Segunda, 12 Agosto 2019 11:14

Dos símbolos aos índios do Brasil

Palestra com Prof. Dr. Acary Souza Bulle Oliveira acontece no dia 28 de agosto

Publicado em Eventos Arquivados
foto do documento da associação dos servidores apoiando o regime em 1964.

Documento da Associação dos Servidores apoiando o regime em 1964. Havia sido criada uma associação de funcionários e médicos da Escola e do Hospital com forte participação de Yvone Fattibene, que seria presa e indicada como membro da “célula comunista da desfeita pela revolução” nas palavras da documentação do DOPS. O que a pesquisa permite afirmar é que esta nova associação substituiu a anterior

Nos mesmos anos anteriores ao golpe em que Marcos Lindenberg esforçava-se por tornar a EPM o núcleo da nova UFSP, criada ainda durante o governo de Juscelino Kubitschek e sob forte influência dos ventos desenvolvimentistas que seriam reprimidos pelo golpe de 1964, formara-se o departamento de Medicina Preventiva da EPM e nele a atuação do professor Roberto Baruzzi foi sempre muito destacada. Em julho de 1963, ele integrara pela primeira vez uma caravana médica ao Araguaia, resultado de um acordo com os dominicanos da prelazia de Conceição do Araguaia, que atuavam na região, com a intenção de oferecer atendimento à saúde para as populações ribeirinhas e indígenas do Araguaia.

Novas caravanas aconteceriam ainda em 1964 e 1965, mas perderam o apoio fundamental da FAB, que transportava os médicos e alunos da escola e, por isso, deixaram de existir. Da caravana de 1965 participaram o dr. João Paulo Botelho Vieira Filho e o então doutorando Paulo de Lima Pontes. Seus relatórios evidenciam a situação precária de saúde da população e, principalmente, a completa ausência do Estado no atendimento às populações carentes. Os dominicanos que organizaram as caravanas vieram a ser severamente perseguidos pela ditadura. Baruzzi foi contatado pelo regime para conduzir o Projeto Rondon, mas considerou que se tratavam de ações meramente esporádicas que não tinham a necessária continuidade e nem beneficiavam a população efetivamente.

Deste seu incômodo com as ações em atendimento à saúde das populações ribeirinhas e indígenas, e dos seus primeiros contatos com Orlando Villas Bôas em 1965, nasceu o Projeto Xingu, até hoje importante para a Unifesp e para as populações xinguanas. João Paulo Botelho Vieira Filho, por sua vez, continuou a atender às populações indígenas do Araguaia por muitos anos. Durante o regime militar, como suas memórias permitem entrever, houve a chegada dos guerrilheiros à região.

De suas memórias, e também das lembranças de Ricardo e Marília Smith, foi possível refazer a trajetória da professora da EPM Heleneide Resende de Souza Nazareth, irmã da guerrilheira Helenira Resende de Souza Nazareth e, por isso, presa várias vezes para que fornecesse informações sobre o paradeiro da irmã. Voltava bem machucada, contou Ricardo. Outra das irmãs, Helenalda, de quem pudemos colher depoimento, embora não fosse ligada à escola, vinha sempre às festas do departamento de Genética e lembra que nas vezes em que foram presas, fotos das festas eram mostradas pelos agentes da repressão.

Estavam, todos os brasileiros, em suspeição... E como João Paulo conseguia entrar no Araguaia? Segundo seu depoimento, porque era parente do general Carlos de Meira Mattos, aquele que produziria o Relatório da Comissão Meira Mattos e que apontaria ao governo militar mecanismos de controle sobre o movimento estudantil. Em meio a tanta repressão, João Paulo encontrou um caminho para atender às populações indígenas, e lembra que parte dos remédios que levava chegavam, também, aos guerrilheiros.

São histórias como essas que estamos narrando no relatório. Histórias dos estudantes presos, de professores e funcionários presos e/ou afastados, histórias de pessoas que resistiram silenciosamente, que protegeram colegas independentemente do seu posicionamento político, mas, também, histórias daqueles que optaram por defender o regime, que aceitaram perseguir colegas.

Capa do número 13 jornal entrementes mostrando um livro antigo de ata  Sumário do número 13

 

Publicado em Entrementes Especial 2

Iniciativa pioneira implementada pela Escola Paulista de Medicina reduziu o alto índice de mortalidade decorrente das grandes epidemias na região e celebra o aumento populacional das etnias

Da Redação
Com colaboração de Ana Cristina Cocolo

grafismo xingu 01
Entretesses05 p020 Projeto Xingu Crianca Kamaiura

Criança Kamaiura na Lagoa Ipavu, no Alto Xingu

Pouco mais de cinco décadas atrás, em 1954, um surto de sarampo vitimou 20% dos índios de várias etnias do Alto Xingu. O índice de mortalidade dos povos da região, em decorrência da precariedade da saúde e da alta transmissão da malária, era assustador. Havia alto risco da varíola, altamente letal e ainda não erradicada no Brasil à época. Para essas novas doenças, introduzidas pelo contato com o homem branco, os métodos de cura adotados pelos pajés muitas vezes eram impotentes. A falta de assistência sanitária regular acentuava o risco de extinção dos cerca de 1.500 índios, distribuídos em 16 etnias que habitavam os 28 mil km2 da região. As epidemias, como as citadas, tiveram efeito muito mais letal e intenso que as grandes guerras ocorridas entre diferentes grupos indígenas e a ação predatória dos colonizadores.

O cenário devastador representava um desafio para médicos, antropólogos, sociólogos, historiadores e cientistas sociais que se preocupavam com o destino das comunidades xinguanas. Uma das respostas foi dada pela Escola Paulista de Medicina (EPM) que, a convite do sertanista e então diretor do Parque Indígena do Xingu (PIX), Orlando Villas Bôas, iniciou a implantação de uma atividade pioneira: um programa intitulado Projeto Xingu, que agora completa cinco décadas de existência. Hoje, sob coordenação da médica sanitarista Sofia Mendonça, a iniciativa conta com uma equipe multidisciplinar formada por 17 pessoas entre médicos, enfermeiros, nutricionista, cirurgião dentista e educador, além de historiador, fotógrafo e o corpo administrativo, que visa levar melhores condições de saúde aos índios do parque. Ao todo, mais de 500 pessoas já participaram das atividades de campo desde a criação do programa.

Dentre as principais conquistas do programa, estão o aumento da expectativa de vida dos índios, queda da mortalidade infantil e a erradicação de doenças como sarampo, catapora, poliomielite e difteria. Além disso, os casos de malária, que era a principal epidemia que assolava esses povos, são muito raros e, quando ocorrem, não evoluem para o óbito. 

Atualmente, a maioria dos povos superou as epidemias e o risco de extinção. No entanto, todo cuidado ainda é pouco e os índios já esboçam o que esperam dos próximos 50 anos do programa. 

Entretesses05 p020 Projeto Xingu equipe vacinacao

Equipe de vacinação no posto indígena Pavuru

Saúde do índio

Pesquisadores do projeto atuam intensamente na questão da saúde indígena, principalmente em relação às doenças advindas do contato com o homem branco. Essa é a principal ameaça aos xinguanos, porque estão muito vulneráveis, tanto do ponto de vista biológico, quanto do social e cultural. A equipe realiza campanhas frequentes de imunização e vigilância em saúde, em colaboração com o Distrito Sanitário Especial Indígena do Xingu, a Secretaria Especial de Atenção à Saúde Indígena e o Ministério da Saúde (Sesai/MS).

O contato cada vez mais frequente com a nossa sociedade trouxe também alterações alimentares e, consequentemente, novas doenças às aldeias. A entrada de alimentos industrializados, como açúcar refinado, sal, biscoitos, enlatados, bebidas alcoólicas e refrigerantes, contribuíram para o surgimento de um número cada vez maior de índios com sobrepeso, algo que praticamente inexistia. Começaram também a aparecer casos de alterações na pressão arterial e de diabetes. Além do uso abusivo de bebidas alcoólicas.

Entretesses05 p023 Projeto Xingu vacina

Criança indígena recebe vacina no posto indígena Diauarum (Onça Preta)

Atualmente são realizadas, pelo menos, seis viagens anuais com duração de 15 a 35 dias. Além da equipe, alunos e docentes da universidade participam dos trabalhos. Nessas idas a campo, além da imunização que é realizada desde o início do programa, é feita a avaliação das gestantes, dos menores de 5 anos de idade, dos pacientes portadores de doenças crônicas como diabetes e hipertensão arterial, coleta de citologia cervico-vaginal para controle do câncer do colo uterino, acompanhamento de pacientes com tuberculose, bem como a capacitação da equipe local. Há também as oficinas de saúde, nutrição e culinária que são realizadas com os diferentes povos do PIX. Nelas são promovidas ações conjuntas para melhorar a oferta de alimentos e o acompanhamento das crianças desnutridas, além da promoção e valorização da culinária tradicional indígena. Como os alimentos industrializados já são uma realidade cada vez mais latente nas aldeias, regras de preparo e consumo para uma dieta equilibrada também são abordadas. 

“Em tempos de comemoração do Projeto Xingu, é importante lembrar que ainda temos o privilégio de compartilhar com esses povos indígenas, sociedades mais igualitárias, ideias e ideais sobre as relações entre as pessoas, sobre a natureza e sobre a vida. Quero aproveitar e fazer um alerta para as ameaças crescentes aos direitos e à vida da população originária do nosso País”, observa Douglas Rodrigues, que já coordenou a iniciativa e hoje atua como chefe da Unidade de Saúde e Meio Ambiente, onde está o programa de extensão desenvolvido pelo Departamento de Medicina Preventiva da EPM/Unifesp.  “Os pactos de governabilidade com a bancada ruralista e da mineração e com a estratégia de desenvolvimento focada em um modelo primário exportador, que lembra os tempos coloniais, além de impactar a maioria dos povos e territórios indígenas, fomenta o discurso de ‘muita terra para poucos índios’, retomando o argumento de que os índios são empecilhos ao desenvolvimento do país e que são obstáculos a serem removidos”

Necessidade de institucionalizar 

Apesar dos ganhos à saúde da população do Xingu, no sentido de diminuir os casos de mortes em razão das grandes epidemias que assolavam a região, ainda há necessidade de muitos progressos. Os indicadores médios de mortalidade infantil e materna, assim como as taxas médias de incidência de tuberculose e outras doenças infectocontagiosas são duas a três vezes maiores entre os indígenas do que na população brasileira como um todo. Os recursos para a manutenção do programa ainda são insuficientes. Embora existam parcerias com o Ministério da Saúde, o Instituto Socioambiental, o Instituto Caititu, as organizações sociais (OS) e várias associações indígenas, o objetivo delas é auxiliar no trabalho de campo, mas não no sentido de viabilizar o programa economicamente.

A ampliação de recursos é necessária devido à expansão do programa, que hoje não se restringe apenas ao atendimento aos xinguanos. O trabalho também vem sendo desenvolvido com populações ribeirinhas e comunidades tradicionais. Ou seja, o leque de atividades foi expandido para atender a diversos conjuntos de povos que constituem a grande diversidade da sociedade brasileira.

