Encontro, em parceria com a UFABC, ocorrerá no dia 19 de outubro no anfiteatro do edifício da Reitoria

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Quinta, 03 Maio 2018 14:39

Segurança pública ou genocídio?

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De 27 a 29 de março de 2017

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Sexta, 09 Dezembro 2016 15:24

Um estupro a cada 11 minutos

Pesquisas realizadas entre jovens indicam que a cultura do machismo e a violência contra a mulher no Brasil podem ser diminuídas por meio de processos educativos

Lu Sudré

A cada 11 minutos uma mulher é estuprada no Brasil, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), divulgados em 2015. A violência de gênero atinge centenas de mulheres diariamente de diversas formas: assédio, violência doméstica, feminicídio, cultura do estupro, machismo, entre outros. Ela perpetua-se na sociedade e constroe um mundo cada vez mais perigoso para o gênero feminino.

“Podemos identificar a violência de gênero desde suas expressões mais sutis no cotidiano, como as 'cantadas' ouvidas pelas mulheres nos espaços públicos, a objetificação de seus corpos, a ausência de mulheres ocupando espaços de poder até ações de extrema violência como nos casos de violência sexual, física e nos casos de feminicídios”, afirma Marina Milhassi Vedovato, psicóloga e mestra em Ciências pelo Programa de Pós-Graduação em Educação e Saúde na Infância e Adolescência da Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (EFLCH/Unifesp).

Marina define a violência de gênero como a expressão de uma sociedade regida pela ordem patriarcal, ou seja, regida pela dominância masculina. A psicóloga menciona Heleieth Saffioti, socióloga marxista brasileira e estudiosa da violência de gênero. “Para Heleieth, a violência de gênero é uma forma específica de violência que atua no propósito da preservação da organização social de gênero que se fundamenta na hierarquia, nas desigualdades sociais e sexuais”, explica.

Em sua pesquisa de mestrado, intitulada Um Olhar sobre a Violência Sexual nas Práticas Educativas Escolares: Prevenção da Violência de Gênero e da Violação do Corpo Feminino e orientada pela professora Maria Sylvia de Souza Vitalle, a psicóloga aplicou ações educativas a 72 alunos de ambos os sexos, da 6ª e 7ª série do ensino fundamental de uma escola localizada no distrito de Guaianases, extremo leste do município de São Paulo.

A ideia principal do estudo foi incentivar o protagonismo juvenil para que os adolescentes pudessem atuar no enfrentamento da violência de gênero dentro e fora da escola, promovendo um processo de desnaturalização da desigualdade de gênero. A pesquisa foi baseada em metodologia participativa fundamentada em vivências, técnicas lúdicas, dinâmicas de grupos e recursos audiovisuais que fomentaram a discussão de gênero sob a forma de oficinas.

A fim de avaliar o impacto da intervenção na construção de um processo de desnaturalização da desigualdade de gênero, foi aplicado, antes e após as ações educativas, o questionário Gender Stereotyping, que continha perguntas como: “A maioria das mulheres gosta de ser maltratada por homens?”, “Às vezes está certo um homem bater em uma mulher?”, “Homens e mulheres deveriam ter igual responsabilidade pela criação de filhos?”, entre outras.

As respostas dos estudantes após serem submetidos às ações educativas evidenciaram uma diminuição significativa na desconstrução de estereótipos de gênero. “A pesquisa mostra que falar de gênero na escola é uma ferramenta valiosa para a prevenção da violação do corpo feminino. Além disso, desconstruir paradigmas que mantém os estereótipos de gênero é também uma ferramenta importante para prevenir a homofobia, a lesbofobia, a transfobia, o racismo e tantas outras formas de opressão”, endossa a psicóloga.

Marina Milhassi Vedovato

Marina Milhassi Vedovato, autora da pesquisa

A pesquisadora explica que a cultura do estupro consiste em um imaginário construído desde a infância, moldado por comportamentos sociais e sexuais em que os meninos são socializados para exercer uma sexualidade quase incontrolável e as meninas para se submeterem aos desejos masculinos. “Nessa lógica a mulher será sempre culpabilizada pelo ato de violência que vivenciou. Ora culpabilizada pela roupa que usava no momento da violência, ora por andar em via pública à noite sozinha, dentre tantos outros argumentos misóginos”, comenta Marina.

