Segunda, 24 Junho 2019 15:40

Atenção redobrada

Pesquisa avalia estabilidade de medicamento em infusão contínua, indicado para manter a função hemodinâmica de recém-nascidos em UTIs, com o intuito de minimizar custos e reduzir riscos de infecções

Texto: Ana Cristina Cocolo

Nas unidades de terapia intensiva (UTIs) é grande o manuseio de cateteres intravenosos para a infusão de medicamentos de modo contínuo, o que aumenta os riscos de infecções e, até mesmo, de mortalidade dos pacientes. 

Como diminuir esses riscos e garantir a estabilidade dos medicamentos quando as indústrias farmacêuticas recomendam tempo máximo de 24 horas para a troca ou exposição desses tipos de fármacos?

Para responder a essa pergunta, Tatiany Calegari, enfermeira e professora da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Escola Paulista de Enfermagem (EPE/Unifesp), avaliou, em situação controlada de laboratório, a estabilidade do medicamento utilizado em UTIs neonatais e pediátricas – o cloridrato de dobutamina – em adversidades ambientais às quais é exposto. A pesquisa foi tema de sua tese de doutorado apresentada na Unifesp e orientada por Maria Angélica Sorgini Peterlini e Mavilde da Luz Gonçalves Pedreira, docentes da EPE/Unifesp. O estudo contou também com a colaboração de Paulo César Pires Rosa, docente da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Unicamp.

Calegari explica que o cloridrato de dobutamina é indicado nos casos clínicos de asfixia neonatal, prematuridade extrema, cardiopatia congênita, insuficiência cardíaca, entre outras condições que demandam tratamento intensivo com medicamento de efeito inotrópico e vasoativo. 

De acordo com a pesquisadora, vários fatores ambientais, entre eles a temperatura e a luz fluorescente ou de LED (do inglês light emitted diode/diodo emissor de luz) utilizadas em equipamentos de fototerapia, podem interferir diretamente na estabilidade dos medicamentos, alterando seu comportamento químico e potencialidades farmacológicas. 

As UTIs, principalmente as neonatais e pediátricas, nas quais há iluminação constante, equipamentos que geram aquecimento e emissão de luminosidade intensa, como as incubadoras e a fototerapia – modalidade terapêutica mais utilizada em todo o mundo para o tratamento da icterícia neonatal – são potenciais locais que podem afetar a qualidade dos fármacos durante a infusão contínua intravenosa em crianças hospitalizadas. 

O Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC, sigla em inglês) recomenda a troca dos sistemas de administração contínua de soluções por via intravascular no intervalo de 72 até 96 horas, enquanto a recomendação da indústria farmacêutica é de 24 horas para a troca da maioria dos medicamentos em infusão contínua. Contudo, a recomendação de troca a cada 24 horas, em grande parte das terapias, carece de evidências científicas, segundo a pesquisadora. “Não trocar soluções de modo tão frequente reduziria os custos diretos da terapia medicamentosa e de uso de insumos; a menor manipulação dos sistemas de infusão reduziria consideravelmente o risco de infecção de corrente sanguínea relacionada a cateteres”, afirma Calegari. “No entanto, não há estudos que apontem esse tipo de avaliação. O que temos é apenas a recomendação de que a substituição da solução de uso contínuo deva ocorrer a cada 24 horas, sem menção à estabilidade do composto submetido a períodos superiores”.

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Imagem: Alex Reipert/DCI-Unifesp

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A pesquisadora Tatiany Calegari (Imagem: Arquivo pessoal)

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Mavilde da Luz Gonçalves Pedreira e Maria Angélica Sorgini Peterlini, orientadoras do projeto

Estabilidade nas 72 horas de exposição

O estudo experimental, desenvolvido no Laboratório de Experimentos em Enfermagem (LEEnf) da EPE/Unifesp, simulou condições ambientais de UTIs neonatais e pediátricas, com o uso de lâmpadas fluorescentes, temperatura média controlada de 22º C, luminosidade de fototerapia e temperatura elevada da incubadora. 

Sessenta amostras do cloridrato de dobutamina puro e outras 60 do medicamento diluído em soro fisiológico foram acondicionadas em um equipo para infusão intravenosa, composto por câmara transparente graduada do tipo bureta, e expostos às situações de simulação de cuidado de recém-nascidos em UTI.

A pesquisa analisou o potencial hidrogeniônico (pH) – que mede o grau de acidez, neutralidade ou alcalinidade da solução –, a osmolalidade – que mede a concentração de partículas dissolvidas do composto – e o teor do medicamento, por meio de cromatografia líquida de alta eficiência (HPLC, do inglês High Performance Liquid Chromatography) em seis tempos distintos após o preparo: imediatamente, duas, quatro, 24, 48 e 72 horas. Essas análises são importantes para verificar a estabilidade do medicamento, ou seja, a duração de tempo em que o composto mantém suas características físico-químicas originais e propriedades de pureza, qualidade e potência em sua vida útil. 

Os resultados apontaram que até 72 horas de exposição ao ambiente, tanto o cloridrato de dobutamina puro quanto o diluído manteve-se quimicamente estável. Na condição de infusão em incubadora e fototerapia, apesar de haver redução do teor do fármaco, o mesmo manteve-se dentro dos padrões de qualidade preconizados, pois as análises indicaram que a variação do teor do cloridrato de dobutamina resultou em concentração final dentro do intervalo de 90% a 110%, em relação à concentração inicial.

“Novos estudos sobre a infusão do cloridrato de dobutamina devem ser executados, utilizando-se, por exemplo, a espectrometria de massa (técnica para detectar e identificar moléculas de interesse por meio da medição da sua massa e da caracterização de sua estrutura química), a fim de gerar novos dados que demonstrem ausência de produtos de degradação de risco, além da já evidenciada manutenção da estabilidade química do cloridrato de dobutamina após 72 horas de exposição a condições extremas de calor e luminosidade”, afirmam as pesquisadoras.

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Amostras do cloridrato de dobutamina puro e diluído em soro fisiológico foram acondicionadas em um equipo para infusão intravenosa

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Equipamento de cromatografia líquida de alta eficiência mediu, por exemplo, a alcalinidade do medicamento

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A simulação das condições ambientais de UTIs neonatais e pediátricas, com o uso de fototerapia e temperatura elevada na incubadora

Tese relacionada:
CALEGARI, Tatiany. Estabilidade de soluções de cloridrato de dobutamina em diferentes tempos e a influência do aquecimento e da luminosidade decorrentes da infusão no interior de incubadora e sob fototerapia. 2017. 105 f. Tese (Doutorado em Ciências) - Escola Paulista de Enfermagem, Universidade Federal de São Paulo, São Paulo.

 
Publicado em Edição 11
Segunda, 24 Junho 2019 15:13

Na trilha cerebral

Tecnologia auxilia investigação das estruturas neuronais em distúrbios psiquiátricos, como a esquizofrenia, e possibilita o diagnóstico precoce da depressão

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Texto: Ana Cristina Cocolo e Daniel Patini

Um estudo realizado por pesquisadores do Laboratório Interdisciplinar de Neurociências Clínicas (LiNC), ligado ao Departamento de Psiquiatria da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp), uniu imagens de ressonância magnética a um método de aprendizagem automática para investigar se os padrões das estruturas cerebrais de pacientes com primeiro episódio psicótico (FEP, sigla em inglês) – estágio inicial da esquizofrenia – seriam semelhantes aos de pacientes com esquizofrenia crônica (SCZ) ou de pessoas saudáveis (grupo controle). 

Os métodos de aprendizagem automática, como a chamada Análise Linear Discriminante de Incerteza Máxima (MLDA, sigla em inglês), usada nesse estudo, são capazes de fazer uma análise multivariada de dados de neuroimagem, possibilitando examinar informações, mesmo as mais sutis, de forma integrada para a detecção de diferenças neuroanatômicas nas doenças mentais. Estas análises foram conduzidas sob supervisão de João Sato, professor da Universidade Federal do ABC (UFABC), que é especialista em Estatística e análise de imagens cerebrais e pesquisador do LiNC. 

Os resultados mostraram diferenças que permitiram discriminar entre indivíduos com esquizofrenia crônica quando comparados aos indivíduos saudáveis, principalmente no sistema límbico – estruturas cerebrais relacionadas aos comportamentos instintivos, emocionais, sexuais, de aprendizagem, memórias, entre outras – e nos circuitos envolvidos em comportamentos direcionados por objetivos – habilidade de avaliação de recompensas e análise entre valor e risco, por exemplo. 

Apesar de bem sutis, essas alterações parecem ser detectadas já em indivíduos com histórico de primeiro episódio psicótico”, afirma Rodrigo Affonseca Bressan, docente no Departamento de Psiquiatria da EPM/Unifesp, um dos criadores do LiNC e um dos autores do estudo. “No entanto, ainda é necessário outros estudos, com uma amostra maior de indivíduos com FEP para elucidar algumas limitações encontradas nesse trabalho”. Bressan também explica que a carga de medicação de pacientes com esquizofrenia crônica foi correlacionada negativamente com o escore do MLDA.

De acordo com o Instituto Nacional de Saúde Mental (NIMH, sigla em inglês), principal agência federal estadunidense de pesquisa sobre transtornos mentais, muitas podem ser as causas para o desenvolvimento da esquizofrenia, entre elas, a genética (nem sempre determinante), o meio ambiente (pobreza, estresse, exposição a vírus ou problemas nutricionais antes do nascimento) e as interrupções nas estruturas, função ou química cerebrais.

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(Imagens: Alex Reipert/DCI-Unifesp)

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Acioly Lacerda ao lado de Rodrigo Affonseca Bressan, ambos professores da Unifesp e criadores do LiNC

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Metodologia

Na pesquisa, os especialistas avaliaram 82 indivíduos saudáveis (grupo controle), 143 com esquizofrenia crônica (SCZ) e 32 com histórico de primeiro episódio psicótico (FEP), com idades entre 16 e 40 anos. Os critérios de exclusão adotados foram: história de doenças neurológicas, abuso de substâncias psicoativas ou lesão cerebral. 

Bressan explica que, primeiro, foi avaliado o desempenho do MLDA na discriminação da esquizofrenia crônica a partir dos indivíduos saudáveis, fornecendo, dessa forma, uma pontuação baseada em um modelo para as alterações cerebrais. Em seguida, os pesquisadores compararam os padrões volumétricos, por meio de exames de ressonância magnética, dos indivíduos FEP com os padrões do grupo SCZ e dos controles. 

Imagens no diagnóstico precoce da depressão

Outro trabalho desenvolvido no LiNC e que foi tema da tese de doutorado do psiquiatra Pedro Mario Pan, orientada por Rodrigo Bressan, encontrou marcadores preditores do desenvolvimento de depressão em jovens e crianças. 

O estudo, que utilizou exames de ressonância magnética do cérebro de 745 crianças e jovens, com idades entre nove e 16 anos, identificou alterações da conectividade no circuito cerebral de recompensa que foram associadas a casos de depressão. Os resultados foram publicados no American Journal of Psychiatry, periódico oficial da Associação Americana de Psiquiatria.

Além do exame de imagem, também foram realizadas análises psicológica e psiquiátrica nessa amostra, efetuando-se – três anos depois – a reavaliação de 90% deles (675) com a mesma metodologia. 

Pan explica que foi encontrada uma conectividade de característica diferente, aumentada ou mais ativada, no cérebro daqueles que desenvolveram depressão três anos depois, contabilizando-se 53 indivíduos nessas condições.

De acordo com o pesquisador, as alterações foram observadas na região do cérebro responsável por integrar e processar informações cotidianas sobre recompensa e motivação, chamada estriado ventral, a qual teve um papel significativo nos quadros de depressão antes do início dos sintomas.

A tese de doutorado de Pan integra o Projeto Conexão - Mentes do Futuro, o maior estudo de coorte na Psiquiatria da Infância e Adolescência já conduzido no Brasil, cuja finalidade é avaliar fatores de risco e de resiliência para o surgimento de problemas emocionais e de comportamento em crianças e jovens, elaborando estratégias de prevenção para os transtornos mentais. 

Dessa forma, desde abril de 2018, pesquisadores do projeto estão fazendo a terceira avaliação destes jovens depois de 6 anos de seguimento. Durante esse período será analisado um conjunto de variáveis individuais e familiares – entre elas, medidas de psicopatologia geral e familiar, variáveis sociodemográficas, variáveis de risco, tais como trauma precoce e hábitos de vida. Estão avaliando também marcadores biológicos, incluindo genética (DNA e RNA), neuroimagem estrutural e funcional .

Com essas análises os pesquisadores pretendem indicar fatores de risco modificáveis e possibilidades de intervenção preventiva, inclusive individual, determinando estruturas e vias de funcionamento cerebrais que são importantes para a fisiopatologia da depressão e de todos os transtornos mentais na adolescência. Isso será crucial para o desenvolvimento de métodos diagnósticos – como, por exemplo, a ressonância magnética funcional – e métodos terapêuticos, que incluem a identificação de regiões para estimulação cerebral transcraniana.

Iniciado em 2009, o Projeto Conexão é coordenado por Rodrigo Bressan, que também é vinculado ao Instituto Nacional de Psiquiatria do Desenvolvimento para Crianças e Adolescentes (INPD), que conta com as verbas repassadas pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Envolve várias universidades brasileiras, dentre as quais se destaca a parceria tripartite formada pela Unifesp, Universidade de São Paulo (USP) e Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Mal do Século

De acordo com o Ministério da Saúde (MS), a depressão é um dos problemas de saúde mental mais comuns em todo o mundo e já é considerada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como o Mal do Século e uma das principais causas de incapacitação. Estima-se que uma em cada cinco pessoas no mundo apresenta o problema em algum momento da vida. Estudos apontam alterações químicas no cérebro de pessoas com depressão, principalmente relacionadas à serotonina, à noradrenalina e à dopamina, que são neurotransmissores.

