Estudo visa conhecer os mecanismos para o desenvolvimento de terapias que melhoram a qualidade de vida de pacientes com câncer

Publicado em Notícias Arquivadas
Quinta, 18 Outubro 2018 12:55

Faca de dois gumes

Uso de tablets e celulares por crianças quase dobra o risco do consumo excessivo de alimentos ultraprocessados

Ana Cristina Cocolo

p033 Entreteses porAndreaPelogi

Imagem: Andrea Pelogi

As mudanças no padrão alimentar da população, com maior consumo de alimentos ultraprocessados – incluindo os sucos artificiais, que em alguns casos possuem até 70% mais açúcar que um refrigerante de guaraná –, de Fast-Foods e de lanches açucarados, estão entre os principais vilões que ajudam a engrossar os números de doenças crônicas e da obesidade, inclusive entre crianças.

O cenário fica ainda mais perigoso quando a tecnologia entra de forma negativa no comportamento das pessoas, conforme apontam duas pesquisas apresentadas como tese de doutorado no Programa de Pós-Graduação em Pediatria da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp) - Campus São Paulo.

De acordo com os trabalhos, que avaliaram as práticas parentais de alimentação entre pré-escolares e escolares brasileiros e resultaram em um artigo publicado na revista Public Health Nutrition, o uso de celulares e tablets durante as refeições aumenta em 1,61 vezes o risco de crianças entre 2 e 9 anos de idade consumirem excessivamente alimentos ultraprocessados.

Para as nutricionistas Sarah Warkentin e Laís Amaral Mais, autoras das teses, esse comportamento pode ser parcialmente atribuído à exposição a anúncios televisivos de alimentos ricos em gorduras, açúcares e sal, e pobres em fibras e micronutrientes. “Os dados também põem em evidência o pouco incentivo às práticas de mais atividades físicas e lúdicas que tirem as crianças da frente das telas”, afirma Warkentin.

Para Mais, o problema vai além. “O uso excessivo de dispositivos de tela durante as refeições pode ser um indicador da falta de interação dos pais com a criança durante refeições – que poderia refletir uma falta mais geral de estrutura do agregado familiar – e que demonstrou ser um fator risco para má qualidade da dieta“, afirma. “Os pais são importantes exemplos para as práticas alimentares, já que as crianças dependem deles para o acesso e a preparação dos alimentos”.

As pesquisas também mostraram que crianças cujas mães têm menor nível de escolaridade e que têm excesso de peso tiveram um risco duas vezes maior e 1,43 vezes maior, respectivamente, de consumirexcessivamente alimentos ultraprocessados. Já para os pais que relataram baixa percepção de responsabilidade quanto à alimentação de seus filhos, esse risco foi 2,41 vezes maior.

Poucos vegetais

De acordo com o relato dos pais, cerca de 67% das 929 crianças avaliadas ingeriam uma alta quantidade de alimentos ultraprocessados. Trinta e dois por cento bebiam leite achocolatado e 20% suco artificial todos os dias. Quase um quarto do total eram consumidoras frequentes de carnes processadas e, mais de um terço, de salgadinhos. Em contrapartida, com relação aos vegetais, menos da metade da amostra os consumia diariamente.

Já a ingestão de frutas e leite e laticínios, de três ou mais dias, foi alta: 60% e 75%, respectivamente. “Muitos pais associam o achocolatado e os sucos artificiais a uma dieta saudável por derivarem de leite e frutas, o que é um engano, pois possuem uma elevada concentração de açúcares”, alerta Warkentin.

“É preciso concentrar ainda mais esforços na intervenção para grupos de alto risco, como famílias com excesso de peso e mães com menos escolaridade”, diz Mais. “É necessário também a promoção de uma educação nutricional aos pais que os incentivem a assumir a responsabilidade de promover uma alimentação mais saudável para seus filhos”.

hamburguer e batata

Cerca de 67% das crianças avaliadas ingeriam alta quantidade de alimentos ultraprocessados, como hambúrgueres e batata frita (imagem: Andrea Pelogi)

professoras

Laís Amaral Mais e Sarah Warkentin (imagem: Alex Reipert)

Metodologia

Participaram da pesquisa, por meio de dois questionários, 929 pais de pré-escolares e escolares (idades de 2 a 9 anos) de 14 escolas privadas das cidades de Campinas e São Paulo. A maioria dos respondentes eram as mães (92%). Foram excluídos estudantes com doenças relacionadas à nutrição e irmãos mais velhos para evitar duplicidades nos dados. O estudo é o primeiro a avaliar associações entre padrões alimentares entre crianças pré-escolares e escolares no Brasil e as práticas de alimentação dos pais, avaliadas por um questionário abrangente que foi traduzido e validado para essa população específica.

Para a pesquisa foram adaptados dois questionários: o Comprehensive Feeding Practices Questionnaire (CFPQ), de autoria de Dara R. Musher-Eizenman, professora de Psicologia da Universidade Estadual Bowling Green, Ohio (EUA), e Shayla Holub, professora assistente em Ciências Psicológicas na Universidade do Texas, em Dallas (EUA), e de um Questionário de Frequência Alimentar (QFA), desenvolvido especialmente para esse trabalho, uma vez que não existia um instrumento na literatura que incluísse um grande número de alimentos ultraprocessados consumidos por essa faixa etária, bem como fosse breve e específico para estas idades.

