Trabalho em equipe e ética profissional

Estudo mostra que estudantes estão cada vez mais focados à exigência do mercado de trabalho

Ana Cristina Cocolo

O mercado de trabalho e a rapidez com que a tecnologia avança exigem dos profissionais mais do que habilidades ligadas à sua área de formação (competências específicas), mas também aquelas relacionadas às competências genéricas, ou seja, a capacidade de mobilizar recursos pessoais, como conhecimento, habilidades e atitudes (que, entre outros exemplos, podem ser traduzidos em boa comunicação e trabalho em equipe), aos recursos do ambiente, que refletem diretamente no bom desempenho profissional.

Esses parâmetros já permeiam os cursos de bacharelados interdisciplinares no Brasil, de acordo com Nancy Ramacciotti de Oliveira-Monteiro, coordenadora do Laboratório de Psicologia Ambiental e Desenvolvimento Humano (LADH) do Instituto do Mar (Imar/Unifesp) – Campus Baixada Santista. “É preciso entender e avaliar as condições psicológicas e as competências desses estudantes para traçar possíveis intervenções, tanto no âmbito de aprimoramento do curso, quanto na saúde deles”, afirma. 

Um estudo conduzido por ela e que faz parte do projeto Competências e Condições Psicológicas de Universitários, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), pretende fazer exatamente isso. 

A pesquisadora utilizou o Inventário de Autoavaliação para adultos de 18 a 59 anos (ASR, do inglês Adult Self Report) – para identificar problemas psicológicos – e a Escala de Competências Genéricas (ECG) – para avaliar graus de valoração de 19 competências genéricas – em 224 estudantes do Bacharelado Interdisciplinar de Ciência e Tecnologia do Mar (BICTMar). O trabalho teve a colaboração dos companheiros de departamento, os professores Fernando Ramos Martins e Rodolfo Eduardo Scachetti.

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Nancy Ramacciotti de Oliveira-Monteiro, coordenadora do Laboratório de Psicologia Ambiental e Desenvolvimento Humano (LADH) 

“A escala é derivada de um instrumento utilizado no Projeto Tuning (http://www.unideusto.org/tuningeu/home.html), que avaliou competências genéricas e específicas de estudantes, profissionais e empregadores em diversos países da América Latina e Europa”, explica. “A ECG utilizada foi uma validação semântica da escala que vem sendo usada na Universidade de La Coruña, com a qual temos um convênio de colaboração mútua no ensino, na pesquisa e na extensão”.

Aptidões 

Dados parciais do estudo apontam que, das 19 aptidões mencionadas (veja o gráfico), seis delas destacaram-se entre os estudantes: capacidade de trabalhar em equipe, compromisso ético, responsabilidade no trabalho, capacidade de aprender, preocupação por qualidade e melhoria e a habilidade de adaptar-se a novas situações. “Essas competências não são estranhas àquelas que o mundo do trabalho contemporâneo e a própria Organização Internacional do Trabalho (OIT) defendem, com ênfase para o trabalho em equipe”, explica Oliveira-Monteiro. “Chama a atenção a alta menção à categoria ‘compromisso ético’, que contrasta com o atual cenário do país”.

“Já a baixa relevância autorreferida sobre as competências adquiridas no curso (conhecimentos básicos da profissão) pode estar relacionada ao fato de ser um curso interdisciplinar, com perfil profissional aberto e flexível, e não de um curso tradicional de áreas clássicas, como Direito, Medicina ou Engenharia”, explica Scachetti. “Outra possibilidade é a característica do próprio mercado de trabalho atual, em que as fronteiras profissionais parecem se erguer com menos rigidez”. 

Conhecer para intervir

O desafio de avançar as fronteiras, tanto pessoais quanto sociais, e alcançar o sucesso ou a satisfação profissional pode acarretar no aumento da ansiedade e, em alguns casos, no surgimento de transtornos de ordem psicológica. Entender o que envolve esse processo para conduzir os estudantes para uma formação mais plena e saudável também faz parte do projeto. 

Dos estudantes avaliados, 28% apresentaram algum problema psicológico, sendo que 43% apresentam problemas psicológicos de ordem internalizante (como ansiedade, depressão e queixas somáticas) e, 24%, externalizantes (problemas comportamentais, como atitudes antissociais ou ato não pensado). As mulheres parecem ser as mais afetadas. Contudo, a maioria dos estudantes (89%) apresentou recursos, como família e amigos, para lidar com esses problemas.

Em uma análise do conjunto integral dos dados obtidos nas entrevistas percebe-se que as competências capacidades de trabalhar em equipe e de aprender, preocupação por qualidade e melhoria e capacidade de adaptação a situações novas são as com maior frequência de indicação de muito relevantes. Por outro lado, as competências conhecimentos básicos da profissão, resolução de problemas, motivação para o trabalho, capacidade de aplicar os conhecimentos à prática e habilidade de gestão da informação foram as que receberam menor indicação de muito relevante entre todos os entrevistados.

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