Projeto de Extensão no Campus Osasco leva em conta a percepção dos moradores de áreas vulneráveis na elaboração de estudos e propostas para a região

Ana Cristina Cocolo

Foto da comunidade: barracos e um corrego, com lixo espalhado em suas águas

O projeto visa contribuir para a elaboração de políticas públicas para os recursos hídricos na região de Osasco

Um levantamento socioeconômico e ambiental na cidade de Osasco, realizado por alunos de graduação da Escola Paulista de Política, Economia e Negócios (EPPEN) da Unifesp – Campus Osasco, tem por objetivo apreender como os moradores que vivem no entorno de córregos enxergam a sua relação com as águas e com suas condições de vida. A pesquisa busca oferecer subsídios à criação de linhas de ensino, pesquisas, programas, ações e propostas de políticas públicas em uma perspectiva interdisciplinar, multidisciplinar e transdiciplinar nas áreas de meio ambiente, justiça, direitos humanos, saúde e administração pública.

O estudo faz parte do projeto de extensão universitária do campus e pretende entender as dificuldades e as potencialidades das políticas públicas relacionadas aos recursos hídricos e uso da água, à ocupação urbana e às questões ambientais na cidade desenvolvidas pela prefeitura. Para isso, uma equipe do campus – composta por cinco alunos de graduação (três bolsistas e dois voluntários) e três professores na coordenação – foi encarregada de colher dados com moradores e líderes comunitários de duas comunidades (Fazendinha e Raio de Luz) estabelecidas, respectivamente, no Jardim Padroeira. Nas entrevistas, os alunos captaram as percepções desses moradores sobre os córregos, os problemas, as carências e a efetividade limitada de políticas públicas que refletem diretamente em sua qualidade de vida.

De acordo com Karen Fernandez Costa, cientista política e uma das coordenadoras do levantamento, o trabalho, iniciado em maio de 2013, também envolve escutar órgãos públicos, em especial a prefeitura e suas secretarias, organizações não governamentais (ONG) e membros do Programa de Agentes Comunitários (PAC) da Unidade Básica de Saúde (UBS) Getulino José Dias. “O projeto está possibilitando maior comunicação e interação entre a academia e a população local, que é o escopo da extensão universitária, para compreender as condições de privação presentes em regiões periféricas de alta vulnerabilidade social”, explica. “ Através da observação crítica estamos identificando as demandas latentes das comunidades entrevistadas para pensar em políticas públicas dentro das capacidades reais dos órgãos administrativos oficiais”.

Alguns alunos e moradores, em um retrato em grupo

Parte da equipe dos alunos de graduação que participaram do projeto

Além de objeto de discussão entre os envolvidos, os resultados do projeto – que também conta com a coordenação dos cientistas sociais Fábio Alexandre dos Santos e Ana Paula Galdeano Cruz – serão apresentados nos congressos de extensão universitária e iniciação científica da Unifesp após sua catalogação, prevista para acontecer em novembro.

Panorama geral da região

O município de Osasco, localizado na região metropolitana de São Paulo, possui 65 km2 de área. É uma das mais ricas e populosas cidades do estado de São Paulo, com cerca de 700 mil habitantes. A atividade econômica do município apresenta grande dinamismo, principalmente nos setores comercial e de serviços. De acordo com dados de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o município ocupa o 12º lugar no cenário nacional e o 4º no estado em relação ao PIB (Produto Interno Bruto). Apesar de ser considerada “cidade trabalho” e ter um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) alto, a incidência da pobreza na região é de 38,75%.

A região metropolitana de São Paulo, na qual Osasco está inserida, apresenta um dos quadros mais preocupantes do país quanto a quantidade e qualidade de água para consumo humano e, de acordo com especialistas, já sofre de estresse hídrico. A região também apresenta inúmeros problemas sociais e desafios políticos no que se refere a violência urbana, habitação, rede de esgoto e estações de tratamento.

Para Fábio Alexandre dos Santos, o grande desafio das metrópoles do país é formular caminhos e estratégias para solucionar problemas imediatos. Porém, com olhar a longo prazo, de modo a se pensar na urgência de agir conjuntamente em prol de políticas públicas sustentáveis que reduzam os índices de pobreza e que convirjam às obras de despoluição, tratamento de resíduos, entre outros, além de programas de educação, de cidadania e de gestão eficaz dos recursos naturais.

Em 2007, a prefeitura lançou o projeto “Recuperação de Minas e Nascentes”, com o objetivo de conscientizar a população sobre a importância de se preservar as águas e incentivar a percepção de que esse recurso natural é um bem finito e essencial à vida humana. Foram identificadas 105 nascentes, 31 das quais revitalizadas. “Segundo o secretário de Meio Ambiente do município, Carlos Marx, as ações ainda não atingiram o seu limite e é possível avançar mais nesse programa”, afirma Karen. “Há, no entanto, dificuldades relacionadas com as nascentes aterradas por empreendimentos imobiliários e com a desapropriação dos imóveis construídos sobre ou próximos às nascentes”. 

Projeto de Extensão Universitária: A percepção dos moradores sobre as águas do córrego João Alves. Um levantamento socioeconômico e ambiental como subsídio para políticas públicas de Osasco

Autores: Ana Paula Galdeano Cruz, Fábio Alexandre dos Santos, Karen Fernadez Costa

Equipe de alunos: Alexandre Rosenberg, Rebeca Marques Rocha, Rodrigo Guth Esteves, Mariana Venturini, Paula Heiss

Artigo relacionado: GALDEANO, Ana Paula; FELTRAN, Gabriel. As periferias de São Paulo: novas dinâmicas e conflitos. Revista Contraste. No prelo.

Publicado em Edição 02
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