Entre os ultraprocessados, foram incluídos nos questionários os Fast-Foods (hambúrgueres, batata frita, nuggets, pizza), os macarrões instantâneos, os refrigerantes, os sucos artificiais (em pó, de caixinha, concentrado), os salgadinhos de pacote, as guloseimas (bala, chiclete, pirulito, chocolate), os cereais matinais, os achocolatados (em pó, pronto para beber), os biscoitos e os bolos sem e com recheios, os sorvetes (de massa, picolé), as sobremesas lácteas (pudim, petit suisse) e os embutidos (salsicha, linguiça, presunto, peito de peru). Além deles, também foram avaliados os alimentos tradicionais – carnes (bovina, suína, frango, peixe) e ovos, cereais (arroz, farinha, batata, mandioca, macarrão, pão), leguminosas (feijão, lentilha, soja, grão de bico, ervilha), leite e derivados (queijo, iogurte), vegetais (crus e cozidos), frutas (in natura e suco natural) – e fatores sociodemográficos (idade materna e infantil, sexo, grau de escolaridade e renda familiar).

Já a avaliação sobre a responsabilidade percebida pelos pais na alimentação infantil foi realizada por meio do Child Feeding Questionnaire (CFQ), desenvolvido por Leann L. Birch, professora da Faculdade de Saúde e Desenvolvimento Humano da Universidade Estadual da Pensilvânia (EUA) e colaboradores em 2001.

Consumo alimentar da criança nos sete dias que antecederam à pesquisa, autorreferido por 929 pais, por meio de um Questionário de Frequência Alimentar (QFA), em uma amostra de crianças de 2 a 9 anos. Campinas e São Paulo, Brasil.

Frequência de consumo alimentar (%)

Alimentos

Não consumiu

1-2 vezes

3-4 vezes

5-6 vezes

Consumiu todos os dias

Leite e derivados

2,80%

6,14%

8,50%

7,53%

75,03%

Cereais

0,43%

2,58%

6,67%

16,58%

73,74%

Carnes e ovos

0,43%

2,48%

11,63%

20,67%

64,80%

Frutas

2,69%

5,38%

13,56%

17,76%

60,60%

Leguminosas

4,63%

5,49%

13,78%

18,73%

57,37%

Hortaliças

8,93%

12,70%

16,68%

14,96%

46,76%

Achocolatado

39,61%

12,27%

8,61%

7,86%

31,65%

Sucos artificiais

25,19%

19,27%

18,73%

17,12%

19,70%

Biscoitos e bolos sem recheio

27,23%

34,77%

24,97%

7,32%

5,71%

Cereal matinal

56,19%

21,42%

12,70%

4,31%

5,38%

Sobremesas lácteas

44,03%

31,32%

16,90%

4,31%

3,44%

Guloseimas

18,30%

50,70%

21,96%

5,71%

3,34%

Embutidos

34,77%

42,30%

16,79%

3,66%

2,48%

Refrigerantes

51,67%

37,24%

7,75%

1,40%

1,94%

Biscoitos e bolos com recheio

56,30%

30,14%

10,98%

1,51%

1,08%

Salgadinho de pacote

62,33%

33,80%

3,44%

0,11%

0,32%

Fast-Food

38,54%

59,20%

1,83%

0,32%

0,11%

Macarrão instantâneo

78,15%

20,67%

1,08%

0,11%

0,00%

Sorvetes

62,65%

32,51%

4,41%

0,43%

0,00%

Fonte: Sociodemographic, anthropometric and behavioural risk factors for ultra-processed food consumption in a sample of 2-9-year-olds in Brazil. Public Health Nutrition 2018

Padrões alimentares identificados pelo Questionário de Frequência Alimentar (QFA) em uma amostra de crianças de 2 a 9 anos (n. 929). Campinas e São Paulo, Brasil.

Padrão Alimentar Tradicional Carnes e ovos

Cereais

Leguminosas

Leite e derivados

Hortaliças

Frutas

Padrão Alimentar Ultraprocessado

Fast-Food

Sucos artificiais

Salgadinho de pacote

Guloseimas

Biscoitos e bolos com recheio

Fonte: Sociodemographic, anthropometric and behavioural risk factors for ultra-processed food consumption in a sample of 2-9-year-olds in Brazil. Public Health Nutrition 2018

Teses relacionadas:

MAIS, Laís Amaral. Estudo das práticas parentais de alimentação entre escolares brasileiros. 2017. 188f. Tese (Doutorado em Ciências) – Escola Paulista de Medicina, Universidade Federal de São Paulo, São Paulo, 2017.

WARKENTIN, Sarah. Estudo das práticas parentais de alimentação entre pré-escolares brasileiros. 2017. 188f. Tese (Doutorado em Ciências) – Escola Paulista de Medicina, Universidade Federal de São Paulo, São Paulo, 2017.