As estatísticas confirmam a análise da psicóloga. Uma a cada três pessoas ainda acredita que a vítima é culpada por ter sido estuprada. Os dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, com pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha, foram divulgados em setembro de 2016. O levantamento escutou a opinião de 3.625 pessoas em 217 cidades de todas as regiões do país.

Cerca de 37% dos entrevistados concordam com a afirmação de que “mulheres que se dão ao respeito não são estupradas”. Entre os homens, a opinião é defendida por 42%. A ideia de que “a mulher que usa roupas ‘provocantes’ não pode reclamar se for estuprada” foi reverenciada por 30% dos entrevistados. Para as mulheres, principais vítimas dessa violência, a história é outra: 85% delas disseram temer a violência sexual.

"Inserir a discussão de gênero nas políticas públicas educacionais, como parte integrante do currículo nacional, é uma tarefa urgente e para isso devemos enfrentar as forças conservadoras e neoliberais presentes na sociedade brasileira, principalmente as instaladas no congresso nacional", finaliza a pesquisadora.

Fotografia mostra uma sombra, com um homem agredindo uma mulher

Dissertação relacionada:

VEDOVATO, Marina Milhassi. Um olhar sobre a violência sexual nas práticas educativas escolares: prevenção da violência de gênero e da violação do corpo feminino. 2015. 205 f. Dissertação (Mestrado em Ciências: Educação e Saúde na Infância e Adolescência) - Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade Federal de São Paulo, Guarulhos, 2015.

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Fotografia mostra uma mulher de cabeça baixa e no primeiro plano a mão de um homem fechada

A prática da violência, especialmente no ambiente doméstico, deixa dolorosas cicatrizes emocionais e pode levar à morte

Lu Sudré
e
Ana Cristina Cocolo

O Brasil é o 5º país no mundo – em um grupo de 83 – em que se matam mais mulheres, de acordo com o Mapa da Violência de 2015, organizado pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso). Entre 2003 e 2013, o número de mulheres mortas em condições violentas passou de 3.937 para 4.762 – o que representou 13 feminicídios por dia –, registrando um aumento de 21% na década. Para as mulheres negras, o índice foi ainda pior: os homicídios, nesse caso, aumentaram 54,2% no mesmo período, passando de 1.864 para 2.875 vítimas.

Dentro das relações interpessoais, a violência doméstica inclui as várias formas de agressão ou negligência que ocorrem no âmbito familiar, onde as mulheres – principalmente as de cor negra – continuam sendo as principais vítimas.

De acordo com o balanço realizado em 2015 pela Central de Atendimento à Mulher, pertencente à extinta Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, do Ministério da Justiça e Cidadania, em 74% dos relatos recebidos pelo serviço Ligue 180, a violência era diária ou semanal. Em 72% dos casos, as agressões foram cometidas por homens com quem as vítimas mantinham ou mantiveram uma relação afetiva.

Do total de casos registrados pelo serviço, 50,16% foram de violência física; 30,33%, de violência psicológica; 7,25%, de violência moral; 2,10%, de violência patrimonial; 4,54%, de violência sexual; 5,17% corresponderam a cárcere privado; e 0,46% referiu-se a tráfico de pessoas.

Pesquisadores do Programa de Atendimento e Pesquisa em Violência (Prove), do Departamento de Psiquiatria da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp) – Campus São Paulo, realizaram um estudo sobre a gravidade de sintomas psicopatológicos em mulheres vítimas de violência doméstica, encaminhadas pela 1ª Delegacia de Defesa da Mulher (DDM), da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo, que apresentavam diversas comorbidades. Com a aplicação dos respectivos instrumentos de avaliação, os resultados obtidos foram os seguintes: 76% foram diagnosticadas com transtorno de estresse pós-traumático, 89% com depressão e 94% com transtorno de ansiedade.

