Formado por cinco unidades, o Campus Diadema tem a missão de formar profissionais técnica e cientificamente preparados para enfrentar os problemas ambientais, de saúde e de educação que afetam o país

Entreteses11 p082 diadema

 

O projeto de expansão da Unifesp inaugura e agrega o Campus Diadema, em 2007, no ABC Paulista. Por ser uma região que concentra várias indústrias e por abrigar uma área preservada de Mata Atlântica e parte da represa Billings, torna-se evidente que a construção do projeto pedagógico, desenvolvido ao lado do setor produtivo e da comunidade local, segue a vocação para as ciências naturais e exatas.

O campus, portanto, estabelece como missão formar profissionais competentes, técnica e cientificamente, e preparados, inclusive no âmbito social, para enfrentar os problemas ambientais, de saúde e de educação que afetam o país, com vistas à melhoria da qualidade de vida da população. Conta, atualmente, com mais de 259 docentes e 105 técnicos administrativos em educação.

O Instituto de Ciências Ambientais, Químicas e Farmacêuticas (ICAQF/Unifesp) - Campus Diadema oferece sete cursos de graduação (Ciências Ambientais, Ciências Biológicas, Engenharia Química, Farmácia, Licenciatura Plena em Ciências, Química e Química Industrial), sendo o ingresso em cinco deles por meio do Sistema de Seleção Unificada (Sisu) e dois (Ciências Biológicas e Engenharia Química), pelo Sistema Misto. Hoje são 2.643 estudantes matriculados.

A pós-graduação oferece oito programas (Análise Ambiental Integrada – intercampi com o Campus Baixada Santista –, Biologia Química, Ciências Farmacêuticas, Química - Ciência e Tecnologia da Sustentabilidade, Ecologia e Evolução, Engenharia Química, Ensino de Ciências e Matemática, Matemática em Rede Nacional), dos quais um é o curso de mestrado profissional, sete são de mestrados acadêmicos e dois de doutorados. Além disso, o ICAQF/Unifesp desenvolve atividades de pós-graduação intercampi no programa Engenharia e Ciência de Materiais – com o Campus São José dos Campos e com o Campus São Paulo.

As atividades e projetos de extensão também fazem parte da rotina do campus, e contribuem para fortalecer o vínculo com os moradores de Diadema.

O ICAQF/Unifesp - Campus Diadema é formado por cinco unidades: Antônio Doll, Manoel da Nóbrega, José Alencar (dividida em complexo didático e prédio de pesquisa) e José de Filippi. Essa última encontra-se no bairro Eldorado, próxima à represa Billings, uma área de proteção e recuperação de mananciais. No instituto, os estudantes têm acesso a 60 laboratórios para graduação e para pesquisas, dotados de equipamentos de ponta, além de salas de aulas teóricas e de informática, biblioteca, anfiteatro, restaurante universitário e uma central de análises (multiusuários). Há ainda o espaço do sítio Morungaba – terreno com cerca de 20 mil metros quadrados.

Pós-graduação em números:

8 programas de pós-graduação
10 cursos de pós-graduação
7 cursos de mestrado acadêmico
1 curso de mestrado profissional
2 cursos de doutorado
338 estudantes de mestrado acadêmico
10 estudantes de mestrado profissional
74 estudantes de doutorado
180 docentes/orientadores credenciados
347 estudantes titulados até 2018


Dados extraídos do Sistemas Integrado de Informações Universitárias (SIIU) em 28/3/2019

 
Publicado em Edição 11
Quinta, 27 Junho 2019 09:58

Aprendendo com quem aprende

Pesquisa em rede analisa as contribuições do Pibid para o desenvolvimento profissional docente e a inovação pedagógica

Entreteses11 p079 pibid

Tela da webconferência realizada entre os três núcleos, uma rotina para o desenvolvimento da pesquisa (Imagem: arquivo pessoal)

Texto: José Luiz Guerra

A formação do professor de educação básica é tema constante de debate, seja dentro ou fora da universidade. E como programas institucionais podem ajudar nesse processo? Com esse intuito, a pesquisa em rede denominada Desenvolvimento Profissional Docente e Inovação Pedagógica: Estudo Exploratório sobre Contribuições do Pibid foi realizada.

A pesquisa, de caráter interinstitucional e desenvolvida de forma colaborativa entre a Universidade Estadual do Ceará (Uece), a Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop) e a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), acompanhou 90 docentes da rede pública de educação básica que participaram do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (Pibid) como supervisores, sendo 30 de cada Estado. Obteve apoio financeiro do Programa Observatório da Educação (Obeduc), do qual fazem parte, desde o início, em 2013, os Estados representados no estudo, tendo sido coordenado pelos docentes Isabel Maria Sabino de Farias, José Rubens Lima Jardilino e Magali Silvestre, vinculados respectivamente à Uece, Ufop e Unifesp e também responsáveis pelos núcleos do Ceará, Minas Gerais e São Paulo. A coordenação geral dos trabalhos ficou a cargo de Isabel Maria Sabino de Farias.

O Pibid é um programa apoiado pelo Ministério da Educação (MEC) e pela Coordenadoria de Aperfeiçoamento de Pessoal do Ensino Superior (Capes), cujo objetivo é fomentar a iniciação à docência, contribuindo para o aperfeiçoamento da formação de docentes do ensino superior e para a melhoria de qualidade da educação pública de nível básico. Além dos docentes das universidades que atuam na coordenação institucional e na coordenação pedagógica dos subprojetos organizados por área, o programa contempla estudantes de graduação e bolsistas de iniciação à docência, bem como docentes de educação básica, denominados professores supervisores, responsáveis pelo acompanhamento dos citados graduandos nas escolas.

“Buscamos, de modo geral, analisar aspectos da experiência vivida por professores da educação básica do Ceará, Minas Gerais e São Paulo, no âmbito do Pibid, além de verificar se essa participação foi mobilizadora de práticas inovadoras de ensino”, explica Silvestre, que leciona no curso de Pedagogia da Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (EFLCH/Unifesp) - Campus Guarulhos e nos programas de pós-graduação em Educação e em Educação e Saúde na Infância e na Adolescência da mesma instituição. Ela destaca que o foco do estudo não foi analisar o Pibid, iniciativa decorrente de uma política pública inédita no contexto educacional brasileiro, mas compreender a contribuição de práticas e saberes produzidos durante o processo formativo vivenciado pelos professores supervisores, o qual favorece seu desenvolvimento profissional e a inovação em suas práticas pedagógicas. Cada núcleo recebeu bolsas para alunos de graduação (seis) e de pós-graduação (três) e para professores da rede (seis). No núcleo de São Paulo, além dos bolsistas, voluntários participaram das atividades. 

Metodologia

Para identificar e selecionar os docentes que participaram como supervisores de bolsistas do Pibid, foi realizada uma pesquisa qualitativa nos Estados do Ceará, Minas Gerais e São Paulo, no período de 2013 a 2017. Para a definição dos participantes da pesquisa foi enviado a cada um, via e-mail, um questionário com 25 itens, estruturado em três blocos: o primeiro, com informações pessoais, como idade, formação inicial, maior titulação, situação profissional e rede de ensino em que atuava; o segundo, que contemplou a experiência profissional e participação no Pibid, tempo de magistério, carga horária de trabalho semanal e tempo de participação no programa; e o terceiro, com itens sobre a situação atual no Pibid, como o ano de ingresso e de saída, a instituição que desenvolveu o projeto e a área do subprojeto de que participou. 

Em setembro de 2014, foram identificados 288 professores supervisores no Ceará, 51 em Minas Gerais e 86 em São Paulo. Desse conjunto, pouco mais de 25% (112) respondeu ao questionário. “Optamos por uma amostra com tamanho único para os três núcleos, considerando o universo de respondentes”, comenta Silvestre. Definiu-se, pois, que 20% do total de identificados, correspondente a 90 professores de educação básica, participaria do estudo, sendo cada núcleo responsável por 30 professores supervisores de sua região, entre ativos (que faziam parte do Pibid na época) e egressos (que em algum momento integraram o programa). Os selecionados submeteram-se a uma entrevista semiestruturada, visando à produção de dados descritivos, expressos em sua própria linguagem. O roteiro cobriu 34 questões abertas, agrupadas em seis blocos e organizadas em dois temas: desenvolvimento profissional docente e inovação pedagógica. A utilização do software NVIVO 10 auxiliou o trabalho dos mais de 40 pesquisadores envolvidos no projeto. Além disso, cumprindo os objetivos do Obeduc, os integrantes dos núcleos passaram por orientação e diversas oficinas para a realização de cada etapa de produção de dados da pesquisa, principalmente no caso das entrevistas e suas transcrições. 

Entreteses11 p080 seminarioUece

Mesa em seminário na Uece com pesquisadores do Obeduc e professores da rede pública de Guarulhos, Mariana e Fortaleza

Entreteses11 p080 coloquio

1° Colóquio sobre Desenvolvimento Profissional Docente e Inovação Pedagógica, realizado no Campus Guarulhos da Unifesp

Entreteses11 p081 webconferencia

Reunião do núcleo de São Paulo para início de webconferência

Entreteses11 p081 apresentacao

Apresentação do trabalho de iniciação científica de graduanda do Obeduc em seminário na Uece

As respostas dos professores

Os dados coletados nas entrevistas foram analisados, no primeiro momento, em cada um dos núcleos. Posteriormente, foram reunidos e comparados, possibilitando-se extrair uma conclusão com base nos aspectos comuns aos docentes das três regiões. “O Pibid, invariavelmente, é citado como um programa que traz motivação para o professor supervisor, visto que possibilita a colaboração mútua e a partilha de experiências entre licenciandos e docentes, além de se configurar como oportunidade de formação continuada, reconhecida como necessidade de todo professor ao longo da carreira”, aponta a coordenadora no núcleo de São Paulo. 

Os professores supervisores demonstraram que as condições em que exerciam sua atividade eram um fator que os desmotivava como profissionais, mas o fato de pertencerem a um programa e assumirem o papel de coformadores estimulava a valorização de seu trabalho. Isso confirmou, na opinião dos pesquisadores, que o Pibid na escola pública é um agente importante de desenvolvimento docente porque promove novos modelos na prática de formação e nas relações de trabalho. 