Artigos Relacionados:

MAIS, Laís Amaral; WARKENTIN, Sarah; VEGA, Juliana Bergamo; LATORRE, Maria do Rosário Dias de Oliveira; CARNELL, Susan; TADDEI, José Augusto de Aguiar Carrazedo. Sociodemographic, anthropometric and behavioural risk factors for ultra-processed food consumption in a sample of 2-9-year-olds in Brazil. Public Health Nutrition, v. 21, n. 1, p. 77-86, jan. 2018. Disponível em: <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/28988543>. Acesso em: 7 jun. 2018.

MAIS, Laís Amaral; WARKENTIN, Sarah; LATORRE, Maria do Rosário Dias de Oliveira; CARNELL, Susan; TADDEI, José Augusto de Aguiar Carrazedo. Validation of the comprehensive feeding practices questionnaire among Brazilian families of school-aged children. Frontiers in Nutrition, v. 2, nov. 2015. Disponível em: <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4630658/pdf/fnut-02-00035.pdf>. Acesso em: 7 jun. 2018.

WARKENTIN, Sarah; MAIS, Laís Amaral; LATORRE, Maria do Rosário Dias de Oliveira; CARNELL, Susan; TADDEI, José Augusto de Aguiar Carrazedo. Validation of the comprehensive feeding practices questionnaire in parents of preschool children in Brazil. BMC Public Health, v. 16, jul. 2016. Disponível em: <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4952239/>. Acesso em: 7 jun. 2018. 

MAIS, Laís Amaral; WARKENTIN, Sarah; LATORRE, Maria do Rosário Dias de Oliveira; CARNELL, Susan; TADDEI, José Augusto de Aguiar Carrazedo. Parental feeding practices among Brazilian school-aged children: associations with parent and child characteristics. Frontiers in Nutrition, v. 4, mar. 2017. Disponível em: <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/28377921>. Acesso em: 7 jun. 2018.

WARKENTIN, Sarah; MAIS, Laís Amaral; LATORRE, Maria do Rosário Dias de Oliveira; CARNELL, Susan; TADDEI, José Augusto de Aguiar Carrazedo. Factors associated with parental underestimation of child's weight status. Jornal de Pediatria, v. 94, n. 2, p. 162-169, mar./abr. 2018. Disponível em: <https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S002175571630300X?via%3Dihub>. Acesso em: 7 jun. 2018.

FREITAS, Fabrícia R.; MORAES, Denise E.B.; WARKENTIN, Sarah; MAIS, Laís Amaral; IVERS, Júlia F.; TADDEI, José Augusto de Aguiar Carrazedo. Maternal restrictive feeding practices for child weight control and associated characteristics. Jornal de Pediatria, fev. 2018. [on-line] Disponível em: <https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0021755717305004?via%3Dihub>. Acesso em: 7 jun. 2018.

Publicado em Edição 10

Evento acontece na próxima terça-feira (16/10) no Mercado Municipal de Santos

Publicado em Eventos Arquivados

Palestra com José Manuel Palma-Oliveira, docente da Universidade de Lisboa

Publicado em Eventos Arquivados

Frutas participam de 98,8% das composições; consumo de açúcar ainda preocupa

Publicado em RELEASES
Terça, 31 Maio 2016 15:40

Edição 6 - Entreteses

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Versão em PDF

Junho 2016

Nessa edição, Entreteses apresenta um amplo debate sobre a problemática das drogas lícitas e ilícitas em nosso país. Pesquisadores da Unifesp abordam, entre outros temas, a dependência, o tratamento, os impactos, já verificados, criados pela legalização total ou parcial do comércio da maconha, o mercado bilionário do tráfico, as mortes e doenças associadas ao consumo do álcool e tabaco – e que poderiam ser evitadas –, a importância da atuação das universidades na elaboração de políticas públicas nessa área e na capacitação de profissionais para lidar com a questão e quebrar o estigma que a envolve.

A edição também aborda o combate ao mosquito Aedes aegypti e a proliferação de doenças como dengue, zika e chikungunya. À frente dos estudos preparatórios para a introdução da vacina da dengue no Brasil, o infectologista e professor da instituição Marcelo Nascimento Burattini explica os motivos pelos quais a luta contra o mosquito – erradicado no Brasil em 1955 e reintroduzido 12 anos depois devido ao relaxamento das medidas de combate – é tão difícil.

A seção “perfil” é dedicada ao hematologista Michel Pinkus Rabinovitch. Sua paixão pela ciência e sua busca pela cura do câncer faz com que, aos 90 anos, ainda pesquise moléculas com efeito antitumoral.

As mais de 40 páginas seguintes divulgam pesquisas de diversas áreas do conhecimento e abrangem temas de várias áreas do conhecimento, incluindo câncer, igualdade de gênero, engenharia tecidual, nanotecnologia, toxicologia, dependência de redes sociais, além de um vírus ainda pouco divulgado: o HTLV (vírus T-linfotrópico humano). Considerado “primo” do HIV, seus impactos no organismo podem ser cruéis e levar o indivíduo a desenvolver até mesmo leucemia.

