveriam atender adolescentes do 2º ciclo do ensino fundamental (5º ao 9º ano). O estudo foi orientado por Maria Sylvia de Souza Vitalle, professora do Setor de Medicina do Adolescente do Departamento de Pediatria da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp) – Campus São Paulo e professora do Programa de Pós-Graduação em Educação e Saúde na Infância e Adolescência do Departamento de Educação da EFLCH/Unifesp.

De acordo com ele, apesar de 75% de todos os entrevistados atestarem possuir conhecimento apropriado sobre bullying, 62,5% dos professores municipais, 50% dos estaduais e 75% dos médicos pediatras afirmaram nunca terem participado de palestras sobre o tema, o que demostrou escassez de atividades de qualificação ou de educação continuada.

Quase 67% do total de entrevistados afirmaram que acreditam que os professores estão preparados para atender adolescentes envolvidos nesses casos. No entanto, os pediatras são os que mais acreditam nisso (75%). Quando os participantes da pesquisa foram questionados quanto à preparação dos médicos, 58% afirmaram que os pediatras não estão preparados e quase 17% não souberam responder. Entre a categoria médica, 87,5% negaram essa capacidade. 

Cerca de 84% disseram que as instituições em que trabalham nunca realizaram treinamentos sobre o tema. Nas escolas, 62,5% dos professores não sabiam se a instituição possuía protocolos específicos para o atendimento a adolescentes envolvidos em casos de bullying, enquanto 37,5% afirmaram que elas não possuíam o instrumento. Entre os médicos, 75% foram enfáticos e disseram que o hospital não dispunha da ferramenta. 

Apesar dos resultados, 100% dos professores acreditam que o diálogo é a melhor atitude a ser tomada. Para 25% deles, o diálogo deve ser seguido de repreensão. Entre os pediatras, 75% respondeu que dialogaria com os adolescentes e 87,5% os encaminhariam para atendimento psicológico.

Para o pesquisador, por se tratar de uma temática relativamente nova, com início na década de 1980, não foi surpresa verificar que a maioria de todos os profissionais consultados não tiveram o assunto abordado em nenhuma disciplina da graduação, uma vez que quase 67% deles a concluíram há pelo menos 10 anos. “Certamente, a Lei 13.185/2015, sancionada pela ex-presidente Dilma Rousseff e que estabelece, entre outras coisas, a capacitação de docentes, foi um grande avanço na consolidação dos direitos e das medidas protetivas para crianças e adolescentes que são vítimas do bullying no Brasil”, afirma Clemente. “Faz-se necessário, porém, a ampliação dessas discussões nos cursos de graduação e pós-graduação, principalmente das áreas de Humanas e de Educação”.

Maria Sylvia de Souza Vitalle

Sara Mota B. Bottino (ao centro) durante aula sobre bullying para alunos de graduação

Sara Mota Bottino durante aula

Maria Sylvia de Souza Vitalle, que orientou alguns dos estudos descritos nesta reportagem

Cyberbullying

Descrito quando um ou mais indivíduos utiliza os meios eletrônicos com a intenção de agredir, humilhar, intimidar ou gerar desconforto em outro indivíduo, o cyberbullying vem imperando nos meios de comunicação on-line. 

A psiquiatra e psicoterapeuta Sara Mota Borges Bottino, do Departamento de Psiquiatria da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp) – Campus São Paulo e especialista em cyberbullying, explica que um em cada três adolescentes prefere a comunicação on-line do que a face a face, o que aumenta a exposição às influências desse contato e de suas repercussões, que em muitos casos podem ser negativas. 

De acordo com ela, estudos mostram que entre 20% e 40% dos adolescentes terão, pelo menos, uma experiência desse tipo e o número de vítimas só vem aumentando. “O principal dano causado pelo cyberbullying é o de prejudicar a reputação da vítima, com repercussões que podem ser mais desastrosas do que as observadas no bullying tradicional”, afirma.  “Além dos problemas sociais e de comportamento, a experiência pode acarretar em depressão, abuso de substâncias psicoativas, tentativas de suicídio ou mesmo em sua consumação de fato”.

Uma revisão sistemática da literatura sobre o tema, realizada por Sara e publicada no periódico Cadernos de Saúde Pública e na revista Debates em Psiquiatria, em 2015, encontrou uma prevalência do cyberbullying de 6,5% a 35,4% entre adolescentes com idades entre 10 e 17 anos. O risco de vitimização dessa prática sugere uma continuidade e sobreposição ao bullying escolar. “Há evidências de que os adolescentes com depressão mais grave têm três vezes mais chances de relatar cyberbullying. 