As entrevistas revelaram que, na medida em que são estimulados a reavaliar suas práticas e a trocar experiências e saberes, os professores supervisores ampliaram seu repertório de conhecimentos. Na visão de Silvestre, isso impulsionou novas aprendizagens sobre a docência e o fortalecimento da profissão. “O Pibid promove situações que amenizam os obstáculos desses contextos, o que justifica considerar que, efetivamente, provoca o desenvolvimento profissional dos que se envolvem com os projetos e a universidade”, acrescenta a pesquisadora. Nesse contexto, os bolsistas do programa assumiram, inclusive, o papel de interlocutores dos professores das escolas.

“Embora no conjunto se encontrassem aspectos que definiam de maneira mais precisa o que era uma inovação pedagógica, ao analisar cada uma das falas não se verificou nenhuma que demonstrasse uma concepção consistente e fundamentada sobre as próprias crenças, pois ora relacionavam inovação com a utilização de recursos tecnológicos, ora a vinculavam a alterações nas práticas pedagógicas”, explica Silvestre. Na opinião desses profissionais, o desenvolvimento de práticas inovadoras estava diretamente ligado a melhorias nas condições de trabalho – dentre estas se destacam a falta de infraestrutura e de recursos didáticos, a resistência dos pares e dos administradores da escola, a jornada de trabalho exaustiva e a organização curricular. “Isso indica que as inovações pedagógicas não dependem somente de seu compromisso profissional ou de uma formação mais eficiente, mas também de mudanças na gestão escolar, no sistema educacional e nas políticas públicas”, completa.

Como meio facilitador das ações inovadoras, os docentes pesquisados apontaram a troca de experiências, o trabalho em grupo, a formação contínua centrada nas práticas e o desenvolvimento de uma metodologia baseada em projetos, diferente daquela que adotavam em seu cotidiano. Todos esses aspectos, segundo eles, estão relacionados à permanência do Pibid nas escolas. De forma unânime, consideraram também que o programa é uma prática de formação inovadora, visto que lhes deu a oportunidade de vivenciar novas propostas de ensino, elaboradas em conjunto com os licenciandos, e de realizar um trabalho coletivo e autônomo.

Outro aspecto que – para os professores supervisores – distingue o Pibid como um programa de formação inovador que promove o desenvolvimento profissional foi a aproximação entre as instituições de ensino superior e as escolas, derivada de sua característica de iniciação à docência. “O Pibid coloca em relação saberes acadêmicos e escolares de forma mais harmoniosa e menos hierárquica do que nos processos convencionais, tanto para os licenciandos como para os professores supervisores”, observa Silvestre. 

Houve também, na opinião dos que realizaram as entrevistas, uma intensificação nas relações entre os professores supervisores e os alunos das escolas, já que o Pibid proporcionou, por exemplo, uma ruptura na rotina escolar. “Ao observarem a forma de agir dos licenciandos e a reação de seus alunos durante o desenvolvimento de práticas que não eram usuais na escola – uso de laboratório, pedagogia de projetos, trabalho com temas –, principalmente nos anos finais do ensino fundamental e no ensino médio, os professores supervisores reconheceram que os estudantes se sentiam mais mobilizados para o conhecimento”, pondera a coordenadora do núcleo de São Paulo. Essa constatação, segundo ela, resultou em um olhar menos defensivo e mais profissional sobre esses docentes, pois descobriram, aos poucos, que seus alunos eram capazes de aprender e, além disso, gostar do que estavam aprendendo. “Muitas falas dos professores supervisores retratavam que tinham medo de realizar aquilo que os graduandos realizavam com muita facilidade, como levar alunos do ensino médio aos laboratórios”, completa. 

A principal modificação provocada pela experiência vivida no Pibid, entretanto, referiu-se ao planejamento. As falas dos professores supervisores revelaram que muitos deles não sabiam sequer planejar. “Sua experiência no Pibid, como protagonistas das escolhas pedagógicas, como coformadores dos licenciandos e como detentores de saberes acumulados, associada às condições de trabalho proporcionadas pelo programa, levou-os a dar um novo sentido ao ato de planejar”, diz Silvestre. 

Os professores supervisores apontaram ainda a mudança na relação que mantinham com o conhecimento, antes dado como pronto e acabado, sendo transmissível por meio de exposição. Eles passaram a observar que, para determinado conhecimento, existia uma forma de aprendizagem. Isso atualizou e fortaleceu algumas de suas competências didáticas e proporcionou transformações em sua prática pedagógica. O movimento do Pibid incentivou-os a se aproximarem de atividades acadêmicas e a buscarem outros espaços de formação universitária. 

Para Silvestre, as mudanças declaradas pelos professores supervisores foram bastante significativas. “Acredito que elas abriram fendas nos pressupostos da pedagogia tradicional que ainda prevalece entre os docentes, pois isto mobilizou sua forma de agir e pensar sobre o processo de ensino e aprendizagem dos alunos, sobre as metodologias utilizadas e sobre o modo de conceber e organizar o conhecimento escolar, além de dar um novo sentido à profissão e a seu trabalho, gerando a necessidade de buscar outras ações formativas.” A docente da Unifesp ressalta, ainda, que – de acordo com a pesquisa – o Pibid favoreceu a constituição da autonomia dos professores supervisores, acelerou seu desenvolvimento profissional e desencadeou alterações nas práticas que se aproximavam de inovações pedagógicas. “Essas constatações levam a crer que o ensino e a aprendizagem foram aprimorados, mostrando que as inovações nas práticas pedagógicas passam por processos formativos centrados na escola, desenvolvidos de forma coletiva e colaborativa, e dependem sobremaneira da melhoria das condições de trabalho e da consequente valorização do magistério.” Para ela, programas como o Pibid e o Obeduc são fundamentais para o fortalecimento da capacitação de professores da educação básica.

Por fim, a coordenadora do núcleo de São Paulo assegurou que a pesquisa, construída coletivamente e que reuniu pesquisadores de universidades, doutores, mestrandos e doutorandos, alunos de graduação e professores do ensino fundamental e médio do Ceará, de Minas Gerais e de São Paulo, avançou numa experiência sui generis de rede colaborativa para a formação de professores no Brasil. “Os professores das redes municipal e estadual de cada Estado vivenciaram situações formadoras, incrementando seus conhecimentos teóricos e práticos acerca da metodologia científica, ou seja, tornando-se professores pesquisadores apoiados no princípio da investigação científica.”

Artigo relacionado:
SILVESTRE, Magali A.; FARIAS, Isabel Maria Sabino de; JARDILINO, José Rubens Lima. Contribuições do Obeduc como pesquisa em rede para a formação do professor. Revista Educação Matemática em Foco, Campina Grande, PB: Editora da Universidade Estadual da Paraíba, v. 5, n.1, p. 12-29, jan.-jun. 2016. Disponível em: <http://pos-graduacao.uepb.edu.br/ppgecm/revistas/ >. Acesso em: 16 abr. 2019.

Publicado em Edição 11

Equipe integrada por oito docentes e 30 graduandos fez excursões conjuntas para conhecer de perto contextos históricos e culturais distintos

Entreteses11 p075 historia da arte

Grupo de pesquisa na Plaza San Martín, em Buenos Aires (Imagem: Arquivo pessoal)

Entreteses11 p076 historia da arte

Grupo de pesquisa na Iglesia de San Ignacio, em Buenos Aires (Imagem: Arquivo pessoal)

Entreteses11 p077 historia da arte

Grupo de pesquisa na Igreja de Santo Inácio de Loyola, em Roma (Imagem: Arquivo pessoal)

Texto: José Luiz Guerra

Um projeto de pesquisa promovido pelo curso de História da Arte da Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (EFLCH/Unifesp) - Campus Guarulhos, em parceria com a Universidade de Zurique, na Suíça, possibilitou que docentes e estudantes das duas instituições participassem de atividades conjuntas, visando ao estudo da História da Arte na América Latina.

Denominado New Art Histories: Relating Ideas, Objects and Institutions in the Latin American World, o projeto foi financiado pela Fundação Getty, de Los Angeles (Califórnia), nos Estados Unidos, e incluiu atividades didáticas, confrontando e conectando dois contextos acadêmicos e historiográficos distintos. Funcionou entre 2011 e 2017 e proporcionou viagens de estudo de campo e visitas conjuntas, levando estudantes e professores a se engajarem na exploração dos temas, a questionar cânones estéticos e hábitos intelectuais e a cruzar as fronteiras da História da Arte.

Jens Michael Baumgarten, docente da EFLCH/Unifesp, conta que havia a intenção de dar início ao processo de internacionalização do curso de História da Arte, do qual era – na época – coordenador. E a oportunidade surgiu quando foi convidado para ser professor visitante da Fundação Getty. Durante o período em que exerceu essa função, encontrou-se com Tristan Weddigen, docente da mesma área na Universidade de Zurique, e juntos elaboraram a proposta de trabalho. Esta foi, então, submetida à aprovação da instituição estadunidense, que provê o financiamento de várias linhas de pesquisa, entre as quais a Connecting Art Histories, voltada à História da Arte. 

“Uma equipe da Fundação Getty veio ao Brasil para conhecer alguns cursos de História da Arte e identificaram a Unifesp, a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e a Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) como instituições de relevância internacional que mantinham os cursos mais avançados nessa área.” Segundo Baumgarten, o modelo do projeto, composto por universidades de países diferentes e que contemplava docentes e estudantes de graduação, era inédito. 

Um de seus principais objetivos foi permitir que os integrantes tivessem contato in loco com as artes, particularmente com o Barroco Global. Dessa forma, o grupo fez excursões conjuntas à Argentina, à Bolívia, ao México e a alguns países da Europa. O contato serviu também para a integração de graduandos e professores. “Queríamos desconstruir a ideia de “nós” e dos “outros”, já que todos trabalhávamos juntos, brasileiros e suíços”, comentou o docente. Durante o período de vigência do projeto, tanto a Unifesp quanto a Universidade de Zurique promoveram o intercâmbio de oito docentes e cerca de 30 estudantes. Além disso, foram realizados colóquios, simpósios e palestras no Brasil, na Suíça e nos países visitados.