Entretesses05 p026 aldeia Nacepotiti

Imagens aéreas da aldeia Nacepotiti, povo Panará

Pioneira na formação especializada

Desde 2007, a Unifesp oferece cursos de especialização em saúde indígena. É pioneira na América Latina e uma das poucas instituições que possuem no currículo de graduação médica e de enfermagem essa temática. Na especialização, já formou 350 profissionais e outros 400 estão em processo. 

Devido à dimensão do programa, o Hospital São Paulo (HSP/HU/Unifesp) também atua em várias frentes, desde a atenção hospitalar no Ambulatório do Índio, do próprio hospital, para os casos de maior complexidade, até o trabalho de campo no Xingu, com a ida de alunos e residentes, além de toda atividade de pesquisa e extensão.

A Unifesp também promove, desde a década de 1990, a formação de indígenas como agentes de saúde e auxiliares de enfermagem. A primeira turma de agentes de saúde se formou em 1996 e, em 2001, outros 16 auxiliares de diferentes etnias xinguanas receberam o diploma. Essa formação de auxiliares de enfermagem indígenas foi um processo inédito, desenvolvido quase inteiramente no interior do PIX, com reconhecimento da Secretaria Estadual de Saúde do Mato Grosso, Estado com grande população indígena. Embora o projeto inicial contemplasse apenas o Xingu, o governo estadual decidiu ampliar para todas as áreas indígenas da unidade da federação. Dessa forma a universidade ajudou a montar os cursos em outras áreas, nas quais vivem os povos Xavante, Bororo e Pareci. Conhecido como Projeto Xamã, a iniciativa profissionalizou 120 indígenas que estão em atividade.

No entanto, o programa de formação de agentes de saúde está parado há três anos por falta de investimento e articulação governamental com outros centros formadores. A última turma formou-se em 2012, contemplando 55 agentes das etnias Ikpeng, Kĩsêdjê, Yudjá, Trumai, Kawaiwete, Kamaiurá e Wauja, no Polo Pavuru, do Distrito Sanitário Especial Indígena do Xingu, no PIX.

Entretesses05 p024 Projeto Xingu

Imagem maior: Thais Santos, médica da equipe de Saúde da Família do Projeto Xingu em atendimento na aldeia Aweti
Imagem acima, à esquerda: Ação de Saúde da Mulher na aldeia Pyulaga, do povo Wauja
Imagem acima, à direita: Agente indígena de saúde em atendimento na unidade básica de saúde, polo base Pavuru

Respeito à cultura

O perfil epidemiológico entre os povos indígenas muda muito rapidamente no país. Em consequência disso, o programa precisa de adaptação constante. As atividades desenvolvidas e os cuidados precisam ser adequados e ampliados para que o objetivo de colaborar com a atenção, saúde e qualidade de vida dos povos originários do Brasil seja alcançado. Nesse contexto, as viagens também têm por objetivo a capacitação da equipe local de saúde, realização de encontro de mulheres, oficinas de culinária, encontro de jovens, etc. Também são desenvolvidas pesquisas sobre problemas de saúde relevantes para a população.

Um dos principais papéis da equipe é levar atenção médica aos índios, procurando interferir minimamente na cultura. Eles desenvolveram seus próprios sistemas tradicionais de saúde, constituídos por diferentes atores e práticas, como a pajelança, plantas medicinais, rezas e cantos de cura. Isso está ligado ao modo como compreendem o mundo e, consequentemente, o processo de adoecimento. Por essas razões, o desafio consiste em desenvolver a escuta, para entender o outro e o que é diferente da nossa cultura.

“Nós mesmos, como profissionais de saúde, temos que nos despir de nosso olhar etnocêntrico, que nos leva a achar que apenas o conhecimento científico e biomédico tem valor. É estratégico entender e valorizar o conhecimento tradicional, para que os modos de ver possam dialogar e as práticas possam ser articuladas, em benefício daqueles que procuram tanto a nós, médicos científicos, quanto aos médicos tradicionais”, comenta Sofia Mendonça, coordenadora do programa.

Por vezes é mais difícil conseguir essa articulação, especialmente em casos mais graves ou naqueles cuja etiologia, para os indígenas, envolve a dimensão espiritual e para a qual eles sabem que a Biomedicina tem menor eficácia. Esses momentos são difíceis, mas sempre é possível o diálogo e o trabalho articulado. Além disso, a maior parte das mortes que ocorrem, especialmente nas crianças, são mortes evitáveis. São situações nas quais uma boa atenção básica pode diminuir significativamente, reduzindo assim as chances de ocorrerem essas situações mais difíceis. Nas raras situações em que não há entendimento, prevalece a decisão da família, que pode seguir uma ou outra orientação, como é de direito.

Entretesses05 p025 encontro mulheres indigenas

Terceiro Encontro de Mulheres Indígenas Xinguanas sobre gestação e parto no polo base de Diauarum

Coleta de exame Preventivo do Câncer de Colo de Útero (PCCU)
Aldeia Pop. total Pop. Fem. ≥19 anos e vida sexual N. de Exames PCCU coletados Cobertura PCCU
Waura 349 68 44 64,7%
Kamayura 335 81 69 85,2%
Yawalapiti 174 42 34 81,0%
Pólo Leonardo 76 17 10 58,8%
Aldeia Velha 21 4 3 75,0%
Saúva (Saidão) 79 13 9 69,2%
Base do Jacaré 24 7 7 100,0%
Fazendinha 8 1 0 0,0%
Nafukua 95 23 17 73,9%
Kalapalo 215 40 36 90,0%
Matipu 113 25 17 68,0%
Kuikuro 278 64 49 76,6%
Buritizal 10 3 0 0,0%
Aweti/Salve Jorge 88 21 19 90,5%
Mehinako 89 23 18 78,3%
Yaramã 48 11 8 72,7%
Kurisevo 31 9 8 88,9%
Utawana 94 21 14 66,7%
Aturua 17 4 2 50,0%
Total 2136 477 364 76,3%
Entre as causas da porcentagem de mulheres que não realizaram o exame estão: recusa, ausência da aldeia, regra menstrual, puérperas, etc. Fonte: Projeto Xingu / Alto Xingu (2014)

Ultrapassando fronteiras

Entretesses05 p028 projeto xingu

Imagem acima, à esquerda: Reunião com alunos com o cineasta Hermano Penna na sede do Projeto Xingu, em São Paulo
Imagem abaixo, à esquerda: Equipe do Projeto reunida em frente à sede em São Paulo
Imagem acima, à direita: Alunos do 5º ano de Medicina em visita à aldeia Tekoha Pyaú no Pico do Jaraguá, em São Paulo
Imagem abaixo, à direita: Douglas Rodrigues em viagem junto aos índios isolados do Acre (povo Korubo)

Os profissionais do Projeto Xingu atuam além das fronteiras do PIX e tentam acompanhar povos em condição de semi-isolamento, ou seja, etnias nas quais as relações com a sociedade do entorno ocorrem de forma intermitente.

Atualmente, a equipe acompanha os Panará – oficialmente o primeiro contato ocorreu em 1973 –, no Mato Grosso; os Txapanawa, que residem no alto do rio Elvira, no Acre; os Zo’é, na Serra do Cuminapanema, no Pará; e os Korubo, no vale do rio Javari, no Amazonas.

De acordo com Douglas Rodrigues, o primeiro contato sempre é uma situação tensa, tanto para a equipe quanto para os indígenas. “Pouco sabemos uns dos outros e por isso não sabemos exatamente como vão reagir”, afirma. “Nem mesmo os índios, pois na maioria das vezes recordam-se de encontros pouco amistosos com os ‘brancos’”.

O médico sanitarista também explica que, desde o final dos anos 1980, a Fundação Nacional do Índio (Funai) está revendo sua política de proteção com relação aos grupos indígenas isolados e, a partir de 2000, houve uma mudança radical nesse sentido. “Antes, acreditava-se que era preciso o primeiro contato para protegê-los. Hoje, é preconizada a interdição da área e as Frentes de Proteção Etnoambiental, de responsabilidade da Funai, sendo feitas incursões cuidadosas no território para obter o máximo de informações sobre esses povos e identificando potenciais ameaças, bem como estabelecendo estratégias de proteção”.

Os contatos, nesses casos, ocorrem quando os indígenas buscam aproximação por vontade própria, aparecendo nos arredores das aldeias indígenas já contatadas ou em vilarejos no interior da Amazônia, ou quando é preciso a intervenção do Estado em virtude das ameaças à integridade dessa população em consequência de invasões de seus territórios por madeireiros, narcotraficantes, grileiros ou garimpeiros.

Um dos últimos povos a serem contatados, mais especificamente em julho de 2014, sete jovens (duas mulheres e cinco homens) da etnia Txapanawa – atualmente reduzidos a pouco mais de 50 pessoas – apareceram em uma aldeia dos Ashaninka, povo que vive próximo ao rio Elvira (AC). Todos estavam doentes, com infecção respiratória aguda, febre, tosse e dor de garganta. A mais nova do grupo, com aproximadamente 13 anos, apresentava uma conjuntivite severa. “Os sintomas nos índios isolados são sempre exacerbados, já que essas doenças são desconhecidas para eles. Nossos analgésicos são mágicos para eles, pois aliviam os sintomas rapidamente. É preciso delicadeza, cuidado, uma vez que nossa assimetria tecnológica pode, ainda que não intencionalmente, afogar os sistemas tradicionais indígenas de cura. Na maioria dos contatos, o grupo ou está doente ou adoece com o contágio e é aí que a assistência médica pode fazer toda a diferença”, afirma Rodrigues.

mapa xingu

Para a equipe, o maior entrave reside na comunicação, que é minimizada com a ajuda de intérpretes indígenas. No entanto, outros obstáculos precisam ser superados, além do estranhamento inicial e a língua. É preciso ter boa formação clínica para encarar as condições de trabalho e as dificuldades impostas pela floresta, como a falta de tecnologia para diagnósticos mais precisos e a administração de medicamentos que necessitam de horários específicos para aplicação.

Muitos grupos isolados estão localizados nas regiões fronteiriças com a Colômbia, Peru, Equador, Venezuela, Bolívia e Paraguai e, segundo Douglas Rodrigues, existe um grupo no Itamaraty que trabalha por marcos legais para a cooperação entre os países. “Há pouca estrutura tanto na Funai quanto na Sesai/MS, especialmente nas regiões mais remotas, onde estão essas etnias”, afirma. “Ainda assim, o esforço de alguns técnicos tem garantido um mínimo de assistência e o Projeto Xingu tem colaborado nas situações de contato, na capacitação de equipes do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) e na elaboração de planos de contingência”.