Na depressão, a parte emocional do indivíduo é afetada por uma tristeza profunda e desinteresse generalizado, sem causa aparente. Ainda segundo o MS, a literatura científica aponta que a depressão também provoca alterações fisiológicas no organismo, que podem desencadear outras doenças oportunistas e, em casos mais graves, as cardiovasculares.

Sobre o LiNC

Em menos de 15 anos de existência, as pesquisas desenvolvidas no Laboratório de Interdisciplinar de Neurociências Clínicas (LiNC) já renderam mais de 250 publicações em revistas indexadas de renome, importantes verbas para pesquisa, vários cursos e participações em diversos congressos nacionais e internacionais, além de formar uma grande quantidade de mestres, doutores e pós-doutores. 

O LiNC foi criado pelos pesquisadores e atuais professores da Unifesp, Rodrigo Affonseca Bressan, PhD pelo King’s College Londres (Inglaterra) na área de Neuroimagem Molecular, e Acioly Lacerda, pós-doutor em Neuroimagem Estrutural pela Universidade de Pittsburgh (EUA), com apoio do Programa de Apoio a Projetos Institucionais com a Participação de Recém-Doutores (Prodoc), financiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). De forma inovadora, o laboratório tinha como filosofia a integração de pesquisadores especialistas em várias metodologias em neurociências, incluindo psicopatologia, psicofarmacologia, neuropsicologia, neuroimagem e genética, para investigar marcadores biológicos de transtornos neuropsiquiátricos. Em 2006, o LiNC foi agraciado com um espaço de 150m2 no Edifício de Pesquisas II do Campus São Paulo da Unifesp, o que foi um enorme impulso para a produção do grupo. O espírito de colaboração sempre esteve no coração do laboratório, estabelecendo trabalhos em conjunto com pesquisadores brasileiros dentro e fora da Unifesp e uma extensa colaboração com pesquisadores estadunidenses e europeus.

O LiNC foi formado por pós-doutorandos que posteriormente se tornaram docentes da Unifesp, incluindo Bressan, Lacerda, Andrea Jackowski, coordenadora do LiNC – especialista em neuroimagem, Sintia Belangero, vice-coordenadora do LiNC – geneticista, e Ary Gadelha – especialista na integração de diferentes métodos em neurociência. Desde o início, o LiNC foi formado por docentes de diferentes departamentos, vários deles ligados ao programa de pós-graduação do Departamento de Psiquiatria da EPM/Unifesp.

Principais sintomas da esquizofrenia 

Delírios - A pessoa passa a acreditar que a realidade se apresenta de uma maneira diferente, suas ideias e pensamentos apresentam conteúdos que para ela são verdade, mas que não estão realmente acontecendo. Por exemplo, ela pode acreditar que está sendo perseguida, que está sendo filmada e, como consequência, que tem poderes especiais ou uma missão muito importante no mundo. Estas crenças são uma convicção para a pessoa e não se desfazem com nenhuma argumentação.

Alucinações - Os cinco sentidos também ficam afetados. A pessoa passa a ter percepções sem que haja um estímulo externo. Por exemplo, ouvir vozes que comentam o seu comportamento ou dão ordens, sem haver ninguém falando. Também pode sentir odores e sabores diferentes em alimentos saudáveis, ter visões de objetos que não existem ou outras sensações táteis, como formigamento.

Alterações do Pensamento - Os pensamentos podem ficar confusos. A pessoa pode ter a sensação que seus pensamentos podem ser lidos por outras pessoas, roubados ou controlados. Pode acreditar também que pensamentos estranhos foram colocados em sua cabeça. Esta confusão dos pensamentos se expressa na forma como se comunica, aparentando dizer coisas sem sentido.

Perda da Vontade e Déficits Cognitivos - A pessoa passa a ter uma perda da vontade para realizar suas atividades. Em parte por não sentir prazer em realizá-las e em parte por dificuldades novas, como, por exemplo, relativas à memória ou devido à dificuldade para realizar tarefas corriqueiras de forma organizada.

Alteração do Afeto - Há uma dificuldade em expressar os sentimentos e emoções, passando a impressão de que perdeu estas capacidades. Na realidade a pessoa continua tendo seus sentimentos e emoções e fica angustiada por não conseguir demonstrá-las. É como se as pessoas estivessem alheias ao que se passa à sua volta e a vida fosse um filme monótono em branco e preto.

Fonte: Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Esquizofrenia (Abre)

Principais sintomas da depressão 

  • humor depressivo ou irritabilidade, ansiedade e angústia;
  • desânimo, cansaço fácil, necessidade de maior esforço para fazer as coisas;
  • diminuição ou incapacidade de sentir alegria e prazer em atividades anteriormente consideradas agradáveis;
  • desinteresse, falta de motivação e apatia;
  • falta de vontade e indecisão;
  • sentimentos de medo, insegurança, desesperança, desespero, desamparo e vazio;
  • pessimismo, ideias frequentes e desproporcionais de culpa, baixa autoestima, sensação de falta de sentido na vida, inutilidade, ruína, fracasso, doença ou morte. A pessoa pode desejar morrer, planejar uma forma de morrer ou até mesmo tentar suicídio;
  • interpretação distorcida e negativa da realidade: tudo é visto sob a ótica depressiva, um tom “cinzento” para si, os outros e seu mundo;
  • dificuldade de concentração, raciocínio mais lento e esquecimento;
  • diminuição do desempenho sexual e da libido;
  • perda ou aumento do apetite e do peso;
  • insônia, despertar matinal precoce ou, menos frequentemente, aumento do sono;
  • dores e outros sintomas físicos não justificados por problemas médicos, como dores de barriga, má digestão, azia, diarréia, constipação, flatulência, tensão na nuca e nos ombros, dor de cabeça ou no corpo, sensação de corpo pesado ou de pressão no peito, entre outros.

Fonte: Ministério da Saúde

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PAN, Pedro Mario; SATO, João R.; SALUM, Giovanni A.; ROHDE, Luis A.; GADELHA, Ary; ZUGMAN, Andre; MARI, Jair; JACKOWSKI, Andrea; PICON, Felipe; MIGUEL, Eurípedes C.; PINE, Daniel S.; LEIBENLUFT, Ellen; BRESSAN, Rodrigo A.; STRINGARIS, Argyris. Ventral striatum functional connectivity as a predictor of adolescent depressive disorder in a longitudinal community-based sample. The American Journal of Psychiatry, v. 174, n. 11, p. 1112-1119, 1 nov. 2017. Disponível em: <https://doi.org/10.1176/appi.ajp.2017.17040430 >. Acesso em: 10 abr. 2019.

MOURA, Adriana Miyazaki de; PINAYA, Walter Hugo Lopez; GADELHA, Ary; ZUGMAN, André; NOTO, Cristiano; CORDEIRO, Quirino; BELANGERO, Sintia Iole; JACKOWSKI, Andrea P.; BRESSAN, Rodrigo A.; SATO, João Ricardo. Investigating brain structural patterns in first episode psychosis and schizophrenia using MRI and a machine learning approach. Psychiatry Research: Neuroimaging, v. 275, p. 14-20, 30 maio 2018. Disponível em: <https://doi.org/10.1016/j.pscychresns.2018.03.003 >. Acesso em: 10 abr. 2019.

 
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Projeto desenvolvido por pesquisadores do Departamento de Medicina Preventiva da EPM recomenda moderação no consumo e fiscalização sobre a comercialização do produto

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Imagem: Susana Fernandez / flickr

 

Texto: Lu Sudré

As baladas fazem parte da vida dos jovens brasileiros e seguem como um dos principais meios de entretenimento para esse público. A música alta, as luzes e os diferentes ambientes para dançar são cenários comuns e atrativos, nos quais os baladeiros – quase sempre – consomem bebidas alcoólicas. No entanto, nem tudo é diversão, como alerta a pesquisa coordenada por Zila Sanchez, professora do Departamento de Medicina Preventiva da Escola Paulista de Medicina (EPM/ Unifesp) - Campus São Paulo. 

Ao estudar a vida noturna na cidade de São Paulo e observar o consumo de álcool e outras drogas, o projeto Balada com Ciência identificou uma série de situações às quais os jovens estão sujeitos pelo uso excessivo dessas substâncias. “Balada com Ciência nos permitiu conhecer o perfil das pessoas que mais se expõem a riscos, o tipo de balada a que vão, quais os fatores ambientais dos estabelecimentos que favorecem a intoxicação alcoólica, que tipo de violência ocorre nesses locais e qual a sua frequência, entre outras informações que nos levem a pensar em ações de saúde pública para reduzir o risco da população”, afirma Sanchez, ressaltando que a iniciativa foi o primeiro estudo epidemiológico que identificou determinados padrões de comportamento inseguro. 

Com o estado de consciência alterado pelo álcool, episódios de violência, agressões, acidentes de trânsito, abusos sexuais, overdose alcoólica, quedas, “apagões” de memória e sexo desprotegido, entre outras, tornam-se práticas comuns antes, durante e depois das baladas. A pesquisa chegou a essas conclusões após identificar, em primeiro lugar, a opção pelo binge drinking – consumo de grandes quantidades de álcool em curto espaço de tempo, normalmente definido a partir de cinco ou mais doses ingeridas por homens e a partir de quatro ou mais doses, por mulheres.

A coordenadora do projeto admite que há fatores culturais, comportamentais e psicológicos comuns na juventude, que fomentam o uso abusivo do álcool. “Há uma vontade de pertencer e de sentir a alteração da consciência. Importantes estudos internacionais, cujos resultados pautam as diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS), mostram que as melhores intervenções para reduzir a intoxicação alcoólica em jovens é o controle da venda de bebidas, e não ações isoladas de conscientização ou informacionais.”

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A equipe de pesquisadores permaneceu à porta dos estabelecimentos, portando tablets e bafômetros para a coleta de dados (Imagem: Arquivo pessoal)

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Zila Sanchez, professora do Departamento de Medicina Preventiva da EPM, coordenou a pesquisa (Imagem: Alex Reipert/DCI-Unifesp)

Metodologia

O estudo partiu de uma amostra probabilística de 31 baladas na cidade de São Paulo, consideradas todas as regiões e estilos musicais. Durante os meses de dezembro de 2012 e julho de 2013, uma equipe formada por seis pessoas uniformizadas permaneceu à porta dos estabelecimentos, portando tablets e bafômetros para a coleta de dados; na fila de entrada, sorteavam-se sistematicamente os sujeitos que seriam entrevistados.

O processo abrangeu três etapas. A primeira – após a seleção – consistiu em uma conversa de cinco a dez minutos, durante a qual foi realizado o teste do bafômetro e cada jovem recebeu uma pulseira de identificação. O questionário aplicado pelo pesquisador abordou dados sociodemográficos sobre o entrevistado, bem como informações sobre o tipo de bebida usualmente consumido e o padrão convencional de uso do álcool. A segunda etapa ocorreu à saída da balada, quando os mesmos jovens foram indagados sobre quanto de álcool haviam consumido e quanto fora gasto na obtenção das bebidas, além de repetirem o teste do bafômetro.

No dia seguinte à balada, como etapa final da pesquisa, os entrevistados receberam em seu e-mail um link para que respondessem a questões sobre o período pós-balada – ou seja, sobre como se sentiram, o que fizeram e o que aconteceu após o uso do álcool. 

Acrescente-se, ainda, que, enquanto os entrevistadores atuavam do lado de fora, outros dois pesquisadores permaneciam no recinto interno da balada, realizando medidas ambientais que permitiram a identificação de potenciais riscos para os alcoolizados. A temperatura ambiente, o número de mesas, a iluminação e a pressão sonora, entre outros, foram alguns dos fatores avaliados.

Comportamentos de risco sob o efeito de álcool

47% Mantiveram relações sexuais sob efeito de álcool
38% Não se lembravam do que ocorreu à noite
27%Dirigiram carro ou moto
11% Envolveram-se em brigas
9% Desmaiaram por conta do álcool
8% Sofreram acidentes em decorrência da embriaguez
3% Entraram em coma alcoólico

 

Alternativas

Ao contrário do que alguns poderiam pensar, o objetivo do Balada com Ciência não foi criminalizar ou censurar o uso de álcool nas baladas. Após o projeto identificar os fatores colocados, a ideia foi criar um ambiente mais seguro para todos: para aqueles que optaram por consumir essa substância e para aqueles que poderiam ser atingidos por seu uso abusivo, como acontece em acidentes de trânsito, por exemplo.

Os pesquisadores do Balada com Ciência indicam algumas possíveis ações. “A principal seria a proibição do open bar e das promoções aberrantes de venda de bebidas nesses estabelecimentos, como a consumação mínima, ofertas do tipo ‘compre um e leve dois’ ou combos de 1 litro de vodca e seis latas de energéticos”, aponta Sanchez.

Mariana Guedes Ribeiro Santos, em sua dissertação de mestrado, elaborada no âmbito do programa de pós-graduação em Saúde Coletiva, sob a orientação de Sanchez, sugere dificultar o acesso e a disponibilidade do álcool por meio de restrições à venda de bebidas – principalmente para pessoas já alcoolizadas. “No Brasil não há esse tipo de regulamentação para a venda de bebida alcoólica a pessoas embriagadas. Programas de treinamento designados aos donos de estabelecimentos noturnos e funcionários deveriam ser implementados na tentativa de aumentar a conscientização sobre os riscos associados ao consumo excessivo de álcool na vida noturna.”

Para a autora, o país também carece de maior controle sobre as peças publicitárias que comercializam substâncias alcoólicas. “A exposição à propaganda de bebida alcoólica no Brasil tem forte influência no padrão de consumo de jovens, uma vez que tais peças estão em sua maioria associadas a mensagens positivas que remetem à diversão e ao entretenimento, e não há um controle efetivo do conteúdo. A proibição da propaganda e da venda para pessoas já intoxicadas seria uma forma de política pública eficaz para reduzir o dano do binge drinking”, reitera.

