Sexta, 09 Dezembro 2016 15:24

Um estupro a cada 11 minutos

Pesquisas realizadas entre jovens indicam que a cultura do machismo e a violência contra a mulher no Brasil podem ser diminuídas por meio de processos educativos

Lu Sudré

A cada 11 minutos uma mulher é estuprada no Brasil, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), divulgados em 2015. A violência de gênero atinge centenas de mulheres diariamente de diversas formas: assédio, violência doméstica, feminicídio, cultura do estupro, machismo, entre outros. Ela perpetua-se na sociedade e constroe um mundo cada vez mais perigoso para o gênero feminino.

“Podemos identificar a violência de gênero desde suas expressões mais sutis no cotidiano, como as 'cantadas' ouvidas pelas mulheres nos espaços públicos, a objetificação de seus corpos, a ausência de mulheres ocupando espaços de poder até ações de extrema violência como nos casos de violência sexual, física e nos casos de feminicídios”, afirma Marina Milhassi Vedovato, psicóloga e mestra em Ciências pelo Programa de Pós-Graduação em Educação e Saúde na Infância e Adolescência da Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (EFLCH/Unifesp).

Marina define a violência de gênero como a expressão de uma sociedade regida pela ordem patriarcal, ou seja, regida pela dominância masculina. A psicóloga menciona Heleieth Saffioti, socióloga marxista brasileira e estudiosa da violência de gênero. “Para Heleieth, a violência de gênero é uma forma específica de violência que atua no propósito da preservação da organização social de gênero que se fundamenta na hierarquia, nas desigualdades sociais e sexuais”, explica.

Em sua pesquisa de mestrado, intitulada Um Olhar sobre a Violência Sexual nas Práticas Educativas Escolares: Prevenção da Violência de Gênero e da Violação do Corpo Feminino e orientada pela professora Maria Sylvia de Souza Vitalle, a psicóloga aplicou ações educativas a 72 alunos de ambos os sexos, da 6ª e 7ª série do ensino fundamental de uma escola localizada no distrito de Guaianases, extremo leste do município de São Paulo.

A ideia principal do estudo foi incentivar o protagonismo juvenil para que os adolescentes pudessem atuar no enfrentamento da violência de gênero dentro e fora da escola, promovendo um processo de desnaturalização da desigualdade de gênero. A pesquisa foi baseada em metodologia participativa fundamentada em vivências, técnicas lúdicas, dinâmicas de grupos e recursos audiovisuais que fomentaram a discussão de gênero sob a forma de oficinas.

A fim de avaliar o impacto da intervenção na construção de um processo de desnaturalização da desigualdade de gênero, foi aplicado, antes e após as ações educativas, o questionário Gender Stereotyping, que continha perguntas como: “A maioria das mulheres gosta de ser maltratada por homens?”, “Às vezes está certo um homem bater em uma mulher?”, “Homens e mulheres deveriam ter igual responsabilidade pela criação de filhos?”, entre outras.

As respostas dos estudantes após serem submetidos às ações educativas evidenciaram uma diminuição significativa na desconstrução de estereótipos de gênero. “A pesquisa mostra que falar de gênero na escola é uma ferramenta valiosa para a prevenção da violação do corpo feminino. Além disso, desconstruir paradigmas que mantém os estereótipos de gênero é também uma ferramenta importante para prevenir a homofobia, a lesbofobia, a transfobia, o racismo e tantas outras formas de opressão”, endossa a psicóloga.

Marina Milhassi Vedovato

Marina Milhassi Vedovato, autora da pesquisa

A pesquisadora explica que a cultura do estupro consiste em um imaginário construído desde a infância, moldado por comportamentos sociais e sexuais em que os meninos são socializados para exercer uma sexualidade quase incontrolável e as meninas para se submeterem aos desejos masculinos. “Nessa lógica a mulher será sempre culpabilizada pelo ato de violência que vivenciou. Ora culpabilizada pela roupa que usava no momento da violência, ora por andar em via pública à noite sozinha, dentre tantos outros argumentos misóginos”, comenta Marina.

As estatísticas confirmam a análise da psicóloga. Uma a cada três pessoas ainda acredita que a vítima é culpada por ter sido estuprada. Os dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, com pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha, foram divulgados em setembro de 2016. O levantamento escutou a opinião de 3.625 pessoas em 217 cidades de todas as regiões do país.