Expediente

Editorial :: Pesquisadores enfrentam os desafios de nossa época

Carta da reitora :: As drogas e a universidade pública

APG :: Quando a ciência provoca deslumbramento

Entrevista • Marcelo Burattini  :: “Só a vacina não resolve, temos que mudar a atitude”

Perfil • Michel Rabinovitch :: “Na ciência, é preciso ser anarquista”

História e filosofia da ciência  :: Contágio, miasmas e microrganismos

Especial • Drogas :: Um desafio do século XXI

Álcool :: Problemas causados pelo consumo custam 7,3% do PIB

Maconha  :: Um mercado de 300 bilhões de dólares

Tabaco :: Principal causa de mortes evitáveis no mundo

Drogas sintéticas  :: Uma nova ameaça à saúde pública

Políticas públicas :: Participação da universidade é decisiva no país

Prevenção :: Educação continuada capacita profissionais

Assistência :: Microrregulação do acesso aos serviços das UBSs ainda é um desafio

Câncer :: Nova esperança para o diagnóstico

Zika vírus :: Muito além da microcefalia

Mal dos tempos :: Jovens desenvolvem dependência de redes virtuais

Neurologia  :: Enxaqueca em crianças está associada a déficit de atenção

Nutrição :: Crianças brasileiras consomem mais frutas

Síndrome metabólica :: Tratamento de obesidade demanda cuidado interdisciplinar

DST • HTLV :: Doença negligenciada

Toxicologia :: Manganês: um risco invisível

Farmacologia :: Pesquisadores apostam em nanotecnologia verde

Polímeros :: A incorporação de biocerâmica em polímeros anuncia novidades na engenharia tecidual

Feminismo :: Preconceito distorce luta pela igualdade de gênero 

 


Outras edições da Entreteses:

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Publicado em Entreteses

Pesquisa revela o que os pequenos comem entre o intervalo das principais refeições; frutas participam de 98,8% das composições dos lanches. No entanto, o consumo de açúcar ainda preocupa

Daniel Patini

Uma montagem com vários círculos coloridos e frutas

Um estudo realizado de forma conjunta entre professores e pós-graduandos do Departamento de Pediatria da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp), da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP/USP), do Centro de Dificuldades Alimentares do Instituto Pensi (Hospital Infantil Sabará) e do curso de Nutrição da Universidade São Judas Tadeu, com o apoio da Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN), descreveu os hábitos alimentares de crianças em idade pré-escolar em relação ao consumo dos lanches intermediários, que são aqueles feitos entre as principais refeições.

No estudo identificaram-se os principais grupos alimentares que entram nos lanches intermediários e modelizou-se o plano alimentar desta refeição intermediária, baseado na frequência dos mais encontrados, e montaram-se cardápios típicos para as regiões brasileiras e níveis socioeconômicos.

Foram analisadas as respostas dos pais ou responsáveis de 1.391 crianças, com idade entre 4 e 6 anos, de todas as regiões do Brasil. Uma segunda fase está em publicação com os dados referentes à faixa etária de 7 a 11 anos. No projeto identificou-se que lanche intermediário foi consumido por 98,20% das crianças brasileiras, sendo compostos, em média, por três grupos de alimentos: frutas, biscoitos e iogurtes. O lanche da tarde, no geral, foi mais frequente (96,69%) que o lanche da manhã (71,17%). 

Além disso, foi constatado também que o valor calórico desses lanches estava de acordo com o preconizado (entre 180 e 270 kcal). Entretanto, o lanche da manhã da região Centro-Oeste e o lanche da tarde da região Sudeste se mostraram abaixo da recomendação, com 146 kcal e 168 kcal, respectivamente. A média calórica dos lanches intermediários do Brasil, considerando nível socioeconômico e gênero, variou de 190 a 250 kcal.

“Porém, o lanche da tarde mostrou-se mais calórico e com consumo mais frequente de alimentos variados com baixo valor nutricional e com alto teor de açúcares de adição, como balas, sorvetes e chocolates”, revela o pediatra e nutrólogo Mauro Fisberg, que é professor associado do Setor de Medicina do Adolescente da EPM/Unifesp e um dos coordenadores do estudo. O consumo de açúcar de adição, somadas as quantidades de açúcares do lanche da manhã e da tarde, no geral, aproximou-se do limite recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para a dieta de uma criança de 4 a 6 anos: 22,5 gramas por dia.

Na Região Centro-Oeste, por exemplo, os lanches atingiram sozinhos esse limite, apresentando um consumo de 29,6 gramas/dia (131,5% do limite). Somente o lanche da tarde (21,4 g) contribui com quase a totalidade da recomendação para o dia. Tal contribuição é explicada pela composição do lanche da tarde dessa região, formado pelos alimentos consumidos com maior frequência pelas crianças: biscoito doce com recheio, banana e suco de frutas industrializado. 