O perigo do “esquenta”

Uma das principais questões abordadas durante as entrevistas foi o famoso “esquenta”, que consiste no ato de ingerir bebidas alcoólicas antes de frequentar o ambiente das festas, estando diretamente associado ao binge drinking. A prática foi objeto de estudo na dissertação de mestrado de Mariana Guedes Ribeiro Santos.

Dos 2.422 baladeiros entrevistados, 44,3% declararam ser adeptos do “esquenta”, alegando que a motivação para a prática consistia na possibilidade de “chegar desinibido” às festas (39,0%) e de “economizar dinheiro” (31,7%). A justificativa de evitar gastos foi, porém, desmistificada pela pesquisa, segundo a qual esses praticantes, já sob influência do álcool, também costumavam adquirir bebidas durante o evento. De acordo com o estudo de Santos, a ingestão prévia de bebidas alcoólicas ocorreu principalmente na própria casa dos entrevistados (33,0%), na rua (30,7%) e em bares (26,5%), geralmente próximos às casas noturnas. 

“Em países da Europa, grande parte dos problemas de crime e violência atribuídos ao álcool está relacionada ao padrão de consumo excessivo de bebida alcoólica pelos jovens no contexto da vida noturna, que inclui o “esquenta” pré-balada. Diversos estudos – em escala mundial – apontam o “esquenta” como um importante padrão de risco de consumo de álcool, uma vez que, na maioria das vezes, a intenção dos jovens é se embebedar”, enfatiza a pesquisadora, atualmente doutoranda da Liverpool John Moores University. 

A dissertação de mestrado de Santos expôs dados alarmantes: 57% dos entrevistados, por exemplo, “pegaram carona” com alguém embriagado. Segundo o DataSUS, no Brasil, 37,3 mil pessoas morrem todos os anos no trânsito das cidades e rodovias do país. A combinação de álcool e direção, somada ao excesso de velocidade, é a principal razão dessas mortes. Ou seja, mais da metade dos baladeiros entrevistados esteve sujeita a algum acidente. O questionário mostrou que, do total de indivíduos, 27% dirigiu, de fato, carro ou moto, após sair embriagado da balada, e 8% envolveu-se em algum tipo de acidente.

Sob o efeito de álcool, 47% mantiveram relações sexuais. Desse contingente, 20% não utilizou preservativo, prática que deixa os jovens suscetíveis à transmissão de doenças sexualmente transmissíveis (DSTs). O projeto Balada com Ciência também evidenciou a possibilidade de violência sexual. Do número total de pessoas que se relacionaram sexualmente, 17% arrependeu-se e 5% não sabia se o sexo havia sido consensual. Houve ainda outras consequências. O envolvimento em brigas ocorreu com 11% dos baladeiros, 9% deles desmaiaram por conta do álcool, 38% não se recordavam do que havia acontecido na noite anterior e 3% entraram em coma alcoólico.

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FUNG, Elizabeth C.; SANTOS, Mariana G. R.; SANCHEZ, Zila M.; SURKAN, Pamela J. Personal and venue characteristics associated with the practice of physical and sexual aggression in Brazilian nightclubs. Journal of Interpersonal Violence, [s.l.], jun. 2018. Publicação on-line. Disponível em: <https://doi.org/10.1177/0886260518780783 >. Acesso em: 22 fev. 2019.

SANCHEZ, Zila M.; SANTOS, Mariana Guedes Ribeiro; SANUDO, Adriana; CARLINI, Claudia M.; MARTINS, Silvia S. Sexual aggression in Brazilian nightclubs: associations with patron’s characteristics, drug use, and environmental factors. Archives of Sexual Behavior, [s.l.], v. 48, n. 2, p. 609-618, fev. 2019. Disponível em: <https://link.springer.com/content/pdf/10.1007%2Fs10508-018-1322-4.pdf >. Acesso em: 22 fev. 2019.

SANCHEZ, Zila M.; CARLINI, Claudia Masur; SANUDO, Adriana; WAGNER, Gabriela Arantes. Sexual aggression in the São Paulo nightlife scenarios: a public health concern. Revista de Saúde Pública, São Paulo, v. 50, p. 1-2, 2016. Disponível em: <http://dx.doi.org/10.1590/s1518-8787.2016050000146 >. Acesso em: 25 fev. 2019.

SANCHEZ, Zila M.; SANUDO, Adriana. Web-based alcohol intervention for nightclub patrons: opposite effects according to baseline alcohol use disorder classification. Substance Abuse, [s.l.], v.39, n. 3, p. 361-370, 2018. Disponível em: <https://doi.org/10.1080/08897077.2018.1437586 >. Acesso em: 25 fev. 2019.

SANTOS, Mariana G. R.; SANUDO, Adriana; PAES, Angela T.; ANDREONI, Solange; SANCHEZ, Zila M. Gender differences in predrinking behavior among nightclubs’ patrons. Alcoholism: Clinical and Experimental Research, [s.l.], v. 39, n. 7, p. 1.243-1.252, jul. 2015. Disponível em: <https://doi.org/10.1111/acer.12756 >. Acesso em: 26 fev. 2019.

SANUDO, A.; ANDREONI, S.; SANCHEZ, Z. M. Alcohol-induced risk behaviors among Brazilian nightclub patrons: a latent class analysis. Public Health, [s.l.], v. 155, p. 99-106, fev. 2018. Disponível em: <https://doi.org/10.1016/j.puhe.2017.11.019 >. Acesso em: 26 fev. 2019.

WAGNER, Gabriela A.; SANCHEZ, Zila M. Patterns of drinking and driving offenses among nightclub patrons in Brazil. International Journal of Drug Policy, [s.l.], v. 43, p. 96-103, maio 2017. Disponível em: <https://doi.org/10.1016/j.drugpo.2017.02.011 >. Acesso em: 26 fev. 2019.

 
Publicado em Edição 11
Segunda, 24 Junho 2019 10:33

Prova de fogo

Aplicação de uma superterapia deixou não detectável o HIV nas células e tecidos dos corpos de pacientes, como mostram análises do sangue e biópsias do intestino - um dos órgãos onde as drogas pouco agem contra o vírus; o próximo passo é retirar os medicamentos e acompanhar a reincidência ou não da moléstia

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Imagem: pixabay

 

Texto: Ana Cristina Cocolo

O primeiro estudo – em escala global, a testar um supertratamento em indivíduos cronicamente infectados pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV) entra em sua fase mais importante – antes de se falar em cura.

O supertratamento, que consistiu na administração de cinco medicamentos diferentes e três doses de uma vacina personalizada – fabricada com células do próprio paciente – foi capaz de tornar não detectável o vírus em dois dos cinco voluntários do subgrupo de estudo que recebeu essa abordagem terapêutica. A comprovação do feito ocorreu por meio de exames de sangue e biópsias do intestino reto, um dos órgãos considerados “santuários” do HIV. Assim como o intestino, também são considerados “santuários” o cérebro, os ovários e os testículos, uma vez que os antirretrovirais não chegam até esses locais ou, quando chegam, atuam de forma muito modesta sobre o vírus. 

“O desafio final é suspender todos os medicamentos dos pacientes e monitorar como o organismo de cada um irá reagir ao longo das semanas, meses ou, até mesmo, anos”, afirma o infectologista Ricardo Sobhie Diaz, que coordena a atividade científica em questão e é uma das referências mundiais no assunto. “Caso o tempo nos mostre que o vírus não voltou, poderemos, então, falar em cura.”

Diaz é diretor do Laboratório de Retrovirologia do Departamento de Medicina da Escola Paulista de Medicina (EPM/ Unifesp) - Campus São Paulo e há mais de dez anos vem trabalhando com sua equipe, em duas frentes, para a cura da doença. Uma delas utiliza medicamentos e substâncias que matam o vírus no momento da replicação e eliminam as células em que o HIV fica adormecido (latência); a outra desenvolve uma vacina que leva o sistema imunológico a reagir e eliminar as células infectadas às quais o fármaco não é capaz de chegar.

Como foi realizado o estudo

A pesquisa envolveu 30 voluntários com HIV e carga viral indetectável no plasma sanguíneo há mais de dois anos, mantidos sob tratamento padrão, conforme o que é atualmente preconizado: a combinação de três tipos de antirretrovirais, mais conhecida como “coquetel”. Esses voluntários foram divididos em seis subgrupos, recebendo – cada um deles – diferentes combinações de remédios, além do próprio “coquetel”, pelo período de um ano.

Para os integrantes do subgrupo de número seis (G6), que apresentou os melhores resultados até o momento, foram administrados mais dois antirretrovirais: o dolutegravir, a droga mais forte atualmente disponível no mercado; e o maraviroc, que força o vírus, antes escondido, a aparecer. 

Os voluntários também receberam duas outras substâncias que potencializaram o efeito desses dois medicamentos: a nicotinamida – uma das duas formas da vitamina B3 –, que mostrou ser capaz de impedir que o HIV se escondesse nas células; e a auranofina – um antirreumático, também conhecido como sal de ouro, que deixou de ser utilizado há muitos anos para tratar a artrite reumatoide e outras doenças reumatológicas. A auranofina revelou potencial para encontrar a célula infectada e levá-la, literalmente, ao suicídio.

“Um dos motivos pelos quais não conseguimos curar o HIV é que o vírus consegue desligar a célula (latência), e o remédio de que dispomos atualmente só age na hora em que o vírus se está multiplicando”, explica o infectologista. “No entanto, as células que o HIV é capaz de fazer adormecer sempre irão acordar. Quando tratamos uma pessoa e retiramos o remédio, dois meses depois, em média, o vírus volta porque uma das células acorda. ” 

Diaz acrescenta que os testes anteriores in vitro e, agora, em humanos, realizados de forma inédita por sua equipe, confirmam que a nicotinamida é mais eficiente contra a latência quando comparada ao potencial de dois medicamentos administrados para esse fim e testados conjuntamente.

Apesar da descoberta da nicotinamida e da auranofina para a redução expressiva da quantidade de vírus presentes nas células humanas, ainda seria preciso algo estratégico que ajudasse a imunidade do paciente contra o vírus. Para isso, os pesquisadores desenvolveram uma vacina de células dendríticas (DCs), que conseguiu “ensinar” o organismo do paciente a encontrar as células infectadas e destruir uma a uma, eliminando completamente o vírus HIV.

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Ricardo Diaz  explica que o supertratamento foi capaz de diminuir o processo inflamatório desencadeado pelo HIV no organismo (Imagem: Alex Reipert/DCI-Unifesp)

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As vacinas foram personalizadas – fabricadas com células do próprio paciente – e aplicadas em três doses distintas, ou seja, uma dose a cada duas semanas (Imagens: Alex Reipert/DCI-Unifesp)

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A vacina

A vacina de DCs é extremamente personalizada já que é fabricada a partir de monócitos (células de defesa) e peptídeos (biomoléculas formadas pela ligação de dois ou mais aminoácidos) do vírus do próprio paciente.

Diaz ressalta que as DCs são importantes unidades funcionais do sistema imunológico cuja tarefa é capturar microrganismos prejudiciais ao organismo para, em seguida, apresentá-los aos linfócitos T CD4 e T CD8. Uma vez apresentados, esses linfócitos, que participam do controle de infecções, aprendem a encontrar e matar as células que albergam o HIV em regiões do corpo aonde os antirretrovirais não chegam ou nas quais pouco atuam. 

“Como essas pessoas estão há muito tempo com a carga viral indetectável, o corpo perde aos poucos a capacidade de eliminar as células infectadas pelo HIV”, relata o pesquisador. “Precisamos realizar citafereses com a passagem de seis volemias (volume total de sangue que circula no corpo) em cada uma delas para conseguir retirar monócitos suficientes para transformá-los em DCs.”

A citaferese é uma espécie de filtragem de todo o sangue do corpo, efetuada por uma máquina que seleciona células específicas. Ao mesmo tempo em que o sangue é retirado de um dos braços, por meio de um cateter, é devolvido ao outro por meio da corrente sanguínea, após passar por aquele equipamento.

Depois de transformar os monócitos em DCs, Diaz e sua equipe analisaram o perfil genético de cada paciente, tendo desenvolvido um software que identificava quais peptídeos dos vírus reagiriam de acordo com os sistemas imunes específicos. “Com as células dendríticas preparadas e os peptídeos dos vírus de cada paciente, preparamos a vacina personalizada, que foi aplicada em três doses, sendo uma dose a cada duas semanas”, prossegue o expositor. “Para sabermos se a vacina funcionaria, ou seja, se ela estimularia as células CD4 e CD8 do paciente a reconhecer o vírus, fizemos os testes in vitro. O procedimento, considerado um sucesso, mostrou que a vacina foi imunogênica nessas condições.” 

De acordo com Diaz, o supertratamento também foi capaz de diminuir o processo inflamatório desencadeado pelo HIV no organismo. “Esse foi outro grande achado do estudo, uma vez que a inflamação provoca degeneração de órgãos e tecidos e o envelhecimento precoce nessas pessoas.” 

O “paciente de Berlim”

Supostos casos de cura do HIV rodam pelo mundo e ainda são temas de estudo e controvérsia entre especialistas. Entretanto, a primeira e única experiência de cura do HIV foi a do americano Timothy Ray Brown, hoje com 52 anos, conhecido como o “paciente de Berlim”. 

Em 2007, Brown, que era HIV positivo e morava na Alemanha, foi diagnosticado com leucemia e submetido a dois transplantes de células-tronco. Além da compatibilidade, os médicos escolheram um doador que possuía uma mutação capaz de inibir as células de expressarem a molécula CCR5. De acordo com especialistas, essa rara condição genética – herdada por apenas 1% das pessoas com ascendência europeia e ainda mais rara em outras populações – impede o vírus de infiltrar-se nas células, conferindo a seu portador resistência à infecção pelo HIV. 