Cerca de 37% dos entrevistados concordam com a afirmação de que “mulheres que se dão ao respeito não são estupradas”. Entre os homens, a opinião é defendida por 42%. A ideia de que “a mulher que usa roupas ‘provocantes’ não pode reclamar se for estuprada” foi reverenciada por 30% dos entrevistados. Para as mulheres, principais vítimas dessa violência, a história é outra: 85% delas disseram temer a violência sexual.

"Inserir a discussão de gênero nas políticas públicas educacionais, como parte integrante do currículo nacional, é uma tarefa urgente e para isso devemos enfrentar as forças conservadoras e neoliberais presentes na sociedade brasileira, principalmente as instaladas no congresso nacional", finaliza a pesquisadora.

Fotografia mostra uma sombra, com um homem agredindo uma mulher

Dissertação relacionada:

VEDOVATO, Marina Milhassi. Um olhar sobre a violência sexual nas práticas educativas escolares: prevenção da violência de gênero e da violação do corpo feminino. 2015. 205 f. Dissertação (Mestrado em Ciências: Educação e Saúde na Infância e Adolescência) - Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade Federal de São Paulo, Guarulhos, 2015.

Publicado em Edição 07
Sexta, 09 Dezembro 2016 14:02

Armas de fogo matam 1 milhão em 35 anos

Fotografia de um homem segurando uma arma

Vítimas sobreviventes, familiares e amigos sofrem sequelas como o transtorno de estresse pós-traumático, com sérias implicações psicológicas, afetivas e econômicas

Ana Cristina Cocolo

Entre 1980 e 2014, foram registradas no Brasil 967.851 mortes por arma de fogo, 85,8% das quais foram resultantes de agressão com intenção de matar, indica o Mapa da Violência 2016, coordenado pelo sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz, da área de estudos sobre violência da Faculdade Latino–Americana de Ciências Sociais. A violência, quando não mata, deixa sequelas imensuráveis às vítimas e seus familiares. Uma delas é o transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), distúrbio psiquiátrico caracterizado por sintomas físicos, psíquicos e emocionais decorrentes da experimentação ou do testemunho de atos violentos ou situações traumáticas, principalmente as que representam ameaça à vida. 

José Paulo Fiks, psiquiatra e coordenador do Grupo de Pesquisa Qualitativa em Violência e Saúde Mental do Programa de Atendimento e Pesquisa em Violência (Prove) do Departamento de Psiquiatria da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp) – Campus São Paulo, esclarece que a estimativa do TEPT é que ele atinja até cerca de 20% das vítimas de violência. “No entanto, esse índice varia muito entre comunidades”. 

De acordo com ele, em países em situação de paz, ou seja, nos que não há conflitos generalizados, a média de incidência de quadros de TEPT varia de 12% a 20% de casos após a exposição a um evento potencialmente traumático. Já para situações de conflito ou eventos catastróficos a incidência pode chegar a 35% a 40%. “Mas posso afirmar que esses números ainda não são exatamente corretos”.

Entre as explicações para que uma pessoa não desenvolva o TEPT estão os fatores de proteção que podem ser genéticos, religiosos, educacionais, de maternagem (pessoas com boa proteção na infância são mais resilientes), apoio social e ação imediata dos serviços de saúde. “Tudo isso dá uma boa base para que o TEPT não se desenvolva. Mas não há garantias. Não há uma ‘vacina’”, explica Fiks.

Mistura de sentimentos

José Paulo Fiks

José Paulo Fiks

Marcelo Feijo de Mello

Marcelo Feijó de Mello

Mas como a vítima enxerga as repercussões psicológicas da experiência sofrida? Para entender isso, Fiks e o também psiquiatra e chefe do Departamento de Psiquiatria da EPM/Unifesp, Marcelo Feijó de Mello, analisaram 20 indivíduos, com idades entre 18 e 65 anos, de ambos os sexos, vítimas de violência, tais como roubo, rebelião, sequestro, violência doméstica e testemunha de suicídio. Nenhum deles tinha histórico de abuso de substâncias psicoativas, distúrbios psicóticos ou orgânicos. Desses, 16 receberam diagnóstico de TEPT e quatro, apesar de terem experimentado a violência, não desenvolveram o problema.

Para codificar as narrativas foi utilizado a metodologia qualitativa Grounded Theory, em virtude da sua afinidade teórica com a semiótica. Três sentimentos mais citados pelos pacientes emergiram das análises finais das entrevistas: o ódio, o medo e o trauma. 

Fiks explica que o medo e o trauma podem ser parte do espectro de psicopatologia, isto é, do quadro clínico típico do TEPT. Porém, o ódio, que não costuma aparecer em casos traumáticos, nessa pesquisa se tornou o principal conceito do paciente na compreensão do ato violento que leva ao trauma. 

