Ressonância magnética promete ajudar na detecção precoce da depressão

Conexões na rede do circuito de recompensa cerebral podem ser um potencial marcador para novos casos da doença entre jovens e crianças

Daniel Patini

menina sentada no chão

(Imagem: Andrea Pelogi)

Um estudo feito a partir de exames de ressonância magnética do cérebro de crianças e jovens identificou alterações da conectividade no circuito cerebral de recompensa que foram associadas a casos de depressão, após três anos de acompanhamento. As alterações foram observadas na região do cérebro responsável por integrar e processar informações cotidianas sobre recompensa e motivação, chamada estriado ventral, a qual teve um papel significativo nos quadros de depressão antes do início dos sintomas.

Os resultados estão na tese de doutorado de Pedro Mario Pan, defendida no Departamento de Psiquiatria da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM/Unifesp) - Campus São Paulo, sob a supervisão do professor Rodrigo Bressan. O trabalho foi publicado no renomado periódico oficial da Associação Americana de Psiquiatria, o American Journal of Psychiatry.

Uma amostra formada por cerca de 750 crianças e jovens, com idade entre nove e 16 anos, foi avaliada nas cidades de São Paulo e Porto Alegre. Além das análises psicológica e psiquiátrica, todos realizaram exame de neuroimagem por meio de ressonância magnética, efetuando-se – três anos depois – a reavaliação de 90% deles (675) com a mesma metodologia. “Encontramos uma conectividade de característica diferente, aumentada ou mais ativada, no cérebro daqueles que desenvolveram depressão após três anos, contabilizando-se 53 indivíduos nessas condições”, esclarece Pan.

"Se confirmados em estudos futuros, esses resultados podem ajudar a identificar jovens em risco de depressão antes mesmo do início dos sintomas. Identificar precocemente indivíduos com probabilidade para transtornos mentais mais comuns é o passo inicial para alcançar a prevenção no campo da Psiquiatria", afirma. "Medidas preventivas como mudança dos hábitos de vida, melhora do sono e prática de atividade física, entre outras, têm mais chance de sucesso se aplicadas antes do agravamento do quadro de depressão."

Tema relevante e atual

De acordo com o pesquisador, a depressão é uma das principais causas de perda da qualidade de vida e de prejuízo funcional, entre todas as doenças. Estimativas indicam que uma em cada quatro pessoas apresenta um episódio depressivo durante a vida. Na adolescência, período caracterizado como de risco para o desenvolvimento de transtornos mentais, pois engloba profundas mudanças físicas, cerebrais e socioemocionais, as consequências dos episódios depressivos podem ser devastadoras, como a autoagressão e até o suicídio.

"Assim, o auge de incidência da maior parte dos transtornos mentais ocorre durante o neurodesenvolvimento. Contudo, ainda sabemos pouco sobre os mecanismos biológicos cerebrais que causam a depressão nessa faixa etária”, assinala Pan. “Estudos anteriores já apontavam para desregulações no circuito cerebral de recompensa como um mecanismo implicado na depressão. Nesse sentido, um adolescente com depressão pode perder a vontade de realizar suas atividades e a capacidade de sentir prazer, sintomas centrais desse transtorno mental”, ressalta.

Tratamentos não medicamentosos

menina

(Imagem: Andrea Pelogi)

Para o autor, é fundamental notar que os resultados sugerem a importância de tratamentos não medicamentosos, como a modalidade de psicoterapia denominada ativação comportamental. Trata-se de uma técnica da terapia cognitivo-comportamental na qual o terapeuta estimula o paciente a gradualmente vencer a resistência e o medo a estímulos não prazerosos para buscar novas tarefas, nas quais descubra sensações positivas. "Pesquisas complementares deverão identificar se a ativação comportamental pode mudar essas alterações precoces que encontramos no circuito de recompensa", acrescenta.

O pesquisador também explica que o circuito de recompensa é particularmente mediado pelo neurotransmissor dopamina, que tem papel importante na sensação de prazer. A depressão é justamente uma doença que afeta a capacidade do indivíduo de sentir prazer. Ele alerta, contudo, que os principais remédios antidepressivos até hoje utilizados para os jovens têm sido aqueles que modulam o neurotransmissor serotonina, chamados inibidores de recaptação da serotonina. "Nossos achados reforçam a necessidade de estudos que explorem novos mecanismos e os neurotransmissores.”

Em andamento

Desde abril deste ano, os pesquisadores do Projeto Conexão - Mentes do Futuro retomaram os trabalhos para novamente avaliar os jovens. Na atual fase de seguimento, que terá duração de seis anos, será analisado um conjunto de variáveis individuais e familiares – dentre elas, medidas de psicopatologia geral e familiar, variáveis sociodemográficas, variáveis de risco e trauma precoce e hábitos de vida.

As análises propostas poderão, assim, indicar fatores de risco modificáveis e possibilidades de intervenção preventiva, determinando estruturas e vias de funcionamento cerebrais que são importantes para a fisiopatologia dos transtornos de humor na adolescência. Isso deverá ser crucial para o desenvolvimento de métodos diagnósticos – como, por exemplo, a ressonância magnética funcional – e métodos terapêuticos, que incluem a identificação de regiões para estimulação cerebral transcraniana.

"Vale lembrar que faltam ferramentas diagnósticas mais precisas como marcadores de progressão e de risco. Essa etapa do trabalho pretende identificar os marcadores precoces dos transtornos de humor na adolescência, determinar as vias causais dos transtornos mentais e avançar no tratamento e na prevenção individualizada", finaliza.

A tese de doutorado de Pedro Mario Pan integra o Projeto Conexão - Mentes do Futuro, o maior estudo epidemiológico longitudinal de Psiquiatria da Infância e Adolescência já conduzido no Brasil, cuja finalidade é avaliar problemas emocionais e de comportamento em crianças e jovens, elaborando estratégias de prevenção para os transtornos mentais.

Iniciado em 2009, o projeto é coordenado pelo Instituto Nacional de Psiquiatria do Desenvolvimento para Crianças e Adolescentes (INPD), que conta com as verbas repassadas pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Envolve várias universidades brasileiras, dentre as quais se destaca a parceria tripartite formada pela Unifesp, Universidade de São Paulo (USP) e Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

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PAN, Pedro Mario; SATO, João R.; SALUM, Giovanni A.; ROHDE, Luis A.; GADELHA, Ary; ZUGMAN, Andre; MARI, Jair; JACKOWSKI, Andrea; PICON, Felipe; MIGUEL, Eurípedes C.; PINE, Daniel S.; LEIBENLUFT, Ellen; BRESSAN, Rodrigo A.; STRINGARIS, Argyris. Ventral striatum functional connectivity as a predictor of adolescent depressive disorder in a longitudinal community-based sample. The American Journal of Psychiatry, Washington, D.C., v. 174, n. 11, p. 1.112-1.119, 1º nov. 2017. Disponível em: <https://ajp.psychiatryonline.org/doi/full/10.1176/appi.ajp.2017.17040430>. Acesso em: 24 abr. 2018.