No total, a Fundação Getty investiu US$ 750 mil dólares na iniciativa, acompanhando o andamento das atividades por meio de videoconferência e do envio de relatórios dos coordenadores. Em relação aos estudantes, a instituição adotou como procedimento manter contato com eles por mais tempo, mesmo após o término de sua participação no projeto. “Esse contato normalmente continua por cerca de dez anos, a fim de verificar o impacto do financiamento a longo prazo”, explica o historiador da Unifesp.

Além de possibilitar o desenvolvimento de pesquisas ligadas ao projeto, a experiência, segundo Baumgarten, proporcionou aos envolvidos um salto de qualidade em sua formação acadêmica. “Foi uma experiência fantástica. Você muda a sua visão de acordo com o que conhece. A História da Arte não é simplesmente uma história, mas várias, que precisam estar conectadas”, finaliza.

Entreteses11 p077 professores

Jens Baumgarten (à esquerda) e Tristan Weddigen em conferência na Argentina

 

Artigos relacionados:

BAUMGARTEN, Jens M.; TAVARES, André. Le baroque colonisateur: principales orientations théoriques dans la production historiographique. Perspective: actualité en histoire de l’art, Paris, v. 2, p. 288-307, 2013. Disponível em: <https://journals.openedition.org/perspective/3888#text >. Acesso em: 17 abr. 2019.

FARAGO, Claire; HILLS, Helen; KAUP, Monika; SIRACUSANO, Gabriela; BAUMGARTEN, Jens M.; JACOVIELLO, Stefano. Conceptions and reworkings of baroque and neobaroque in recent years. Perspective: actualité en histoire de l’art, Paris, v. 1, p. 43-62, 2015. Disponível em: <https://journals.openedition.org/perspective/5792#text >. Acesso em: 17 abr. 2019.

 
Publicado em Edição 11
Quarta, 26 Junho 2019 16:23

Compartilhando histórias de São Paulo

Plataforma digital permite localizar pontos de interesse histórico e promover integração entre pesquisadores e público em geral

Entreteses11 p071 pauliceia

Imagem composta com camadas de mapas presentes na plataforma Paulicéia 2.0

Entreteses11 p072 coordenador e bolsista

Luis Ferla, coordenador do projeto, e Cintia Rodrigues, uma das bolsistas do projeto

Texto: José Luiz Guerra

Imagine um espaço digital no qual você pode pesquisar e trocar informações sobre a história da cidade de São Paulo. Melhor ainda: um local onde é possível adicionar informações históricas sobre a maior cidade do Brasil, desde um edifício público até um estabelecimento familiar que funciona há décadas em um mesmo endereço. Isso tornou-se possível graças a um projeto de pesquisa da Unifesp, denominado Pauliceia 2.0.

O projeto surgiu por meio do Hímaco (Histórias, Mapas e Computadores), grupo de pesquisa da Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (EFLCH/Unifesp) – Campus Guarulhos, que tem como objetivo explorar as possibilidades do uso das tecnologias no trabalho do historiador, discutir e experimentar essas possibilidades, particularmente as geotecnologias. Também participam da construção do Pauliceia 2.0 o Instituto de Ciência e Tecnologia (ICT/Unifesp) - Campus São José dos Campos, o Arquivo Público do Estado de São Paulo, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e a Emory University, dos Estados Unidos. A plataforma, coordenada por Luis Ferla, docente do curso de História da EFLCH/Unifesp, e por Karine Reis Ferreira, pesquisadora do Inpe, pretende fazer o mapeamento colaborativo da história de São Paulo entre os anos de 1870 a 1940.

Ferla, que também coordena o Hímaco, explica que este grupo de pesquisa criou um projeto piloto em 2013 para mapear as enchentes de São Paulo, utilizando o Sistema de Informações Geográficas (SIG), ação que encorajou o grupo a diversificar a pesquisa. “Como nós sempre trabalhamos com tecnologia livre e o software da SIG (gvSIG) era muito colaborativo, pensamos em algo com o mesmo perfil e surgiu a ideia do Pauliceia 2.0”.

Após uma primeira tentativa de financiamento do projeto, em 2015, que não foi aprovada, ocorreu uma nova tentativa no ano seguinte, dessa vez por meio do edital eScience/Fapesp, voltado para estimular projetos pioneiros de pesquisa que envolvam ciência da computação e outra área do conhecimento. Resultado: o Pauliceia 2.0 foi um dos cinco aprovados daquele ano e o único na área das Ciências Humanas. “Por sorte não conseguimos aprovar o projeto em 2015, pois ele não seria tão robusto quanto o atual, já que não teríamos a bordo todo o grupo da ciência da computação”, brinca o docente.

O uso de plataformas digitais em história ainda é pouco explorado no Brasil e no mundo. Ferla cita dois trabalhos semelhantes: um nacional e também colaborativo, denominado Atlas Digital da América Lusa, criado pela Universidade de Brasília e outro internacional, gerenciado pela Universidade de Sydney, que mostra os eventos ocorridos na cidade de Nova Iorque, mas é alimentado exclusivamente pela equipe da instituição. “Podemos dizer que o Pauliceia 2.0 é um dos pioneiros em história urbana colaborativa no mundo”, explica.

Entreteses11 p072 pauliceia

Plataforma do Pauliceia 2.0 mostrando a camada Open Street Map (OSM), versão livre e colaborativa do Google Mapas, representando o mapa atual da cidade

Entreteses11 p073 pauliceia

Endereço geolocalizado na plataforma do Pauliceia 2.0, representado pelo ponto verde, mostrado na camada referente ao ano de 1930

Como funciona?

A plataforma Pauliceia 2.0 pode ser utilizada basicamente de três maneiras diferentes: como uma ferramenta de geolocalização de endereços do passado, o mesmo que faz o Google Mapas, mas com endereços da São Paulo de 1870 a 1940; como repositório de pesquisas e informações da história da cidade naquele período, por meio da criação de “camadas”; ou apenas como local de consulta acerca do que foi alimentado ali. Somente para a segunda dessas funções há a necessidade da realização de um cadastro, que é bastante simples.

“O geolocalizador permite identificar um endereço do começo do século XX, que você não consegue encontrar na São Paulo do início do século XXI, pois numeração é outra, as ruas são outras ou ainda nem existiam”, pontua o coordenador. Ferla também dá um exemplo do uso da plataforma para criação de camadas: “Um dos estudantes está fazendo um trabalho sobre o percurso da passeata da greve de 1917. Ele pode desenhar uma linha sobre as ruas nas quais passaram as manifestações e fazer um upload do arquivo. E outras pessoas, por sua vez, podem analisar o que foi adicionado à plataforma, cruzar informações das diversas camadas, e tirar suas próprias conclusões”.

Existe a opção de o usuário escolher o plano de fundo de sua preferência, que remetem a mapas de diferentes épocas, de acordo com cada camada. Já a opção OSM (Open Street Map – versão livre e colaborativa do Google Mapas) representa o mapa atual da cidade. A escolha dos planos de fundo permite também observar a mudança da configuração das ruas da cidade. 

Cada uma das camadas já existentes ou criadas na plataforma funciona também como uma comunidade. Os usuários podem seguir uma ou mais camadas de seu interesse e recebem notificações sobre qualquer atualização feita, além de poderem trocar mensagens de interesse comum. O portal da plataforma também disponibiliza um tutorial bastante didático acerca do uso da ferramenta.

Mais do que um espaço para compartilhamento de informações, a ideia é a de que o Pauliceia 2.0 seja uma referência para pesquisas e para novos projetos. “Se o Rio de Janeiro quiser fazer um projeto nos mesmos moldes, não vai precisar começar do zero. Todos os códigos que o Inpe desenvolveu já estão disponíveis, são livres, e a metodologia também estará disponível”, completa.

Até março de 2019, a plataforma funcionava em uma versão beta, abrangendo apenas o centro da cidade, período inicial no qual a equipe do projeto estimulou toda e qualquer contribuição ou uso da plataforma, recebendo, inclusive, todas as críticas e sugestões decorrentes. Depois desse período, o projeto iniciou sua segunda fase, destinada a incorporar o restante da cidade. 

O trabalho dos bolsistas

O projeto conta com a participação de cerca de dez bolsistas, tanto ligados à Unifesp quanto ao Inpe. Uma delas é Cintia Rodrigues de Almeida, estudante do último ano do curso de História da EFLCH/Unifesp. Ela conta que era interessada em trabalhar com tecnologia no sentido integrador e decidiu entrar para o grupo de pesquisa Hímaco durante uma disciplina ministrada por Luis Ferla.

Ela acredita que o Pauliceia 2.0 poderá ajudá-la no seu trabalho de conclusão de curso. “Pretendo levantar fontes sobre homossexuais que vivam em condições de rua nos anos 1930. Uma das ideias é usar a plataforma para analisar a movimentação dessas pessoas e mapear esses caminhos para ver se há alguma congruência, se eles estavam indo para um mesmo lugar, se havia uma rede ou comunidade entre eles”, afirmou.

“O Brasil sempre foi apresentado como um país-rascunho”

Entreteses: O próprio nome do grupo de pesquisa que você coordena (Hímaco) sugere uma relação instigante, para dizer o mínimo, articulando em uma mesma operação histórias, mapas e computadores. Você pode explicar como surgiu essa proposta e qual o seu objetivo?