Três anos após o primeiro procedimento e sem a terapia antirretroviral, Brown não apresentava o vírus HIV no sangue e nos fragmentos de tecidos, conforme as várias biópsias realizadas. No entanto, ele teve duas sérias complicações decorrentes dos transplantes. Uma delas foi a doença do enxerto contra o hospedeiro (Dech) – síndrome sistêmica que ocorre em pacientes que recebem linfócitos imunocompetentes. A outra denominou-se leucoencefalopatia multifocal progressiva, que corresponde a uma doença neurológica rara que lesiona as bainhas de mielina – estruturas formadas por proteínas e gorduras que recobrem os axônios e ajudam na condução dos impulsos nervosos no sistema nervoso central. Tais fatos levaram os pesquisadores a questionar se a cura do HIV em Brown deveu-se ao transplante das células resistentes ou à doença do enxerto contra o hospedeiro que o acometeu. 

Alerta ligado, sempre!

Dados do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids) mostraram que 36,7 milhões de pessoas em todo o mundo viviam com HIV em 2016 e quase dois milhões seriam infectados no mesmo ano. No Brasil, o Ministério da Saúde contabilizou, até junho de 2016, quase 843 mil casos da doença, cuja maioria era constituída por homens (65,1%); o país é o que mais concentra novos casos de infecções (49%) na América Latina, segundo a Unaids. Um terço das novas infecções ocorre em jovens de 15 a 24 anos.

A síndrome da imunodeficiência adquirida (aids) é uma doença do sistema imunológico, causada pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV), que torna uma pessoa mais propensa às doenças oportunistas – e, até mesmo, ao câncer – do que outra cujo sistema imunológico esteja saudável. As principais vias de transmissão do HIV são as relações sexuais desprotegidas, as transfusões com sangue contaminado, o compartilhamento de seringas entre usuários de drogas injetáveis e a disseminação de mãe para filho, durante a gravidez, parto ou amamentação.

“Apesar da evolução no tratamento com antirretrovirais e das campanhas preventivas, os números atuais sobre a doença apontam que a aids ainda é um grave problema de saúde pública global”, resume Diaz.  “A infecção por esse vírus ainda é a pior notícia que podemos dar ao paciente em termos de doenças sexualmente transmissíveis, já que a pessoa com HIV, mesmo com carga viral indetectável, passa por inúmeros processos inflamatórios decorrentes dos efeitos colaterais dos medicamentos."

O uso de preservativos durante a relação sexual garante a proteção contra o HIV e outras doenças graves para quem não tem o vírus e principalmente para quem já o tem. “Atualmente, o Centro de Controle de Doenças (CDC) dos Estados Unidos afirma que pessoas com carga viral indetectável não transmitem HIV. A falta de proteção pode, porém, acarretar ao indivíduo com o vírus controlado a reinfecção (superinfecção) por um tipo diferente de vírus HIV ou por outro mais resistente”, conclui o pesquisador.

“Nossa” vacina de células dendríticas personalizada

1 - Citaferese para retirada de monócitos

2 - Transformação in vitro de monócitos em células dendríticas (DCs)

3 - Exposição, in vitro, das DCs aos peptídeos sequenciados do genoma do vírus HIV

4 - Três doses de vacina

Artigo relacionado:
SAMER, Sadia; NAMIYAMA, Gislene; OSHIRO, Telma; ARIF, Muhammad Shoaib; SILVA, Wanessa Cardoso da; SUCUPIRA, Maria Cecilia Araripe; JANINI, Luiz Mario; DIAZ, Ricardo Sobhie. Evidence of noncompetent HIV after ex vivo purging among ART-suppressed individuals. Aids Research and Human Retroviruses, New Rochelle, NY: Mary Ann Liebert, Inc., v. 33, n. 10, p. 993-994, out. 2017. Disponível em: <https://doi.org/10.1089/aid.2017.0036 >. Acesso em: 6 jun. 2018.

 
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O mais antigo dos seis campi, o Campus São Paulo, originado da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp) e da Escola Paulista de Enfermagem (EPE/Unifesp), é referência na formação de profissionais da saúde no país

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O Campus São Paulo é integrado por duas unidades universitárias: a Escola Paulista de Medicina (EPM) e a Escola Paulista de Enfermagem (EPE). Criadas respectivamente em 1933 e 1939, ambas têm contribuído de forma relevante para o avanço das ciências, para a formação de profissionais da saúde e pesquisadores e para a excelência na prestação assistencial à saúde. O Hospital São Paulo (HSP), que detém a condição de Hospital Universitário, constitui referência no tratamento de alta complexidade no país.

Em 1994, nos termos da Lei nº 8.957/94, a EPM transformou-se em universidade federal, passando a denominar-se Universidade Federal de São Paulo. Ao longo de sua história, a instituição tem desempenhado importante papel na formulação e implantação de políticas públicas relativas à educação e à saúde. A partir de 2005, integrando a política federal para o setor educacional, experimentou intenso processo de expansão. Em 2010, com a transferência dos órgãos centrais da administração para instalações próprias, constitui-se o Campus São Paulo, de forma independente.

Formando profissionais para o país

Na graduação, os cerca de 1.550 alunos estão distribuídos entre os sete cursos oferecidos (Medicina, Fonoaudiologia, Ciências Biológicas/Modalidade médica, Tecnologia Oftálmica, Tecnologia em Radiologia, Tecnologia em Informática em Saúde e Enfermagem), beneficiando-se do Hospital São Paulo como cenário para a prática do ensino, da pesquisa e da assistência. Inaugurado parcialmente em 1940, o HSP foi o primeiro hospital-escola do país construído com essa finalidade, tendo obtido, em 2004, o reconhecimento oficial como hospital universitário da Unifesp.

Situado na Vila Clementino, na zona sul da cidade, o Campus São Paulo possui uma ampla estrutura física para o desenvolvimento de suas atividades, a qual abrange os grandes edifícios com laboratórios instalados, como o de Ciências Biomédicas, de Pesquisa I, de Pesquisa II (Prof. Dr. Nestor Schor) e o Instituto Nacional de Farmacologia e Biologia Molecular (Infar), bem como os edifícios destinados às ações didáticas, como o Lemos Torres, Leitão da Cunha, Costabile Galucci e a Biblioteca Central.

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Excelência também na pós-graduação lato e stricto sensu

A Escola Paulista de Medicina responde pelo funcionamento de uma das maiores estruturas de residência médica no Brasil e da maior entre as universidades federais, com 84 programas credenciados pela Comissão Nacional de Residência Médica e 1.066 médicos residentes matriculados. A Escola Paulista de Enfermagem e o Hospital São Paulo/Hospital Universitário coordenam, de forma articulada, 12 programas de residência multiprofissional e uniprofissional em saúde, com 350 matriculados em 2019.

Em 2018, a pós-graduação lato sensu proporcionou a abertura de 1.096 vagas para 93 cursos de especialização; os cursos de aperfeiçoamento – em número de seis – disponibilizaram 300 vagas. Ainda em 2018, na área de extensão, a EPM – que desenvolve três programas e 18 projetos sociais – ofereceu 12.491 vagas nessa modalidade de curso e 11.065 vagas em eventos; foram também efetuadas 219 matrículas em cursos de atualização profissional. Em funcionamento desde 2011, a Unidade de Extensão Universitária de Santo Amaro busca atender às demandas dos moradores da zona sul do município de São Paulo, no âmbito da qualificação profissional, aprimoramento cultural e educação em saúde.

A EPM e a EPE são reconhecidas pela excelência de seus programas de pós-graduação stricto sensu: a primeira mantém 31 cursos de doutorado, 33 de mestrado acadêmico e quatro de mestrado profissional; a segunda desenvolve um curso de doutorado, um de mestrado acadêmico e um de mestrado profissional. Considerando-se o total de programas das duas unidades universitárias, nove deles receberam conceitos 6 e 7 da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), órgão do Ministério da Educação (MEC). O restante dos programas – em sua maioria – enquadra-se nos conceitos 4 e 5.

EPM • Pós-graduação em números:

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35 programas de pós-graduação
68 cursos de pós-graduação
33 cursos de mestrado acadêmico
4 cursos de mestrado profissional
31 cursos de doutorado
1.132 estudantes de mestrado acadêmico
367 estudantes de mestrado profissional
1.400 estudantes de doutorado
725 docentes/orientadores credenciados
17.348 estudantes titulados até 2018


Dados extraídos do Sistemas Integrado de Informações Universitárias (SIIU) em 28/3/2019

EPE • Pós-graduação em números:

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2 programas de pós-graduação
3 cursos de pós-graduação
1 curso de mestrado acadêmico
1 curso de mestrado profissional
1 cursos de doutorado
80 estudantes de mestrado acadêmico
151 estudantes de mestrado profissional
108 estudantes de doutorado
81 docentes/orientadores credenciados
1.248 estudantes titulados até 2018


Dados extraídos do Sistemas Integrado de Informações Universitárias (SIIU) em 28/3/2019

 
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Cada qual com sua visão, gestores e ex-gestores de instituições relevantes dão um pequeno relato da importância da Unifesp para o desenvolvimento do país

Unifesp é uma referência no país

A Unifesp é uma das universidades federais mais preeminentes tanto na preparação de recursos humanos como na pesquisa. Originou-se da Escola Paulista de Medicina, que era um centro de excelência para a formação nas áreas básicas de Biologia e Biologia Molecular, nas áreas médicas e nas especialidades médicas. Há 25 anos, transformou-se em uma universidade especializada e, em seguida, começou a ampliar seu escopo, incorporando novas áreas de conhecimento. Continua a ser uma referência em Biomedicina, tendo-se qualificado rapidamente nas Ciências Humanas e nas Ciências Sociais Aplicadas. Tornou-se uma instituição de referência não só para o Estado de São Paulo como também para o país como um todo.

Abílio Baeta Neves 
Ex-presidente da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes)

A Unifesp só veio a contribuir

A Unifesp é uma universidade relevante no Estado de São Paulo e no Brasil, ampliando a excelência que já expressava quando era ainda a Escola Paulista de Medicina (EPM), trazendo resultados importantes na área de ensino, pós-graduação e pesquisa para a sociedade brasileira, em parceria com organizações internacionais.

Particularmente para São José dos Campos, cidade que sedia o Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA) e o cluster aeroespacial brasileiro, a Unifesp vem a contribuir com o nosso desenvolvimento. Destaca-se que a Unifesp escolheu o Parque Tecnológico de São José dos Campos para sediar um de seus campi para atuar em áreas da vocação tecnológica da cidade, como Engenharia e Ciência da Computação, Engenharia de Materiais, Biotecnologia e Matemática Computacional, dentre outros cursos, o que muito ajuda nas interações com o setor produtivo, notadamente para as empresas de pesquisa e desenvolvimento do setor aeroespacial. 

É com satisfação que mencionamos que egressos do ITA apoiaram a criação da unidade da Unifesp em São José dos Campos, seja por meio de professores que atuam lá, como até mesmo na Direção do instituto. Dois diretores (Milioni, 2010-2012, e Horácio Yanasse, 2016-atual) do campus são ex-estudantes do ITA, o primeiro também ex-professor.

Unindo duas instituições de renome nacional e internacional, o ITA e a Unifesp estabeleceram um programa de pós-graduação em associação, devidamente aprovado e reconhecido pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) na área de pesquisa operacional. A parceria iniciou-se em 2015 e já produziu resultados.

Parabéns à Unifesp.

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Anderson Ribeiro Correia
Ex-reitor do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA)

25 anos da Unifesp

A Unifesp, assim como a Unicamp, é uma universidade que já nasceu com tradição. Se no caso da Unicamp isso se deveu à experiência trazida pelos pioneiros que ajudaram a estruturar as primeiras unidades e cursos da universidade, no da Unifesp o que contou foi a excelência em ensino, pesquisa e assistência herdada da Escola Paulista de Medicina (EPM).

Fundada em 1933, a EPM já acumulava, à época da criação da Unifesp, décadas de dedicação à formação de profissionais de saúde da mais alta qualidade, à promoção do avanço da ciência e ao atendimento da população de São Paulo e de outros Estados. Vale lembrar que a EPM foi a primeira escola médica do Brasil a possuir seu próprio hospital de ensino – o Hospital São Paulo, referência nacional no tratamento de casos de alta complexidade.

Como se vê, não é surpresa que a Unifesp se tenha tornado em tão pouco tempo uma universidade reconhecida e respeitada no Brasil e no exterior. De fato, ela ocupa hoje posição de destaque no conjunto das universidades federais brasileiras e é nome certo nos rankings especializados que apontam as melhores instituições de ensino superior da América Latina.

Para o Estado de São Paulo, em particular, foi de fundamental importância o rápido crescimento da Unifesp, ocorrido a partir de 2004. A expansão levou a jovem universidade para além dos limites da capital e do foco na área da saúde. Atualmente, a Unifesp forma excelentes profissionais, faz pesquisa e presta serviços à sociedade em outros cinco municípios paulistas, em diferentes áreas das ciências biológicas, humanas, exatas e tecnológicas.

Convém destacar, também, a parceria da Unifesp com a Unicamp e outras universidades federais e estaduais de São Paulo na defesa do ensino superior público e gratuito, da autonomia universitária e da pluralidade de ideias. Que a Unifesp continue contribuindo de forma decisiva, por meio de suas atividades acadêmicas e interações com a sociedade, para o desenvolvimento científico, tecnológico e social do Brasil.

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Marcelo Knobel
Reitor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)
Imagem: Antonio Scarpinetti

Rica trajetória na produção de conhecimento 

A Universidade Federal de São Paulo - nossa Unifesp - é, sem dúvida alguma, uma das instituições mais relevantes no Brasil. Sua trajetória é rica na produção de conhecimento, no desenvolvimento científico e na transformação social. 