“O ódio realmente não surge nas diretrizes para o diagnóstico, mas em alguns casos – e depende muito também da comunidade afetada – ele aparece como aliado a um desejo de vingança e ao mesmo tempo a um estado de covardia”, afirma o especialista. “É como se o traumatizado estivesse preso no binômio vítima-reparação e muitos fazem suas vidas em torno de processos judiciais, aposentadorias precoces ou até mesmo apelam para a vingança interpessoal. É algo bastante complexo que geralmente aparece no decorrer do tratamento e não na abordagem inicial, quando o paciente ainda está em trauma agudo”.

Para o psiquiatra, esse achado pode auxiliar imensamente na diretriz do tratamento psicoterápico. “Em uma abordagem cognitivo-comportamental, o lugar de vítima-vingador pode ser trabalhado para que o indivíduo deixe de pautar sua vida sobre esse pensamento”, diz. ”No campo da terapia de exposição, cada vez mais indicada no TEPT, os afetos decorrentes dessa posição são manejados. Nas terapias psicodinâmicas, as memórias traumáticas, a desintegração do indivíduo – o que eu era e o que passei a ser –, são examinados para que o traumatizado deixe de viver das memórias traumáticas e se recrie livre dessa posição”.

Sintomas do Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT)

Os sintomas podem manifestar-se em qualquer idade e levar meses ou anos para aparecer. Para o diagnóstico, é necessário que o indivíduo tenha passado ou testemunhado uma situação com perigo de morte. Como sintomas acessórios, é preciso apresentar: 

• Evitação - afastamento do local ou de situações que lembrem o evento, chegando ao isolamento total.

• Revivescência - lembranças intrusivas do evento, seja na vida de vigília seja por pesadelos. 

• Hiperexcitação - os sustos paradoxais, uma hipervigilância constante (estado de alerta), medo. 

• Apatia - Nesse, cabem todas as variantes do espectro da depressão, como anedonia (é a dificuldade ou incapacidade de uma pessoa em sentir prazer ou se motivar a realizar atividades que antes eram prazerosas), culpa, lentidão, restrição do campo de vida.

Artigo relacionado:

FIKS, José Paulo; MELLO, Marcelo Feijó. The live memory of annihilation as a hindrance to existence: a proposal for the “A” criterion in PTSD psychosocial Interventions. Scientific Reports, v. 2, n. 6, ago. 2013. Open access. Acesso em: 30 set. 2016.

Publicado em Edição 07
Fotografia de uma mulher de costas, ela está usando uma bandeira do Brasil como capa, e está a frente de um inflável vermelho

Discurso de ódio e polarização resultam em empobrecimento da discussão política e autoritarismo

Lu Sudré

O ano de 2016 ficará marcado na história do Brasil: suas principais ruas e avenidas se tornaram palco de manifestações políticas constantes. O impeachment da presidenta Dilma Rousseff, aprovado pelo Senado no final de agosto, causou reverberações profundas na conjuntura política. A polarização entre os favoráveis e contrários ao impedimento trouxe à tona episódios de intolerância que colocam em xeque a democracia e o respeito à pluralidade.

Ao questionar se os indivíduos saíram às ruas apenas por questões políticas, Esther Solano, cientista social e docente no curso de Relações Internacionais da Escola Paulista de Política, Economia e Negócios (EPPEN/Unifesp) – Campus Osasco, coordenou uma pesquisa em conjunto com Pablo Ortellado, docente na Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH/USP), que identificou os aspectos sociais, valores morais e políticos da população que foi aos protestos pró e anti-impeachment.

Em São Paulo, no ato pró-impeachment de 12 de abril, um grupo de 30 alunos, coordenados pelos professores, realizou 571 entrevistas com os manifestantes. “Infelizmente, as pessoas não vão para rua só por questões políticas. Há um ódio e preconceito de classe muito forte. O repertório e a narrativa das pessoas é conservador. Existe uma frustração com o sistema em geral, que leva muitos desses sujeitos à buscarem soluções antidemocráticas e autoritárias”, comenta Esther Solano.

Entre os entrevistados, 68,5% declararam ter ensino superior completo, 77,4% são brancos, 24,3% têm renda de até R$ 7.880, 29,6% de até R$ 15.760 e 20% ganham até R$ 20.000 ao mês.

Na avaliação da cientista social, o país sempre teve uma dinâmica de classe muito perversa, com elites econômicas e políticas ao lado de uma massa social empobrecida. Esta estrutura de classes é responsável pelo discurso de ódio eminente contra os partidos de esquerda e contra os movimentos sociais.