Síntese do trabalho em saúde com povos indígenas por região (1965-2015)
Região Centro-Oeste
Parque Indígena do Xingu- MT (16 etnias) Formação de indígenas de nível técnico para o trabalho em saúde; apoio à gestão local de saúde e participação social; ações matriciais em saúde da mulher, imunização, oftalmologia, dermatologia, controle da tuberculose; encontros de mulheres indígenas; oficinas de culinária e rastreamento de doenças metabólicas e capacitações de profissionais universitários e apoio técnico
Kayapó - Mato Grosso Capacitações em imunização, tuberculose e apoio técnico
Bororo - Mato Grosso Capacitações de equipe técnica e oficina sobre saúde e sobre a vida: perspectivas para o futuro
Xavante- Mato Grosso Capacitações da equipe técnica, vigilância nutricional e prevenção de diabetes
Panará- Mato Grosso Abordagem inicial para grupo isolado, vigilância à saúde e saúde da mulher e controle de tuberculose
Região Norte
Korubo - Vale do Javari no Acre Capacitação de profissionais de saúde e indigenistas na elaboração de plano de contingência para situações de contato com grupos isolados e trabalho de saúde com grupos indígenas de recente contato
Alto Rio Negro - AM (21 etnias) Supervisão de campo do trabalho de profissionais de saúde e formação de técnicos de enfermagem indígenas
Txapanawa - Acre Abordagem inicial para grupo isolado e vigilância à saúde
Kayapó - Pará Capacitação de profissionais em imunização e apoio técnico e em tuberculose
Wajãpi - Amapá Apoio para formação de agentes indígenas de saúde
Zo’é - Pará Abordagem inicial de saúde para grupo indígena isolado
Região Sudeste
Município de Guarulhos Etnias: Tupi, Pankararé, Wassu Cocal, Kaimbé, Pankararu, Xucuru, Xavante, Pataxó, Fulni-ô e Guajajara Apoio matricial e capacitação de profissionais para atendimento de indígenas em atenção primária de saúde e na organização de serviço de referência para indígenas moradores da cidade
Município de São Paulo Aldeias Guarani (Tenondé Porã, Tekoa Ity, Tekoá Pyau Acompanhamento de pacientes e famílias segundo grupos de risco, oficinas e atividades de promoção da saúde nas aldeias, capacitação de equipes de saúde e preparação de agentes indígenas de saúde, além de apoio às lideranças nas demandas sociais e de saúde
Município de Bertioga - Aldeia Rio Silveiras Capacitação de equipes de saúde e preparação de agentes indígenas de saúde, viagens de intercâmbio cultural ao Parque do Xingu e Sul da Bahia (etnia Tupinambá) e apoio às lideranças nas demandas sociais e de saúde
Município de Aracruz (ES) Etnias Guarani e Tupi Capacitação de profissionais para atendimento de indígenas em atenção primária de saúde
Ambulatório do Índio do HSP\HU\Unifesp Referência nacional em atendimento médico terciário para indígenas; capacitações de equipes, estágios de graduação em Medicina e Enfermagem, residência em saúde da família; acolhimento de pacientes indígenas e famílias na cidade de São Paulo
CASAI- SP (Casa de Saúde do Indio da SESAI- Secretaria Especial de Saúde Indígena- MS) Capacitação profissional das equipes de saúde, promoção da saúde com indígenas e acolhimento de pacientes indígenas e famílias
Região Sul
Tríplice Fronteira (ARG- BRA- PAR) Guarani Capacitação de profissionais da gestão e das equipes locais em saúde indígena e apoio matricial para organização local de serviços de atenção primária
Outros
Ministério da Saúde – FUNASA e SESAI (Brasília) Assessoria para elaboração de material didático para formação profissional de agentes indígenas de saúde; oficinas de trabalho em linhas de cuidado, antropologia da saúde, saúde bucal, assessoria para elaboração de planos de contingência para situações de contato com grupos isolados e para epidemias em grupos de recente contato
Universidade Aberta do Brasil (UAB) e Universidade Aberta do SUS (UNA-SUS) Parceria para oferta de curso de especialização em saúde indígena à distância, com formação de 350 especialistas e 400 alunos, em curso, em todas as regiões do Brasil: Amazonas: Manaus, Maués, Lábrea, Coari • Pará: Belém, Marabá • Tocantins: Palmas • Pernambuco: Recife • Paraíba: João Pessoa • Mato Grosso: São Félix do Araguaia, Juara, Cuiabá, Lucas do Rio Verde • São Paulo: São Paulo e Cubatão.

Vasto material histórico

Entretesses05 p027 museu projeto xingu

Prof. Baruzzi recebe grupo de alunos holandeses no antigo local do Museu do Projeto Xingu  (2007)

Cinquenta anos de atuação do programa junto ao Parque Indígena do Xingu (PIX) rendeu à Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp) um acervo histórico de valor incalculável. Por iniciativa do Prof. Roberto Baruzzi e apoio de lideranças xinguanas, de professores e da fotógrafa Maureen Bisilliat, um museu foi inaugurado em 1991 em um anexo da antiga Reitoria da universidade, onde permaneceu aberto até 2013. Devido à necessidade de adequação de espaço, o local, hoje, é ocupado pela Diretoria da EPM.

A antiga Sala Prof. Roberto Baruzzi – EPM – Xingu abrigava mais de 500 peças produzidas por todos os povos do PIX, entre elas: cestarias, cerâmicas, arcos, flechas, pedras usadas em trabalhos diários e machados usados antes da introdução do metal, além de redes, adornos e outros artefatos.

De acordo com Lavínia Oliveira, coordenadora de recursos humanos do Projeto Xingu, esse acervo permite demonstrar que a cultura material dos povos xinguanos tem sido preservada por gerações ao se fazer a comparação com exemplares coletados por Karl von den Steinen, em 1887, e demonstrado em livro por ele publicado em 1894 e traduzido por Egon Schaden, em 1940.

O programa também possui cerca de 10 mil fichas médicas das diferentes etnias que permitem conhecer o padrão de saúde/doença dos índios do PIX em diferentes períodos, desde 1965; há aproximadamente 600 livros e publicações em Antropologia, Demografia, Estudos de Povos Nativos, Saúde Pública e Medicina Tropical, além de um grande número de documentos e teses relacionadas ao Projeto Xingu, política indigenista e à trajetória da EPM/Unifesp na atenção à saúde dos índios; mais de 65 mil fotografias e slides e um vasto número de VHS, DVDs e fitas cassete do trabalho em campo que mostram além das atividades desenvolvidas pelas equipes, o dia a dia das aldeias, o preparo dos alimentos, as festas e rituais, como o Quarup e a reclusão pubertária de ambos os sexos. 

O local era aberto à visitação pública e recebia alunos de escolas de ensino fundamental e médio, além de visitantes brasileiros, estrangeiros e indígenas. Principalmente no mês de abril, quando comemoramos o Mês do Índio, o museu também realizava exposições itinerantes.

Atualmente, a equipe aguarda a definição de um novo espaço físico para o museu na Diretoria do Campus São Paulo, que abriga a EPM/Unifesp. Enquanto isso, algumas peças encontram-se expostas na casa que abriga o Projeto Xingu, na Vila Clementino.

Os próximos 50 anos

Lideranças indígenas e toda a comunidade indígena têm reivindicado tanto ao Projeto Xingu quanto à EPM/Unifesp que não somente deem continuidade ao programa, assim como a sua expansão. Várias sementes estão sendo plantadas nesse sentido.

Além da proposta, junto às secretarias da Saúde e da Educação do Estado de Mato Grosso, de formação profissional técnica nas áreas de Enfermagem, vigilância em saúde, saúde bucal e gestão em saúde indígena, a Unifesp também está discutindo a reserva de vagas para indígenas em todos os cursos ofertados pela instituição. “Para isso, estamos montando uma equipe de apoio a esses estudantes para minimizar os obstáculos da língua, as dificuldades do próprio aprendizado e o preconceito”, afirma Sofia Mendonça.

A coordenadora do projeto explica que a ideia para as próximas décadas é ampliar a presença da temática saúde indígena na graduação e pós-graduação, com visitas às aldeias localizadas em São Paulo e no Xingu, com a residência médica em saúde da família, com uma área de concentração em saúde indígena, bem como com ampliação na oferta de cursos na modalidade do ensino à distância. “Estamos na quinta turma de especialização em Saúde Indígena e temos a perspectiva de ampliar as ofertas para públicos mais específicos com o curso de aperfeiçoamento e posterior especialização em saúde mental, sofrimento psíquico e povos indígenas. Esse último ainda está em fase de concepção”.

In loco, a equipe de saúde está com um projeto de investigação de doenças metabólicas, controle do câncer do útero e oficinas de culinária para o resgate da alimentação tradicional indígena que deve abranger vários povos do Xingu.

Entretesses05 p030 mulheres PIX

Montagem com várias gerações de mulheres de diferentes povos do PIX

Histórias de um chefe Kaiabi

Ana Cristina Cocolo

Entretesses05 p031 IndioMairawe

Índio Mairawê com aproximadamente 20 anos de idade

Mairawê Kaiabi, 64 anos, um dos líderes do povo indígena Kawaiwete (Kaiabi), acompanha, desde os 14, as idas dos profissionais da área da saúde da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp) ao Parque Indígena do Xingu (PIX).

Descendente de um povo com uma história marcada por conflitos de invasão de terra por seringueiros no século XIX, Mairawê lembra bem quando chegou ao PIX, após a área onde vivia ser ocupada gradualmente e os índios induzidos ao trabalho para extração de látex. A chegada da Expedição Roncador-Xingu, comandada pelos irmãos Villas Bôas, ajudou a garantir a sobrevivência cultural desse povo com a proposta de levar os Kaiabi para o Parque do Xingu.

Atualmente, algumas famílias do povo Kawaiwete (Kaiabi) habita o PIX e constitui a etnia mais populosa do local. A língua original desse povo é da família do tupi-guarani. No entanto, quase todos que habitam o parque são bilíngues e dominam bem o português. Outras famílias dos Kaiabi vivem na terra indígena próxima ao rio Teles Pires, que é a região natal dessa etnia, e lá muitas já não falam a língua nativa. São denominados também como Cajahis, Cajabis, Kajabi, Caiabis, Cayabi, Kayabi.

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Mairawê durante encontro na Unifesp com lideranças do Projeto Xingu e da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), do Ministério da Saúde (2011)

Casado, pai de dez filhos, Mairawê sempre atuou como braço direito da equipe do Projeto Xingu, seja como tradutor intérprete, orientando a equipe, negociando tratamentos, encaminhamentos ou mesmo dirigindo os barcos que levavam os profissionais da saúde para imunizar as populações indígenas de diversas aldeias do PIX.

Histórias não faltam a ele. A remissão às lembranças faz com que o olhar do líder Kaiabi vá de sombrio – ao lembrar das perdas de integrantes do seu povo devido às doenças – à maroto, quando relembra as peripécias e aventuras no rio Xingu e seus afluentes diante das falhas dos motores dos barcos, as boas risadas e os improvisos para manter as vacinas conservadas e cumprir os prazos estipulados pelo Prof. Baruzzi. “Ficava horas segurando um guarda-chuva para minimizar o calor sob o isopor com gelo”, sorri ao falar. “Era tudo muito seguro e organizado e o professor sempre tinha pressa para atender o máximo de pessoas possível”.

Mairawê conta que a princípio custou para ele entender quem era e o que queria exatamente a equipe do Prof. Baruzzi. “Os Villas Bôas traziam muita gente para conhecer os índios. Mas eles eram diferentes. Isso ficou claro quando começaram o trabalho de vacinação contra o sarampo, a coqueluche e tantas outras doenças ruins. Tudo começou a melhorar para nós”, afirma. “O que mais víamos e ainda vemos como dificuldade é a demora para a chegada de medicamento para que a equipe faça um trabalho ainda mais completo”.