Luis Ferla: Ainda no final dos anos 1940, o padre jesuíta Roberto Busa fechou um acordo com a IBM para produzir um sistema computacional que abrigasse e manipulasse a produção de Tomás de Aquino, no que muitos consideram o nascimento das humanidades digitais. Isso demonstra que as humanidades já interagiam com os computadores desde muito cedo, praticamente quando do seu surgimento. Mas a relação entre a tecnologia e as humanidades, em geral, e a história em particular, sempre foi problemática. O mundo dos computadores é, por definição, avesso a ambiguidades e incompletudes, das quais os historiadores nunca estão livres. Apesar disso, os historiadores passaram a utilizar cada vez mais os computadores. Estamos falando dos anos 1960 e 1970, quando uma história quantitativa ganhava viabilidade tecnológica e impulsionava estudos de séries econômicas e demográficas em grande escala. Fernand Braudel, uma das maiores referências da área desde sempre, sintetizava então o novo paradigma: "fazer história é fazer medições". Mas, àquela época, os computadores eram máquinas muito caras, e apenas poucos centros de excelência tinham acesso a eles. Isso aprofundou uma clivagem geopolítica no sistema acadêmico internacional, opondo um centro capacitado tecnologicamente a uma periferia impotente e desconfiada. Além disso, o quantitativismo suportado por computadores gerava o temor frente a um conhecimento excessivamente preciso e objetivo, reavivando o fantasma do positivismo epistemológico. O que veio depois mudou dramaticamente esse quadro. O aparecimento do computador pessoal em fins da década de 1970, a difusão da internet desde então e a explosão da web nos anos 1990, passando pela sua reconfiguração nesse século, na chamada web 2.0, fizeram com que a tecnologia digital ganhasse enorme capilaridade e inegável onipresença no mundo atual. Entre os historiadores, a posição reticente e desconfiada se tornou crescentemente inviável. O ambiente de trabalho do historiador e os ecossistemas em que se movimentava já estavam irreversivelmente impregnados de cabos, monitores, impressoras, notebooks e desktops. Some-se a isso a questão geracional, que obrigou a universidade e seus professores a lidar com discentes cada vez mais afeitos às novas tecnologias. De uma forma geral, esse é o contexto que motivou a criação do grupo Hímaco, em agosto de 2010, na EFLCH/Unifesp - Campus Guarulhos, por mim e pelo meu colega Janes Jorge, também docente do Departamento de História. Dois objetivos relacionados entre si condicionam desde então as atividades do grupo: por um lado, discutir a presença das tecnologias digitais no ofício do historiador, incluindo seus impactos metodológicos e epistemológicos; por outro, explorar as possibilidades do uso dessas tecnologias na produção do conhecimento histórico. Esse segundo objetivo levou o grupo a trabalhar com geotecnologias. No concerto das humanidades digitais, é reconhecido que os historiadores têm maior atração pelas tecnologias que envolvem o tratamento da dimensão espacial em seus estudos, com destaque aos sistemas de informações geográficas (SIGs). Isso se explica pela importância central do espaço no estudo da história, ainda que nem sempre isso tenha sido devidamente admitido ao longo das várias flutuações paradigmáticas da disciplina. Assim nasceu o Hímaco e desde essa perspectiva foram desenvolvidos os seus projetos de pesquisa.

 

E: Você concorda com a avaliação de que o Brasil não tem o hábito de cultivar a sua própria memória histórica, e menos ainda a geográfica? Em caso positivo, quais os motivos e quais as implicações disso?

L.F.: O desprezo pelo conhecimento histórico é quase uma marca identitária de nossa sociedade. O Brasil sempre foi apresentado como um país-rascunho, sempre inacabado, incompleto e não realizado. Subjaz a essa perspectiva um profundo desprezo das classes poderosas pelo "povo brasileiro", sempre visto como ignorante, preguiçoso, ladino e incapaz. Daí que o Estado brasileiro, criado à sombra das elites do poder, seja um monstro burocrático, cercando o cidadão comum em todos os atos de sua vida social, desconfiando sistematicamente de sua boa fé. Esse preconceito tradicional vem de longe, e passa pelos quatro séculos de escravidão e pelos vários racismos científicos importados com entusiasmo da Europa após o fim do período de servidão. Ou seja, a história de um povo desprezível é uma história desprezível. Por outro lado, e isso infelizmente não é uma idiossincrasia nacional; uma concepção tecnocrática radical vem tomando conta das políticas públicas voltadas à educação e às universidades. Essas já não são consideradas centros de produção e reprodução do conhecimento, mas apenas formadores de mão de obra capacitada a um mercado de trabalho cada vez mais exigente e restrito. Os recentes ataques às humanidades e à sua utilidade social têm essa história. Por outro lado, as novas tecnologias vêm questionando o monopólio secular e quase absoluto da academia na produção do conhecimento. As fronteiras tradicionais entre a produção e o consumo do conhecimento estão em crise e se tornam cada vez mais difusas. Esse fenômeno, em si, é perturbador, pois explica a popularidade e a ascensão do anti-intelectualismo e de irracionalismos nos moldes do terraplanismo e afins. Mas, por outro lado, permite a articulação do conhecimento acadêmico com outros saberes do outro lado do muro da universidade. Por exemplo, as geotecnologias e o crescimento das alternativas colaborativas, livres e abertas têm possibilitado que grupos sociais subalternos, como trabalhadores sem terra, quilombolas e povos indígenas, produzam os seus próprios mapas e os mobilizem em suas lutas cotidianas. Essa é uma importante subversão, dado que os mapas sempre foram instrumentos de poder, cuja produção, por isso mesmo, era monopolizada pelo Estado e seus agentes. Aqui se insere o projeto atual do grupo Hímaco, o Pauliceia 2.0: mapeamento colaborativo da história de São Paulo (1870-1940), uma experiência do que vem sendo chamada de ciência aberta ou ciência cidadã. O papel dos pesquisadores e instituições envolvidas não é, por conseguinte, apenas o de produzir o conhecimento, mas buscar interlocuções e articulações com outros saberes sobre a cidade, produzidos por sindicatos, associação de moradores, coletivos ou pessoas comuns, além, obviamente, dos próprios pesquisadores reconhecidos da história da cidade. E o papel da academia ainda é imprescindível, pois se não detém mais o monopólio da produção do conhecimento, o seu lugar é privilegiado para estimular as articulações e as sinergias possíveis.

Plataforma Pauliceia 2.0 • www.pauliceia.dpi.inpe.br

Grupo de pesquisa Hímaco • www.unifesp.br/himaco

Artigo relacionado:
GOMES, K. R. F.; FERLA, L.; QUEIROZ, G. R.; VIJAYKUMAR, N. L.; NORONHA, C.; MARIANO, R.; TAVEIRA, D.; SANSIGOLO, G.; GUARNIER, O.; ROGERS, T.; LESSER, J.; PAGE, M.; ATIQUE, F.; MUSA, D.; YAMAMOTO, J.; MORAIS, D. S.; MIYASAKA, C. R.; ALMEIDA, C. R.; NASCIMENTO, L. M.; DINIZ, J. A.; CAETANO, M.. A platform for collaborative historical research based on volunteered geographical information. Journal of Information and Data Management, 2018. No prelo.

 
Publicado em Edição 11

Seu projeto acadêmico propõe a integração entre as áreas do conhecimento, potencializadas por uma estrutura completamente reformulada e equipada com novos laboratórios e uma biblioteca com mais de 100 mil títulos

Entreteses11 p068 guarulhos

 

A Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (EFLCH/Unifesp) – Campus Guarulhos foi criada em 2007, em decorrência do Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni). Seu projeto acadêmico propõe a integração entre as áreas de conhecimento das Ciências Humanas, buscando formar cidadãos aptos a atuar de forma crítica e propositiva.

A unidade acadêmica oferece cursos de graduação em Ciências Sociais, Filosofia, História, História da Arte, Letras e Pedagogia, organizados em torno de três eixos de disciplinas: obrigatórias, de domínio conexo (formação complementar) e optativas (formação livre). No domínio conexo, as disciplinas de Leitura e Interpretação de Textos e de Filosofia Geral são obrigatórias, enquanto as demais podem ser escolhidas em áreas de graduação diversificadas, estimulando a troca de conhecimento no campo das humanidades. As matrizes curriculares permitem o acesso aos textos originais que fundamentam as tradições de pensamento das respectivas áreas, e ainda à bibliografia crítica produzida em diferentes contextos acadêmicos.

Em nível de pós-graduação são oferecidos sete programas de mestrado acadêmico (Educação e Saúde na Infância e Adolescência, Educação, Filosofia, Ciências Sociais, História, História da Arte e Letras), um de mestrado profissional (Ensino de História) e três de doutorado (Educação, Educação e Saúde na Infância e Adolescência e Filosofia). Associados a esses programas, são desenvolvidos por docentes e estudantes diversos projetos mediante o financiamento das agências de fomento à pesquisa.

A EFLCH/Unifesp conta com 3.070 estudantes matriculados nos cursos de graduação. Em relação ao quadro de servidores, são 246 docentes, todos com titulação mínima de doutorado em regime de dedicação exclusiva, e 96 técnicos administrativos em educação. O campus está localizado no bairro dos Pimentas e dispõe de um amplo edifício acadêmico com salas de aula, laboratórios, biblioteca com mais de 100 mil títulos, restaurante universitário e núcleo de apoio ao estudante, além de duas estruturas que foram completamente reformuladas: o prédio anexo e o Prédio do Arco. O espaço também abriga o Teatro Adamastor Pimentas, que dispõe de recursos técnicos consideráveis e capacidade para acomodar 500 pessoas, onde são realizados eventos institucionais, apresentações artísticas e projetos culturais voltados à comunidade acadêmica e ao público em geral.

Pós-graduação em números:

9 programas de pós-graduação
11 cursos de pós-graduação
7 cursos de mestrado acadêmico
1 curso de mestrado profissional
3 cursos de doutorado
623 estudantes de mestrado acadêmico
40 estudantes de mestrado profissional
181 estudantes de doutorado
209 docentes/orientadores credenciados
685 estudantes titulados até 2018


Dados extraídos do Sistemas Integrado de Informações Universitárias (SIIU) em 28/3/2019

 
Publicado em Edição 11
Quarta, 26 Junho 2019 15:27

Na mira da “agulha”

Vacina experimental, capaz de erradicar o parasita Trypanosoma cruzi em camundongos, será testada em animais de maior porte e posteriormente em humanos

Entreteses11 p065 barbeiro

* As imagens acima são de autoria de Luiz Henrique Gagliani, docente do Centro Universitário Lusíada

 

Texto: Ana Cristina Cocolo

Pesquisadores do Instituto de Saúde e Sociedade (ISS/Unifesp) - Campus Baixada Santista obtiveram resultados promissores de uma vacina criada para combater o Trypanosoma cruzi, parasita causador da Doença de Chagas. Ela está entre uma das quatro principais causas de morte no país pelas chamadas doenças negligenciadas – que são aquelas causadas por agentes infecciosos ou parasitas e consideradas endêmicas em populações de baixa renda. 