Suas bases se consolidaram nas ciências da saúde e sua tradição é reverberada pela excelência de suas pesquisas, pela formação de profissionais amplamente capacitados e por seus esforços para transformar o conhecimento gerado na universidade em entrega de serviços de ponta à sociedade.

A chegada do século XXI foi marcada por novos desafios à, já renomada, Unifesp. Visionária por natureza, iniciou a ampliação de suas frentes de ensino e assumiu a louvável responsabilidade de expandir suas atividades para regiões descentralizadas. Vieram, assim, os campi Baixada Santista, Diadema, Guarulhos, Osasco e São José dos Campos. Com os novos espaços, surgiram, também, mais diversidade de saberes científicos, mais reflexões conjunturais, e, principalmente, mais democratização do ensino superior público, gratuito e de qualidade.

Recentemente, essa referenciada instituição vem cumprindo outro importante papel no contexto nacional, atuando enfaticamente na defesa da ciência, da educação pública e da autonomia universitária. Ao incitar e promover debates em prol de aspectos tão fundamentais, a Unifesp reafirma seu compromisso com o Brasil e com os brasileiros.

Neste momento de celebração dos 25 anos da Unifesp, meus desejos são que a instituição mantenha-se ainda mais viva, contribuindo para o desenvolvimento do nosso país e siga perpetuando sua ousadia, tradição e força!

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Dácio Matheus
Reitor da Universidade Federal do ABC (UFABC)

Os 25 anos da Universidade Federal de São Paulo 

A Universidade Federal de São Paulo e a Universidade Federal de São Carlos são parceiras, federais estão instaladas no mesmo Estado o que as torna ainda mais próximas.

E como instituição de ensino superior mais velha, a Universidade Federal de São Carlos completará em 2019/20 meio século de atividades, reconhece na Unifesp uma instituição de ensino, pesquisa e extensão com trabalhos altamente qualificados, principalmente nas ciências da saúde.

Toda a comunidade UFSCar parabeniza a Unifesp por seu esforço durante esses 25 anos na formação de recursos humanos qualificados, na pesquisa e desenvolvimento de tecnologia de ponta em métodos diagnósticos e no tratamento de doenças.

Nossos cumprimentos por tantos resultados reconhecidos internacionalmente e pela aplicação de todo esse conhecimento em benefício da sociedade paulista em diversas áreas de conhecimento, principalmente no Hospital São Paulo, cujo trabalho elevou essa instituição médica ao reconhecimento de ser o maior hospital universitário do país, uma referência em procedimentos de alta complexidade custeado pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Por fim, nossos votos de que a Unifesp mantenha-se no esforço constante para ultrapassar as fronteiras do conhecimento garantindo melhor qualidade de vida a todos os brasileiros.

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Wanda Hoffmann
Reitora da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)

Eu conheci a Escola Paulista de Medicina

Quando cheguei na Andifes, há 26 anos, o vice-presidente era Manuel Lopes dos Santos, diretor da Escola Paulista de Medicina (EPM). Desde então, já se observava a importância política e a liderança da escola no sistema federal de ensino superior. Também testemunhei o reconhecimento acadêmico, seja pelos indicadores das agências de fomento, seja pelo fato de vários reitores de outras universidades terem sido egressos da EPM. O Hospital São Paulo já era referência de qualidade.

Em 1994, eu vi nascer a Unifesp. Uma nova universidade, pequena em número de estudantes e cursos, mas herdeira de uma história de qualidade. Essa rica herança no ensino, pesquisa, extensão e no atendimento à saúde permitiu à recém-criada universidade começar sua trajetória de expansão geográfica e nas áreas do conhecimento com um padrão de qualidade já estabelecido.

Podemos, seguramente, dizer que uma escola, sediada na capital paulista, cresceu e se transformou em uma universidade que serve ao Estado de São Paulo. Ela segue formando profissionais que se espalham pelo país, titulando mestres e doutores, que retornam às suas origens, ajudando a consolidar outras instituições, produzindo pesquisas, ciência e novos conhecimentos de padrão internacional. A Unifesp, ainda jovem, já é uma universidade do Brasil e do mundo.

Posso afirmar, como testemunha ocular, que essa evolução, ocorrida em apenas 25 anos, iluminada pela excelência, reflete a dedicação de uma comunidade que traduz a qualidade da universidade pública e gratuita. Igualmente, a gestão eficiente dos reitores Manuel Lopes, Hélio Egydio, Ulysses Fagundes, Marcos Ferraz, Walter Albertoni e Soraya Smaili, cada um ao seu tempo, superando desafios, dando passos à frente e colaborando com a consolidação do sistema federal de ensino superior, sempre participando da Andifes.

A Unifesp que conheço, transformada a partir de cursos de excelência na área da saúde, baseados em um grande hospital público na capital, hoje se tornou multicampi, inclusiva, abrangendo inúmeras áreas do conhecimento e com vitalidade para continuar crescendo. Uma grande universidade pública.

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Gustavo Balduino
Secretário Executivo da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes)

Exemplo de excelência acadêmica e científica

Os 25 anos da Unifesp representam um marco expressivo para a academia e a pesquisa no Brasil. Seus programas de pós-graduação, responsáveis pela titulação de mestres e doutores de elevadíssimo nível e competência, a posicionam no topo dos índices médios de produtividade científica por docente no âmbito das universidades nacionais.

A relevância da atividade de pesquisa da instituição se evidencia na sua aplicação prática em benefício da sociedade. Exemplos disso encontram-se no Prêmio Péter Murányi, que objetiva justamente reconhecer iniciativas comprovadamente impactantes na qualidade da vida de comunidades de regiões em desenvolvimento. Dois trabalhos advindos da Unifesp tiveram especial destaque no certame: em 2003, quando a premiação contemplou Desenvolvimento Científico e Tecnológico, o grande vencedor foi Síntese, Estudos Físico-Químicos e Utilização Tecnológica de Materiais Poliméricos: Um Exemplo de Interação entre a Ciência Básica e a Aplicada, de autoria de Clóvis Ryuichi Nakaie, docente na Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp) – Campus São Paulo; em 2014, a área de conhecimento em foco foi a Saúde, com Achados Clínicos e Experimentais do Exercício Físico como Terapia Complementar na Epilepsia, de Ricardo Mário Arida, Fulvio Alexandre Scorza e Ésper Abrão Cavalheiro, docentes na EPM/Unifesp – Campus São Paulo, como um dos finalistas.

Trabalhos como esses que participaram do Prêmio Péter Murányi atestam a excelência da Unifesp. A instituição, com origem na Escola Paulista de Medicina (EPM), uma das mais importantes do gênero no Brasil, produz hoje conhecimento e ministra cursos de ensino superior de elevada qualidade em múltiplas áreas. Assim, é notável sua contribuição à ciência, à pesquisa e à formação de docentes e profissionais qualificados.

A bem-sucedida trajetória acadêmico-científica da Unifesp, com resultados concretos, demonstra que o Brasil tem imenso potencial para avançar muito no campo da Pesquisa & Desenvolvimento. Isso é crucial para que nosso país ingresse em um ciclo sustentável de crescimento, ascensão do patamar de renda e inclusão massiva de seus habitantes nos benefícios da economia.

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Vera Murányi Kiss
Presidente da Fundação Péter Murányi

Vencemos pela ciência

As universidades públicas estaduais e federais localizadas no Estado de São Paulo representam importantes polos de excelência na pesquisa, no ensino e na extensão. Pautam-se pela qualidade dessas modalidades de atuação em benefício da produção, transmissão e compartilhamento do saber, além de serem as grandes responsáveis pela produção científica brasileira. As trajetórias dessas instituições se entrelaçam e se complementam, fazendo de São Paulo um Estado pujante no cenário do ensino superior brasileiro.

A criação da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que teve como núcleo de origem a Escola Paulista de Medicina (EPM), remonta ao ano de 1933 e, assim como a Universidade de São Paulo (USP), fundada um ano mais tarde, foi resultado “de acontecimentos sociais inelutáveis”, como mencionou o primeiro diretor da Escola, Octávio de Carvalho, em seu discurso de posse. Se, em 1932, perdemos a Revolução Constitucionalista pelas armas, pela ciência vencemos, com a criação de universidades que se tornaram referências mundiais e, hoje, são motivos de orgulho para a sociedade paulista e brasileira, assim como é a Unifesp.

Congratulo-me com os dirigentes, docentes, técnicos e estudantes que forjaram essa instituição e fazem dela um exemplo de liderança universitária.

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Vahan Agopyan
Reitor da Universidade de São Paulo (USP)

 
Publicado em Edição 11
Terça, 18 Junho 2019 15:10

A batalha de um visionário

De como um português de origem humilde, oriundo da aldeia de Paradela, tornou-se diretor da Escola Paulista de Medicina e arquiteto do projeto que permitiria a criação de nossa universidade, há 25 anos

Entreteses11 p021 Manuel Lopes

 

Texto: Juliana Narimatsu

Manuel Lopes dos Santos nasceu em 26 de outubro de 1937 na aldeia de Paradela, no município de Miranda do Douro, em Portugal. O povoado, de tão pequenino, tinha na ponta da língua o número dos que formavam a comunidade: cem habitantes. Apesar da falta de luz elétrica, estrutura sanitária e estradas asfaltadas, a riqueza da região se concentrava nas águas cristalinas do rio Mondego, onde a juventude pescava e nadava no verão. Vida simples. As dificuldades assolaram a Europa com o fim da 2ª Grande Guerra, e a fome fez parte da infância de Santos. A ausência do pai, que buscou por um futuro fora do país quando ele tinha seis meses de idade, também o marcaria na primeira infância.

Com oito anos, desembarcou no Brasil, acompanhado pela mãe. Nessa época, com uma situação financeira melhor por conta do emprego como comerciante, a figura paterna finalmente reencontrou seu único filho. A família foi morar em Guarulhos. Tempos depois, chegaram à capital paulista. Santos retornou à escola. Considerava-se um aluno mediano, que se dedicava aos estudos às vésperas das provas – e mesmo assim ia bem. 

Ainda adolescente, para garantir seu “pé- de-meia”, trabalhou como garçom e passou por ocupações que perduraram por curto prazo. Sua vocação, no entanto, foi descoberta aos 16, a partir da amizade com um vizinho, médico formado pela Escola Paulista de Medicina (EPM). Motivado por uma profunda admiração, Santos seguiu os passos desse profissional. 

Em 1958, ingressou na mesma instituição, conhecida carinhosamente como Escolinha. A trajetória de estudante universitário e sua carreira, principalmente acadêmica, resumem-se em uma palavra: plenitude. Santos agarrou todas as oportunidades que apareceram. Após a graduação em Medicina, em 1963, cursou a residência médica em Pneumologia (1964-1966), tendo desempenhado as funções de preceptor clínico dos médicos residentes (1968-1972) e de chefe do Ambulatório de Medicina Integral (1968-1969). 

Obteve o título de doutorado em 1976 e, em 1985, tornou-se professor titular de Pneumologia, disciplina cuja chefia assumiu entre os anos de 1981 e 1991. Foi ainda orientador e coordenador do programa de pós-graduação stricto sensu em sua área e presidiu colegiados constituídos para organizar as atividades da instituição. 

Santos enfrentou muitos desafios, sem dúvida. Inclusive como diretor clínico do Hospital São Paulo (1985-1991) e como diretor da Escola Paulista de Medicina (1991-1995). Foi sob sua gestão que a EPM se tornou a Universidade Federal de São Paulo. Ele acreditara nessa transformação, pois a instituição estava madura o suficiente, com um status significativo no âmbito acadêmico e científico, e precisava expandir-se. 

Aceito pela Congregação da EPM, o projeto de criação da Unifesp fora aprovado em 1994 pela Câmara Federal e pelo Senado. Em dezembro desse ano, Santos foi nomeado reitor pro tempore, interrompendo o mandato como diretor da EPM. No exercício do cargo provisório, que se estendeu até junho de 1995, conduziu o processo de transição, que incluiu a elaboração do estatuto e a eleição do novo reitor.

Na sequência, entre 1995 e 2003, ocupou a Pró-Reitoria de Extensão, aposentando-se no último ano citado.

Manuel Lopes dos Santos faleceu em agosto de 2018, deixando sua marca na história da EPM e da Unifesp, bem como na vida de amigos e familiares.

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Marcelo Cincotto Esteves dos Santos, filho de Manuel Lopes dos Santos e diretor administrativo do Hospital São Paulo, ao lado da jornalista Juliana Narimatsu / Imagem: Alex Reipert/DCI-Unifesp

“Saudade, amor e exemplo. A falta que sinto do companheiro de pescaria que me apresentou o mar. Amor por um pai, o beijo que ganhava à noite, antes de dormir, gerando aconchego e segurança para trilhar meus caminhos. Exemplo de vida, pelo qual carrego uma admiração enorme. Cada foto que encontro no Hospital São Paulo e na EPM me remete às suas conquistas e ao respeito que tinha pelas pessoas, sendo esse seu maior legado. Ele expressava sua preocupação com todos. Como a mim, auxiliou muitos a realizar seus sonhos. Beijos, onde estiver, do seu filho.”

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Santos na escadaria do edifício Leitão da Cunha, em registro comemorativo do 1º Congresso Brasileiro de Residentes, em 1968 / Imagem: Arquivo pessoal

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Tradicional foto, de beca, na formatura da Escola Paulista de Medicina / Imagem: Arquivo pessoal

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Santos (de jaleco) recebe homenagem da Escola Paulista de Medicina / Imagem: Arquivo pessoal

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Inauguração do edifício localizado na rua Pedro de Toledo, que recebeu o nome de Prof. Dr. Manuel Lopes dos Santos / Imagem: Arquivo pessoal

Referências:

MEMÓRIA SPDM: Dr. Manuel Lopes dos Santos. Edição: Sérgio Alexandre de Carvalho. [S.l.]: Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina, 6 dez. 2016. Canal YouTube, gravação digital (33min32s), son., color. Disponível em: <https://www.spdm.org.br/a-empresa/conheca-a-spdm/memoria-spdm/item/2469-dr-manuel-lopes-dos-santos>. Acesso em: 2 out. 2018.