Metade dos adolescentes tem receio de contar o problema a um adulto ou aos pais porque acreditam ter que aprender a lidar com seus próprios problemas e 31% por terem receio de que os pais restrinjam seu acesso à internet e de ficarem socialmente isolados. 

Sara explica que os pais, educadores e profissionais de saúde necessitam conhecer os riscos da comunicação on-line e promover discussões sobre o tema, auxiliando os adolescentes a encontrar formas efetivas de lidar com esses incidentes. No entanto, um inquérito realizado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), em 2013, em cinco regiões geográficas brasileiras e que abrangeu 2.002 jovens com idades entre 12 e 17 anos, apontou que 64% deles acessavam a internet todos os dias e 46% afirmavam não ter nenhuma forma de monitoramento dos pais. 

Para ajudar os jovens da geração Z, também conhecidos como nativos virtuais, a usar essas mídias de forma crítica e consciente e evitar a exposição pessoal indiscriminada, desde 2013, Sara vem desenvolvendo o projeto Prevenção da Violência nos Meios de Comunicação Eletrônica entre Adolescentes da Rede Pública de São Paulo, com a participação de estudantes de Medicina e Enfermagem do Campus São Paulo da Unifesp. Entre outros objetivos, o projeto estimula os estudantes a ajudarem colegas vitimizados e capacita professores no suporte a esses alunos. “O enfoque na figura do expectador da agressão é fundamental, já que ele não é o agressor e nem mesmo o agredido”, explica. “Existem evidências científicas de que as relações de amizade são importantes e evitam o desenvolvimento de problemas de saúde mental nas vítimas de cyberbullying”.

Problemas originados em razão de agressão envolvendo ações de bullying

Comuns
• desinteresse pela escola;
• problemas psicossomáticos;
• problemas comportamentais;
• problemas psíquicos, como o transtorno do pânico;
• depressão;
• anorexia;
• bulimia;
• fobia escolar;
• fobia social;
• ansiedade generalizada.

Graves
• quadros de esquizofrenia;
• homicídio;
• suicídio (bullicídio).

Fonte: Cartilha do Conselho Nacional de Justiça (2010)

As desculpas das trollagens virtuais 

E as trollagens virtuais que, segundo o dicionário virtual, significa zoar, chatear ou tirar sarro? Elas se encaixam na mesma categoria do bullying? De acordo com uma pesquisa qualitativa, realizada na Unifesp com estudantes, não. 

Em sua dissertação de mestrado, apresentada na Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (EFLCH/Unifesp) – Campus Guarulhos e também orientado por Maria Sylvia Vitalle, o professor de Educação Física Marcos Vinicius Mota utilizou-se da imagem do corpo obeso e da rede social Facebook para entender isso. 

Ele investigou publicações tidas como humor e atos de trollagens em fan pages. Em entrevistas semiestruturadas com adolescentes entre 17 e 19 anos, o pesquisador verificou que esses jovens veem o corpo obeso como parte de chacotas e as publicações são consideradas cyberbullying. No entanto, quando as postagens são mediadas pela amizade, a ação é tida como uma brincadeira que não traz danos e, portanto, é permitida e aceita socialmente. “A permissão para a zoeira entre amigos é baseada no pressuposto de que este saberá qual limite não transpor e, quando o limite em brincadeira for alcançado, compreenderá qual o momento de parar”, explica Mota. “Para os que não têm vínculo de amizade, há duas razões para não se zoar: a simples falta de permissão e a impossibilidade de se entender o limite de quem se aplica o ato de trollar”.

Embora um agressor no bullying possa ter atitudes similares ao troll, a revisão da literatura não faz tal associação entre elas, de acordo com ele. “No entanto, na internet, a ação, tanto no bullying quanto em brincadeiras permitidas, poderá tomar proporções globais ao adquirir características miméticas e se tornar selvageria sustentada pelas representações, discriminações ou preconceitos enraizados por processos históricos, como o caso do humor com base na obesidade”.

Fotografia da Escola Municipal Araucária, mostra um muro com várias pinturas

Os muros da Escola Municipal Araucária, em Curitiba (PR), foram transformados pelos estudantes em um imenso e colorido painel que incentiva o respeito às diferenças entre colegas. As paredes que cercam a escola foram grafitadas com os cinco personagens tema do projeto Bullying não é Brincadeira, promovido pela Secretaria Municipal da Educação

A lei e a escola

Com o objetivo de analisar o fenômeno bullying entre os adolescentes sob o olhar jurídico, a advogada Leanna Silva Meirelles Dutra realizou um levantamento e analisou a efetividade das leis e projetos de lei em tramitação disponíveis até meados de 2015 junto à Câmara dos Deputados e Câmara e Assembleia Legislativa de todos os estados da federação, tendo como procedimento metodológico a pesquisa em meio eletrônico. Ao todo, sua pesquisa, apresentada como dissertação de mestrado na EFLCH/Unifesp, encontrou 27 leis estaduais, 19 projetos de leis federais e 24 estaduais. Três estados – Pará, Rio Grande do Norte e Roraima – não informaram se possuem legislação ou projeto em andamento sobre o tema. 