“Nossa pesquisa mostrou que essas mulheres apresentavam muitas alterações no sistema nervoso autônomo (frequência cardíaca e condutância da pele) e prejuízos cognitivos como consequência da violência, tornando-se mais reativas para estímulos desagradáveis, ou seja, evidenciando um estado de alerta constante”, diz Adriana Mozzambani, pesquisadora do Prove.

Foi também observado que muitas mulheres desenvolviam experiências dissociativas peritraumáticas decorrentes do momento do ataque, como paralisia (imobilidade tônica) e dificuldades para lembrar detalhes da agressão. A pesquisadora critica a abordagem midiática sobre os casos de violência doméstica. “Os programas televisivos dramatizam os crimes: de um lado, acusam o criminoso; de outro, romantizam o crime. Não fazem o seu verdadeiro papel, que é a maior divulgação dos direitos das pessoas vítimas de violência doméstica e dos locais onde prestar ocorrência ou procurar ajuda médica e psicológica”, ressalta Adriana.

Carla Gebara, doutora em Ciências pelo Departamento de Psicobiologia da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp) – Campus São Paulo, realizou outro estudo, que analisou a vinculação entre o consumo de bebidas alcoólicas por mulheres e os padrões de violência doméstica, esta decorrente do relacionamento entre os cônjuges ou direcionada aos filhos, a partir de uma amostra comunitária domiciliar representativa de dois bairros com diferentes perfis socioeconômicos. Ao todo, foram entrevistadas 905 mulheres, das quais 6,1% foram identificadas como usuárias de risco, no tocante ao consumo de álcool.

Mulher em um protesto, com uma fita na boca escrito - O silêncio mata

Manifestante na Avenida Paulista (SP) no ato Por Todas Elas, em repúdio à cultura do estupro e à violência contra a mulher (junho/2016)

Os relatos de violência nos últimos três meses que antecederam essa última pesquisa, considerando a mulher como vítima, classificaram-se da seguinte forma: 10,8% como violência física, 48,3% como agressão psicológica, 7,8% como coerção sexual e 4,7% como injúria. No que se refere à prática de violência contra os filhos, 70,5% das mulheres relataram agressão psicológica, 51,4% admitiram o uso de punição corporal e 9,8% praticaram maus-tratos físicos.
A pesquisa de doutorado de Carla, denominada Padrões de Violência Doméstica e Uso de Álcool entre Mulheres de uma Amostra Comunitária Domiciliar, orientada por Ana Regina Noto, professora do Departamento de Psicobiologia da EPM/Unifesp, identificou associações entre a violência de parceiros íntimos e a violência contra os filhos, evidenciando uma circularidade do comportamento agressivo no sistema familiar.

“Os dados do estudo sugerem que, para além dos fatores individuais avaliados, como consumo de álcool, depressão e características sociodemográficas, as situações de violência podem estar ligadas às relações interpessoais estabelecidas no ambiente doméstico. Observa-se que uma mesma pessoa – no caso, a mulher – pode ser tanto agressora quanto vítima em diferentes relações e que o tipo de violência perpetrado se relaciona com o tipo de violência sofrido”, afirma Carla.
A associação encontrada no estudo entre o consumo de álcool pela mulher e a prática de maus-tratos contra os filhos sugere que o álcool estaria relacionado em maior grau à severidade dos atos violentos do que ao simples aumento de sua ocorrência. Sendo assim, o álcool não determinaria tais comportamentos, mas contribuiria para que se manifestassem de forma mais grave ou intensa. “Ao ser controlado por outras variáveis, o uso de risco do álcool não se mostrou associado a nenhum tipo de violência entre parceiros íntimos, perpetrado ou sofrido pela mulher, sugerindo que a relação entre álcool e violência doméstica não se dá de maneira direta, sendo influenciada por outros fatores de vulnerabilidade envolvidos”, complementa a pesquisadora.