“Existe um sentimento de raiva contra a política lulista, que promoveu um ascenso da classe C por meio do consumo e políticas de inclusão social. A maioria dos entrevistados pró-impeachment tem um discurso de classe e xenófobo muito forte, conservador, meritocrático e punitivo. São contra o Bolsa Família, contra cotas universitárias e contra o programa Mais Médicos, por exemplo”, explica Esther.

A pesquisadora aponta paradoxos no discurso dos entrevistados que, ao responder questões como descriminalização do aborto e da maconha, são liberais, mas só ao que concerne ao seu grupo social. “O discurso de classe e preconceituoso é acompanhado de uma liberdade no que se refere a eles, apenas à sua classe. ‘Eu posso fumar maconha, mas o pobre que trafica tem que ser preso e até mesmo morto pela polícia’. Na opinião deles, para resolver problemas de violência, a única solução é mais policiamento”, afirma.

Intolerância: coxinhas x mortadelas

Xingamentos, agressões, bandeiras pela volta da ditadura, apologia à tortura e faixas em defesa da democracia compuseram os cenários das milhares de pessoas que foram às ruas. Criou-se uma polarização intensa entre os “coxinhas” (pró-impeachment) e “mortadelas” (contra). Para Esther Solano, essa polarização vai na contramão de um governo democrático. “Isso gera um empobrecimento de informação. Formam-se dois grupos que não conseguem debater, escutam o que querem escutar e não têm espaço para o outro. As pessoas só escutam o que convêm. São dois bandos que se enfrentam; é a ausência total de diálogo”.

A internet e as redes sociais se concretizaram como um palco da intolerância. Segundo a professora, o Facebook, por exemplo, cria guetos ideológicos. “A internet pode ser uma plataforma democrática muito poderosa. Mas tem um outro lado. Criam-se bolhas de informação e uma espiral de afirmação da posição ideológica de um mesmo grupo, não um debate com aquele que tem outra informação ou opinião contrária. É uma incapacidade enorme de diálogo”, reforça a pesquisadora.

Para ela, as redes sociais dão um espaço ainda maior para intolerância a partir do momento em que permitem a “liberdade do anonimato”, que fomenta a transformação de confronto de ideias para conflitos pessoais e estabelece o que a cientista social chama de dialética do inimigo. “Aquele que tem uma opinião política diferente não é um adversário político, é um inimigo. É a política do ódio. Com o adversário político há uma troca de ideias, com inimigo não. O objetivo é aniquilá-lo. Aniquilar o pensamento, a voz. É uma dinâmica de guerra”, analisa. 

Foto de um protesto, as pessoas seguram cartazes com os dizeres Fora Golpistas

Populares ocupam as ruas e se posicionam contra o impedimento de Dilma Rousseff

Foto de um protesto, algumas pessoas seguram uma faixa Fora Dilma Intervenção Militar

As grandes capitais também foram palco de atos a favor do impeachment, convocados pelo Movimento Brasil Livre (MBL) e Vem Pra Rua

Reforma política

A pesquisa também abordou a confiança nas instituições políticas, entre elas partidos, políticos, ONGs, movimentos sociais e imprensa. Nos atos pró-impeachment, 69,9% das pessoas não confiavam em políticos e 73,2% não confiavam em partidos. De acordo com Esther, a democracia representativa está em crise e a figura inflexível da estrutura partidária não acompanha as mudanças dinâmicas da população. "É muito preocupante quando se tem uma democracia desgastada e atitudes antidemocráticas e autoritárias vêm à tona. É uma crise representativa e dentro dessa crise, personagens como Donald Trump, candidato à presidência dos Estados Unidos, e Jair Bolsonaro se aproveitam desse vazio representativo".

Outra pesquisa foi realizada no dia 31 de março de 2016, em um ato na praça da Sé, mas com aqueles que se posicionavam contra o impeachment. Embora a confiança dos manifestantes nos partidos em geral seja razoavelmente baixa (37% não confiam).

Em relação à renda, o padrão desta manifestação foi um pouco inferior ao das manifestações anti-Dilma, com 54,5% dos participantes com renda familiar entre 3 e 10 salários mínimos. No tocante à escolaridade, 77% dos manifestantes tinham formação no ensino superior e 34,9% se declararam negros ou pardos. "Seja de esquerda ou direita, a única coisa que coincide nessa polarização é a necessidade da reforma política. O país está em uma situação de muito desequilíbrio, até mesmo histérico. Mas essa reforma tem que ocorrer em um momento mais calmo. Como fazer uma reforma com o Congresso mais conservador da história?", indaga.