De acordo com a pesquisadora, a maioria das leis encontradas tem em comum a conscientização, a prevenção e a orientação, além de estimular a tolerância, o respeito mútuo e o combate ao problema. Ela explica em seu trabalho que há apenas oito anos iniciou-se no Brasil uma preocupação em legislar para combater ao bullying e que muitas leis encontradas por ela eram mal formuladas, carentes de dispositivos imprescindíveis para o combate ao bullying.

Para medir a efetividade desse tipo de lei e sob orientação de Maria Sylvia, Leanna escolheu o Estado de Santa Catarina já que pesquisas apontam que o mesmo tem sido o que mais vem buscando combater o fenômeno com campanhas e iniciativas junto às secretarias municipais da Educação desde a criação de uma lei estadual, em 2009. 

Apesar do empenho das autoridades catarinenses, Leanna verificou que o bullying não parece ter sido suplantado, desde a criação dessa lei, uma vez que, em 2012, a segunda edição da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (Pense) apontou que o Sul é a região do país com maior prevalência de bullying. Em 2013, outra pesquisa, dessa vez realizada pela Ordem dos Advogados do Brasil de Santa Catarina (OAB/SC), revelou que 82% dos alunos conviviam com o problema.

Dados esses que se confirmaram na edição do Pense de 2015 – divulgado após a conclusão do trabalho de Leanna pelo jornal Diário Catarinense –, que mostra que 68% dos alunos catarinenses do 9º ano do ensino fundamental se sentiram humilhados por provocações dos colegas, índice que ficou acima da média da Região Sul (63,4%).

Para a pesquisadora, considerando a legislação estudada por ela, os dados levam à hipótese de que a comunidade envolvida venha pecando mais pela falta de iniciativas práticas do que, propriamente, pela carência de dispositivos legais apropriados. 

“Nesse cenário, não são só as vítimas as agredidas, mas também os agressores e as testemunhas da agressão. As pessoas reproduzem o que vivenciam ao seu redor”, afirma Maria Sylvia. ”O que se deve mudar é a visão individualista da sociedade em achar que o problema é sempre do outro e nunca seu”.

Artigos relacionados:

BOTTINO, Sara Mota Borges; BOTTINO, Cássio M. C.; REGINA, Caroline Gomez; CORREIA, Aline Villa Lobo; RIBEIRO, Wagner Silva. Cyberbullying and adolescent mental health: systematic review. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 31, n. 3, p. 463-475, mar. 2015. Disponível em: < http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-311X2015000300463&lng=pt&nrm=iso&tlng=en >. Acesso em: 7 out. 2016.

BOTTINO, Sara Mota Borges; SANTOS, Romayne Mirelle; MARTINS, Beatriz de Castilho; REGINA, Caroline Gomez. Repercussões do cyberbullying na saúde mental dos adolescentes. Debates em Psiquiatria, n. 2, p. 20-23, mar./abr. 2015. Disponível em: < http://www.abp.org.br/download/2015/RDP/RDP_2.pdf >. Acesso em: 7 out. 2016.

Dissertações relacionadas:

CLEMENTE, Marcelo Reis. Conhecimentos, opiniões e atitudes de professores e pediatras da rede pública do município de Guarulhos, sobre bullying em adolescentes – uma contribuição sobre o estudo do bullying. 2012. 203 f. Dissertação (Mestrado em Ciências: Educação e Saúde na Infância e Adolescência) – Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade Federal de São Paulo, Guarulhos, 2012.

MOTA, Marcos Vinicius. A violência contra o corpo obeso nas redes sociais (bullying virtual) e o significado de trollagens para adolescentes em idade escolar. 2015. 200 f. Dissertação (Mestrado em Ciências: Educação e Saúde na Infância e Adolescência) – Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade Federal de São Paulo. Guarulhos, 2015.

DUTRA, Leanna Silva Meirelles. Bullying: da questão legal ao possível enfrentamento do fenômeno nas escolas. 2015. 99 f. Dissertação (Mestrado em Ciências: Educação e Saúde na Infância e Adolescência) – Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade Federal de São Paulo. Guarulhos, 2015.

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