Para ele a Medicina do “branco” veio para complementar a do índio. A confiança no trabalho desenvolvido se resumiu a uma frase ao final da entrevista: “Mais que profissionais e amigos, eles são nossa família”.

Produções acadêmicas e de pesquisas do Projeto Xingu (1966-2015)
Projetos de pesquisa financiados 16
Projetos de iniciação científica 12
Teses de livre docência 2
Teses de doutorado 20
Dissertações de mestrado 18
Projetos de mestrado em andamento 6
Projetos de doutorado em andamento 1
Artigos publicados em revistas indexadas 102
Publicações em outras modalidades 22
Livros publicados 8
Capítulos de livros 27
Trabalhos apresentados em congressos e publicados em anais 111
Totalidade de apresentações de trabalhos em congressos 157
Trabalhos de conclusão de curso de graduação 4
Monografias de conclusão de curso de especialização 350
Fonte: Projeto Xingu, 2015
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Publicado em Edição 05
Sábado, 10 Outubro 2015 14:34

Herança do homem branco

Proximidade com alimentos industrializados estão deixando nossos índios tão ou mais doentes que a população geral. Novos casos de síndrome metabólica cresceram 37,5% ao longo de dez anos

Bianca Benfatti
Com colaboração de Ana Cristina Cocolo

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Ritual Tawarawaná na aldeia Ngoiwere, povo Khisêdjê

Apesar de as doenças infecciosas e parasitárias ainda serem o motivo de várias mortes entre a população indígena do Xingu, é a prevalência cada vez maior de doenças crônicas – como hipertensão arterial e diabetes mellitus – que está deixando especialistas de sobrealerta e preocupados com o futuro dessa população. 

Uma pesquisa coordenada pela professora do Departamento de Medicina Preventiva da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp) – Campus São Paulo – e do programa de pós-graduação em Saúde Coletiva, Suely Godoy Agostinho Gimeno, apontou que 10,3% dos indígenas, tanto do sexo masculino quanto do feminino, apresentavam sintomas de hipertensão arterial. A intolerância à glicose foi observada em 30,5% das mulheres – quase 7% com diabetes mellitus – e em 17% dos homens. A dislipidemia (presença excessiva ou anormal de colesterol e triglicerídeos no sangue) foi detectada em 84,4% dos participantes da pesquisa. Por fim, constatou-se que 57% dos homens e 36% das mulheres sofria com excesso de peso. Já a obesidade central (acúmulo de gordura na parte superior do corpo) predominou entre as indígenas com 68%. 

“Um achado importante foi que, pelos dados da impedância bioelétrica (resistência e reactância), que são uma ‘proxi’ da composição corporal dos sujeitos, observou-se que a elevada prevalência de excesso de peso, particularmente entre os homens, se deve à maior quantidade de massa muscular e não de gordura corporal”, diz a pesquisadora. Isso sugere que esses indivíduos são musculosos, por serem ativos, e não obesos, refutando a ideia de que o sedentarismo estaria relacionado com as doenças crônicas encontradas. Desse modo, o excesso de peso deve ser analisado de outra maneira. 

Os dados foram colhidos de 179 indígenas do povo Khĩsêdjê, na aldeia principal Ngôjwêre – Posto indígena Wawi – no Parque Indígena do Xingu (PIX), em dois períodos: julho de 2010 e agosto e setembro de 2011. Na ocasião foram realizadas entrevistas, exames e testes físicos por uma equipe composta por médicos, enfermeiras, nutricionistas, educadores físicos, graduandos do curso de Medicina e de Enfermagem, além de uma antropóloga do Projeto Xingu e um sociólogo. Agentes de saúde e professores indígenas, que vivem na aldeia Ngôjwêre, atuaram como intérpretes e ajudaram a estabelecer a comunicação para a coleta de dados.

Durante o estudo, foram realizadas várias conversas com as lideranças, homens e mulheres, sobre as mudanças no modo de viver e de se alimentar. A devolutiva dos dados e informações foi importante para a construção de estratégias coletivas para o enfrentamento dos problemas apontados pela pesquisa.

Essa pesquisa, intitulada Perfil Nutricional e Metabólico de Índios Khĩsêdjê originou, até o presente, seis apresentações em conferências internacionais, duas em congressos nacionais, três dissertações de mestrado, duas teses de doutorado (uma ainda em conclusão) e duas publicações de artigo na revista Cadernos de Saúde Pública. 

Em dez anos, 37% de novos casos

Um dos desdobramentos da pesquisa de Suely avaliou a incidência acumulada de síndrome metabólica na população Khĩsêdjê ao longo de dez anos, ou seja, a proporção de indivíduos que desenvolveram a doença durante esse período. A pesquisa foi realizada em duas etapas, na principal aldeia dos índios Khĩsêdjê, a Ngôjwêre, dentro do PIX. A primeira investigação ocorreu entre os anos de 1999 e 2000 e a segunda entre 2010 e 2011.

Os resultados apresentados como tese de doutorado pela nutricionista Lalucha Mazzucchetti ao programa de pós-graduação em Saúde Coletiva, orientada pela professora, assustam e mostram o quanto a saúde dos nossos índios está deteriorando-se. Foi encontrado um aumento de 37,5% de novos casos do problema.

A síndrome metabólica é uma doença crônica não transmissível (DCNT) que pode ser definida pela presença concomitante de ao menos três alterações metabólicas, entre elas: a obesidade central, a intolerância à glicose, a hipertensão arterial, a hipertrigliceridemia (altos índices de triglicérides) ou baixo HDL colesterol (chamado de bom colesterol). A presença da síndrome eleva de 1,5 a 2,5 vezes o risco de morte no indivíduo, inclusive por doenças cardiovasculares.

O estudo, que acompanhou 78 índios acima de 20 anos, também aponta que surgiram 47,4% novos casos de hipertrigliceridimia, 39,8% de hipertensão arterial (com um acréscimo de 3% para cada ano de vida dos indivíduos analisados, independentemente do sexo), 32% de obesidade central, 30,4% de excesso de peso, 29,1% de hipercolesterolemia (colesterol alto), 25% de baixo HDL colesterol, 10,4% de elevado LDL (colesterol ruim) e 2,9% de diabetes mellitus.

Quando se comparou os valores entre os gêneros, o sexo feminino apresentou maior incidência acumulada de síndrome metabólica (48,1%) que os homens (27,6%), obesidade central (60% versus 20%) e LDL elevado (19% versus 3,7%). Já entre os homens, os novos casos foram maiores com relação à hipertensão arterial (41,7% versus 36,2%), à hipercolesterolemia (33,3% versus 24%) e ao elevado nível de ácido úrico no sangue (21,9% versus 5,9%).

Entretesses05 p048 alimentacao aldeia

Anta recém-abatida que proverá alimentação à aldeia Kh~isêdjê por até dois dias

Mudança de hábito

De acordo com Suely, essas doenças crônicas podem estar relacionadas à crescente exposição dos índios aos centros urbanos, o qual estimula o consumo de alimentos industrializados e o trabalho em atividades remuneradas, entre outros comportamentos absorvidos por eles que substituem as tradições alimentares e cotidianas dos índios, mudando a relação destes com o trabalho, terra e alimentação.

Para a professora, a preservação dos hábitos e costumes desses povos seria uma medida preventiva de grande valia. Como exemplo de tal iniciativa, os profissionais da equipe do Projeto Xingu estão auxiliando a equipe de saúde que atua no Polo Wawi a organizar e realizar um diálogo intercultural, proposto na forma de oficinas de culinária. A ação busca informar aos Khĩsêdjê sobre o uso correto da nossa alimentação (não indígena) e valorizar sua dieta tradicional. Além dos Khĩsêdjê, oficinas foram realizadas com os Kawaiwete e com os Yudjá.

Suely ainda avalia que a garantia da terra e dos territórios indígenas também é fundamental, já que eles dependem dela para sua sobrevivência por meio da caça, pesca, cultivo e coleta de alimentos. “Além disso, algumas políticas públicas podem agravar o problema como, por exemplo, a de distribuição de cestas básicas para esses indivíduos”, afirma. “É preciso que tais iniciativas respeitem as diferenças culturais existentes entre os indígenas e os não indígenas”, completou.

Tratamento e infraestrutura

O tratamento dos indígenas, que apresentam sintomas das enfermidades investigadas, particularmente do diabetes mellitus, às vezes é complicado, pois demanda condições especiais nem sempre disponíveis nas aldeias. “A insulina precisa estar em constante refrigeração, os medicamentos necessitam de controle da dose e de horário e os níveis de glicemia e da pressão arterial precisam ser monitorados regularmente”, explica Suely.

Os indígenas que precisam de acompanhamento médico continuam sendo atendidos e monitorados pela equipe de saúde da Unifesp, na Unidade de Saúde e Meio Ambiente do Departamento de Medicina Preventiva da EPM/Unifesp. “Os Khĩsêdjê desejavam conhecer seu atual perfil de saúde no que diz respeito à presença de doenças crônicas”, afirma a pesquisadora. “Além da importância científica e acadêmica dessa investigação, atendemos também uma demanda dessa comunidade”.

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Crianças Khisêdjê banhando-se no Rio das Pacas, localizado em uma sub-bacia hidrográfica do Alto Rio Xingu

Artigos relacionados: 
SANTOS, Kennedy Maia dos; TSUTSUI, Mario Luiz da Silva; GALVÃO, Patrícia Paiva de Oliveira; MAZZUCCHETTI, Lalucha; RODRIGUES, Douglas; GIMENO, Suely Godoy Agostinho. Grau de atividade física e síndrome metabólica: um estudo transversal com indígenas Khĩsêdjê do Parque Indígena do Xingu, Brasil. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro: Fundação Oswaldo Cruz, v. 28, nº 12, p. 2327-2338, dez. 2012. Disponível em: <http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2012001400011>. Acesso em: 16 set. 2015.
MAZZUCCHETTI, Lalucha; GALVÃO, Patrícia Paiva de Oliveira; TSUTSUI, Mario Luiz da Silva; SANTOS, Kennedy Maia dos; RODRIGUES, Douglas Antônio; MENDONÇA, Sofia Beatriz; GIMENO, Suely Godoy Agostinho. Incidência de síndrome metabólica e doenças associadas na população Khĩsêdjê do Xingu, Brasil Central, no período de 1999-2000 a 2010-2011. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro: Fundação Oswaldo Cruz, v.30, nº 11, p.1-11, nov. 2014. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/csp/v30n11/pt_0102-311X-csp-30-11-2357.pdf>. Acesso em: 16 set. 2015.

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Publicado em Edição 05
Sábado, 10 Outubro 2015 13:30

Uma batalha ainda longe do fim

Entrevista: Projeto Xingu

Ana Cristina Cocolo e Celina M. Brunieri

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Em entrevista concedida à Entreteses, membros do Projeto Xingu explicam vários aspectos que envolvem as 16 etnias do parque indígena. Nela, são abordados não apenas a manutenção da saúde dos índios, como também o trabalho pela preservação da sua cultura e dos costumes; os projetos de lei que abrem brechas para rever as demarcações de terras já realizadas e a organização de associações na luta por direitos. Participam da conversa os médicos sanitaristas Sofia Mendonça – coordenadora do Projeto Xingu –, Douglas Mendonça – chefe da Unidade de Saúde e Meio Ambiente do Departamento de Medicina Preventiva da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp) – e a enfermeira Lavínia Oliveira, coordenadora de Recursos Humanos do projeto. 