Problema que começa na infância

Estudos realizados a partir de 2008 por pesquisadores do Prove apontaram que a exposição à violência entre crianças que trabalhavam nas ruas de São Paulo era tão frequente em casa como no bairro onde viviam, ocasionando-lhes sérios prejuízos para a saúde mental.

A população analisada – composta por 83 famílias – envolveu 191 crianças, das quais 126 trabalhavam nas ruas. Todas elas haviam sido recentemente admitidas no projeto do Instituto Rukha, uma organização não governamental (ONG) que atuou na cidade de São Paulo até 2013, com o intuito de retirar das ruas as crianças que pediam ajuda financeira nos semáforos.

Mais de 50% dessa população revelou sofrer negligência física e emocional por parte de seus cuidadores. Quase 38% relataram abuso físico (castigos) e 18%, abuso sexual. Em relação à saúde mental, os pesquisadores encontraram problemas emocionais em 67,8%. Em 92,7% das famílias, a mãe era a principal cuidadora.

Andre aFeijo De Mello, sentada em frente a um computador

Andrea Feijó de Mello, coordenadora do Prove

O panorama observado em relação a essas crianças foi uma repetição da vivência dos pais na própria infância, já que 73,5% dos cuidadores disseram ter sofrido negligência física, enquanto 66% confirmaram abuso emocional e 29%, violência sexual. Na avaliação do estado de saúde mental desse grupo, verificou-se que 48% apresentavam sintomas depressivos e de ansiedade. A violência conjugal severa foi percebida em 25,5% dos domicílios.

Dois anos depois da atuação multiprofissional do Instituto Rukha junto às famílias – para desestimular o trabalho nas ruas e melhorar o vínculo familiar, a adesão à escola e a habilidade de geração de renda por parte do cuidador –, a análise das condições relacionadas às 178 crianças que permaneceram no projeto mostrou que houve diminuição significativa do abuso físico, de 33,7% para 22%; da negligência física, de 52,2% para 42,4%; e do abuso sexual, de 18% para 13%. Também houve melhora no escore da saúde mental desses jovens, com diminuição de 11,4% (de 62% para 50,6%) na prevalência de sintomas psiquiátricos como enurese e transtornos depressivos e de conduta. “A melhora no estado de saúde mental das crianças após a intervenção foi significantemente correlacionada com o menor nível de sintomas psiquiátricos do cuidador e a diminuição de negligência física infantil”, explica Andrea Feijó de Mello, psiquiatra e coordenadora do Prove.

Artigos relacionados:

MOZZAMBANI, Adriana Cristine Fonseca; RIBEIRO, Rafaela Larsen; FUSO, Simone Freitas; FIKS, José Paulo; MELLO, Marcelo F. de. Psychopathology severity in women victims of violence. Revista de Psiquiatria do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, v. 33, n.1, p. 43-47, 2011. Acesso em: 5 out. 2016. 

MELLO, Andrea Feijó de; MACIEL, Mariana R.; FOSSALUZA, Victor; PAULA, Cristiane S. de; GRASSI-OLIVEIRA, Rodrigo; CAVALCANTE-NÓBREGA, Luciana P.; CIVIDANES, Giuliana C.; SOUSSUMI, Yusaku; SOUSSUMI, Sonia P.; PERISSINOTTI, Dirce N. M.; BORDIN, Isabel A.; MELLO, Marcelo Feijó de; MARI, Jair de Jesus. Exposure to maltreatment and urban violence in children working on the streets in São Paulo, Brazil: factors associated with street work. Revista Brasileira de Psiquiatria, São Paulo: Associação Brasileira de Psiquiatria, v. 36, n. 3, p. 191-198, jul.-set. 2014. Acesso em: 5 out. 2016.

MACIEL, Mariana R.; MELLO, Andrea F. de; FOSSALUZA, Victor; NÓBREGA, Luciana P.; CIVIDANES, Giuliana C.; MARI, Jair de Jesus; MELLO, Marcelo Feijó de. Children working on the streets in Brazil: predictors of mental health problems. European Child and Adolescent Psychiatry, [s.l.], v. 22, n. 3, p. 165-175, mar. 2013. Acesso em: 5 out. 2016.