Atualmente os indivíduos infectados contam apenas com dois medicamentos quimioterápicos, cuja ação é variável, mostrando-se mais eficazes na fase aguda da doença. “Os medicamentos atualmente disponíveis estão há 40 anos no mercado e uma nova abordagem terapêutica se faz urgentemente necessária e acredito que estamos no caminho certo para o desenvolvimento de um método vacinal eficaz que poderá beneficiar milhões de pessoas cronicamente infectadas em nosso país”, afirma Flávia Andressa Mazzuco Pidone, autora do estudo apresentado como tese de doutorado no Programa Interdisciplinar em Ciências do ISS/Unifesp.

A vacina, testada em camundongos, conseguiu erradicar a doença dos animais a partir do estresse oxidativo (excesso de radicais livres na célula do agente infeccioso), da genotoxicidade (efeitos tóxicos sobre o material genético do parasita) e do aumento da resposta inflamatória (quebra da barreira de defesa do microrganismo). Esse conjunto de ações gerou uma potente resposta imune celular, marcada presença de radicais livres, dano ao DNA e aumento da resposta inflamatória nas células hospedeiras. 

De acordo com Pidone, tanto a vacinação profilática (feita antes da infecção) quanto a vacinação terapêutica (feita após a infecção) foi capaz de promover uma resposta contra o parasita, impedindo a morte dos animais infectados. O trabalho foi orientado por Daniel Araki Ribeiro e José Ronnie Carvalho de Vasconcelos, docentes no Departamento de Biociências da Unifesp. 

Pidone explica que outros grupos de pesquisadores testaram vacinas com antígenos do parasita, sem muito sucesso. “Acreditamos que o sucesso obtido em nosso estudo se dá pelo fato de estarmos trabalhando com diversos protocolos vacinais que utilizam, principalmente, os antígenos TS (transialidase) e ASP-2 (proteína 2 da superfície de amastigota), cobrindo tanto a forma infectante do patógeno, como a forma replicativa, respectivamente”, diz. “Associado a isso, temos o diferencial de utilizarmos vacinas com o gene ASP-2 em camundongos extremamente susceptíveis à infecção do Trypanosoma cruzi, como é o caso da linhagem chamada A/Sn. 

Essa linhagem, segundo a pesquisadora, responde muito mal à infecção por esse parasita porque a resposta imunológica apresentada pelo animal ocorre muito depois do pico da parasitemia. Ou seja, quando a resposta imune surge, já houve uma grande colonização tecidual parasitária. 

Pidone afirma que uma das dificuldades em ainda não se ter descoberto uma vacina contra a doença é o fato de que o parasita utiliza-se de vários mecanismos de evasão da resposta imune do hospedeiro, que vão desde sua habilidade de diferenciação em formas intracelulares (amastigotas), que se utilizam dessa característica para escapar da ação dos anticorpos, até sua incrível capacidade de variação antigênica. “Outra estratégia adaptativa de sobrevivência do Trypanosoma cruzi encontra-se na colonização de tecidos alvos, como o tecido adiposo”, diz. “Lá o parasita persiste em estado latente, evitando as defesas do hospedeiro”. 

O próximo passo para testar a eficácia da vacina, antes de chegar a ser usada em seres humanos, já está em andamento. Para a execução da chamada fase pré-clínica, na qual são utilizados animais de maior porte, Pidone conta com a colaboração de pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), do aporte financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e do apoio do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Vacinas (INCT-V).

Além dessa pesquisa, Pidone também teve aprovado um projeto pelo CNPq (MCTIC/CNPq nº28/2018) no qual busca identificar os genes que estão relacionados com o processo de morte do tecido cardíaco de animais infectados com Trypasoma cruzi.

Entreteses11 p067 profa pidone

Flávia Andressa Mazzuco Pidone, autora do estudo (Imagem: Giovana Jamar)

Entreteses11 p067 amastigota

Ninhos de amastigota em tecido hepático de camundongos infectados com Trypanosoma cruzi e vacinados (Imagem: Arquivo pessoal)

 

Imunidade celular

A vacina foi testada em 16 camundongos, divididos em quarto grupos distintos: Grupo Controle (1): os animais não passaram por nenhum tratamento terapêutico ou foram infectados; Grupo Infectado (2): os animais foram infectados com o Trypanosoma cruzi; Grupo Imunizado (3): os animais foram imunizados com a vacina, por via intramuscular; Grupo Imunizado e Infectado (4): os animais foram imunizados com a vacina e infectados com o parasita no mesmo dia. 

A quantificação da presença de parasitas vivos no sangue dos animais foi realizada diariamente, a partir do nono até o 13º dia após a infecção. Durante esse período observou-se que houve uma diminuição significativa na quantidade de parasitas por mililitro de sangue no grupo que recebeu a vacina e foi infectado, quando comparados aos animais que foram apenas infectados. 

Nas análises histopatológicas do coração e do fígado, foi possível identificar considerável número de ninhos de amastigota (uma das formas de apresentação do Trypanosoma cruzi) em tecido cardíaco e no tecido do fígado no grupo dos animais que foram infectados (Grupo 2). Já no grupo dos animais (Grupo 4) que foram imunizados com a vacina e infectados no mesmo dia, notou-se drástica diminuição do número de ninhos presentes. Os animais do grupo controle (Grupo 1) e do grupo que foi apenas imunizado (Grupo 3) não apresentaram alterações morfológicas perceptíveis e não detectaram-se a presença de ninhos. 

Outras análises também revelaram danos no DNA em células sanguíneas dos camundongos infectados com Trypanosoma cruzi e imunizados, mostrando que a vacina potencializa a genotoxicidade – efeitos tóxicos sobre o material genético – sobre essas células, mecanismo esse importante para erradicar o parasita.

Quarta causa de morte entre todas as doenças negligenciadas

Chagas é uma doença tropical causada pelo parasita Trypanosoma cruzi, cujo vetor (veículo de transmissão) é o inseto conhecido como barbeiro. Endêmica em 21 países da América Latina, pertence a uma vasta lista de doenças consideradas negligenciadas pela Organização Mundial da Saúde, já que menos de 1% das pessoas com o problema recebem o tratamento antiparasitário. 

Durante a fase crônica da infecção, 30% das pessoas desenvolvem problemas cardíacos, que podem levar à morte súbita, e 10% problemas digestivos e/ou neurológicos graves e incuráveis. 

De acordo com a Iniciativa Medicamentos para Doenças Negligenciadas (DNDI – sigla em inglês para Drugs for Neglected Diseases Iniciative), organização sem fins lucrativos de pesquisa e desenvolvimento de medicamentos para doenças negligenciadas, atualmente há entre seis e oito milhões de pessoas infectadas somente na América Latina e outras 70 milhões correm o risco de contrair a doença. Os dados apontam ainda que aproximadamente 14 mil pessoas perdem suas vidas todos os anos nessa região em razão da Doença de Chagas e que menos de 10% das pessoas com o problema são diagnosticadas. 

No Brasil, o Ministério da Saúde estima que haja cerca de um milhão de pessoas infectadas pelo parasita. No entanto, cita estudos recentes que apontam um número bem maior: entre 1,9 milhões e 4,6 milhões, devido à taxa de mortalidade por Doença de Chagas estar entre as quatro maiores causas de morte por doenças infecciosas e parasitárias no país.

Apesar das estratégias de controle e prevenção, ainda é grande o risco de transmissão pelo inseto. Entre 2008 e 2017, foram registrados casos da doença na sua forma aguda (quando não há presença de sintomas ou quando os mesmos – que podem incluir erupções na pele, febre, diarreia, entre outros – duram de dois a quatro meses) em quase todos os estados da federação. A região Norte, no entanto, concentra a maior parte deles (95%), sendo o Estado do Pará o responsável por 83% desses registros. 

Formas de transmissão da doença

Por vetor: por meio das fezes infectadas do inseto barbeiro que defeca ao lado de sua picada e, quando a pessoa coça o local, faz com que as fezes entrem na corrente sanguínea.

Transfusão de sangue ou transplante de órgãos: apesar do risco, houve queda significativa dessa forma de transmissão devido ao melhor controle de qualidade nos bancos de sangue. 

Oral: ingestão de alimentos contaminados com o inseto ou suas fezes (açaí, cana de açúcar, entre outros). Essa forma de transmissão, que ocorre principalmente na região Amazônica, pode ser uma das mais graves devido ao alto número de parasitas que entram no organismo. 

Materna: a mãe transmite ao filho durante a gestação.

Fonte: Ministério da Saúde e DNDI

Artigos relacionados:
RIBEIRO, Flávia Andressa Pidone; PONTES, Camila; GAZZINELLI, Ricardo T.; BRUNA-ROMERO, Oscar; LAZZARIN, Mariana Cruz; SANTOS, José Fontes dos; OLIVEIRA, Flávia de; PISANI, Luciana Pellegrini; VASCONCELOS, José Ronnie Carvalho de; RIBEIRO, Daniel Araki. Therapeutic effects of vaccine derived from amastigote surface protein-2 (ASP-2) against Chagas disease in mouse liver. Cytokine, v. 113, p. 285-290, jan. 2019. Disponível em: <https://doi.org/10.1016/j.cyto.2018.07.017 >. Acesso em: 27 fev. 2019.

RIBEIRO, Flávia Andressa Pidone; PONTES, Camila; MACHADO, Alexandre De M. V.; BRUNA-ROMERO, Oscar; QUINTANA, Hananiah T.; OLIVEIRA, Flávia de; VASCONCELOS, José Ronnie Carvalho de; RIBEIRO; Daniel Araki. Therapeutical effects of vaccine from Trypanosoma cruzi amastigote surface protein 2 by simultaneous inoculation with live parasites. Journal of Cellular Biochemistry, v. 120, n. 3, p. 3.373-3.383, mar. 2019. Disponível em: <https://doi.org/10.1002/jcb.27608 >. Acesso em: 27 fev. 2019.