Já a ingestão de frutas em geral esteve presente em 98,8% das composições de lanches estudadas, que pode ser entendida como uma tendência de melhoria da educação nutricional no Brasil. O leite e bebidas à base de leite estiveram presentes em quase 10% das composições de lanches e o suco compôs 8,3% dos lanches intermediários estudados. O refrigerante apresentou frequência de ingestão próximo a 5% no lanche da tarde das crianças. 

“A composição dos lanches intermediários é de suma importância, uma vez que são oportunidades para o preenchimento das necessidades nutricionais das crianças desta faixa etária, que precisam de aporte nutricional adequado por estarem em período de crescimento e desenvolvimento”, explica o professor.

O lanche ideal

Segundo o Manual de Orientação do Departamento de Nutrologia da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), durante a idade pré-escolar, é recomendado que sejam realizadas as refeições principais (café da manhã, almoço e jantar) com três lanches intermediários entre elas: lanches da manhã, tarde e noite, em horários regulares e com intervalos entre 2 e 3 horas, suficientes para que a criança sinta fome na próxima refeição. 

Equipe de pesquisadores, estão sentados lado a lado em um sofá

Mauro Fisberg, Ana Del'Arco, Agatha Previdelli e Carlos Nogueira-de-Almeida

Da mesma forma que nas refeições principais, eles devem incluir grupos de alimentos que forneçam macronutrientes – carboidratos, lipídios e proteínas –, fibras e também micronutrientes - vitaminas e minerais. Recomenda-se também que as crianças sejam constantemente hidratadas. “Na elaboração dos lanches, a presença de alimentos in natura é muito importante, além de produtos que sejam práticos para a realização desta refeição”, ressalta Fisberg.

De acordo com as recomendações dietéticas do Manual do Lanche Saudável da SBP, o lanche intermediário para ser considerado saudável deve ser composto por uma fruta, um tipo de carboidrato e um alimento fonte de proteína, quase sempre láctea. Se houver possibilidade de oferta, a bebida deveria ser a água. Se houver oferta de sucos, que sejam não adoçados. 

Para o médico, os lanches devem ser planejados e preparados pela família ou pela escola, no intuito de agregar valor nutricional ao mesmo, preenchendo as recomendações nutricionais, diferenciando assim o lanche daquele momento de consumir alimentos de forma irregular ou ocasional, denominado como “beliscar”.

Lanche da manhã e da tarde

As composições verificadas nos lanches da manhã das crianças brasileiras foram caracterizadas, em geral, pelos mesmos grupos alimentares: frutas em geral (40,34%), biscoitos em geral (33,28%) e iogurtes em geral (22,34%), entre outros. Vale destacar que cerca de 6% das crianças brasileiras consumiram balas e/ou pirulitos no lanche da manhã. 

Especificamente dentro do grupo dos biscoitos, o tipo doce foi consumido com maior frequência, sendo o biscoito doce sem recheio o mais frequente para o Brasil total entre os meninos e para os níveis socioeconômicos A, B e C; já para as meninas e entre as crianças dos níveis D e E, o biscoito doce com recheio foi o consumido com maior frequência, 13,60% e 14,83% respectivamente. 

Em relação ao lanche da tarde, o estudo verificou que o grupo de alimento mais frequente foi o dos biscoitos em geral (79,44%), seguido pelas frutas em geral (58,10%) e pelos iogurtes em geral (41,33%). Tal composição de lanche da tarde difere apenas para o nível socioeconômico C, no qual o grupo do leite e bebidas à base de leite foi o terceiro grupo consumido com maior frequência. 

O consumo de alimentos com alto teor de açúcares de adição (como balas, sorvetes e chocolates) aparece com frequência superior a 5% no momento de consumo do lanche da tarde para todos os níveis socioeconômicos e entre as meninas e os meninos. A frequência de consumo destes grupos entre as crianças brasileiras foi de 20,49% para o grupo das balas e/ou pirulitos, 17,76% para o grupo dos sorvetes e sobremesas lácteas e de 16,75% para o grupo dos chocolates.

Macro e micronutrientes

Em relação aos macronutrientes, o consumo médio de proteínas em todas as regiões do país foi de 5 gramas em cada lanche. O consumo de gordura total foi maior na região Norte e Nordeste (consideradas em conjunto pelo trabalho), com pico de 8,6 gramas para o lanche da manhã, seguido por 8,3 gramas no lanche da manhã da região Sudeste e 7,6 gramas no lanche da manhã da região Sul. Já o consumo de gordura das meninas (média de 6,8 g) foi maior quando comparado ao consumo dos meninos (média de 6,45 g). 

O carboidrato foi ingerido na quantidade média de 31,9 g no lanche da manhã e de 36,7 g no lanche da tarde no geral, sendo sempre maior o consumo no lanche da tarde. Em média, as meninas (35,05 g) consumiram mais carboidrato que os meninos nos lanches (33,50 g). 

Quanto aos minerais, verificou-se que o consumo de cálcio foi de 120 mg no lanche da manhã e de 125 mg no lanche da tarde, quando avaliados os lanches das crianças na amostra total. Os maiores consumos de cálcio foram verificados no lanche da manhã da região Sudeste, com 186 mg, e da região Sul, com 163 mg. “O grupo dos iogurtes em geral e o grupo do leite e das bebidas à base de leite esteve presente em 93% das composições, o que explica o consumo de cálcio reportado”, esclarece Fisberg.

