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Segunda, 22 Agosto 2016 15:28

A juventude não sonha

A juventude não sonha” O vereador Gilberto Natalini fala sobre sua prisão e tortura quando estudava da EPM, em1972, e faz uma avaliação dos trabalhos da CV - SP, que preside

Erika Sena

Entrementes - Como foi, para você, estudar na EPM durante a ditadura?

Gilberto Natalini – A EPM era, no geral, muito conservadora. Havia poucos alunos filhos de operários, de gente popular. Meu pai era balanceiro de usina de açúcar. Estudávamos muito, mas queríamos livrar o Brasil da ditadura. Criamos um grupo, no começo dos anos 70, para atuar na faculdade. Junto com outras cinco escolas de Medicina, lançamos o jornal “Articulação”, que era pregado, de madrugada, em murais. Éramos muito procurados por grupos clandestinos, que pediam apoio, consulta médica, dinheiro para mandar alguém para fora do país. Aí veio a luta contra o ensino pago. O MEC aumentou a matrícula da EPM em 1.000% e dividiu em 12 vezes, ou seja, instituiu uma mensalidade. Fizemos um piquete na porta da secretaria, no pátio interno da escola. Não deixamos os estudantes fazerem as matrículas. Foi juntando aluno, e virou um ato contra a privatização. Barramos a matrícula e o MEC recuou.

E - Quando aconteceu a sua prisão?

GN – Em 1972. Cida, irmã de um colega, Paulo Horta, era do Movimento de Libertação Popular. O Paulo repassava os jornais da Molipo para nós. Entreguei um jornal para um estudante que era do PCB. Ele foi preso, torturado e entregou o meu nome. A repressão me seguiu por 30 dias. Fui preso à porta da casa da minha avó, no Bosque da Saúde, e levado ao DOI-CODI, para ser interrogado pelo coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra. Eu disse ter encontrado os jornais no banheiro da faculdade: ‘Tenho todos esses jornais em casa, se o senhor me levar lá entrego tudo’. Ao chegar em casa, minha tia contou que cinco ou seis colegas meus tinham passado por lá e levado tudo para a casa do meu tio. Já saí dali apanhando dos agentes. Voltei para o DOI- -CODI. Prenderam meus tios e 10 colegas da EPM. Invadiram nossos armários da Escola. No final de uma semana, eles soltaram oito e ficamos eu, o Paulo Horta e o Valter Nascimento. Queriam saber o nome de quem nos entregava o jornal. Bateram muito, prenderam a mulher grávida do Paulo, duas primas dele, a namorada do Valter. Mas não delatamos a Cida. Mais ou menos 50 dias depois, um guarda chegou na cela, de madrugada, e disse ao Paulo: “Teu pai mandou te avisar que você pode falar o nome da tua irmã porque ela já fugiu.” O guarda era de Guaratinguetá, e a família do Paulo também. O Paulo falou, mas a Cida já tinha escapado para o Chile. Eu fiquei surdo, por causa dos choques elétricos nos ouvidos. Depois de um tempo, mandaram a gente cumprir pena de 30 dias numa cela do Dops, no largo General Osório. Depois fomos soltos. Aí aconteceu a parte bonita. Passamos 90 dias fora da Escola, nós íamos perder o ano letivo. Os professores da Clínica Médica nos disseram que eles não concordavam com a gente, que a gente era muito radical, mas que, como liberais, eles defendiam o direito de a gente pensar e de se expressar. Pediram que estudássemos para fazer segunda época, em janeiro. Passaram a gente de ano. Foi um ato de generosidade.

Foto de Gilberto Natalini sorrindo

E- Como você enxerga a criação de uma CV na Unifesp?