Fotografia de Esther Solano

Esther Solano, pesquisadora e docente na EPPEN/Unifesp – Campus Osasco

Para ela, há projetos de lei no campo da segurança pública, gênero, sexualidade e liberdade de expressão que fomentam a intolerância. A redução da maioridade penal, Estatuto do Desarmamento, Lei Antiterrorismo, Estatuto da Família, Escola Sem Partido, Dia do Orgulho Hetero e projetos contra a legalização do aborto são alguns deles. 

"O discurso de ódio não se baseia em pesquisas científicas, dados, ele é muito emocional. Ninguém apresentou estudos, por exemplo, para defender a redução da maioridade penal. É um discurso emotivo, que tem como objetivo aumentar a punição e a intolerância", destaca.

Publicado em Edição 07
Foto da reitora Soraya Smaili, ela está em pé, de camisa verde e sorri

Soraya Smaili
Reitora da Unifesp

O inferno é o outro, dizia Jean-Paul Sartre. O inferno, na perspectiva posta pelo filósofo e escritor francês, é construído pela recusa – não importam os motivos – em aceitar aquilo que diferencia os outros de nós: valores religiosos, culturais, étnicos, ideológicos, políticos e morais. A não aceitação dos outros, marca distintiva da intolerância, estimula e propaga o ódio e a prática da violência. O Brasil vive tempos infernais, se quisermos adotar a conceituação de Sartre. 

Em 2014, o país bateu o recorde de quase 60 mil homicídios (mais de 42 mil por armas de fogo), o que representa uma alta de 21,9% em relação a 2004, segundo o Atlas da Violência 2016, produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Ocupamos o nada honroso 10º lugar em taxas de homicídio por 100 mil habitantes, considerando-se os cem países analisados pelo documento. 

Os números assumem uma característica ainda mais perversa, quando se considera que a imensa maioria das vítimas é formada por jovens negros que vivem em bairros periféricos das metrópoles – alguns estudos sugerem uma cifra superior a 70% do número de vítimas. Também a violência de gênero atinge proporções estarrecedoras: 13 mulheres são assassinadas todos os dias, segundo o Sistema de Informação sobre Mortalidade do Ministério da Saúde. Entre 2004 e 2014, cerca de 4,8 mil mulheres foram mortas por agressão.

Mas a violência não se manifesta “apenas” como atos de agressão física. Ela se expressa também na forma de bullying, ataques verbais e incitamento ao ódio nas redes sociais, órgãos de comunicação, salas de aula, ambiente de trabalho e até em áreas de lazer. Tudo isso, além do mais, tem implicações econômicas: os custos da violência, em todo o mundo, somam 7,16 trilhões de dólares (ou o equivalente a três vezes o PIB brasileiro). No Brasil, o custo é avaliado em 255 bilhões de dólares (11,5% do PIB), valor que corresponde à quinta posição no ranking dos que mais gastam com violência, ficando atrás apenas dos Estados Unidos, China, Rússia e Índia.

Como algo construído, e não natural, o “inferno” tem raízes históricas, sociais, culturais, políticas e ideológicas. Pode e deve, portanto, ser estudado, compreendido e superado com a ajuda da investigação e da reflexão científicas. É aqui que a Unifesp encontra sua inserção no debate e busca, por meio da pesquisa, oferecer sua contribuição à sociedade brasileira. Por essa razão, e com esse objetivo, adotamos a intolerância e a violência como temas centrais desta edição.

Publicado em Edição 07
Terça, 06 Dezembro 2016 13:57

Expediente - Entreteses 7

A revista Entreteses é uma publicação semestral da Universidade Federal de São Paulo.

ISSN 2525-5401 (publicação impressa)
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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO

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Infográficos e ilustrações: Ana Carolina Fagundes

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Fotografias: Acervo Unifesp / Créditos indicados nas imagens

Tratamento de imagens: Ana Carolina Fagundes

Conselho Editorial: Maria Lucia O. de Souza Formigoni, Débora Amado Scerni, Cristiane Reis Martins, João A. Alves Amorim, Sérgio B. Andreoli, Tania A. T. Gomes do Amaral e João Valdir Comasseto

Conselho Científico desta edição: Eliane Beraldi Ribeiro, João Valdir Comasseto, Maria Lucia O. de Souza Formigoni, Mavilde da Luz Gonçalves Pedreira e Tereza da Silva Martins

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Revista Entreteses n° 7 – Novembro/2016

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Tiragem: 2.500 mil exemplares

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