O lanche da tarde foi o que mais contribuiu com a ingestão de ferro para todas as regiões. No geral, o consumo de ferro foi de 1,82 mg no lanche da manhã e de 2,15 mg no lanche da tarde. Já a ingestão de sódio foi de 457 mg quando somadas as quantidades médias dos lanches intermediários das composições de lanches do Brasil.

A soma da quantidade de vitamina C nos lanches da manhã e da tarde atingiu a recomendação de 30 mg dessa vitamina estabelecida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) nos níveis socioeconômicos, em ambos os sexos e na maioria das regiões, exceto nas regiões Norte e Nordeste (11 mg) e na região Sul (10 mg).

Padrões alimentares

Uma alimentação balanceada requer rotinas alimentares diárias bem definidas, pois não só a qualidade e a quantidade da alimentação oferecida à criança são importantes, mas também os horários das refeições; não sendo diferente para os lanches intermediários. “A falta de disciplina e controle familiar costuma ser a maior causa de dificuldades alimentares”, lembra Fisberg.

Ela ressalta ainda que os pais são responsáveis pelas escolhas e pela formação dos hábitos alimentares das crianças, uma vez que são eles quem disponibilizam os alimentos, saudáveis ou pouco saudáveis, que serão consumidos por elas.

A população infantil é, do ponto de vista psicológico, socioeconômico e cultural, influenciada pelo ambiente onde vive, preferindo os alimentos facilmente disponíveis e habitualmente servidos em casa. “Além da família, o ambiente escolar também é responsável pela formação e manutenção dos hábitos alimentares das crianças”, explica o pesquisador.

A mudança dos padrões de comportamento ajudaria a explicar o contínuo aumento da adiposidade nas crianças, por haver redução da atividade física e no consumo de frutas, hortaliças e leite e aumento na ingestão de bolachas recheadas, salgadinhos, doces e refrigerantes, como constatado nos lanches intermediários, além da omissão de refeições, principalmente o café da manhã.

“O comportamento alimentar de risco está ficando precoce e doenças de adultos hoje também são pediátricas”, analisa o médico. “Hipertensão arterial e resistência à insulina, por exemplo, são observadas atualmente em idades cada vez mais precoces”, finaliza.

Gráfico Consumo de açúcar nos lanches intermediários de crianças no Brasil. Consumo médio de açúcar de adição (gramas) do Brasil, segundo macrorregiões, níveis socioeconômicos e gênero, no lanche da tarde, para a faixa etária de 4 a 6 anos.

Artigo relacionado:
FISBERG, Mauro; DEL’ARCO, Ana Paula Wolf Tasca; PREVIDELLI, Agatha; TOSATTI, Abykeyla Mellisse; NOGUEIRA-DE-ALMEIDA, Carlos Alberto. Hábito alimentar nos lanches intermediários de crianças pré-escolares brasileiras: estudo em amostra nacional representativa. International Journal of Nutrology, v. 8, n. 4, p. 58-71, set/dez. 2015. Disponível em:< http://www.abran.org.br/RevistaE/index.php/IJNutrology/article/view/191/181 >. Acesso em: 13 abr. 2016.

Publicado em Edição 06

Além da alta aceitabilidade, os novos produtos criados no Campus Baixada Santista oferecem mais fibras e proteínas que os pães tradicionais

Da Redação
Com a colaboração de Patricia Zylberman

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Presente em parte das dietas da moda, o pão sem glúten é um produto que, cada vez mais, desperta o interesse do público. Apesar do expressivo crescimento desse mercado nos últimos anos, ainda há dificuldade de acesso aos alimentos isentos de glúten devido ao elevado preço e à disponibilidade limitada; por outro lado, a pouca atratividade que esses produtos exercem para os consumidores decorre da aparência, textura, sabor e baixa variedade. Todos os fatores mencionados constituem um obstáculo à manutenção da dieta, comprometendo a saúde e a qualidade de vida das pessoas com esse tipo de restrição alimentar, como os doentes celíacos. 

Fernanda Garcia dos Santos, nutricionista e aluna de mestrado do programa de pós-graduação Interdisciplinar em Ciências da Saúde do Instituto de Saúde e Sociedade (ISS/Unifesp) – Campus Baixada Santista, resolveu enfrentar o desafio e, literalmente, colocou a mão na massa. Como integrante do projeto coordenado por Vanessa Dias Capriles, docente do curso de Nutrição, desenvolveu formulações adequadas de pães sem glúten, mediante a utilização de farinhas integrais de trigo sarraceno, sorgo e grão-de-bico. Os resultados obtidos valeram-lhe o terceiro lugar na categoria Mestre e Doutor da 28ª edição do Prêmio Jovem Cientista (2014), promovido pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

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Fernanda Garcia dos Santos (à direita) e sua orientadora Vanessa Dias Capriles, em laboratório do Campus Baixada Santista

Paralelamente a essa atividade de pesquisa, Fernanda desenvolve – com o apoio de bolsa fornecida pela Capes – o projeto de mestrado, no qual amplia a análise sobre a qualidade tecnológica, aceitabilidade e composição dos pães sem glúten, preparados exclusivamente com farinha integral de grão-de-bico.