MANUEL Lopes dos Santos: banco de dados. In: CENTRO DE HISTÓRIA E FILOSOFIA DAS CIÊNCIAS DA SAÚDE. Banco de Memória e Histórias de Vida da EPM/Unifesp, 2007. Disponível em: <http://www2.unifesp.br/centros/cehfi/bmhv/index.php/entrevistas-do-projeto-75x75/60-entrevista-modelo>. Acesso em: 2 out. 2018.

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO. Galeria dos ex-reitores. Manuel Lopes dos Santos. São Paulo, 2014. Disponível em: <https://www.unifesp.br/equipe-curriculos-menu/121-manuel-lopes-dos-santos>. Acesso em: 2 out. 2018.

 
Publicado em Edição 11

A trajetória ímpar de uma estudante aplicada, especialmente interessada em Química e Biologia, que galgou à posição de primeira vice-reitora de nossa universidade

ReginaStella

 

Texto: Juliana Narimatsu

Conquista: termo presente em muitos momentos da trajetória de Regina Celes de Rosa Stella. Primeiro, em sua família. Os parentes arriscaram construir uma nova vida no Brasil. A parte paterna veio da Itália; já a materna, da Áustria e da terra nostra. Seu avô, especificamente, chegou com os irmãos para trabalhar no assentamento de trilhos da Estrada de Ferro Central do Brasil e acabou fazendo do bairro do Ipiranga, em São Paulo, sua morada. A região foi cenário de boas histórias: da primeira casa dos pais de Stella, depois de se casarem; dos feriados religiosos, como a Semana Santa, na qual acompanhavam a procissão; e de parte de sua infância, quando brincava com as três irmãs mais novas.

Stella sempre foi aplicada, uma estudante com boas notas. Entre as disciplinas, despertavam-lhe certa preferência a Química e a Biologia, áreas que influenciaram sua decisão pelo vestibular em Medicina anos mais tarde. Por volta de 1953, aos 15 anos, resolveu inclusive ser voluntária do Hospital do Câncer. Em razão da idade, a aceitação de seus préstimos foi complicada, mas acabaram cedendo-lhe parte das tarefas ditas leves, que não envolviam o contato direto com pacientes. Após terminar o colegial, fez cursinho e, em 1958, prestou exame apenas na Escola Paulista de Medicina (EPM). Foi aprovada com felicitações de toda a família.

Não era comum uma mulher seguir a carreira médica. O contraste já era perceptível nas salas de aula: dos 60 ingressantes, apenas seis eram garotas. Stella, contudo, não encontrou motivos para se abalar. O interesse pelas práticas laboratoriais veio logo na graduação, quando participou dos rigorosos treinamentos no Laboratório Central do Hospital São Paulo. Depois da residência em Clínica Médica, fez parte do grupo da Pampulha, apelido do edifício que abrigava os laboratórios de Bioquímica e Farmacologia. Foi a primeira mulher a receber o título de doutorado, concedido em 1968 pela EPM. No ano seguinte, fez o pós-doutorado nos Estados Unidos, na Universidade Columbia.

Acompanhou de perto o crescimento da EPM, principalmente em relação à produção científica, a partir da instalação da pós-graduação. Tornou-se professora e orientadora das primeiras dissertações e teses. Foi chefe da disciplina de Bioquímica e, na sequência, vice-chefe do departamento da mesma especialidade. Nos anos 1990, quando a EPM – já em sua maturidade – foi transformada na Universidade Federal de São Paulo, Stella assumiu a diretoria do Departamento de Assuntos Estudantis e Registros Gerais, responsável pela base de dados que contribuíram para a articulação do processo de transição. Sua sensibilidade para a expansão da instituição e para o crescimento na oferta de outros cursos fez dela a primeira vice-reitora eleita na universidade. Foi, posteriormente, assessora especial da Reitoria para assuntos de planejamento e desenvolvimento e diretora do Departamento de Comunicação e Marketing Institucional. 

Dificuldades houve, de fato, mas Stella seguiu em frente e conquistou seu espaço com louvor, fortalecendo o papel da mulher no âmbito institucional e científico.

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Regina Stella com seus familiares (nas duas primeiras fotos) / Imagens: Arquivo pessoal

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Com Hélio Egydio Nogueira, no dia da posse como vice-reitora da Universidade Federal de São Paulo/ Imagem: Arquivo pessoal

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Ao lado de sua colega da Escola Paulista de Medicina, a professora Catharina Maria Wilma Brandi Niggli / Imagem: Arquivo pessoal

 
Publicado em Edição 11
Segunda, 17 Junho 2019 11:13

Como nossos pais

Laços familiares e fé foram as principais colunas de sustentação da carreira do professor interiorano que conquistou o cargo de primeiro reitor da Unifesp

Várias fotos da casa de Hélio Egydio

Em cada canto da casa, uma representação de quem é Hélio Egydio Nogueira. Destaque para a figura de Santo Antônio e para as homenagens da Câmara Municipal de Guaratinguetá, sua cidade natal, e da presidência da República / Imagem: Alex Reipert/DCI-Unifesp


Texto: Juliana Narimatsu

"Resumiria que Cristo me deu pais que souberam me formar, uma esposa que me ama, filhos e netos queridos”, disse emocionado Hélio Egydio Nogueira durante nossa entrevista. Ele nos recebeu, em uma manhã ensolarada do último dia de outubro de 2018, no conforto de sua casa, especificamente no escritório, um baú de relíquias sentimentais, com imagens de santos católicos, fotos de parentes – coloridas e em preto e branco – e placas de homenagem a seus feitos profissionais. 

Estávamos cercados por lembranças e, depois de alguns goles de café, risadas e choros, a pergunta feita a ele, no caso, remeteu-nos a um olhar sobre sua trajetória. No entanto, a despeito das atribuições que cabem ao Hospital São Paulo (HSP), à Escola Paulista de Medicina (EPM) e à Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), ele arrematou sua fala sem hesitar: “São também meu pai e minha mãe.”

Eugênia e Egydio

Eugênia Nogueira Bretas, mãe dedicada e rigorosa, era responsável pelas tarefas do lar. Egydio Nogueira da Silva, pai sábio e exigente, foi comerciante, dono de um grande armazém no bairro. A família morava ao pé do morro Alto das Almas, localizado no município de Guaratinguetá, em São Paulo. Seus quatro filhos – Hélio Egydio, Egydio Filho, Paulo César e Regina Lúcia – nasceram, nessa ordem, na própria casa e no mesmo quarto, com a mesma parteira. O primogênito e protagonista desta história veio ao mundo em dois de março de 1939.

Na época, Alto das Almas – ou melhor, “Arto” das Almas, conforme a variante linguística do interior paulista – era uma região bem simples, vizinha de propriedades de fazendeiros, cafeicultores e criadores de gado. Para chegar até o topo da colina, andava-se por uma estrada de terra e de pedregulho, com pés muitas vezes descalços, ou de bicicleta. 

Lá em cima, havia uma paisagem contrastante: a Santa Casa, a cadeia e a escola ficavam próximas. Do lado oposto ao morro, estava a Igreja de Nossa Senhora das Graças. Apesar dos pesares, os moradores conheciam-se entre si, e a casa dos Nogueiras era praticamente frequentada por todos. 

Seu Egydio, apelidado de Bração – por possuir quase dois metros de altura, cerca de 120 quilos e braços “mais parecidos com uma abóbora” –, e dona Eugênia devotavam grande rigor à educação dos filhos. Aos domingos, o pai mandava os meninos varrerem o armazém. Certa vez, eles levaram uma bola de meia. Notaram, então, que o espaço estava aparentemente limpo e decidiram jogar uma “partidinha”. O que poderia acontecer? 

Quando chegaram a casa, suados e cansados, o pai logo estranhou e perguntou se tinham feito o serviço. Não convencido pela afirmação dos três, voltou ao local para inspecionar e ter certeza. “Sabe o que ele tinha feito? Havia colocado bombons Sonho de Valsa nos cantos do armazém. ‘Varreram e não pegaram?’ – perguntou ele. ‘Eu conheço vocês! Já teriam devorado’ ”. Em outras ocasiões, o pai substituía os doces por moedas, e se Hélio ou um dos irmãos as encontrasse deveria devolver ou dizer onde estavam para mostrar o quão honesto eram em relação ao dinheiro.

Dona Eugênia ainda arranjava tempo para costurar cobertores com os retalhos comprados da fábrica da região, distribuindo-os semanas antes de começar o inverno. Seu Egydio não fazia cerimônia em tornar disponível seu antigo telefone preto, de discar, instalado no quintal da casa, para uso de qualquer morador em caso de emergência. 

Ah, o cafezinho de todo dia! A mãe de Hélio pedia à madrinha Amélia – senhora que a ajudava nos afazeres domésticos – que não deixasse de abastecer a garrafa. “Muita gente descia o Alto das Almas, passava em casa, tomava um copinho e saía pelo portão dos fundos. ” Tal solidariedade fez com que o casal tivesse mais de 60 afilhados, todos de famílias do bairro. “Guaratinguetá realmente marcou a minha infância, minha educação e minha vida.”

Mesa com vários retratos e uma cruz

Retrato do casal, ao lado das fotos individuais de dona Eugênia e seu Egydio, pais de Hélio / Imagem: Alex Reipert/DCI-Unifesp

Respeito ao outro começa em casa

O ritual de dona Eugênia, de segunda a sábado, era cozinhar oito quilos de feijão e oito quilos de arroz. Os funcionários do armazém, junto com o marido, apareciam na hora do almoço. No quintal, uma mesa extensa era posta para recebê-los. Um dia, Hélio notou algo: Toninho, que trabalhava com seu pai, não utilizava garfo e faca, apenas a colher. Até para cortar o bife! O pequeno Nogueira, com oito ou nove anos, comentou que deveriam desinfetar os talheres do rapaz com álcool.

“Não sei por que falei aquela bobagem. Evidente que ele escutou, pois parou de comer e foi embora, chorando, pelos fundos.” No momento em que descobriu o que se passara, dona Eugênia chamou o filho e mandou-o ficar nu. “Minha mãe tinha um pedaço de esguicho vermelho, de borracha, que chamava de ‘instrumento’. Foi uma surra da cabeça aos pés. Depois, encheu uma banheira com água fria e sal, pegou-me pela orelha e eu tive de entrar naquela salmoura. Aquilo penetrou fundo na minha alma! Por fim, ela disse: ‘Nunca trate um semelhante como você fez com o Toninho. Ele merece respeito.’ Isso me marcou violentamente e foi fundamental para o resto da vida. Aprendi a tratar o outro como eu também gostaria de ser tratado, qualquer que fosse sua função, gari ou presidente.”

A formação no magistério e a escolha definitiva da profissão

Se a EPM era considerada por Hélio a mãe escolhida para trazer luz à sua vocação, o HSP foi o pai que lhe apresentou a realidade da profissão. Nele o desejo de fazer Medicina despertou cedo, justamente por acompanhar os trabalhos do cirurgião Piragibe Nogueira. “Meu tio era um exemplo para mim. Ficava muito impressionado com o respeito que tinham por ele.” Decidido, compartilhou o sonho com o pai. Seu Egydio, no entanto, não estava certo sobre o futuro do primogênito e, influenciado pela irmã e conselheira Olinda – que dava aulas em uma escola pública e tinha a vida bem estabelecida –, convenceu o filho a seguir a mesma carreira. 

Hélio fez parte da primeira turma do Instituto de Educação Conselheiro Rodrigues Alves, formando-se professor primário. “ ‘Agora faça o que quiser’, disse meu pai. ‘Você tem um diploma, uma profissão e não vai morrer de fome se acontecer qualquer coisa’ ”.

Para ser aprovado no exame da EPM era necessário preparar-se e fazer um “cursinho”. Um pouco a contragosto dos pais, Hélio decidiu arrumar as malas, pegar o trem rumo à capital paulista e focar a atenção nos estudos. Mudou-se para uma pensão e dividiu o dormitório com Zeza, um amigo de Guaratinguetá que também estava prestando vestibular. “Tocava piano divinamente e até ganhava um dinheirinho com isso. Quando faltavam três meses para as provas, fiquei preocupado. Eu estava malhando nos estudos, mergulhado nos livros, e ele, tranquilo. Disse-me, então, que – um mês antes das provas – abriria mão da música e se dedicaria aos estudos. No final, fomos aprovados juntos: ele, na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, e eu, na EPM.” Hélio graduou-se como médico em 1966. “Aprendi e muito na Escola, como era de esperar, mas uma pessoa que não esqueço é Jairo Ramos. Vivenciei com ele e outros docentes a Medicina Arte, capaz de olhar o ser humano integralmente, respeitando corpo e alma.” 

Nas visitas ao HSP, ao lado dos professores, Hélio ficava atento a todos os procedimentos. Um deles foi o uso do estetoscópio. Antes de realizar o exame, Jairo Ramos aquecia a auréola metálica no lençol da maca para não causar choque térmico no paciente devido ao contato com o material frio. “Ele foi uma figura lendária, com vasto conhecimento, transmitido de forma clara e simples a seus estudantes.” Seguindo ainda os passos do tio, optou por fazer residência em Cirurgia no HSP e, no terceiro ano, quis especializar-se em Urologia. “Lembro-me de tanta coisa daquela época!” Os episódios de descontração proporcionados pelo docente de Cirurgia Cardíaca José Carlos de Andrade, o Passarinho, foram inesquecíveis! “Ele era brincalhão. Quando o plantão estava tranquilo, segurava uma caixa, furava a lateral inferior e colocava o dedo por baixo, mostrando apenas um pedaço. Depois, cobria-o com algodão e mercúrio e chamava os alunos: ‘Vejam o que aconteceu com meu dedo!’ E eles levavam um susto!” 