Entretesses05 p039 sofia mendonca projeto xingu

Sofia Mendonça, médica sanitarista e coordenadora do Projeto Xingu, em oficina culinária na aldeia Tubatuba, do povo Yudjá

Entreteses - As ações realizadas pela EPM no Parque Indígena do Xingu (PIX), tais como vacinação e avaliação de crianças, gestantes e portadores de doenças, têm sido suficientes para a manutenção e promoção da saúde nessa área de proteção? Existe aumento de doenças crônicas entre as etnias do PIX?

Projeto Xingu - Em termos. A melhora nas condições de vida e a promoção da saúde não dependem apenas do setor saúde. Um exemplo é o aumento das interferências do agronegócio no entorno do PIX (plantations de soja, milho, cana-de-açúcar e pecuária extensiva) que tem impactado os formadores do rio Xingu que está sendo rapidamente assoreado e contaminado com agrotóxicos e dejetos da pecuária. Os indígenas relatam claramente a diminuição do pescado, fundamental para sua segurança alimentar. Também a caça tem diminuído, já que o desmatamento no entorno afeta diretamente os ecossistemas do PIX.

Em 1986 participamos do projeto Intersalt, uma grande pesquisa epidemiológica, multicêntrica, a respeito do consumo de sódio e sua relação com a hipertensão arterial sistêmica. Os xinguanos apresentavam sódio urinário baixo, não tinham obesidade ou sobrepeso, não tinham diabetes mellitus e nem hipertensão arterial. Os níveis de pressão sistólica não subiam com a idade. Um perfil totalmente diferente do encontrado pelos demais pesquisadores em cidades da Europa, Ásia e Américas. Do início dos anos 1990 para cá, com a intensificação das relações de contato (nos últimos vinte anos surgiram oito novos municípios no entorno do Xingu), a crescente monetarização da economia xinguana com a contratação de indígenas como trabalhadores de educação e saúde, a criação de associações indígenas, por exemplo, e mais recentemente os programas e benefícios sociais do governo, que distribuem dinheiro e alimentos, promoveram uma grande mudança na dieta tradicional dos indígenas, o maior consumo de alimentos industrializados, que está associado ao aumento da desnutrição infantil e à obesidade, hipertensão arterial e diabetes entre os adultos. No Xingu a situação ainda não está crítica como, por exemplo, entre os vizinhos Xavante, que em algumas aldeias apresentam 28% de prevalência de diabetes do tipo II. Caso nada seja feito, o futuro é assustador.

Se compararmos os indicadores de saúde do PIX, tais como mortalidade infantil, incidência de doenças preveníveis por vacina, incidência de tuberculose e de câncer do colo uterino, podemos afirmar que, comparado a outros povos indígenas amazônicos, o Xingu apresenta bons indicadores. Entretanto, esses indicadores ainda são piores do que os da média da população brasileira.

 

Entretesses05 p040 sofia e agentes saude

Sofia com agentes de saúde na aldeia Ipatse, do povo Kuikuro

E. De forma geral, os 16 povos do PIX sofrem das mesmas doenças ou elas atingem de forma diferente cada etnia?

P.X. As principais doenças são as mesmas entre os xinguanos e entre a maioria dos povos indígenas no Brasil e estão relacionadas com as condições de vida, de acesso a serviços de saúde e à relação de contato com a sociedade regional. Há um predomínio de doenças respiratórias e diarreicas, principalmente em crianças, que convivem com a emergência de doenças crônicas não transmissíveis, como a obesidade, hipertensão e diabetes, nos adultos. Apenas uma doença, a blastomicose queloidiana ou doença de Jorge Lobo, é exclusiva da etnia Kaiabi (Kawaiwete), ainda que não tenhamos constatado, até hoje, sua transmissão em território xinguano. Todos os casos diagnosticados são de indígenas idosos, que nasceram na área tradicional Kaiabi, no sul do Pará e nordeste de MT, fora do PIX.

 

E. A desnutrição afeta a vida dos povos xinguanos? Os territórios ocupados pelas etnias é suficiente para garantir a sobrevivência de cada uma delas?

P.X. Pensamos que hoje, com o aumento populacional e o impacto ambiental, o território não é mais suficiente para a sobrevivência das etnias do Xingu nos moldes tradicionais. As regiões de terra preta (locais com solo fértil e adequado ao cultivo) já não são mais suficientes para todos e o aumento do número de aldeias não tem permitido o rodízio de locais de roças levando ao esgotamento das terras férteis. A tecnologia indígena de agricultura não tem resposta para essa situação. Esse quadro, associado às mudanças na dieta tradicional, é responsável pelo aumento da desnutrição nas crianças e da obesidade nos adultos. A segurança alimentar dos povos xinguanos está ameaçada e a resposta governamental a essa problemática tem sido insuficiente, já que o governo coloca os indígenas no mesmo patamar das populações urbanas de baixa renda, contemplando-os com as mesmas políticas assistencialistas. Não é uma cesta básica com alimentos industrializados que vai resolver os casos de desnutrição nas aldeias, pelo contrário, pode trazer mais problemas relacionados à nutrição. Em um dos seminários que realizamos em área para discutir essa questão da desnutrição, foram levantados vários fatores, além da escassez das terras pretas. As roças estão cada vez mais longe das aldeias e, com isso, eles não conseguem acompanhar e vigiar de perto as plantações, que ficam mais vulneráveis aos ataques dos porcos do mato, por exemplo. Nos últimos anos alguns povos têm perdido toda sua roça e acabam passando fome ou usando os salários dos trabalhadores para comprar comida na cidade. Outros fatores que as mulheres apontam como explicação para o aparecimento da desnutrição são relacionados às mudanças culturais como, por exemplo, os casamentos mais precoces dos jovens quando não estão preparados para criar seus filhos e acabam não seguindo as regras tradicionais, diminuindo o intervalo interpartal e, consequentemente, não conseguindo cuidar de forma adequada de cada filho, aumentando os casos de desnutrição. 

 

E. Pode-se dizer que o Parque Indígena do Xingu é um cartão postal da política indigenista no Brasil? 

P.X. Já foi, no passado. A criação do Parque Indígena do Xingu foi um marco na política indigenista e cumpria este papel de cartão postal. O governo mostrava o parque como exemplo de política indigenista, protecionista, enquanto a relação que se estabelecia com outros povos em outras áreas indígenas era completamente diferente. Vários povos foram eliminados ou tiveram seus territórios invadidos e retalhados. Essa situação, como dizem as próprias lideranças mais jovens, deixou os povos do Xingu um pouco distantes do movimento indígena nacional. Hoje a situação do Xingu, do ponto de vista da política indigenista do Estado brasileiro, pouco difere de outras regiões. Os recursos da Funai vêm diminuindo ano a ano. Falta pessoal, faltam equipamentos e, principalmente, uma política que efetivamente defenda os direitos indígenas. Se há anos o PIX, por sua projeção nacional e internacional, recebia um certo tratamento diferenciado, isso não mais ocorre. Restou, entretanto, o apelo midiático dos grandes rituais xinguanos divulgados mundo afora como ritual funerário do Kwarup, para o qual sempre são convidadas autoridades, celebridades e a mídia. No mais, hoje o Xingu é um território indígena tão abandonado pelo Estado como os demais. Nesse sentido houve um nivelamento por baixo.

 

Entretesses05 p041 formacao agentes indigenas

Livros produzidos junto com o Projeto Xingu para o Curso de Formação de Agentes Indígenas de Saúde

E. De que forma a preservação do conhecimento tradicional indígena – além da transmissão oral – tem sido levada a efeito pelas novas gerações e, inclusive, pelos não índios? 

P.X. Nos últimos 15 anos, várias associações indígenas foram criadas pelos povos do PIX. A maioria das etnias tem sua própria associação e a Associação Terra Indígena Xingu (ATIX) funciona como uma “central” de associações, desenvolvendo projetos junto a diferentes etnias xinguanas. Essas associações buscam financiamento para projetos dos mais variados, que incluem valorização e preservação cultural e registro dos conhecimentos tradicionais. Os recursos são provenientes da cooperação internacional e de financiamentos governamentais. Os pontos de cultura, por exemplo, criados pelo ex-ministro Gilberto Gil e que estão sendo revigorados pelo atual ministro Juca Ferreira, foram fontes importantes de fomento a projetos culturais, como produção de cestaria, oficinas de flautas (Djakui), produção de livros bilíngues ou apenas na língua materna sobre plantas medicinais, cantos sagrados e rituais, entre outros. Um projeto especialmente interessante é a formação de cineastas indígenas, que tem feito vídeos interessantes sobre mitos, histórias antigas, de antes do contato, culinária e rituais tradicionais, etc. Em uma cultura oral, essa forma de registro é bastante eficiente, até porque os vídeos são falados na língua indígena. Temos trabalhado bastante com essa questão. Durante a formação dos agentes indígenas de saúde no Xingu, foram produzidos livros bilíngues sobre a saúde das crianças, nutrição, vigilância nutricional e segurança alimentar. Esses livros foram elaborados a partir das pesquisas realizadas nas aldeias, pelos agentes de saúde, sobre o conhecimento tradicional a respeito desses temas. 

Uma outra estratégia que os professores indígenas têm adotado é trabalhar esses conhecimentos nas escolas das aldeias, trazendo os especialistas tradicionais para falar em sala de aula sobre determinadas festas e rituais, sobre cantos e rezas para as roças produzirem ou fazendo oficinas sobre artesanato como colares, cestaria, esteiras, redes, etc.

As associações indígenas também têm trabalhado com mídias diferentes para o registro do conhecimento tradicional, inclusive criando sites na internet próprios para isso. Esses projetos, em geral, têm uma função importante de estímulo, principalmente entre os jovens, criando possibilidades de acesso a tecnologias e informações relacionadas à sua cultura e ao mesmo tempo a outras culturas, inclusive a do não indígena. 

 

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Limite entre dois mundos: desmatamento demarca o PIX das fazendas de soja e gado do entorno

E. O PIX está ameaçado por novos projetos de lei, que interferem – por exemplo – na área demarcada do parque?

P.X. Os pactos de governabilidade com o agronegócio e com a indústria extrativista predatória (minérios, madeira) lembram os tempos coloniais. Para o modelo de desenvolvimento brasileiro, os índios são obstáculos a serem removidos, como foram no passado pelos bandeirantes e religiosos. Em 2013, a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN) fez um levantamento no Congresso Nacional e encontrou pelo menos 50 iniciativas legislativas que retiram direitos constitucionais dos indígenas. No mesmo ano, outro estudo, feito pelo Instituto de Estudos Socioeconômicos (INESC) a respeito das obras do PAC II na Amazônia, mostrou que haviam 114 obras incidindo sobre territórios indígenas (hidrelétricas, gasodutos, estradas, ferrovias, etc.) e que 33 delas incidiam diretamente em territórios onde ainda existem grupos indígenas isolados e de contato recente, pessoas extremamente vulneráveis.