MELLO, Andrea Feijó de; JURUENA, Mario Francisco; MACIEL, Mariana Rangel; CAVALCANTE-NÓBREGA, Luciana Porto; CIVIDANES, Giuliana C.; FOSSALUZA, Victor; CALSAVARA, Vinicius; MELLO, Marcelo Feijó de; CLEARE, Anthony James; MARI, Jair de Jesus. Factors related to the cortisol awakening response of children working on the streets and siblings, before and after 2 years of a psychosocial intervention. Psychiatry Research, [s.l.], v. 225, n. 3, p. 625-630, 28 fev. 2015. Acesso em: 5 out. 2016.

CAVALCANTE-NÓBREGA, Luciana Porto; MELLO, Andrea Feijó de; MACIEL, Mariana Rangel; CIVIDANES, Giuliana Cláudia; FOSSALUZA, Victor; MARI, Jair de Jesus; MELLO, Marcelo Feijó de. Qualidade de vida de mães de crianças trabalhadoras de rua da cidade de São Paulo, Brasil. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 31, n. 4, p. 827-836, abr. 2015. Acesso em: 5 out. 2016.

CIVIDANES, Giuliana C.; MELLO, Andrea Feijó de; SALLUM, Juliana M.; FOSSALUZA, Victor; MEDEIROS, Marcio de; MACIEL, Mariana R.; CAVALCANTE-NÓBREGA, Luciana P.; MARI, Jair de Jesus; MELLO, Marcelo Feijó de; VALENTE, Nina L. Lack of association between the 5-HTTLPR and positive screening for mental disorders among children exposed to urban violence and maltreatment. Revista Brasileira de Psiquiatria, São Paulo: Associação Brasileira de Psiquiatria, v. 36, n. 4, p. 277-284, out.-dez. 2014. Acesso em: 21 maio 2015.

GEBARA, Carla F. de Paula; FERRI, Cleusa P.; LOURENÇO, Lelio M.; VIEIRA, Marcel de T.; BHONA, Fernanda M. de Castro; NOTO, Ana Regina. Patterns of domestic violence and alcohol consumption among women and the effectiveness of a brief intervention in a household setting: a protocol study. BMC Women’s Health, Londres, v. 15, n. 78, 2015. Acesso em: 5 out. 2016.

BHONA, Fernanda M. de Castro; GEBARA, Carla F. de Paula; NOTO, Ana Regina; VIEIRA, Marcel de T.; LOURENÇO, Lelio M. Inter-relações da violência no sistema familiar: estudo domiciliar em um bairro de baixa renda. Psicologia: Reflexão e Crítica, Porto Alegre, v. 27, n.3, p. 591-598, 2014. Acesso em: 5 out. 2016.

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Armas de fogo matam 1 milhão em 35 anos

Fotografia de um homem segurando uma arma

Vítimas sobreviventes, familiares e amigos sofrem sequelas como o transtorno de estresse pós-traumático, com sérias implicações psicológicas, afetivas e econômicas

Ana Cristina Cocolo

Entre 1980 e 2014, foram registradas no Brasil 967.851 mortes por arma de fogo, 85,8% das quais foram resultantes de agressão com intenção de matar, indica o Mapa da Violência 2016, coordenado pelo sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz, da área de estudos sobre violência da Faculdade Latino–Americana de Ciências Sociais. A violência, quando não mata, deixa sequelas imensuráveis às vítimas e seus familiares. Uma delas é o transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), distúrbio psiquiátrico caracterizado por sintomas físicos, psíquicos e emocionais decorrentes da experimentação ou do testemunho de atos violentos ou situações traumáticas, principalmente as que representam ameaça à vida. 

José Paulo Fiks, psiquiatra e coordenador do Grupo de Pesquisa Qualitativa em Violência e Saúde Mental do Programa de Atendimento e Pesquisa em Violência (Prove) do Departamento de Psiquiatria da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp) – Campus São Paulo, esclarece que a estimativa do TEPT é que ele atinja até cerca de 20% das vítimas de violência. “No entanto, esse índice varia muito entre comunidades”. 

