Quinta, 04 Fevereiro 2021 09:37

Estudos da Unifesp apontam o aumento do sedentarismo infantil como uma das consequências do distanciamento social no Brasil

Isolamento causado pela covid-19 impactou negativamente na rotina de atividade física em famílias com crianças em idade escolar

Por Paula Garcia

Desde março de 2020, duas pesquisas vêm sendo desenvolvidas no Instituto de Saúde e Sociedade (ISS/Unifesp) - Campus Baixada Santista, a fim de identificar como as famílias brasileiras com crianças abaixo de 13 anos têm enfrentado o período de confinamento provocado pela pandemia de covid-19, principalmente no que diz respeito ao tempo gasto em atividade física dentro da rotina diária. Inicialmente o estudo identificou que, antes do distanciamento, 67,8% das crianças praticavam atividade física pelo menos duas vezes na semana, tendo esse número reduzido para 9,77% no primeiro mês do isolamento (Figura 1). Em contrapartida, 74,9% dos pais entrevistados afirmam que o tempo de uso dos equipamentos eletrônicos cresceu significativamente com a implantação do sistema de aulas on-line, em relação ao horário escolar normal.

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Figura 1: Média da porcentagem de tempo que as crianças passaram realizando as diferentes atividades, atividade física geral e tempo sedentário, durante o distanciamento social, conforme relatado pelos pais (Fonte: Sá et al.  Covid-19 Social Isolation in Brazil: effects on the physical activity routine of families with children. Revista Paulista de Pediatria, v. 39, 2021)

“O fechamento das escolas durante esse período afetou diretamente a rotina de atividade física das crianças, pois, durante o período de aulas, as crianças possuem uma rotina que é mais estruturada, podendo levar a comportamentos mais saudáveis em relação à prática de atividade física, sono e alimentação. A rotina mais estruturada oferece oportunidades tanto na escola quanto em atividades esportivas extracurriculares, para que as crianças as pratiquem e alcancem a taxa referente à prática de atividade física moderada ou vigorosa que é recomendada pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP)”, explica Cristina dos Santos Cardoso de Sá, autora das pesquisas e docente do Departamento de Ciências do Movimento Humano.

Com as atividades dos parques e demais locais comunitários prejudicados pelo período de distanciamento, os momentos recreacionais, esportivos e de interação com outras crianças deram lugar ao tempo gasto em telas de celulares, televisores, computadores e tablets como maneiras de contato e lazer, podendo ultrapassar os limites diários recomendados pela SBP, que são: para menores de dois anos, a exposição às telas deve ser evitada; de dois a cinco anos, no máximo uma hora por dia com supervisão; de seis a dez anos, de uma ou duas horas por dia com supervisão; e a partir de onze anos, de duas a três horas por dia. O aumento desse tipo de atividade sedentária também contribui para o ganho de peso dessas crianças e pode favorecer o início precoce de doenças crônicas.

“A atividade física promove melhor habilidade motora, força muscular, flexibilidade, coordenação, capacidade cardiometabólica, auxilia no menor crescimento do tecido adiposo, importante para prevenção de obesidade, doenças cardiovasculares e inflamação sistêmica. Sendo um fator importante, pois muitas doenças cardiovasculares se originam na infância e se perpetuam pela vida adulta, e a inatividade física leva ao desenvolvimento de obesidade e outras patologias crônicas. Além disso, auxilia na prevenção e tratamento de diversas patologias e contribui para um futuro saudável da criança; promove também melhora no sistema imunológico e reduz o risco de infecções respiratórias e inflamações. A prática de atividade física torna-se um importante recurso para aumentar a resiliência infantil, capacidade de resolução de problemas, estimular o adequado desenvolvimento, bem-estar emocional e interação social, além de melhor autoestima e autoimagem, sendo a escola um ambiente fundamental para esta promoção”, explica Sá.

Mudança de hábitos familiares

“Há um contexto de restrição de movimento familiar, com sobrecarga emocional e psicológica dos responsáveis, acúmulo de trabalho domiciliar e preocupações com um período incerto, impactando o sistema de apoio da criança e práticas de cuidado”, aponta um dos artigos do estudo. O fechamento das escolas, além de modificar a rotina habitual das famílias, trouxe novas formas de estresse com o aumento das responsabilidades e do tempo gasto em educação domiciliar. Outro dado importante é que dentro dos lares brasileiros 83% das crianças menores de 4 anos são cuidadas prioritariamente por mulheres, e a permanência em casa também gerou outras mudanças sociais, como o aumento de violência doméstica. A pesquisa também apresentou um lado positivo do confinamento em casa. Foi percebido o aumento das atividades familiares e oportunidades para a melhor interação entre pais e filhos, envolvendo as crianças em atividades da rotina familiar, melhorando suas habilidades de autossuficiência (Figura 2).

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Figura 2: Mudanças no tempo que as crianças passaram realizando atividades diferentes durante o distanciamento social quando comparadas com o horário escolar anterior (informações relatadas pelos pais) (Fonte: Sá et al., Covid-19 Social Isolation in Brazil: effects on the physical activity routine of families with children. Revista Paulista de Pediatria, v. 39, 2021)

Outro fator que influencia diretamente a prática ou não de atividade física é o tipo de moradia e as suas características. A maioria das crianças reside em apartamento (56%) e não possui espaço dedicado ao exercício físico (86,6%), como academia ou sala de ginástica, em suas residências. Das famílias que moram em apartamentos, a preocupação de não gerar incômodo aos vizinhos com o barulho das atividades das crianças já estava presente antes da pandemia;  com todos os condôminos permanecendo em seus domicílios em tempo integral, o número de reclamações de perturbação do sossego aumentou, entre elas as de crianças brincando ou realizando outras atividades. Os pesquisadores acreditam que essa pode ser uma das causas da diminuição das atividades e brincadeiras físicas dentro de residências, visando a limitação desse tipo de conflito.

Resultados pós-pandemia

Apesar do distanciamento social ser necessário e eficaz para impedir a transmissão de Sars-CoV-2, os resultados das pesquisas sugerem que a estratégia prejudica os níveis de atividade física das crianças. Foi verificado que a permanência prolongada em casa leva ao aumento de comportamentos sedentários, como passar muito tempo sentado ou deitado em atividades como jogar, assistir à TV, usar dispositivos móveis, favorecendo o início precoce de doenças crônicas, e uma forte diminuição do tempo de atividade física em toda a infância.

“Daqui para frente esperamos entender as repercussões desse período no desenvolvimento das crianças. Essa pesquisa traz informações que devem ser consideradas pelos profissionais envolvidos na saúde pública, pesquisadores e pais, com foco no combate à inatividade infantil, podendo contribuir com a construção de estratégias preventivas contra o sedentarismo, capazes de ser implementadas no ambiente doméstico, e minimizar o impacto desse distanciamento na saúde. Permite, ainda, criar estratégias direcionadas à motivação específica de cada faixa etária, associadas às estratégias das famílias, para diminuir o tempo de sedentarismo das crianças, por exemplo, em outras situações de distanciamento”, conclui a pesquisadora.

portal sedentarismo infantil
(Imagem ilustrativa)

Lido 753 vezes Última modificação em Quarta, 24 Fevereiro 2021 12:09

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