Tese relacionada:
PIDONE, Flávia Andressa Mazzuco. Eficácia da vacina com o gene da ASP-2 de Trypanosoma cruzi em múltiplos órgãos contra a Doença De Chagas em camundongos: aspectos histopatológicos, inflamatórios e toxicogenômicos. 2018. Tese (Doutorado em Ciências da Saúde) – Instituto de Saúde e Sociedade, Universidade Federal de São Paulo, Santos.

 
Publicado em Edição 11

Pesquisadores do ISS/Unifesp que participam de projeto da ONU identificam nove frutos brasileiros que fornecem 84 compostos bioativos, incluindo fenóis, carotenoides, antocianinas e iridoides, mas são pouco consumidos no país

Entreteses11 p061 frutas

Primeira linha: araçá, cagaita e cambuci; na segunda, jabuticaba, jatobá e jenipapo; na terceira, mangaba, pequi e pitanga

Entreteses11 p061 frutas2

Texto: Ana Cristina Cocolo

Das mais de 50 mil plantas comestíveis disponíveis em todo o mundo, apenas 15 delas, principalmente o arroz, o milho e o trigo, são responsáveis por 90% das demandas de energia dos seres humanos, de acordo com dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO, sigla em inglês). E o Brasil, que é berço de 18% de toda a biodiversidade vegetal do planeta, ainda possui uma parcela considerável da população que sofre de sérias deficiências nutricionais, obesidade e doenças crônicas. 

Um grande projeto nomeado Biodiversidade para Alimentação e Nutrição (Biodiversity for Food and Nutrition), liderado pela ONU Meio Ambiente em parceria com a Biodiversity International, a FAO e os governos do Brasil, Quênia, Sri Lanka e Turquia, prevê, com uma iniciativa global inédita, desenvolver e testar uma abordagem multissetorial que envolva pesquisas, políticas, mercados, conscientização, uso sustentável e integrado da biodiversidade agrícola, entre outras práticas, para melhorar a nutrição mundial. 

Um dos vários estudos desenvolvidos pelos pesquisadores brasileiros que participam do projeto avaliou os compostos bioativos – que têm um efeito sobre organismos vivos, tecidos ou células – de nove frutos brasileiros pouco explorados no país: a pitanga (Eugenia uniflora), a cagaita (Eugenia dysenterica), o araçá (Psidium cattleianum), jenipapo (Genipa americana), cambuci (Campomanesia phaea), pequi (Caryocar brasiliense), jabuticaba (Plinia cauliflora), jatobá (Hymenaea courbaril) e mangaba (Hancornia speciosa).

No total, foram identificados 84 compostos bioativos, entre eles compostos fenólicos, carotenoides, antocianinas e iridoides. Os carotenoides e as antocianinas são pigmentos naturais não produzidos em nosso organismo e extremamente importantes na alimentação humana; apresentam diversas funções fisiológicas, atuando no fortalecimento do sistema imunológico; possuem atividade antioxidante e anti-inflamatória. 

Os carotenoides são pigmentos responsáveis pela cor amarela, laranja e vermelha de muitos alimentos. Quatro tipos deles (beta-caroteno, alfa-caroteno, gama-caroteno e beta-criptoxantina) são os precursores da vitamina A. Na natureza existem mais de 900 tipos de carotenoides. Já as antocianinas são pigmentos pertencentes ao grupo de flavonoides e responsáveis pelas cores de frutas, flores e folhas que abrangem o vermelho-alaranjado, o vermelho vivo, o roxo e o azul. Sua função na natureza é proteger as flores, frutas e folhas contra os raios ultravioletas (UV) e desativar radicais livres responsáveis pelo envelhecimento e desenvolvimento de doenças crônicas (substâncias tóxicas). 

A pesquisa também identificou no jenipapo e no jatobá novos iridoides, que são compostos orgânicos, com sabor amargo, que têm como principal função proteger as plantas contra seus predadores. Além disso, muitos iridoides têm propriedades antimicrobianas e antifúngicas. 

De acordo com Veridiana Vera De Rosso, uma das autoras do estudo e docente no Instituto de Saúde e Sociedade (ISS/Unifesp) – Campus Baixada Santista, nos últimos anos, evidências crescentes têm mostrado que o consumo de frutas e legumes reduz o risco de mortalidade por várias doenças, principalmente as cardiovasculares e os cânceres. “Os resultados das análises mostram o potencial tecnológico e econômico ainda inexplorado da nossa biodiversidade, principalmente para o setor alimentício e farmacêutico”, afirma. “Com políticas públicas adequadas para a agricultura sustentável, podemos melhorar a condição nutricional da população, prevenir doenças e, consequentemente, diminuir a mortalidade”.

Pequi: campeão em carotenoides

Dos 84 compostos encontrados nas nove frutas, 51 são fenólicos, entre flavonoides e ácidos fenólicos, oito são iridoides, 23 carotenoides e duas antocianinas.

O maior teor de carotenoides foi registrado no pequi (10.156,21 mg / 100 g), enquanto o principal conteúdo fenólico – composto estrutural e funcional da matéria orgânica do solo que age como protetor contra pragas e doenças nas plantas – foi encontrado no cambuci (221,70 mg / 100 g). A pitanga e a jabuticaba apresentaram mais antocianinas (respectivamente 81 mg e 45,5 mg / 100 g). 

De acordo com ela, o estudo também detectou que a mesma fruta pode ter um conteúdo variado de compostos bioativos quando submetidos a diferentes tipos de cultivo e condições ambientais. 

Neste caso, para o estudo, cada fruta foi colhida de três diferentes localizações de dois biomas brasileiros: Mata Atlântica e Cerrado. Como foram obtidas em áreas protegidas do Brasil ou em fazendas familiares, houve necessidade da autorização para coleta do material biológico a partir do Sistema de Autorização e Informação em Biodiversidade (Sisbio) do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). 

Cada amostra consistiu de 3 a 10 kg do fruto, de acordo com o processamento para a retirada da fração comestível para análise. Todas as frutas foram higienizadas para remover possíveis contaminantes e os procedimentos de extração foram realizados apenas com as partes comestíveis das frutas. 

Para a identificação dos compostos bioativos foram empregados métodos de espectrometria de massas para elucidação das estruturas após separação por cromatografia líquida de alta eficiência. 

Total de carotenoides detectado nas frutas

Fonte: Biodiversity Fruits: Discovering Bioactive Compounds from Underexplored Sources

Entreteses11 p061 fruta araca

Araçá • quantidade de carotenoides

Uruama 1 - MG 61,44 mg/100g
Uruama 2 - MG 49,37 mg/100g
Coração de Jesus - MG 110,06 mg/100g

Entreteses11 p061 fruta cagaita

Cagaita • quantidade de carotenoides

Montes Claros - MG 305,15 mg/100g
São João da Lagoa - MG 319,30 mg/100g
Arinos - MG 269,96 mg/100g

Entreteses11 p061 fruta cambuci

Cambuci • quantidade de carotenoides

Ubatuba 1- SP 83,23 mg/100g
Paraibuna - SP 43,87 mg/100g
Ubatuba 2 - SP 81,69 mg/100g

Entreteses11 p061 fruta jabuticaba

Jabuticaba • quantidade de carotenoides

Paraibuna 1 - SP  152,40 mg/100g 
Paraibuna 2 - SP 154,74 mg/100g
Arinos - MG 326,70 mg/100g

Entreteses11 p061 fruta jatoba

Jatobá • quantidade de carotenoides

Porto Ferreira 1 - SP  2.675,90 mg/100g 
Porto Ferreira 2 - SP 4.074,74 mg/100g
Montes Claros - MG 1.171,19 mg/100g

Entreteses11 p061 fruta jenipapo

Jenipapo • quantidade de carotenoides

Paraibuna – SP não detectado 
Montes Claros – MG não detectado
Coração de Jesus - MG não detectado

Entreteses11 p061 fruta mangaba

Mangaba • quantidade de carotenoides

Montes Claros - SP  101,12 mg/100g 
Coração de Jesus - MG 80,76 mg/100g
Arinos - MG 160,11 mg/100g

Entreteses11 p061 fruta pequi

Pequi • quantidade de carotenoides

Coração de Jesus - MG  8.600,87 mg/100g 
Mirabela - MG  10.156,21 mg/100g 
Arinos - MG  6.090,66 mg/100g 

Entreteses11 p061 fruta pitanga

Pitanga • quantidade de carotenoides

Paraibuna - SP  1.748,06 mg/100g 
Montes Claros -SP 1.902,32 mg/100g 
Arinos - MG  5.880,98 mg/100g 

Projeto Biodiversidade para Alimentação e Nutrição e a contribuição da Unifesp

Entreteses11 p064 profa veridiana

Veridiana Rosso

O Projeto Biodiversidade para Alimentação e Nutrição – Conservação e Uso Sustentável da Biodiversidade para Melhoria da Nutrição e do Bem-Estar Humano foi iniciado em 2012 durante a realização do Congresso World Nutrition, que ocorreu no Rio de Janeiro. O evento contou com a participação de quatro países – Brasil, Quênia, Sri-Lanka e Turquia – por meio do financiamento do Global Environmental Facility (GEF) e das agências implementadoras das Nações Unidas Food and Agriculture Organization (FAO) e Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma). Cada país participante definiu objetivos de suas ações, sendo que para o Brasil foram definidos os seguintes:

• Valorizar a importância alimentícia e nutricional das espécies relacionadas com a biodiversidade agrícola;
• Resgatar o valor cultural dessas espécies;
• Ampliar o número de espécies nativas utilizadas atualmente em nossa alimentação;
• Mitigar dos problemas relacionados à dieta simplificada;
• Promover o fortalecimento da conservação e do manejo sustentável da sociobiodiversidade;
• Incorporar ações de transversalidade em programas e estratégias de segurança e soberania alimentar e nutricional.