De acordo com ele, em países em situação de paz, ou seja, nos que não há conflitos generalizados, a média de incidência de quadros de TEPT varia de 12% a 20% de casos após a exposição a um evento potencialmente traumático. Já para situações de conflito ou eventos catastróficos a incidência pode chegar a 35% a 40%. “Mas posso afirmar que esses números ainda não são exatamente corretos”.

Entre as explicações para que uma pessoa não desenvolva o TEPT estão os fatores de proteção que podem ser genéticos, religiosos, educacionais, de maternagem (pessoas com boa proteção na infância são mais resilientes), apoio social e ação imediata dos serviços de saúde. “Tudo isso dá uma boa base para que o TEPT não se desenvolva. Mas não há garantias. Não há uma ‘vacina’”, explica Fiks.

Mistura de sentimentos

José Paulo Fiks

José Paulo Fiks

Marcelo Feijo de Mello

Marcelo Feijó de Mello

Mas como a vítima enxerga as repercussões psicológicas da experiência sofrida? Para entender isso, Fiks e o também psiquiatra e chefe do Departamento de Psiquiatria da EPM/Unifesp, Marcelo Feijó de Mello, analisaram 20 indivíduos, com idades entre 18 e 65 anos, de ambos os sexos, vítimas de violência, tais como roubo, rebelião, sequestro, violência doméstica e testemunha de suicídio. Nenhum deles tinha histórico de abuso de substâncias psicoativas, distúrbios psicóticos ou orgânicos. Desses, 16 receberam diagnóstico de TEPT e quatro, apesar de terem experimentado a violência, não desenvolveram o problema.

Para codificar as narrativas foi utilizado a metodologia qualitativa Grounded Theory, em virtude da sua afinidade teórica com a semiótica. Três sentimentos mais citados pelos pacientes emergiram das análises finais das entrevistas: o ódio, o medo e o trauma. 

Fiks explica que o medo e o trauma podem ser parte do espectro de psicopatologia, isto é, do quadro clínico típico do TEPT. Porém, o ódio, que não costuma aparecer em casos traumáticos, nessa pesquisa se tornou o principal conceito do paciente na compreensão do ato violento que leva ao trauma. 

“O ódio realmente não surge nas diretrizes para o diagnóstico, mas em alguns casos – e depende muito também da comunidade afetada – ele aparece como aliado a um desejo de vingança e ao mesmo tempo a um estado de covardia”, afirma o especialista. “É como se o traumatizado estivesse preso no binômio vítima-reparação e muitos fazem suas vidas em torno de processos judiciais, aposentadorias precoces ou até mesmo apelam para a vingança interpessoal. É algo bastante complexo que geralmente aparece no decorrer do tratamento e não na abordagem inicial, quando o paciente ainda está em trauma agudo”.

Para o psiquiatra, esse achado pode auxiliar imensamente na diretriz do tratamento psicoterápico. “Em uma abordagem cognitivo-comportamental, o lugar de vítima-vingador pode ser trabalhado para que o indivíduo deixe de pautar sua vida sobre esse pensamento”, diz. ”No campo da terapia de exposição, cada vez mais indicada no TEPT, os afetos decorrentes dessa posição são manejados. Nas terapias psicodinâmicas, as memórias traumáticas, a desintegração do indivíduo – o que eu era e o que passei a ser –, são examinados para que o traumatizado deixe de viver das memórias traumáticas e se recrie livre dessa posição”.

Sintomas do Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT)

Os sintomas podem manifestar-se em qualquer idade e levar meses ou anos para aparecer. Para o diagnóstico, é necessário que o indivíduo tenha passado ou testemunhado uma situação com perigo de morte. Como sintomas acessórios, é preciso apresentar: 

• Evitação - afastamento do local ou de situações que lembrem o evento, chegando ao isolamento total.

• Revivescência - lembranças intrusivas do evento, seja na vida de vigília seja por pesadelos. 