A PEC 215, por exemplo, transfere do governo federal para o Congresso a atribuição de oficializar terras indígenas, unidades de conservação e territórios quilombolas. Se aprovada, a PEC vai paralisar de vez a regularização dessas áreas e abrir brechas para rever as demarcações já realizadas, incluindo o próprio Parque Indígena do Xingu.

A portaria 301 da Advocacia Geral da União (portanto, do executivo) pretendia que o usufruto das riquezas do solo, dos rios e dos lagos existentes nas terras indígenas poderiam ser relativizados sempre que houvesse relevante interesse público da União, o que não impediria a instalação de equipamentos públicos, redes de comunicação, estradas e vias de transporte, além das construções necessárias à prestação de serviços públicos. Essa portaria foi suspensa temporariamente, mas denota a forma como o governo tem tratado a questão indígena.

Na atenção à saúde indígena, embora com mais recursos do que em tempos passados, a situação também não é boa. Os indicadores médios de mortalidade infantil e materna, assim como as taxas médias de incidência de tuberculose e outras doenças infectocontagiosas, são duas a três vezes maiores entre os indígenas do que na população brasileira como um todo.

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Douglas Rodrigues, médico sanitarista, em atendimento na aldeia Samaúma

 

E. A Usina de Belo Monte, que represará um trecho do rio Xingu no Estado do Pará, acarretará prejuízos aos povos xinguanos?

P.X. Desconheço estudos do impacto que Belo Monte terá na região das cabeceiras do rio Xingu, onde fica o PIX. Especialistas têm afirmado que algumas espécies de peixes e quelônios serão afetadas. Belo Monte está sendo considerada um cavalo de troia, já que outras barragens virão, alterando para pior a vida das comunidades amazônicas. Só em Altamira serão deslocadas 27 mil pessoas para dar lugar ao lago da usina. Houve um processo de cooptação dos indígenas antes do leilão, pela Eletronorte e as empresas construtoras, para que os povos da região afetada pela usina vissem o empreendimento como positivo. Isso gerou um conflito entre os grupos da bacia do Rio Xingu, já que muitos eram contrários às obras. Como eram povos razoavelmente isolados, abandonados pelo Estado e carentes de assistência, a cooptação foi relativamente fácil: a empresa passou a fornecer, na forma de “Projetos Emergenciais”, 30 mil reais por mês para as comunidades comprarem o que quisessem. Foi uma festa do consumo: centenas de motores, televisões de plasma, aparelhos de DVD, barcos. O impacto foi imenso, por exemplo, na nutrição. Grupos que possuíam a subsistência estruturada tiveram sua alimentação abalada. As roças pararam de ser produzidas ou diminuíram muito e a dependência deles aumentou.

Além de Belo Monte, estão planejadas pelo menos mais sete PCH (pequenas centrais hidrelétricas) nos formadores do rio Xingu. Uma delas, a PCH Paranatinga II já foi construída e seus impactos já estão sendo sentidos pelos indígenas. 

 

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Douglas Rodrigues em atendimento à índio idoso na aldeia Tuiararé, do povo Kaiabi

 

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Imagem abaixo:Lavínia Oliveira, coordenadora de Recursos Humanos do Projeto Xingu, em oficina de Saúde Indígena na sede do Projeto Xingu

E. Os povos indígenas têm se unido por meio de associações. De que forma essas associações ajudam na questão de seus direitos? Elas têm sido eficientes?

P.X. Existem inúmeras associações indígenas no país. Desde pequenas organizações, de aldeias ou grupos étnicos, até as de âmbito regional ou nacional, como é o caso da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil - APIB. Temos uma tendência a pensar sobre as associações indígenas com nosso modo de olhar, com nosso modelo de organização dos movimentos sociais, o que nem sempre é válido para o movimento indígena. Recentemente Ailton Krenak, importante liderança indígena e um dos fundadores da União das Nações Indígenas (UNI) nos anos 1980, em uma aula para os alunos do curso especialização em saúde indígena da Unifesp, disse que não se pode pensar em movimento indígena e sim em índios em movimento. As associações podem ser vistas como mais uma expressão desses “índios em movimento”. Suas lutas estão voltadas para as necessidades de cada etnia. Nesse sentido, as associações têm se mobilizado em várias direções, tanto para trazer projetos de sustentabilidade e valorização da cultura, como já dissemos, como na reivindicação dos seus direitos. Em alguns momentos, como na Constituinte, ocorrem grandes convergências gerando amplas mobilizações. Um exemplo atual é o Abril indígena. Nesse sentido, as associações têm se mobilizado em várias direções, tanto para trazer projetos de sustentabilidade e valorização da cultura, como já dissemos, como nessa questão política e de reivindicação dos seus direitos. 

A respeito da eficiência, vai depender da relação e do diálogo do governo com o movimento indígena. O espaço para tal diálogo nos últimos anos está bastante reduzido, o que é preocupante. 

 

E. As políticas públicas do governo – como bolsa-família e distribuição de cestas básicas – também alcançam as comunidades indígenas?

P.X. – Sim, e de forma indiscriminada, beneficiando alguns e prejudicando outros. Para entender melhor, precisamos saber onde e como vivem os indígenas. Dos cerca de 500 mil aldeados existentes no Brasil, 40% vivem em apenas 2% das terras indígenas demarcadas, especialmente nas regiões mais próximas do litoral, do Nordeste ao Sul do país, que foi onde a colonização teve início. Já 60% dos indígenas aldeados vivem em 98% das terras indígenas demarcadas a partir da Constituição de 1988. Aqueles que vivem espremidos em pequenos territórios, como é o caso dos Guarani do município de São Paulo, não tem nem como sobreviver da forma tradicional, já que não tem terra suficiente para isso e nem acesso ao mercado de trabalho. Para essas comunidades, tanto o bolsa-família como as cestas básicas podem fazer grande diferença, para melhor. Já os 60% que vivem nos 98% das terras indígenas, todas na Amazônia, ainda têm sua subsistência estruturada e baseada na agricultura, caça, pesca e coleta de produtos da floresta. Para esses, as cestas e o bolsa-família podem ser catastróficos, pois desestruturam sua economia e induzem ao consumo de produtos industrializados com graves consequências para sua saúde, como já comentamos anteriormente. Além disso, diminuem a autonomia das comunidades. Esses programas e benefícios sociais seriam bem-vindos se fossem formulados junto com as comunidades e adaptados às diferentes realidades. Por exemplo, a merenda escolar, em muitas escolas indígenas das aldeias, tem sido comprada na cidade com alimentos industrializados, que nada tem a ver com a alimentação tradicional. Hoje muitos professores indígenas, junto com as lideranças, têm pactuado com municípios ou Estados para comprarem a merenda dos próprios territórios, dos produtores locais, trazendo com isso a dieta tradicional de volta para dentro da sala de aula e valorizando o alimento e culinária local. Outro problema é o auxílio maternidade. Para obter o auxílio maternidade as mulheres devem ter seu parto na cidade. Com isso perdem o acompanhamento das parteiras, de sua família, perdem também os ritos de pertencimento relacionados à placenta e ao recém-nascido que eram realizados nas aldeias.

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Lavínia Oliveira em aula na Escola Paulista de Enfermagem (EPE/Unifesp)

E. O contato com a sociedade dita civilizada e a decorrente incorporação de elementos dessa cultura têm provocado, nas novas gerações dos indivíduos que compõem as etnias, o desejo de abandonar as tradições e costumes próprios, com a efetiva adesão aos padrões culturais externos? Ou existe, de forma hegemônica, o desejo de preservação das formas tradicionais de vida? 

P.X. Inicialmente pontuamos que o termo aculturação é equivocado. É preciso raciocinar a partir de uma noção dinâmica de cultura. Qualquer cultura está em movimento e mudança constante. Não podemos afirmar, a partir de um olhar externo, que os indígenas “perdem” a cultura. O exemplo mais vivo é dos Guarani, que estão em contato no Estado de São Paulo com o colonizador há mais de 500 anos, trabalham e vivem na periferia das cidades com péssimas condições de vida e não perderam sua língua, costumes e tradições. Muitas vezes essas marcas estão menos visíveis ao olhar dos não indígenas. Os jovens indígenas no Brasil todo, e particularmente nas localidades mais próximas dos grandes centros, têm acesso à escolarização, trabalho e tecnologia. Isso não os faz perder a identidade, é apenas uma mudança. É claro que conflitos existem, mas não sabemos se podemos ou devemos interferir nessa dinâmica. Temos percebido, no entanto, que os conflitos são maiores quando existe uma fissura no tecido social daquela aldeia ou daquele povo. Quando morrem suas lideranças mais velhas, quando perdem a referência, quando estão em situação de risco iminente como no caso dos Guarani Kaiowa no Mato Grosso do Sul, os conflitos se acentuam, o uso abusivo de bebidas alcoólicas, a violência e o suicídio aparecem. Principalmente entre os jovens. 

Por outro lado, ressaltamos que existem povos ainda isolados, sem nenhum acesso à sociedade nacional e muitos em estágio intermediário de contato. Esses povos têm alta vulnerabilidade a doenças infectocontagiosas consequentes do contato. Em contatos com povos isolados feitos nas décadas de 1960 e 1970 grupos inteiros foram extintos. Entre os Panará, povo acompanhado pelo Projeto Xingu desde o contato, a mortalidade no processo de aproximação foi de mais de 80% da população por doenças comuns como infeções respiratórias e gastrointestinais. 

Parece sensato, do ponto de vista político, promover mecanismos de acesso dos indígenas a áreas sociais estratégicas como o ensino, por exemplo, por meio do sistema de cotas ou à saúde pela atenção diferenciada a que se propõe o subsistema de atenção à saúde indígena do Sistema Único de Saúde (SUS).  Entre nosso imaginário sobre o mundo indígena e a realidade existe um fosso. Muitas vezes os problemas de saúde nele se manifestam. É nosso dever percebê-los e atuar, não no sentido de preservar alguma coisa, mas talvez de preservar a própria vida.

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Publicado em Edição 05
Sábado, 10 Outubro 2015 13:03

Sinergia entre povos

Perfil: Roberto Baruzzi

Da redação

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Imagem acima - Professor Baruzzi no Departamento de Medicina Preventiva da EPM, discutindo estratégias da primeira viagem ao PIX (julho de 1965)

Em 1962, o jornal A Gazeta – à época de grande circulação em São Paulo – publicou uma notícia sobre a caravana médica do doutor Oswaldo Monteiro, que estava de partida para a região do Araguaia com o objetivo de atender à população ribeirinha. Aquela matéria despertou a atenção de Roberto Geraldo Baruzzi, professor titular aposentado da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e idealizador do Projeto Xingu. 

Depois de algum tempo, por acaso ou sorte, conheceu Monteiro em uma visita ao departamento médico da Caixa Econômica Federal, onde atuava desde 1957. “Falei que havia ficado sabendo da expedição e, de imediato, ele me convidou para participar da próxima”.

No ano seguinte, Baruzzi, que é especialista em Medicina Tropical pela Universidade de São Paulo (USP) e doutor em Medicina Preventiva pela Unifesp, já estava integrado à equipe da caravana. Os participantes dividiam-se em grupos que eram transportados pelo avião da Força Aérea Brasileira (FAB) até determinados lugares, onde atendiam os povos indígenas. Santa Terezinha, localizada em Mato Grosso, foi seu primeiro destino, prestando assistência aos índios Tapirapé. 