Para alcançar os objetivos, foram estabelecidos seis eixos norteadores de ações intersetoriais:
• Análise da composição das espécies da biodiversidade (neste eixo estava incluída a organização dos resultados em um banco de dados digital);
• Avaliação do impacto de dietas diversificadas oferecidas por meio das políticas públicas relacionadas à segurança alimentar e nutricional na saúde das populações beneficiárias (PAA e Pnae);
• Desenvolvimento de ações de educação, com vistas à inclusão na dieta das escolas de produtos regionais com maior qualidade nutricional (desenvolvimento de receitas para inclusão na alimentação escolar);
• Desenvolvimento de estratégias para que a próxima POF produza dados de consumo dos alimentos regionais que são “minoritários” em termos de aquisição de alimentos no orçamento familiar (Pnan);
• Realização de levantamento de alimentos tradicionais (saberes e sabores), inclusive dados sobre as formas de preparo desses alimentos por parte dos povos e comunidades tradicionais;
• Implementação de ações institucionais que possam fortalecer e/ou implementar processos de integração/ transversalização de políticas públicas.

Para alcançar os objetivos propostos, a coordenação nacional do projeto, constituída pelo Ministério do Meio Ambiente, convidou pelo menos uma universidade federal por região do Brasil para auxiliar no desenvolvimento do projeto. A Unifesp foi convidada por meio do Centro Colaborador em Alimentação e Nutrição Escolar (Cecane), sediado no Campus Baixada Santista.

A participação da Unifesp deu-se em várias frentes, uma das mais significativas se refere à avaliação da composição nutricional de 12 espécies da biodiversidade da Região Sudeste. Os dados de composição nutricional de todas as espécies estudadas nas cinco regiões do Brasil foram agrupados em um banco de dados digital denominado Biodiversidade & Nutrição. Esse banco é de acesso público e permite que sejam realizadas buscas empregando o nome comum da espécie, democratizando o uso da ferramenta.

Outra frente do projeto na Unifesp foi o desenvolvimento de 78 receitas que fazem parte do livro Biodiversidade Brasileira: sabores e aromas, que é uma compilação das receitas com alto índice de aceitabilidade que foram desenvolvidas empregando as espécies da biodiversidade provenientes das cinco regiões brasileiras. As espécies da Região Sudeste foram o foco do trabalho coordenado por Semíramis Martins Alvares Domene, docente no ISS/Unifesp,e Andrea Carvalheiro Guerra Matias, docente na Universidade Mackenzie. O e-book está disponível no acervo digital do Ministério do Meio Ambiente.

Biodiversidade & Nutriçãohttps://ferramentas.sibbr.gov.br/ficha/bin/view/FN/

Artigo relacionado: 
BIAZOTTO, Katia Regina; MESQUITA, Leonardo Mendes de Souza; NEVES, Bruna Vitoria; BRAGA, Anna Rafaela Cavalcante; TANGERINA, Marcelo Marucci Pereira; VILEGAS, Wagner; MERCADANTE, Adriana Zerlotti; ROSSO, Veridiana Vera De. Brazilian biodiversity fruits: discovering bioactive compounds from underexplored sources. Journal of Agricultural and Food Chemistry, v. 7, n. 67, p. 1860−1876, fev. 2019.  Disponível em: <https://pubs.acs.org/doi/ipdf/10.1021/acs.jafc.8b05815 >. Acesso em: 17 abr. 2019.

 
Publicado em Edição 11
Terça, 25 Junho 2019 15:29

App com a sua “cara”

Novo aplicativo é o primeiro a utilizar dados sociodemográficos, culturais e comportamentais do Brasil para aumentar o nível de atividade física na população em geral

Entreteses11 p058 app

 

Texto: Ana Cristina Cocolo

Pesquisadores do Instituto de Saúde e Sociedade (ISS/Unifesp) - Campus Baixada Santista, em cooperação com a Universidade Federal de São Carlos (UFScar) e três universidades holandesas (Universidade de Amsterdã, Universidade de Ciências Aplicadas de Amsterdã e Universidade de Utrecht), estão desenvolvendo um aplicativo para celular (app) de atividade física totalmente personalizada, de acordo com as características sociodemográficas, culturais e comportamentais do Brasil e da Holanda. 

O projeto, intitulado Paul (Playful Active Urban Living), vem de uma parceria entre a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo e a Organização Holandesa para Pesquisa Científica (NWO) e tem como objetivo desenvolver um aplicativo de smartphone inovador para aumentar o nível de atividade física de adultos. 

De acordo com o fisioterapeuta e professor associado da Unifesp, Victor Zuniga Dourado, que atua nesse projeto desde 2017 como pesquisador principal no Brasil, o estudo piloto do aplicativo será realizado ainda no primeiro semestre de 2019, a princípio nas cidades de Santos (SP) e Amsterdã (Holanda). No entanto, o projeto tem parceiros em outros centros urbanos, como São Carlos (SP) e São Paulo, para tornar o estudo multicêntrico. 

Dourado explica que o app pretende corrigir funcionalidades já existentes em outros aplicativos e aprimorá-las de acordo com as necessidades de cada indivíduo. “O primeiro recurso diferenciado será o uso de inteligência artificial, ou seja, o uso de mineração de dados e aprendizado de máquinas (do inglês mining e machine learning) possibilitando ao usuário interagir com o sistema”, diz. “Caso o indivíduo não responda aos estímulos enviados, o app buscará outras estratégias de incentivo para manter a prática de atividade e exercício físicos, utilizando jogos, métodos de compensação (recompensas), barras de progresso e redes sociais para criar um ambiente competitivo entre os usuários”. 

O app, segundo ele, também oferecerá o máximo de técnicas de mudança de comportamento, utilizando-se da Psicologia Esportiva. Dos 25 tipos de técnicas existentes, os apps atuais exploram, em média, apenas seis. 

Outro ponto inédito e que será trabalhado no projeto é a capacidade do sistema de se comunicar com os beacons em espaços públicos. Os beacons (balizas em português) são sensores que emitem informações, por meio da tecnologia bluetooth (rede sem fio), como uma espécie de GPS que consegue localizar o usuário e indicar ou sugerir uma determinada ação nos aplicativos de smartphones e tablets. “Uma das funcionalidades, por exemplo, é enviar um vídeo de tutorial de como usar os aparelhos de ginástica instalados em locais públicos, assim que o indivíduo estiver próximo a uma área que ofereça esses equipamentos”, explica Dourado. “Para isso, estamos em negociação com as prefeituras para a instalação desses sensores nas cidades que sofrerão as intervenções do projeto, como nos 7 km da orla de Santos, devido à extensa busca de cidadãos para realizar atividades físicas no local”. 

Captura e cruzamento de dados

Para a elaboração do app, os pesquisadores utilizaram-se de questionários específicos e de um banco de dados contendo quatro anos (2013 a 2017) de histórico de mais de 10 mil holandeses, usuários do aplicativo de corrida Mylaps, com idades entre 18 e 65 anos. No total são cerca de 440 mil execuções de atividades dos usuários, identificados por um ID exclusivo. Entre as informações estão desde datas de execução dos exercícios até frequência e duração, clima, temperatura, vento e umidade para cada execução. Um rastreador GPS embutido no dispositivo móvel também forneceu sinais de localização que foram usados para extrair vários recursos de contexto geográfico que poderiam influenciar na atividade física. 

No Brasil, a equipe aplicou, até o momento, a versão brasileira do questionário utilizado com corredores da Holanda em 245 participantes da pesquisa intitulada Estudo Epidemiológico do Movimento Humano (Epimov), realizada em Santos (SP). Quando questionados sobre o uso de aplicativos para atividade física, 23% responderam que utilizavam esse recurso. O perfil dos usuários era predominantemente masculino, mais jovens, com posição socioeconômica maior, melhor composição corporal e maior nível de atividade e aptidão física quando comparados aos não usuários de aplicativos. Diferentemente do dado da Holanda, uma das respostas às questões entre os entrevistados no Brasil e que chamou a atenção dos pesquisadores foi que 58% dos participantes responderam que nunca utilizavam o smartphone durante a atividade física por questões de segurança. Além do questionário, os participantes também tiveram avaliados a função pulmonar e vários índices de atividade física e condicionamento físico. 

Com o cruzamento dos dados holandeses e brasileiros, as equipes montaram o app que passará por avaliação em fases distintas, nos dois países, com menos participantes, antes do estudo em larga escala. A primeira será a aplicação de uma pesquisa qualitativa do programa, para ajustes necessários. A segunda será um estudo piloto com o uso dos beacons.

Entreteses11 p059 pesquisadores

Da esquerda para direita: Karlijn Sporel (doutoranda), Victor Zuniga Dourado, Marije Deutekom (pesquisadora principal), Ben Krose (pesquisador principal) e Nicky Nibbeling (pesquisadora associada) (Imagem: Arquivo pessoal)

 

Artigos relacionados:

BARBOSA, Alan Carlos Brisola; SPERANDIO, Evandro Fornias; GONZE, Bárbara de Barros; SPINA, Giovanna Domingues; ARANTES, Rodolfo Leite; GAGLIARDI, Antônio Ricardo de Toledo; ROMITI, Marcello; DOURADO, Victor Zuniga. A new equation to predict peak VO2 in obese patients during cardiopulmonary exercise testing. Clinical physiology and functional imaging, v. 38, n. 3, p. 462-467, maio 2018. Disponível em: <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/28707733 >. Acesso em: 26 de mar. 2019.

JAMAR, Giovana; GAGLIARDI, Antônio Ricardo de Toledo; ALMEIDA, Flávio Rossi de; SOBRAL, Mariana Ribeiro; PING, ChaoTsai; SPERANDIO, Evandro Fornias; ROMITI, Marcelo; ARANTES, Rodolfo Leite; DOURADO, Victor Zuniga. Evaluation of waist-to-height ratio as a predictor of insulin resistance in non-diabetic obese individuals. A cross-sectional study. Sao Paulo Medical Journal, v. 135, n. 5, p. 462-468, set./out. 2017. Disponível em: <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/29116305 >. Acesso em: 26 mar. 2019.