• Hiperexcitação - os sustos paradoxais, uma hipervigilância constante (estado de alerta), medo. 

• Apatia - Nesse, cabem todas as variantes do espectro da depressão, como anedonia (é a dificuldade ou incapacidade de uma pessoa em sentir prazer ou se motivar a realizar atividades que antes eram prazerosas), culpa, lentidão, restrição do campo de vida.

Artigo relacionado:

FIKS, José Paulo; MELLO, Marcelo Feijó. The live memory of annihilation as a hindrance to existence: a proposal for the “A” criterion in PTSD psychosocial Interventions. Scientific Reports, v. 2, n. 6, ago. 2013. Open access. Acesso em: 30 set. 2016.

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Foto da reitora Soraya Smaili, ela está em pé, de camisa verde e sorri

Soraya Smaili
Reitora da Unifesp

O inferno é o outro, dizia Jean-Paul Sartre. O inferno, na perspectiva posta pelo filósofo e escritor francês, é construído pela recusa – não importam os motivos – em aceitar aquilo que diferencia os outros de nós: valores religiosos, culturais, étnicos, ideológicos, políticos e morais. A não aceitação dos outros, marca distintiva da intolerância, estimula e propaga o ódio e a prática da violência. O Brasil vive tempos infernais, se quisermos adotar a conceituação de Sartre. 

Em 2014, o país bateu o recorde de quase 60 mil homicídios (mais de 42 mil por armas de fogo), o que representa uma alta de 21,9% em relação a 2004, segundo o Atlas da Violência 2016, produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Ocupamos o nada honroso 10º lugar em taxas de homicídio por 100 mil habitantes, considerando-se os cem países analisados pelo documento. 

Os números assumem uma característica ainda mais perversa, quando se considera que a imensa maioria das vítimas é formada por jovens negros que vivem em bairros periféricos das metrópoles – alguns estudos sugerem uma cifra superior a 70% do número de vítimas. Também a violência de gênero atinge proporções estarrecedoras: 13 mulheres são assassinadas todos os dias, segundo o Sistema de Informação sobre Mortalidade do Ministério da Saúde. Entre 2004 e 2014, cerca de 4,8 mil mulheres foram mortas por agressão.

Mas a violência não se manifesta “apenas” como atos de agressão física. Ela se expressa também na forma de bullying, ataques verbais e incitamento ao ódio nas redes sociais, órgãos de comunicação, salas de aula, ambiente de trabalho e até em áreas de lazer. Tudo isso, além do mais, tem implicações econômicas: os custos da violência, em todo o mundo, somam 7,16 trilhões de dólares (ou o equivalente a três vezes o PIB brasileiro). No Brasil, o custo é avaliado em 255 bilhões de dólares (11,5% do PIB), valor que corresponde à quinta posição no ranking dos que mais gastam com violência, ficando atrás apenas dos Estados Unidos, China, Rússia e Índia.

Como algo construído, e não natural, o “inferno” tem raízes históricas, sociais, culturais, políticas e ideológicas. Pode e deve, portanto, ser estudado, compreendido e superado com a ajuda da investigação e da reflexão científicas. É aqui que a Unifesp encontra sua inserção no debate e busca, por meio da pesquisa, oferecer sua contribuição à sociedade brasileira. Por essa razão, e com esse objetivo, adotamos a intolerância e a violência como temas centrais desta edição.

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Terça, 06 Dezembro 2016 13:57

Expediente - Entreteses 7

A revista Entreteses é uma publicação semestral da Universidade Federal de São Paulo.

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Conselho Editorial: Maria Lucia O. de Souza Formigoni, Débora Amado Scerni, Cristiane Reis Martins, João A. Alves Amorim, Sérgio B. Andreoli, Tania A. T. Gomes do Amaral e João Valdir Comasseto

Conselho Científico desta edição: Eliane Beraldi Ribeiro, João Valdir Comasseto, Maria Lucia O. de Souza Formigoni, Mavilde da Luz Gonçalves Pedreira e Tereza da Silva Martins

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Revista Entreteses n° 7 – Novembro/2016

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