Em outra ocasião, também hilariante, o mesmo docente quis pregar uma peça nos residentes. Trajaram um deles com roupa de mulher, dizendo que no hospital havia aparecido o caso raro de uma moça com barba. “ ‘Quero ver! Isso aí é tumor masculinizante de ovário’, disse o chefe de equipe, Ibrahim, sextanista e estudante de Uberaba que fazia residência no hospital. Rapaz esforçado e muito inteligente. No entanto, no momento em que ele pediu para fazer o toque vaginal, a farsa foi descoberta!”

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O trabalho na Unifesp foi por ele considerado a melhor fase de sua carreira. Registros desses momentos, alguns deles como reitor / Imagens: Arquivo Unifesp

Carreira na EPM e no HSP

Na EPM, Hélio foi professor auxiliar da disciplina de Urologia entre os anos de 1969 e 1982 e, na sequência, professor assistente. Defendeu a tese de doutorado em 1975. Após presidir, a pedido do diretor Magid Iunes, algumas comissões administrativas da Escola, integrou o corpo docente da disciplina de Anatomia Descritiva e Topográfica, tornando-se professor adjunto a partir de 1983. 

Passaram-se dois anos e, em 1985, recebeu o convite que mudaria a orientação de sua carreira: ser superintendente do HSP. “Encarei como um baita desafio. Não fiz curso de administração hospitalar e fiquei sabendo que assumiria as novas funções praticamente no dia seguinte. ‘Vou seguir os desígnios de Deus’ – pensei – ‘e, se Ele quer, assim vai ser.’ E acho, sinceramente, que Deus me deu o caminho certo.”

Os integrantes de sua equipe nessa jornada foram os professores Manuel Lopes dos Santos, como diretor clínico, e Stephan Geocze, como diretor financeiro. Hélio chegava, religiosamente, por volta das seis da manhã ao hospital. Ia até a capela, fazia sua oração e, como em procissão, descia as escadas, andar por andar, para se inteirar dos últimos acontecimentos. Tal rotina se repetia inclusive aos domingos, sim, senhor! Era o passeio da família, acompanhado pela mulher e filhos. 

Em uma dessas andanças, ele percebeu que a sala do neurocirurgião Fernando Braga estava aberta. Entrou, olhou e não viu ninguém – havia apenas uma máquina de escrever em uma das mesas. Segurou-a junto ao colo e foi direto à Superintendência. “Não demorou muito. Ele chegou nervoso, e eu – antevendo sua reação – apontei para a máquina: ‘Olhe ela lá! Você largou a porta aberta. Agora, se – em vez dela – um equipamento caríssimo fosse roubado?’ Sem responder, Fernando foi embora. Pois é, eu fazia muito disso.”

Nos anos seguintes, o professor acumularia experiências administrativas que lhe permitiriam chegar ao mais alto posto executivo da futura Unifesp.

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Imagem: José Luiz Guerra

Nosso primeiro reitor

A experiência de Hélio Egydio como gestor, depois de oito anos no comando do HSP, pavimentou seu caminho para assumir o comando da futura universidade. Ele compôs a diretoria da EPM na gestão de Manuel Lopes dos Santos, sendo chefe de gabinete, e viu a transformação dessa tradicional escola médica em Unifesp. Na época da primeira candidatura à Reitoria da Unifesp, Hélio não teve dúvida: iria lançar seu nome. 

“A decisão nasceu porque eu já acompanhava o dia a dia administrativo; então, achava-me um candidato natural. As eleições eram comunitárias, e estourei a boca do balão, quer dizer, ganhei com uma diferença grande do segundo colocado.” Hélio foi o primeiro reitor eleito, nomeado em 1995 e reconduzido em 1999, permanecendo no cargo por dois mandatos consecutivos.

“Eu tinha uma ligação maravilhosa com quem trabalhava comigo. Sempre entendi que esses colaboradores, cada um em sua especialidade, eram importantes para o crescimento da instituição, muitas vezes dedicando-se ao trabalho mais do que suas funções exigiam.” Como superintendente e reitor, Hélio fazia questão de entregar uma cesta de alimentos por mês a todos os funcionários e servidores, além de organizar a tão conhecida festa de confraternização. “Era do que eu mais gostava no fim do ano.” 

A relação com os estudantes também era próxima. Foi patrono de algumas turmas de formandos e de residentes e adorava acompanhar de perto, na torcida, os jogos universitários, ao lado da esposa. “Acredito que essa seja a minha marca. Tive muito contato com as pessoas, um ensinamento que aprendi com meus pais. Conheci a comunidade como a palma da minha mão e, até hoje, sinto-me bem com a trajetória construída.”

Hélio e Nadir

Hélio Egydio Nogueira, trabalhador metódico, pai e avô. Nadir Aparecida de Matos Nogueira, companheira comprometida, mãe e avó. Os dois se conheceram em Guaratinguetá, cidade natal de ambos. A paquera iniciara-se quando Hélio ajudava na entrega dos produtos do armazém do pai, carregando e descarregando caminhões. Habitualmente reparava em Nadir à saída do turno da escola, que era próxima ao trabalho, e a troca de olhares foi certeira. “Minha primeira e única namorada. Tudo deu certo, graças a Deus.” Começaram o relacionamento quase a distância, depois que ele decidiu estudar na capital paulista. Na mesma época da residência médica, decidiram casar-se. Mudaram-se definitivamente para São Paulo, acompanhados do sogro de Hélio, que era viúvo, e foram morar em uma vila, nas redondezas da Escola Paulista de Medicina.

Helio abraçado à sua esposa

Com sua amada esposa, Nadir Aparecida de Matos Nogueira / Imagem: Arquivo pessoal

cartas e recortes de jornal

Hélio guarda em uma pasta aquilo que considera importante: cartas de colegas do trabalho, homenagens de alunos, reportagens de seus feitos e lembranças dos anos de gestão no Hospital São Paulo e na Unifesp / Imagem: Alex Reipert/DCI-Unifesp

Madrugador convicto

Hoje, independentemente da hora de dormir, Hélio não deixa de se levantar antes de o sol aparecer, por volta das cinco da manhã. Atualiza-se lendo os dois principais jornais, hábito que adquiriu do pai, enquanto o café preto é preparado. Não se esquece de levar à esposa, que está no quarto, uma xícara dessa bebida, fresca e quentinha. Mesmo depois de aposentado, está vinculado à instituição como diretor do Departamento de Saúde do Trabalhador, órgão da Pró-Reitoria de Gestão com Pessoas da Unifesp. 

No tempo livre, ajuda Nadir nas atividades do Centro de Saúde da Vila Mariana, onde ela desenvolve um projeto com idosos. Aproveita também para ler algum livro e assistir a um bom futebol. Seu time é o São Paulo, de fato, mas, quando uma partida é televisionada, ele não se priva de acompanhá-la, independentemente de quem está jogando, pois gosta do esporte.

Hélio é católico apostólico romano. Frequentava, inclusive, a Paróquia São Francisco de Assis, próxima à EPM. Em sua casa, não faltam representações de santos e principalmente de Cristo. Reza o terço todas as noites, hábito esse herdado da mãe, que o educou religiosamente, levando-o a ser batizado, fazer comunhão e ir à igreja. “E você pode achar um absurdo, mas tenho minhas razões: raramente vou ao médico.” O motivo é ter presenciado a morte do pai e dos irmãos mais novos por conta de um mesmo tipo de câncer: o de próstata. “Se eles tiveram, eu deveria ter, mas Ele quer que eu viva.” 

Agradece pela saúde dos três filhos – Hélio, Heliana e Ernesto – e dos quatro netos. “Deus me deu muito mais do que eu merecia, e sou grato. Mantenho algumas coisas [cartas e bilhetes de servidores, funcionários e pacientes, reportagens sobre suas ações, principalmente durante a gestão no HSP e na Unifesp, e registros de homenagens de estudantes] que considero importantes e as guardo em uma pasta. Isso me dá muita paz. Não acho que essas lembranças vão me levar para o céu ou para o inferno, mas o que tenho me dá a certeza de que, por Cristo, consegui algo na vida.”

 
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A reitora, Soraya Smaili, faz um balanço dos 25 anos da universidade e fala sobre as perspectivas para o futuro

Texto: José Luiz Guerra

Uma universidade jovem, mas que traz consigo a responsabilidade de passar para os cursos das demais áreas do conhecimento a qualidade e a tradição da área da saúde, de onde a Unifesp se originou. 

Ao longo desses 25 anos, pouco mais de 10 deles como uma universidade plena, abrangendo cursos de vários campos do saber, a instituição já obteve algumas conquistas, dentre as quais pode-se destacar o recredenciamento com nota máxima e as avaliações feitas por rankings internacionais, como o Times Higher Education (THE), que colocou a Unifesp entre as melhores instituições da América Latina e a melhor universidade federal do país por mais de uma vez. Já em relação aos desafios, pode-se destacar o da consolidação, em especial da infraestrutura dos campi da expansão. 

Entrevistamos a reitora da Unifesp, Soraya Smaili, que traçou um panorama da universidade ao longo desse período e indicou os caminhos pelos quais a instituição pode trilhar para se manter sempre entre as melhores. Confira!

Retrato Soraya Smaili

Imagem: Alex Reipert/DCI-Unifesp

Entreteses • Em qual situação a Unifesp chega aos 25 anos?

Soraya Smaili • A Unifesp chega aos 25 anos na condição de uma universidade que é jovem e que ao mesmo tempo tem uma tradição muito grande da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp), que completou 85 anos, e de onde a Unifesp se originou. Temos o privilégio e a sorte de termos a tradição junto com a juventude e a força do novo, do que podemos fazer e projetar com um futuro bastante promissor. É uma universidade que traz muitas coisas e ao mesmo tempo tem muitos desafios, porque essa juvenilidade também requer muita estrutura e muito conhecimento para que possa traçar direções e diretrizes mais firmes para a prospecção do futuro que temos pela frente. 

E. Quais foram as maiores contribuições da universidade para a sociedade e para o desenvolvimento científico do país?

S.S. São muitas. Nos campi São Paulo, Baixada Santista e Diadema desenvolvemos pesquisas nas áreas de saúde e de ciências da vida. Podemos citar conquistas recentes, como, por exemplo, as contribuições para o diagnóstico do Zika vírus, na área de células tronco, no diagnóstico, tratamento e novas terapias da Aids, em métodos cirúrgicos, na área de queimados e em duas áreas estratégicas, não só para o Brasil, como para o mundo, que são o envelhecimento e a Oncologia. Na pesquisa básica temos contribuições na Bioquímica, Farmacologia, Microbiologia, Imunologia e Parasitologia, áreas nas quais cientistas estudam experimentalmente novas terapias para doenças negligenciadas. Também temos uma série de pesquisadores estudando mecanismos da célula importantes para o tratamento de diversas doenças, como as neurodegenerativas. 

Em outras áreas, podemos destacar a Ciência da Computação, que faz simulações, trabalhando com estratégias de estudos que envolvam aeronáutica, devido à proximidade que temos com o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), em São José dos Campos, as Engenharias de Materiais, Química e Biomédica, produzindo conhecimento na área de grandes equipamentos para diagnóstico por imagem, tratamento do câncer, promoção do bem-estar para o ser humano e aprimoramento na busca por novos materiais para indústria brasileira como um todo, como a impressão 3D, produzindo próteses. 

As engenharias Ambiental e do Mar trabalham para melhoria da pesca e da qualidade da água, para identificação de poluentes e para tratamento da água do mar, já com bastante resultados. Nas licenciaturas, podemos destacar as áreas de Ciências, Física, Matemática, Biologia, além da área das Ciências Humanas Aplicadas, como é o caso de Osasco. No Campus Guarulhos, os cursos de humanidades trabalham tanto no contexto da formação de professores quanto na produção do conhecimento. 

Soraya Smaili falando à frente da platéia

II Oficina para discussão do Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI) 2016-2020 / Imagem: José Luiz Guerra

Mais pesquisa, melhor ensino e mais democracia

E. A sua gestão foi eleita, em 2012, com uma proposta de assegurar a pluralidade e a democracia universitária. Essas propostas, é claro, foram resultado de uma avaliação sobre a Unifesp. Que avaliação era essa? Hoje, decorridos cinco anos, mudou o panorama?

S.S. Esse era um dos eixos da nossa proposta para a Reitoria, quando nos candidatamos, e continuou na primeira e na segunda gestão. Nesses quase 6 anos, a democracia e a pluralidade foram eixos centrais. Em termos práticos, entendo que nós passamos a um processo de organização interna, inclusive refletido nos estatutos da Unifesp, e em regramentos internos que possibilitaram maior participação dos TAEs, estudantes e docentes. Temos hoje processos internos melhores estabelecidos, mais claros e mais transparentes, na minha avaliação, obviamente. Consolidamos processos internos de participação, de consulta pública. 

O Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI) e o Projeto Pedagógico Institucional (PPI) foram participativos. Como estratégias de gestão, promovemos audiências públicas, plenárias, congregações abertas e temos feito esforços para tornar os conselhos muito mais condizentes com as representações. O Conselho de Assuntos Estudantis (CAE), por exemplo, é composto por mais estudantes do que antes, assim como o Conselho de Planejamento e Administração (Coplad), que hoje conta com maior participação de TAEs. Eles têm que estar envolvidos com a administração da universidade, com o planejamento. 