O projeto coordenado por Vanessa Dias Capriles, cujo subsídio financeiro proveio do programa Jovem Pesquisador - Fapesp (processo n.º 2012/17838-4), possibilitou a criação do Laboratório de Tecnologia de Alimentos e Nutrição e o desenvolvimento dessa linha de pesquisa no Campus Baixada Santista. A equipe de pesquisadores do projeto, que adota abordagens específicas para superar os desafios tecnológicos e nutricionais envolvidos na panificação sem glúten, testou a utilização de diferentes tipos de farinhas integrais. Procedeu-se à combinação de diferentes proporções das farinhas, que foram adicionadas à farinha de arroz e à fécula de batata, ingredientes estes comumente utilizados nos pães sem glúten tradicionais. No total foram investigadas 30 formulações experimentais. As técnicas aplicadas permitiram definir a composição das formulações que apresentavam simultaneamente os melhores resultados tecnológicos, sensoriais e nutricionais.

Em relação ao preparo dos pães com as farinhas integrais de trigo sarraceno, sorgo e grão-de-bico, a nutricionista realizou a pesagem de todos os ingredientes em uma balança semianalítica; depois, utilizou uma batedeira semi-industrial para misturá-los e aguardou a fermentação da massa em uma câmara controlada, o que – segundo ela – proporciona maior controle da umidade e da temperatura. Por último, assou a massa em um forno elétrico para pães e resfriou-a por cerca de duas horas à temperatura ambiente (23-25°C).

Após a produção dos pães sem glúten, a pesquisadora analisou as propriedades físicas de cada formulação, utilizando o texturômetro, que avalia a maciez dos pães, e o determinador de volumes, que mede sua expansão.

A composição do alimento, ou seja, a quantidade de fibra alimentar, lipídios, proteínas e carboidratos, foi obtida por meio de medições efetuadas no Laboratório de Bromatologia; para a verificação da segurança, que seguiu os critérios microbiológicos estabelecidos na legislação de alimentos, foram realizadas análises no Laboratório de Microbiologia de Alimentos.

Por fim, a qualidade sensorial do produto foi aferida mediante a aplicação de testes de aceitabilidade conduzidos no Laboratório de Análise Sensorial. Visando à maior participação da comunidade nos testes, a pesquisadora afixou cartazes convidativos no campus e inseriu anúncios em um grupo da rede social. Cada amostra foi avaliada por 50 consumidores em potencial, que atribuíram notas de 0 a 10 à aparência, à cor, ao aroma, à textura, ao sabor e ao produto como um todo.

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Pães prontos de trigo sarraceno, sorgo e grão-de-bico, ao lado dos respectivos grãos e farinhas. Para a produção do alimento, as pesquisadoras misturaram farinha de arroz e fécula de batata

Ao término da fase experimental, em que foram testadas diferentes tipos de farinhas integrais, a equipe concluiu que é possível utilizar elevadas proporções desses componentes (64-75%) para a elaboração de pães sem glúten. Desse modo, obtêm-se produtos nutricionalmente melhorados e com o mesmo grau de aceitabilidade (entre 7,5 e 8,3) dos pães sem glúten convencionais e até mesmo dos pães feitos com farinha de trigo (que apresentam aceitabilidade em torno de 8,0). O custo médio com as matérias-primas para obtenção dos novos pães sem glúten foi de R$1,02/100g de pão –, o que representa um terço da média do preço dos pães sem glúten disponíveis no comércio de algumas cidades brasileiras, também avaliadas pelo grupo (preço médio R$3,28, com a variação de R$1,80 a R$9,77/100g de pão), indicando a possível viabilidade desses produtos em escala comercial.

No caso específico das experimentações com a farinha de grão-de-bico – que constitui o foco da pesquisa de mestrado desenvolvida por Fernanda Garcia dos Santos – as conclusões vêm surpreendendo os especialistas da área de alimentos e nutrição. Mostrou-se que é possível produzir pães sem glúten de boa qualidade, utilizando-se apenas a farinha de grão-de-bico, independentemente da combinação com outras farinhas e amidos. O produto atingiu o mesmo grau de aceitabilidade que os pães tradicionais, feitos com farinha de trigo, embora se diferencie deles por apresentar maiores teores de fibras e proteínas, além de uma coloração amarelada, característica do grão-de-bico.

Premiação 

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Fernanda e Vanessa no dia da premiação, junto à presidente Dilma Rousseff

Os resultados inovadores obtidos por Fernanda na elaboração de pães sem glúten à base de farinhas integrais de trigo sarraceno, sorgo e grão-de-bico garantiram-lhe o 3º lugar na categoria Mestre e Doutor do Prêmio Jovem Cientista (2014), cujo tema foi a segurança alimentar e nutricional. “Conversei com minha orientadora, que apoiou minha inscrição e me incentivou a enviar o projeto. Para nossa felicidade, fomos agraciada com o 3º lugar”, confirmou. 