GN - Com uma alegria enorme. A Escola teve um caso emblemático, o do professor Marcos Lindenberg. Ficaria muito feliz se a Escola reintegrasse o professor, simbolicamente. E - Em que pé estão os trabalhos da CV da câmara municipal? GN - A CV da Câmara foi iniciada em 2012. Este ano, propus recriar a CV com o mesmo prazo de funcionamento da CV Nacional (CVN). Já ouvimos as questões do caso Vladimir Herzog, do sepultamento clandestino de presos políticos, da morte de Juscelino Kubitschek e agora queremos apurar a participação de religiosos na resistência à ditadura. Vamos restituir simbolicamente o mandato dos 42 vereadores que foram cassados da Câmara (entre 1936-1969). Estamos também apurando a perseguição dos dirigentes sindicais paulistanos. Convocamos o José Maria Marim, o delegado Aparecido Laerte Calandra e o Paulo Maluf. Delfim Neto já veio depor. O objetivo é verificar a participação civil no financiamento da repressão.

E- Há algum caso em estágio avançado de investigação ou de autoria de crimes comprovada?

GN - Estamos conversando muito sobre a morte do Juscelino. Ele saiu de São Paulo, quando morreu num suposto acidente na via Dutra e estava articulando a sua nova candidatura à presidência da república. Acabei de pedir uma perícia no crânio do motorista do JK e no objeto metálico que foi encontrado dentro de sua cabeça, que, segundo informações de alguns, seria um projétil de arma de fogo e não um prego do caixão como foi dado na perícia oficial da época da ditadura. Ouvimos também o fotógrafo do cadáver de Herzog, que comprova que ele já estava morto quando foi montada a cena para a fotografia. Ouvimos o Cláudio Guerra, um ex-delegado do Dops do Espírito Santo que atuava em São Paulo.

E - O trabalho das CVs é suficiente para fazer justiça às vítimas da ditadura?

GN - Quem vai fazer justiça ou não é a própria justiça. A CV apura e denuncia fatos históricos, concretos e objetivos sobre prisão, tortura, desaparecimento e morte de pessoas no período da ditadura. O argumento de que a anistia foi para os dois lados é complicado. Os perseguidos pela ditadura foram presos, torturados, mortos. Já torturadores como o coronel Ustra e o delegado Calandra vivem como se nada tivessem feito. A anistia foi muito torta, capenga. Pessoalmente, defendo a punição dos torturadores, como feito na Argentina e em outros países, sem nenhum trauma. No Brasil, o delegado, assassino e torturador Sérgio Fleury, chefe do Dops em São Paulo, é nome de rua na capital paulistana. Isso tudo só foi possível porque a redemocratização no Brasil foi um processo de conciliação política, chefiado pelo Tancredo Neves, entre a oposição e o regime militar. Tancredo representava alas conservadoras que estavam se apartando do regime, mas com caráter conciliatório, e aceitaram uma Lei de Anistia que encobriu os crimes da ditadura. Isso começou a mudar com a Constituição de 1988, que democratizou mais a política brasileira, e na década de 90, quando o governo FHC adotou uma série de medidas para começar a investigar o desaparecimento de presos políticos.

E - Vivemos numa democracia?

GN - É uma democracia dúbia. A democracia social não chegou de jeito nenhum. Vivemos em um país com bolsões de miséria terríveis. Dentro da cidade de São Paulo, há 2 milhões de pessoas que vivem em uma situação muito abaixo do mínimo tolerável. Hoje, a Polícia Militar é agente de uma cultura de violência que a ditadura construiu. A PM entra na periferia, gira a metralhadora e mata todo mundo, o que estiver em volta. É uma atitude que serve de contenção ao levante popular. Mas, a violência e o genocídio não estão presentes apenas na PM. Só no ano passado, houve 60 mil assassinatos no Brasil, envolvendo a PM, milícias e gangues. Nesse período democrático, registramos o avanço do crime organizado. A CV vai acabar mostrando as consequências que a democratização frágil e defeituosa trouxe para o Brasil. Os brasileiros não têm mais sonhos. O máximo do sonho de um brasileiro é comprar um carro em 60 meses ou uma geladeira nova. A nossa juventude não sonha.

Capa do jornal entrementes de outubro de 2013  Sumário do número 3

Publicado em Entrementes edição 3