No caso do Conpessoas, é um conselho paritário, pois envolve boa parte do pessoal permanente. Nós procuramos fazer conselhos que sejam mais condizentes, para além de estabelecer percentuais de 70/30 ou paritários, que fossem inteligentes, apropriados para a atividade daquela pró-reitoria ou com a atividade daquele conselho ou área, no caso do ensino, pesquisa e extensão. Além disso, entendo que tivemos um processo que não tem mais volta, que é a transparência dos orçamentos. É algo muito positivo, pois nós passamos a dar clareza a todos os procedimentos orçamentários. As pessoas foram se apropriando do que é o orçamento, como ele é executado, quais são as nossas dificuldades, e isso foi bom, pois elas compreendem mais. 

É uma área muito técnica, mas não está desacoplada da política. Essa parte técnica é muito importante para nós entendermos como está o financiamento da universidade como um todo, porque nós tivemos cortes, porque tivemos que adequar estruturas à nova realidade nos últimos dois anos. Vejo como muito positiva toda transparência que nós demos aos procedimentos de orçamento e de administração. Além disso, nós também passamos a ter processos de criação dos projetos pedagógicos muito mais discutidos e abertos; o mesmo ocorre com os projetos de pesquisas, por exemplo.

Criamos as grandes áreas de pesquisas e passamos a fazer chamamentos aos pesquisadores para que eles pudessem se juntar mais às diferentes áreas para desenvolverem grandes temas, como o próprio tema da oncologia, que eu citei aqui, mas também o tema das cidades, dos estudos contemporâneos, da formação de professores, de análises ambientais e da sustentabilidade e do meio ambiente, o tema da tecnologia e da inovação tecnológica. 

Nós já temos uma política de inovação tecnológica e isso é um grande feito para todos nós na Unifesp e vamos dar muitos saltos ainda nessa área, muito desenvolvimento no decorrer desses próximos anos de 2019 e 2020, até o final da nossa gestão e daí por diante. São feitos realmente que complementam toda essa parte dos processos democráticos. Na verdade, nós aprimoramos esses processos e a pluralidade, a escuta dos diversos setores, de diversos atores de nossa comunidade para fazermos melhor o ensino, a pesquisa e a extensão. 

Esse é o objetivo final, e não simplesmente tornar a universidade mais democrática para termos a democracia, que por si só já se justifica, mas o processo de democratização interna e externa e de pluralidade das ideias e dos projetos. O objetivo maior é sempre a melhor formação do estudante, a melhor pesquisa e produção de conhecimento e a melhor possibilidade de transferir isso para a sociedade, que é o que a gente faz com a extensão.

E. Quais os principais desafios enfrentados pela universidade durante o processo de instalação dos novos campi? 

S.S. Passamos por uma grande expansão, na qual crescemos 800% em um período de 8 anos. Atualmente estamos em um período de consolidação. O primeiro desafio foi crescer tanto em tão pouco tempo. O segundo foi solidar a ampliação. E isso significa ter bons professores, bons TAEs, um quadro permanente de muita qualidade, equipamentos, infraestrutura e bibliotecas. Os primeiros campi da expansão tiveram uma primeira parte da estrutura em Santos, Guarulhos e São José dos Campos e estamos finalizando a fase de infraestrutura básica de Diadema e de Osasco. 

Além disso, precisávamos pensar no Campus São Paulo, onde estão a EPM/Unifesp e Escola Paulista de Enfermagem (EPE/Unifesp), e tem a ligação com o Hospital São Paulo (HSP/HU/Unifesp) e com o Hospital Universitário 2 (HU2/Unifesp), para não deixarmos de ter a qualidade que sempre as caracterizou. Trabalhamos com o Plano Diretor de Infraestrutura no Campus São Paulo para consolidação de um campus que tem tradição, mas que precisa de condições para manter a qualidade dos nossos cursos, da pesquisa e da extensão.

E. Em termos amplos e gerais, como a senhora caracterizaria as políticas públicas do governo para as universidades federais nos últimos 25 anos? É possível perceber algum padrão, alguma tendência geral?

S.S. Quando a Unifesp foi criada, em 1994, eu era conselheira do Conselho Universitário (Consu), participei da elaboração do primeiro estatuto da universidade e também dos seguintes. Percebo que internamente a tendência foi de construir processos e organizar a instituição como uma universidade de fato. Ela veio de uma escola departamental, grande e bastante complexa, mas que não tinha outras áreas do conhecimento no seu plano pedagógico. 

Tivemos que ter um projeto pedagógico mais amplo, dando um caráter universitário à EPM/Unifesp, que naquele momento era uma escola de ensino superior na área da saúde. Expandimos, inicialmente na graduação, ainda na área de saúde, na pesquisa, que já era de qualidade e tínhamos como objetivo continuar a ampliação da pós-graduação, da pesquisa e da assistência, que é muito forte desde o início da Unifesp. Depois percebemos um movimento claro e importante de expansão das universidades federais pelo país, que triplicaram a sua capacidade, passando de 400 mil para 1,2 milhão de estudantes. 

A Unifesp foi o reflexo dessa política nacional. Ela aceitou o desafio de fazer uma expansão a partir de 2005. Nesse período, passamos de 1,3 mil para 13 mil estudantes de graduação e de 2,5 mil para 5 mil de pós-graduação. Na extensão temos mais de 160 projetos sociais em toda a universidade, programas de extensão e especialização que já eram muitos e foram ampliados para todas as áreas do conhecimento. Passamos a ter projetos muito fortes e bem estruturados nas áreas de humanidades, na Pedagogia, na História, na Antropologia, que depois deu origem à Antropologia Forense, área na qual somos pioneiros devido ao trabalho que fazemos aqui na Unifesp. 

Além disso, estamos acrescentando o curso de Direito, que estamos aguardando a autorização para a abertura, tendo pesquisadores e professores que já estão contribuindo muito com a nossa instituição. A tendência atual é de transição. Não estamos vislumbrando que a expansão terá continuidade nesse momento, mas lutamos e estamos trabalhando para que ela se consolide cada vez mais e que as universidades permaneçam fortes nos seus projetos acadêmicos.

Soraya Smaili está com um microfone na mão

Cerimônia de entrega da primeira fase do Hospital Universitário 2 (HU2), na capital paulista / Imagem: Alex Reipert/DCI-Unifesp

“Temos que interagir mais com a sociedade”

E. De que forma as comunidades interna e externa podem contribuir para o fortalecimento da instituição?

S.S. A universidade é muito apoiada pela sociedade, pela sua qualidade e pelo caráter de suas pesquisas, voltadas para o bem-estar da população, por exemplo, na área da saúde pública. Quando você pergunta para a comunidade externa se ela apoia a universidade pública, ela diz que sim. Pesquisas de opinião já demonstraram isso. 90% da população, segundo a Idea Big Data (http://www.andifes.org.br/wp-content/uploads/2018/06/IDEIA-UniversidadesPublicas.pdf), apoiam a universidade pública e entendem ser um patrimônio do país. Ela sabe que nós fazemos coisas de qualidade e que são voltadas para o benefício da vida da pessoa humana e da sociedade brasileira. Temos muito apoio. O que precisamos fazer mais é nos comunicar mais com essa sociedade. 

Quando você pega os rankings das instituições públicas que são apoiadas pela população, os bombeiros estão em primeiro lugar e a educação pública está em quinto. Não estamos mal colocados. E esse prestígio junto à sociedade só tem aumentado nos últimos anos, só que nós podemos fazer mais. Podemos continuar nos comunicando mais, mostrando para a sociedade que o que fazemos com os recursos que são públicos é em prol da sociedade e que essa universidade é dela e está aqui para servi-la. Essa relação com a comunidade externa deve ser mais fortalecida e aprimorada. 

Em relação à comunidade interna, o que eu vejo é que nós temos que continuar promovendo a integração cada vez maior entre as diferentes áreas e entre as diferentes atividades de ensino, pesquisa e extensão, porque isso fortalece os profissionais que estamos formando, e também favorece a produção de conhecimento. A produção de uma pesquisa de um diagnóstico de um vírus, ou uma análise de uma água contaminada ou mesmo a formulação de uma política pública pelas Ciências Sociais, tudo isso pode contribuir enormemente para a sociedade, mas para que isso aconteça, é necessário que a nossa comunidade interaja cada vez mais para promover projetos e estudos que se transformem em benefícios maiores, ou seja, que gere mais conhecimento. Internamente, integrar mais. 

Com o público externo, comunicar mais. Dizer o que estamos fazendo e trazê-los para a universidade. Não é só ir lá e dizer, pois isso acaba sendo alguma coisa um tanto que autoritária. Só a gente dizer que professores vão em algum lugar e dão aula. Temos que trazer a população, porque nós também aprendemos com eles. Essa interação é muito rica e promove mais conhecimento.

E. A expansão da Unifesp enfrenta desafios para o acolhimento e a permanência de estudantes oriundos de outras regiões e com menor poder aquisitivo. Como a universidade os enfrentou até agora?

S.S. Tivemos uma política pública desenvolvida pelo governo federal que é o Programa Nacional de Assistência Estudantil (Pnaes). Temos também uma lei tramitando e gostaríamos que ela fosse aprovada, pois isso o fundamenta. Não são auxílios aleatórios, é um programa que dá apoio aos estudantes de baixíssima renda. Há uma análise socioeconômica e, por meio de editais transparentes e bastante democráticos, avaliados por profissionais altamente gabaritados, temos um sistema bastante sofisticado para apoiar aqueles que têm alta vulnerabilidade. 

Oferecemos diversos tipos de auxílios e aqueles que têm mais necessidades recebem auxílio maior. A Unifesp tem uma política de permanência muito bem consolidada. Nós soubemos desenvolver essa política em paralelo com a expansão e hoje podemos dizer que, com os recursos que temos do Pnaes, podemos dar conta, pelo menos, da parcela mais vulnerável que está na nossa comunidade hoje. Estamos nos esforçando muito para isso. 

Além disso, temos sistemas de núcleo de apoio aos estudantes em cada campus, vinculados a essa política e para além dos auxílios econômicos e financeiros, principalmente no que diz respeito ao serviço social, à psicologia e até mesmo à parte médica. Eles têm atendimento de especialidades no Serviço de Saúde do Corpo Discente (SSCD/Unifesp). Ademais, fazemos exames, com a colaboração preciosa que temos do Hospital São Paulo (HSP/HU/Unifesp) e dos hospitais afiliados da SPDM.

E. Em comparação com outras universidades federais, como a senhora avalia o ensino e a pesquisa na Unifesp?

S.S. Avalio como de enorme qualidade. Quando nós vemos os nossos programas pelos sistemas oficiais do Ministério da Educação (MEC), tanto o e-MEC como o Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade), vemos que nossos programas têm melhorado os seus conceitos. Praticamente todos os cursos de graduação têm conceitos 4 e 5, que são os mais altos. Obtivemos, em 2017, conceito máximo (5) no recredenciamento da universidade, o que foi um feito importante, por ter sido o primeiro depois da criação da Unifesp. Apenas 14 universidades federais no país têm esse conceito. É um feito fantástico. Além disso, a maioria dos nossos programas de pós-graduação têm conceitos 4 e 5 e uma parcela considerável tem conceito 6 e 7, que é o grupo de excelência, dos programas mais tradicionais, consolidados e antigos, alguns deles com quase 50 anos, criados junto com a pós-graduação no país, como os de Farmacologia e Bioquímica. Temos uma tradição muito grande na pesquisa que nos dá destaque, não só na área da saúde. Estamos muito bem colocados em áreas como Ciências Sociais e Engenharias.

Conseguimos, com tudo isso, alcançar o primeiro lugar em citações por docente. Isso é um feito fantástico, considerando a expansão que fizemos, o que significa que fizemos um crescimento com qualidade e somos a segunda em pesquisas, dependendo do sistema de classificação e ranqueamento. A expansão foi muito significativa em tão pouco tempo, mas ao mesmo tempo teve qualidade e se colocou entre as maiores universidades do nosso país. É importante salientar que antes da criação da Unifesp, nós não aparecíamos em nenhum sistema de avaliação, porque não éramos uma universidade. Sempre que avaliava a EPM, ela não conseguia atingir os critérios e parâmetros de universidade, pois era uma escola de uma área específica. A partir da criação da Unifesp, começamos a figurar como universidade e passamos, inicialmente, para o grupo das 10 primeiras e, agora, para o das 5, porque expandimos.

“A política de cotas garante a diversidade sem prejudicar a qualidade”

E. Que balanço a senhora faz da adoção do sistema de cotas raciais?

S.S. Nosso balanço é muito positivo, lembrando que a Unifesp foi uma das primeiras universidades públicas a adotar o sistema de cotas antes da lei federal, ofertando 10% das vagas nos cursos de graduação da época. Hoje, após a adoção da lei de cotas, vemos que elas nos possibilitaram que nós tivéssemos uma representação maior da sociedade brasileira, paulista e paulistana. O perfil socioeconômico dos nossos estudantes é parecido com o da própria sociedade do Estado de São Paulo: as faixas de renda, bem como os grupos raciais e os oriundos de escolas públicas. 

As cotas não foram simplesmente cotas, mas atreladas à escola pública. Depois disso, nós fizemos um processo de avaliação e verificamos que os cotistas foram muito bem avaliados e não há perda de qualidade do ensino e dos formandos, na comparação com os não cotistas. Outro aspecto bastante interessante é que hoje temos uma diversidade que traz uma riqueza e faz com que a universidade pública cumpra o seu papel social perante os grupos que tem ou tiveram menos favorecimento na sociedade.
Lembrando que os cotistas também passam pelos mesmos processos de ingressos que os demais. Muitas vezes as pessoas acham que são processos separados e que as vagas estão garantidas só por serem cotistas e isso não é verdade. Há avaliação tanto no ingresso quanto no egresso, quando os indivíduos saem da graduação.

 
Publicado em Edição 11
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