Além da quantia em dinheiro, a nutricionista foi contemplada com uma bolsa de estudos para o doutorado, o que – segundo ela – constitui um incentivo à continuidade da pesquisa. A cerimônia de premiação aconteceu no dia 15 de setembro no Palácio do Planalto, em Brasília.

Novas metas do projeto

Como próximo passo, a equipe de pesquisadores pretende verificar os aspectos relacionados à viabilidade comercial dos novos produtos. O problema imediato a ser enfrentado é o da preservação do alimento. “Fernanda realizará alguns testes com aditivos geralmente utilizados na elaboração de pães para garantir que fiquem macios, com uma textura adequada, e durem ao menos sete dias na casa das pessoas”, adianta a professora Vanessa.

Outros trabalhos estão em andamento, nos quais o grupo testa diferentes tipos de farinhas integrais e ingredientes que possam melhorar a qualidade dos pães sem glúten.

Um dos objetivos do projeto é possibilitar que os novos produtos cheguem à mesa dos que necessitam desse tipo especial de alimento. Considerando o elevado potencial das formulações, a docente já entrou em contato com o Núcleo de Inovação Tecnológica (NIT), órgão assessor da Reitoria da Unifesp.

Projeto: SANTOS, Fernanda Garcia dos; CAPRILES, Vanessa Dias. Inovação para o desenvolvimento de pães sem glúten de boa qualidade tecnológica, nutricional e sensorial: contribuições para o tratamento dietético de doentes celíacos e demais intolerantes ao glúten. São Paulo, 2014. [Projeto contemplado com o 3.º lugar na categoria Mestre e Doutor da 28.ª edição do Prêmio Jovem Cientista (2014), instituído pelo CNPq]

Mitos e verdades sobre um dos “vilões” das dietas

Apontado como um dos vilões do emagrecimento, o glúten tem sido abolido em parte das dietas atuais. Algumas pessoas estão convictas de que perderam peso após excluí-lo de sua alimentação diária, e outras asseguram que o funcionamento do intestino, nesse caso, melhora. Uma dieta sem glúten é realmente eficaz ou isso não passa de mito?

Vanessa Dias Capriles, docente em Nutrição do Instituto de Saúde e Sociedade (ISS/Unifesp) – Campus Baixada Santista, afirma que “não há nenhuma evidência científica que mostre que o glúten engorda ou faz mal. A proteína do trigo afeta somente as pessoas que têm diagnóstico comprovado de alergia ou intolerância”.

A seu ver, esse mito é incentivado pela mídia. “É um modismo alimentar que atingiu níveis mundiais. Converso com pesquisadores americanos e europeus, que ressaltam a popularização dessa ideia por meio das mídias sociais”, complementa.

Além disso, a procura por alimentos isentos de glúten ampliou-se consideravelmente. “O mercado em questão, que há dez anos era pequeno e destinava-se apenas aos celíacos e aos intolerantes a essa proteína, tem crescido muito”, explica a nutricionista. “É uma tendência que vem aumentando cada vez mais, assim como a busca por produtos sem lactose – tudo isso na esteira de uma questão estética e de emagrecimento sem fundamento científico”, finaliza.

Publicado em Edição 05
Quinta, 15 Outubro 2015 09:53

Edição 5 - Entreteses

banner entreteses 05 -Médico e indígena retratados de perfil com o texto projeto xingu 50 anos

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Novembro 2015

Há 50 anos, a Unifesp cuida da saúde dos povos que vivem no Parque Indígena do Xingu (PIX). Graças ao Projeto Xingu, iniciativa pioneira implementada pela Escola Paulista de Medicina (EPM), o alto índice de mortalidade dessa população, decorrente das grandes epidemias na região, foi reduzido e houve um significativo aumento populacional das etnias.

Encabeçado pelo Prof. Roberto Baruzzi, após o convite do sertanista e então diretor do PIX Orlando Villas Bôas, o Projeto Xingu já levou mais de 500 profissionais da área da saúde (entre professores, médicos, enfermeiros e estudantes) ao local para prestar assistência e, por meio da pesquisa científica, ajudar a melhorar a saúde desses povos. Trata-se de uma história construída a partir de um delicado processo de aprendizado e respeito às culturas – tão diferentes – e que é contada em 30 páginas dessa edição.

Ainda nesse número, apresentamos, pesquisas na área de Nutrição e Informação em Saúde, uma entrevista exclusiva com a secretária especial de Políticas para as Mulheres do Ministério das Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos, Eleonora Menicucci de Oliveira, na qual ela fala, entre outros temas, sobre feminicídio e atenção humanizada aos casos de abortamento no Brasil.

No perfil, trazemos um dos mais antigos e renomados pesquisadores da Cannabis sativa do país, o diretor do Centro Brasileiro sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid) e professor emérito da Unifesp, Elisaldo Carlini.


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