 
Publicado em Edição 11

Cinco unidades ajudam a suprir a demanda da região que, até 2004, só contava com instituições privadas de ensino superior e cursos isolados de uma universidade pública estadual

Entreteses11 p056 baixadaSantista

 

O Campus Baixada Santista da Unifesp é o primeiro de universidade pública, instalado em Santos em 05 de setembro de 2004, sendo resultado do processo de expansão da instituição, que buscou responder a uma demanda histórica da região, aliando a formação de profissionais qualificados à pesquisa, inovação e extensão. Em 2006 são implantados os primeiros cursos de graduação, na área da saúde, ampliando-se a oferta de novos cursos nos anos de 2009, 2012 e 2015.

Nessa trajetória, instalam-se o Instituto de Saúde e Sociedade (ISS/Unifesp) e, mais recentemente, o Instituto do Mar (IMar/Unifesp) – Campus Baixada Santista, constituídos por cinco unidades (duas na Vila Matias, sendo uma delas o Edifício Central do campus, duas na Ponta da Praia e outra na Vila Belmiro) e abrigam 2.005 estudantes de graduação matriculados em seus nove cursos, oferecidos nas áreas de Educação Física, Fisioterapia, Nutrição, Psicologia, Terapia Ocupacional, Serviço Social, Bacharelado Interdisciplinar em Ciência e Tecnologia do Mar (BICT-Mar), Engenharia Ambiental e Engenharia de Petróleo e Recursos Renováveis. As avaliações realizadas pelo Ministério da Educação (MEC) colocam as graduações do ISS/Unifesp e do IMar/Unifesp em posições de excelência no Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade), com notas 4 e 5 (na escala de 0 a 5).

Na pós-graduação stricto sensu, os institutos oferecem dez programas de mestrado e doutorado nas áreas Interdisciplinar em Ciências da Saúde; Alimentos, Nutrição e Saúde; Bioprodutos e Bioprocesssos; Ciências do Movimento Humano e Reabilitação; Biodiversidade e Ecologia Marinha e Costeira; Serviço Social e Políticas Sociais; Ensino em Ciências da Saúde; Análise Ambiental e Interdisciplinar em Ciências do Mar. Já em lato sensu, são sete cursos nas áreas de Fisiologia do Exercício, Fisioterapia, Saúde do Idoso, Biotecnologia, Neurociências e Engenharia de Segurança do Trabalho.

A intensa formação científica e os inúmeros projetos de pesquisa também colocam o Campus Baixada Santista como um dos mais produtivos da Unifesp, com parcerias científicas com grupos de pesquisa de instituições nacionais e internacionais.

A extensão universitária inscreve-se como uma forte vocação do campus, abrangendo atualmente 12 programas sociais e 72 projetos de extensão que traduzem o engajamento de professores, técnicos e estudantes com as demandas sociais e a parceria com a comunidade na construção de uma educação superior socialmente referenciada.

Pós-graduação em números:

7 programas de pós-graduação
10 cursos de pós-graduação
6 cursos de mestrado acadêmico
1 curso de mestrado profissional
3 cursos de doutorado
343 estudantes de mestrado acadêmico
60 estudantes de mestrado profissional
105 estudantes de doutorado
137 docentes/orientadores credenciados
407 estudantes titulados até 2018


Dados extraídos do Sistemas Integrado de Informações Universitárias (SIIU) em 28/3/2019

 
Publicado em Edição 11
Segunda, 24 Junho 2019 16:03

Coração em alerta

Estudo aponta variáveis que podem prever complicações graves após cirurgias cardíacas e diminuir o risco ao paciente

Texto: Ana Cristina Cocolo

As doenças cardiovasculares – todo e qualquer agravo que dificulte ou impeça a boa circulação sanguínea no organismo – ainda são a maior causa de morte em todo o mundo. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que, anualmente, cerca de 17,5 milhões de pessoas perdem suas vidas em decorrência delas. No Brasil, esse número ultrapassa 350 mil – duas vezes maior que todas as mortes por câncer e seis vezes que as decorrentes de infecções –, correspondendo a 30% dos óbitos registrados. São cerca de mil óbitos por dia, 43 por hora e um a cada 90 segundos, de acordo com a Sociedade Brasileira de Cardiologia. 

Para corrigir problemas e doenças no coração muitas vezes é necessário algum procedimento cirúrgico e o risco de complicações, como o sangramento excessivo – que acomete entre 6,4% a 52,9% dos casos em adultos – pode ocorrer. Nesses casos, pode haver necessidade de transfusão de hemoderivados ou hemocomponentes e outros procedimentos de emergência, além de ocorrer aumento do risco do surgimento de outras complicações, como diferentes tipos de infecções, arritmias e problemas nos rins.

De acordo com Camila Takáo Lopes, autora de um estudo que avaliou a incidência de sangramento excessivo e preditores nas primeiras 24 horas após a cirurgia cardíaca, é preciso reconhecer precocemente ou prevenir a ocorrência das complicações, considerando-se não apenas o alto custo do tratamento, mas também a gravidade das implicações pós-cirúrgicas. 

Para a análise desses fatores, a enfermeira, que defendeu esse trabalho como sua tese de doutorado, em 2014, no Programa de Pós-graduação em Enfermagem da Escola Paulista de Enfermagem (EPE/Unifesp) - Campus São Paulo, fez uma revisão da literatura, levantando os potenciais fatores de risco para sangramento excessivo, e acompanhou 323 pacientes adultos de um hospital de referência em Cardiologia na cidade de São Paulo, submetidos a cirurgias cardíacas em que o tórax é aberto.

Os fatores de risco encontrados na revisão de literatura foram investigados antes, durante e após a cirurgia. A enfermeira acompanhou as ocorrências de sangramento excessivo, a necessidade de transfusão de hemácias ou de nova cirurgia de emergência ao longo de 24 horas após a admissão na unidade de terapia intensiva (UTI) pós-operatória. trabalho foi orientado por Alba Lucia Bottura Leite de Barros e Juliana de Lima Lopes, docentes da EPE/Unifesp.

“Um impacto significante do nosso estudo foi a adoção da nossa revisão de literatura pela Sociedade Europeia de Anestesiologia, para indicar o que deve ser avaliado no pré-operatório de cirurgia cardíaca quanto ao risco de sangramento, em suas diretrizes para o manejo de sangramento grave perioperatório”, explica Lopes, que atualmente é professora do Departamento de Enfermagem Clínica e Cirúrgica da EPE/Unifesp.

O trabalho também ganhou três prêmios: Prêmio Capes de Tese 2016 na Área de Enfermagem, primeiro lugar no Departamento de Enfermagem, na modalidade de apresentação oral, em 2015, durante o XXXVI Congresso da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo e o Prêmio Mariana Fernandes de Souza, como melhor trabalho apresentado no Evento Doutorado em Enfermagem da Unifesp: Contribuições para a Ciência e a Arte, em 2016.

Entreteses11 p055 cirurgia

Variáveis para complicações na cirurgia cardíaca

Sangramento excessivo

  • sexo masculino
  • menor índice de massa
  • corpórea (IMC < 26,34)
  • menor contagem de plaquetas (< 214.000/mm³)
  • volume de heparina (> 6,25 mL)

Transfusão de hemácias

  • peso inferior a 66,5 kg

Reabordagem cirúrgica de emergência

  • transfusão pós-operatória de hemocomponente

Entreteses11 p055 pesquisadoras

Camila Takáo Lopes, Alba Lucia Bottura Leite de Barros e Juliana de Lima Lopes / Imagem: Alex Reipert/DCI-Unifesp

Diferentes preditores

Dos 323 pacientes, 105 (32,5%) apresentaram sangramento excessivo. As variáveis do pré-operatório associadas ao sangramento incluíram: sexo masculino, menor índice de massa corpórea (IMC <26,34), menor contagem de plaquetas (< 214.000/mm³) no sangue e volume de heparina (> 6,25 mL). A heparina é uma substância anticoagulante que precisa ser utilizada durante a cirurgia. 

Vinte pacientes (6,20%) precisaram receber transfusão de concentrado de hemácias (hemocomponente). O preditor independente para esse procedimento foi o peso menor que 66,5 kg. 

Dezoito pacientes (5,60%) foram submetidos à reabordagem cirúrgica de emergência. O preditor, nesses casos, foi a transfusão pós-operatória de hemocomponentes.

Tese relacionada:

LOPES, Camila Takáo. Incidência de sangramento excessivo e preditores no pós- operatório imediato de cirurgia cardiaca. 2015. 136f. Tese (Doutorado em Ciências) – Escola Paulista de Enfermagem, Universidade Federal de São Paulo, São Paulo.

Artigos relacionados:

LOPES, Camila Takao; SANTOS, Talita Raquel dos; BRUNORI, Evelise Helena Fadini Reis; MOORHEAD, Sue Ann; LOPES, Juliana de Lima; BARROS, Alba Lucia Bottura Leite de. Excessive bleeding predictors after cardiac surgery in adults: integrative review. Journal of Clinical Nursing, v. 24, p. 3.046-3.062, nov. 2015. Disponível em: <https://doi.org/10.1111/jocn.12936 >. Acesso em: 1 mar. 2019.

LOPES, Camila Takao; BRUNORI, Evelise Helena Fadini Reis; CAVALCANTE, Agueda Maria Ruiz Zimmer; MOORHEAD, Sue Ann; SWANSON, Elizabeth; LOPES, Juliana de Lima; BARROS, Alba Lucia Bottura Leite de. Factors associated with excessive bleeding after cardiac surgery: a prospective cohort study. Heart & Lung, v. 45, n. 1, p. 64-69, jan. – fev. 2016. Disponível em: <https://doi.org/10.1016/j.hrtlng.2015.09.003 >. Acesso em: 1 mar. 2019. 

LOPES, Camila Takao; BRUNORI, Evelise Helena Fadini Reis; SANTOS, Vinicius Batista; MOORHEAD, Sue Ann; LOPES, Juliana de Lima; BARROS, Alba Lucia Bottura Leite de. Predictive factors for bleeding-related re-exploration after cardiac surgery: a prospective cohort study. European Journal of Cardiovascular Nursing, v. 15, n. 3, p. 70-77, 17 abr. 2015. Disponível em: <https://doi.org/10.1177/1474515115583407 >. Acesso em: 1 mar. 2019.

 
Publicado em Edição 11
Página 2 de 4