Entretanto, a viagem de 1964 foi a mais importante, quando assumiu a coordenação da expedição a pedido de Monteiro. Foi um momento também de novas ideias. Na volta para São Paulo, depois de ficar com os índios Caiapó e Carajá, a rota fez um pequeno desvio para deixar um piloto no posto de Leonardo Villas Bôas no Xingu. Enquanto esperavam em terras, um desconhecido – que soube depois se tratar do próprio Leonardo – aproximou-se e perguntou se existia alguém para atender um enfermo. O próprio Baruzzi se prontificou a ajudar. “Fiquei intrigado, queria conhecer mais o trabalho dos Villas Bôas”. 

Depois do episódio, várias tentativas foram feitas para encontrar os irmãos, mas sem sucesso. No entanto, como se o destino o acompanhasse, Orlando Villas Bôas apareceu na Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp). O diretor do Parque Indígena do Xingu (PIX) se interessou pela participação da escola no Araguaia. Propôs, assim, um convite: organizar uma equipe para avaliar as condições de saúde daqueles povos indígenas. Nascia, então, o Projeto Xingu. 

O primeiro programa de extensão da EPM/Unifesp, pioneiro na linha de assistência médica, baseava-se em três pilares: plano de saúde contínuo, sistema de vacinação e abertura do Hospital São Paulo (HSP/HU/Unifesp) como retaguarda para casos extremos. No início, as caravanas eram realizadas quatro vezes ao ano e a primeira delas se deu em 1965, com oito integrantes levados pela FAB. 

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Imagem acima: Professor Baruzzi entre índios alto xinguanos
Imagem abaixo, à esquerda: Professor Baruzzi e Orlando Villas Bôas no posto indígena Leonardo, no Alto Xingu
Imagem abaixo, à direita: Professor Baruzzi durante pesquisa com índia Panará, na aldeia Nãcepotiti

Nas primeiras viagens, o principal objetivo era examinar e entender qual era a situação da saúde e os principais problemas. Após esse mapeamento, a prioridade foi a vacinação, principalmente porque os índios estavam totalmente vulneráveis às doenças para as quais já existiam vacinas. Além de levar a imunização a todas as aldeias, a equipe prestava assistência médica, curativa e preventiva, com atendimento às queixas, além de acompanhamento de gestantes e recém- -nascidos. A equipe fazia o cadastramento de todos os indivíduos, criando prontuários especiais organizados por famílias nucleares e ampliadas, por aldeia e por etnia, estratégia que perdura até os dias de hoje.

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Fichas médicas utilizadas no trabalho de campo

De acordo com Baruzzi, a situação encontrada pelos profissionais da área da saúde no local foi difícil. A introdução da ficha médica, com número de registro, foto, dados pessoais, dados clínicos e lista de vacinas foi necessária para um melhor atendimento. “Tínhamos um perfil de cada aldeia. Chamávamos índio por índio para o exame e, quando não apareciam para a consulta, íamos até suas casas. Às vezes, estavam doentes ou não queriam ser atendidos. Existiam também aqueles em reclusão pubertária”.

A reclusão referida por Baruzzi é um rito de passagem comum em 10 dos 17 povos do Parque Xingu, que visa o desenvolvimento social, psicológico e físico do adolescente e sua inserção à vida adulta. Entre as meninas, a reclusão ocorre logo após a menarca para, entre outras razões, evitar o relacionamento sexual e fortalecer o corpo para a futura maternidade. Já os meninos são afastados para torná-los fortes para luta e resistentes para desempenhar as funções masculinas. A reclusão pode variar de vários meses até um ano entre as meninas e de até três anos para os meninos, principalmente se ele estiver sendo preparado para um futuro cargo de chefia.

Cada contato com os povos era feito cuidadosamente. Os pajés, figuras lendárias, criaram uma sinergia com a equipe. “Nunca houve problemas. Não fomos competir com a Medicina deles e eles respeitavam a nossa. O índio tinha liberdade para ir ao médico ou pajé”. Um episódio mostra claramente esse relacionamento. Depois de comer uma bela peixada, Baruzzi começou a passar mal. Era gastroenterite e ele repousou três dias na rede. “Eu ia para o mato de vez em quando e as crianças falavam: ‘Ih, Baruzzi perdeu a barriga!’ Realmente fiquei bem magro”. Mais tarde, após várias tentativas com o chá de folha de goiabeira, uma pajelança foi feita. “O grande pajé fazia gestos, passava a mão na minha barriga, assoprava e cantava. Naquela noite, já estava bom”.

A partir das primeiras visitas, o programa só foi se fortificando, estreitando ainda mais seus laços com as aldeias. Foi um novo conceito médico-pedagógico formado, mostrando um outro sistema de vida, e a EPM incorporava, assim, a cultura xinguana. “A minha marca na escola acabou sendo o Projeto Xingu”. O relacionamento com os irmãos Villas Bôas também se fortaleceu. O próprio Orlando participou, por vários anos, da aula inaugural do curso médico.

Hoje, aos 86 anos, Baruzzi está organizando seu passado. É meio século de um acervo que conta com fotos, materiais audiovisuais e peças artesanais que documentam o trabalho do Projeto Xingu. É a reconstrução de uma vocação que transcendeu a diferença cultural e resultou, além de tudo, em amizade.

Sobre o início de sua atuação no Parque Indígena do Xingu, o Dr. Baruzzi comentou: “Eu estava preparado para esse trabalho do ponto de vista clínico, mas não tinha experiência com o índio. Essa aproximação cultural foi muito interessante. Nunca imaginei que a leitura de uma notícia poderia desencadear em um programa de tamanha dimensão”, finaliza.

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Publicado em Edição 05
Sábado, 10 Outubro 2015 09:50

Onde tudo começou

Expedição Roncador-Xingu instala núcleos de povoamento, abre campos de pouso e chega às cabeceiras do Xingu; a experiência de contato com os povos do Alto Xingu inspira a criação do parque indígena

Celina M. Brunieri

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Orlando Villas Bôas no posto indígena Leonardo, no PIX, na década de 1960

Até a década de 1940 a ocupação das regiões Norte e Centro-Oeste – já habitadas por povos indígenas – constituía um desafio para o governo central. Mapear e colonizar essas regiões, reeditando a empreitada dos bandeirantes nos séculos XVII e XVIII, era um dos objetivos do Estado Novo (1937-1945), instaurado por Getúlio Vargas. O projeto de interiorização do desenvolvimento, que se denominou Marcha para o Oeste, pretendia criar novas vias de comunicação, abrir campos de pouso e fixar núcleos populacionais. Paralelamente, havia a motivação de preencher os vazios demográficos, que – segundo a doutrina do “espaço vital”, difundida pelo nazismo – poderiam servir aos países europeus para o assentamento de seus excedentes populacionais.

Gerenciada pela Fundação Brasil Central, a Expedição Roncador-Xingu representou a principal frente do projeto e seu objetivo – na etapa inicial – era alcançar a Serra do Roncador (Mato Grosso) e os formadores do rio Xingu. Em 1943, uma composição férrea com 19 vagões, que comportavam uma colossal carga, além do pessoal efetivo, transportou a expedição de São Paulo até Uberlândia (MG). O trecho seguinte, com 900 quilômetros, foi feito em caminhões e outros veículos de transporte, que se deslocaram por precárias estradas de terra até Aragarças, às margens do rio Araguaia. Nesse ponto, foi instalada a primeira base de operações, com edificações para os serviços e alojamentos. Feita a transposição do rio, a expedição avançou 150 quilômetros, desbravando trilhas com o auxílio de muares, até alcançar – em meados de 1945 – o rio das Mortes e as primeiras elevações da Serra do Roncador. Embora a Força Aérea Brasileira provesse os serviços de retaguarda, o grupo de expedicionários enfrentava condições difíceis devido ao suprimento irregular de víveres e medicamentos, à malária e à hostilidade dos índios Xavante. Em 1946, os irmãos Villas Bôas – que passaram a liderar a expedição – atingem as cabeceiras do rio Xingu e estabelecem contato amistoso com os povos indígenas, debilitados por epidemias e pela alta mortalidade infantil.

Em sua rota, a expedição abriu 1.500 quilômetros de trilhas, construiu 19 campos de pouso, instalou três bases operacionais e fixou mais de 40 núcleos de povoamento.

A criação do Parque Indígena do Xingu

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Orlando Villas Bôas – que nesta foto de 1965 medica o índio Mengrire, de origem Panará, criado pelo povo Kaiapó Metuktire – assumiu em 1945 a liderança da Expedição Roncador-Xingu, juntamente com seus irmãos, Cláudio e Leonardo

Convictos de que o índio só poderia sobreviver dentro da própria cultura, os irmãos Villas Bôas – apoiados por lideranças políticas e intelectuais como o antropólogo Darcy Ribeiro e o médico sanitarista Noel Nutels – mobilizaram-se para a criação de um parque indígena no Alto Xingu. A demarcação de uma reserva natural garantiria aos povos dessa região os meios de subsistência, o atendimento à saúde e a defesa contra as frentes de ocupação da sociedade. Em 1952 foi, então, apresentado ao Congresso um requerimento com esse teor, não obstante a oposição do governo de Mato Grosso, que promovia a concessão de glebas às empresas colonizadoras. Em 1961, no governo de Jânio Quadros, a proposta foi retomada, concretizando-se com a edição do Decreto n.º 50.455/61.

Somadas as terras indígenas de Wawi, Batovi e Pequizal de Naruvoto, o Parque Indígena do Xingu (PIX) perfaz atualmente 2,8 milhões de hectares e abriga nações que preservam as línguas tradicionais, vinculadas – na maior parte – às famílias jê, karib, aruak e tupi-guarani. Na porção sul (Alto Xingu) estão instaladas dez etnias que já habitavam esse território e mantêm padrões culturais similares. As seis restantes foram transferidas para áreas específicas do PIX por correrem risco de desaparecimento ou necessitarem de assistência material.

Em contraste com as extensas áreas de pastagens e plantações de soja que compõem seu entorno, o PIX exibe uma rica paisagem natural, formada pelas florestas de transição, constituindo um santuário da sociobiodiversidade.

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Traslado do povo Panará para o PIX (1975). O sertanista Cláudio Villas Bôas aparece de óculos escuros

Livros e artigos relacionados:
BARUZZI, Roberto G.; JUNQUEIRA, Carmen (Org.). Parque Indígena do Xingu: saúde, cultura e história. São Paulo: Terra Virgem, 2005.
COTA, Luiz Gustavo. Os irmãos Villas Boas e o Xingu. Planos de Aula. Nova Escola. Disponível em: <http://www.gentequeeduca.org.br/planos-de-aula/os-irmaos-villas-boas-e-o-xingu>. Acesso em: 16 jul. 2015.
INSTITUTO SOCIOAMBIENTAL. Almanaque Socioambiental: Parque Indígena do Xingu: 50 anos. São Paulo: Instituto Socioambiental, 2011.
MAIA, João Marcelo Ehlert. As ideias que fazem o Estado andar: imaginação espacial, pensamento brasileiro e território no Brasil Central. DADOS – Revista de Ciências Sociais, Rio de Janeiro, v. 53, n. 3, p. 621-655, 2010. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/dados/v53n3/a04v53n3.pdf>. Acesso em: 23 jul. 2015.
POLÍTICA indigenista. Fundação Nacional do Índio – FUNAI. Disponível em: <http://www.funai.gov.br/index.php/nossas-acoes/politica-indigenista>. Acesso em: 17 jul. 2015.
RONDON: a construção do Brasil e a causa indígena. Coordenação geral de Elizabete Braga. Website desenvolvido por Daniel Kusaka. Conteúdo produzido para o Projeto Memória/ Fundação Banco do Brasil. Disponível em: < http://www.projetomemoria.art.br/rondon/vida-convite-a-uma-trilha.jsp>. Acesso em: 13 jul. 2015.
SILVA, Hiram Reis e. Expedição Roncador-Xingu II. Pantanal News, Aquidauana (MS), 22 ago. 2011. Disponível em: <http://www.pantanalnews.com.br/contents.php?CID=74815>. Acesso em: 14 jul. 2015.
VILLAS BÔAS, Orlando; VILLAS BÔAS, Cláudio. A marcha para o Oeste: a epopeia da Expedição Roncador-Xingu. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

Breve panorama sobre a política indigenista no Brasil

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Marco geodésico que determina o limite do PIX

Fundado em 1910, o Serviço de Proteção ao Índio (SPI) tinha a missão de prestar assistência aos índios, viabilizando a política indigenista. Outros objetivos do SPI mencionavam a integração ao trabalho agrícola e a transmissão de hábitos civilizados, o que interferia nas práticas tradicionais das etnias. Cândido Rondon, militar responsável pela construção de linhas telegráficas no interior do país, que estabelecera relações pacíficas com os grupos contatados, ocupou pela primeira vez a diretoria do órgão. Em 1916, o Código Civil reconhece os silvícolas como “relativamente incapazes”, razão pela qual deveriam submeter-se ao regime de tutela pelo Estado. Em 1967, o SPI é extinto, criando-se a Fundação Nacional do Índio (Funai). Seu papel era promover a integração dos indígenas à sociedade brasileira, os quais eram considerados não suficientemente “evoluídos”. O Estatuto do Índio, de 1973, define – entre outros pontos – novos parâmetros sobre a propriedade, defesa e ocupação de suas terras, representando um avanço na legislação vigente. Na década de 1980, no contexto dos movimentos sociais pela democracia, os povos indígenas apresentam outra proposta de política indigenista. A Constituição de 1988 altera o modelo político baseado na tutela e assistencialismo, reconhece o direito originário desses povos sobre as respectivas terras e assegura-lhes o respeito à cultura e formas de organização social. Em 2015 está prevista a realização da 1.ª Conferência Nacional de Política Indigenista no período de 17 a 20 de novembro.

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Publicado em Edição 05

Hipertensão arterial e diabetes, entre outros males, atingem um número crescente de indígenas do Xingu e preocupam especialistas

Bianca Benfatti

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Quatro fotos de índios fazendo exames médicos

Apesar de as doenças infecciosas e parasitárias ainda serem o motivo de várias mortes entre a população indígena do Xingu, é a prevalência cada vez maior de doenças crônicas – como hipertensão arterial e diabetes mellitus – que está deixando especialistas de sobrealerta e preocupados com o futuro dessa população.

Uma pesquisa coordenada pela professora do Departamento de Medicina Preventiva da Escola Paulista de Medicina (EPM) da Unifesp – Campus São Paulo – e do programa de pós-graduação em Saúde Coletiva, Suely Godoy Agostinho Gimeno, apontou que 10,3% dos indígenas, tanto do sexo masculino quanto do feminino, apresentam sintomas de hipertensão arterial.

A intolerância à glicose foi observada em 30,5% das mulheres – quase 7% com diabetes mellitus – e em 17% dos homens. A dislipidemia (presença excessiva ou anormal de colesterol e triglicerídeos no sangue) foi detectada em 84,4% dos participantes da pesquisa. Por fim, constatou-se que 57% dos homens e 36% das mulheres sofria com excesso de peso. Já a obesidade central (acúmulo de gordura na parte superior do corpo) predominou entre as indígenas com 68%.

“Um achado importante foi que, pelos dados da impedância bioelétrica (resistência e reactância) que são uma ‘proxi’ da composição corporal dos sujeitos, observou-se que a elevada prevalência de excesso de peso, particularmente entre os homens, se deve à maior quantidade de massa muscular e não de gordura corporal”, diz a pesquisadora. Isso sugere que esses indivíduos são musculosos, por serem ativos, e não obesos, refutando a ideia de que o sedentarismo estaria relacionado com as doenças crônicas encontradas. Desse modo, o excesso de peso deve ser analisado de outra maneira.

Os dados foram colhidos de 179 indígenas da tribo Khisêdjê, na aldeia principal Ngojwere – Posto indígena Wawi – no Parque Indígena do Xingu, em dois períodos: julho de 2010 e agosto e setembro de 2011. Na ocasião foram realizadas entrevistas, exames e testes físicos por uma equipe composta por médicos, enfermeiras, nutricionistas, educadores físicos, graduandos do curso de Medicina e de Enfermagem, além de um sociólogo. Agentes de saúde e professores indígenas, que vivem na aldeia Ngojwere, atuaram como intérpretes e ajudaram a estabelecer a comunicação para a coleta de dados.

Tratamento depende de infraestrutura

O tratamento dos indígenas, que apresentam sintomas das enfermidades investigadas, particularmente do diabete mellitus, às vezes é complicado, pois demanda condições especiais nem sempre disponíveis nas aldeias. “A insulina precisa estar em constante refrigeração, os medicamentos necessitam de controle da dose e de horário, e os níveis de glicemia e da pressão arterial precisam ser monitorados regularmente”, explica Suely.

Os indígenas que precisam de acompanhamento médico continuam sendo atendidos e monitorados pela equipe de saúde da Unifesp, na Unidade de Saúde e Meio Ambiente do Departamento de Medicina Preventiva da EPM. “Os Khisêdjê desejavam conhecer seu atual perfil de saúde no que diz respeito à presença de doenças crônicas”, afirma a pesquisadora. “Além da importância científica e acadêmica dessa investigação, atendemos também uma demanda dessa comunidade”.

Fotografia da equipe, são 18 pessoas e estão em frente a uma consntrução coberta de palha, em um dia ensolarado

Equipe de pesquisa em 2010

Fotografia da equipe, são 17 pessoas em frente a uma construção coberta de palha

Equipe de pesquisa em 2011

Mudança de hábito

Essas doenças crônicas podem estar relacionadas à crescente exposição dos índios aos centros urbanos, o qual estimula o consumo de alimentos industrializados e o trabalho em atividades remuneradas, entre outros comportamentos absorvidos por eles que substituem as tradições alimentares e cotidianas dos índios, mudando a relação destes com o trabalho, terra e alimentação.

De acordo com Suely, a preservação dos hábitos e costumes desses povos seria uma medida preventiva de grande valia. Como exemplo de tal iniciativa, os membros do grupo estão auxiliando os profissionais da equipe de saúde que atua no Polo Wawi a organizar e realizar um diálogo intercultural, proposto na forma de oficina de culinária. A ação busca informar aos Khisêdjê sobre o uso correto da nossa alimentação (não indígena) e valorizar sua dieta tradicional.

Suely ainda avalia que a garantia da terra e dos territórios indígenas também é fundamental, já que eles dependem dela para sua sobrevivência por meio da caça, pesca, cultivo e coleta de alimentos. “Além disso, algumas políticas públicas podem agravar o problema como, por exemplo, a de distribuição de cestas básicas para esses indivíduos”, afirma. “É preciso que tais iniciativas respeitem as diferenças culturais existentes entre os indígenas e os não indígenas”, completou.

Para a professora Suely, o fato de existir um histórico de violência na relação com os indígenas não representou um problema no convívio com os médicos, pois como a equipe está presente no Xingu desde 1965, a relação está consolidada e bem estabelecida. “É preciso considerar que se comete um equívoco quando se fala de ‘gerenciamento’ de população indígena brasileira”, disse.

Ainda segundo ela, algumas distinções têm que ser feitas não apenas do ponto de vista de suas condições de saúde ou de convívio com a sociedade não indígena. A diversidade da organização da sociedade indígena, a qual possui 305 povos e 274 línguas distintas, com seus inúmeros mitos e ritos, envolve e orienta a vida cotidiana. A heterogeneidade se reflete nas relações (pacíficas ou conflituosas) com os não indígenas.

As dificuldades encontradas na operação logística, necessária à permanência de todo o grupo na aldeia, foram marcantes. Entre elas está o deslocamento, de São Paulo até a aldeia, dos equipamentos de uso pessoal e coletivo, das redes para dormir e de todos os aparelhos usados na coleta de dados. Assim como o transporte, de Canarana ao Posto Indígena Wawi, dos produtos de higiene/limpeza não perecíveis e combustível (utilizado tanto para a manutenção do gerador, quanto para o veículo que transporta a equipe de pesquisa entre as aldeias). O deslocamento da equipe se deu por via aérea de São Paulo a Goiânia e terrestre de Goiânia a Canarana por meio de ônibus comercial. De Canarana ao Posto Wawi, foi utilizado um  transporte contratado para esse fim. Fazendo o mesmo trajeto no retorno.

A pesquisa originou, até o presente, seis apresentações em conferências internacionais, duas em congressos nacionais, três dissertações de mestrado e uma publicação de artigo na revista Cadernos de Saúde Pública. Outras duas teses de doutoramento encontram-se em andamento.

Acompanhamento antigo

Os índios, desde o início da colonização portuguesa em 1500, sofrem com as doenças trazidas pelos não indígenas. A convivência com estes resultou, e ainda resulta, em doenças graves, com altas taxas de mortalidade entre os povos indígenas. Milhares morreram no contato direto ou indireto com os europeus e as doenças trazidas por eles, pois não possuíam imunidade natural. Gripe, sarampo, coqueluche, tuberculose, varíola e sífilis são alguns dos males que vitimaram sociedades indígenas inteiras.

A EPM passou a responder, em 1965, pela assistência à saúde dos indígenas que viviam no Parque do Xingu. Naquela época, a malária era uma das principais razões de mortalidade em todas as faixas etárias, enquanto que as infecções do trato respiratório e as doenças diarreicas eram os problemas mais comuns entre os mais jovens. Atualmente, a malária está controlada. O que preocupa, hoje, são as já mencionadas doenças crônicas (hipertensão, diabetes mellitus, intolerância à glicose, entre outras).

Pesquisa: Perfil nutricional e metabólico de índios Khisêdjê

Artigos relacionados: SANTOS, Kennedy Maia dos; TSUTSUI, Mario Luiz da Silva; GALVÃO, Patrícia Paiva de Oliveira; MAZZUCCHETTI, Lalucha; RODRIGUES, Douglas; GIMENO, Suely Godoy Agostinho. Grau de atividade física e síndrome metabólica: um estudo transversal com indígenas Khisêdje do Parque Indígena do Xingu, Brasil. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro: Fundação Oswaldo Cruz, v.28, n.12, p. 2327-2338, dez. 2012. Disponível em: <http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2012001400011 >.

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Veja também: Herança do homem branco

Publicado em Edição 02