Dia 29 de março, às 17h30, na Câmara Municipal de Guarulhos

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Palestrantes nacionais e internacionais apresentaram suas experiências e resultados de trabalhos de apoio a crianças e seus familiares

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Evento visa levantar questões e discutir criticamente os impactos da Medida Provisória (MP) 746/2016 para o ensino médio nacional

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Evento reuniu cerca de 150 pesquisadores de todo o país, além de convidada internacional

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Acordo visa promover melhoria da qualidade da assistência na Atenção Básica no Sistema Único de Saúde

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Encontro acontece dia 18 de outubro na Assembleia Legislativa de São Paulo

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As aulas acontecerão na Escola Estadual Maria Ferreira Sonnewend

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Trabalho de dissertação estuda a trajetória do ensino do conceito de número para crianças

Bianca Benfatti

Fotografia com vários blocos de madeira, triângulos, círculos e cubos

Ao contrário do que supomos comumente, as pesquisas mostram que os saberes ensinados na escola não são meras adaptações das ciências, dos saberes científicos. Há todo um processo, no interior da própria escola, que transforma os anseios sociais sobre o que ensinar naquilo que, de fato, faz parte do dia a dia das aulas. E esse processo pode ser compreendido estudando-se a história da Educação e das disciplinas escolares. Quem expõe essas considerações é a doutoranda Nara Vilma Lima Pinheiro, vinculada ao programa de pós-graduação em Educação e Saúde na Infância e Adolescência da Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (EFLCH) da Unifesp – Campus Guarulhos – e autora da dissertação de mestrado sobre a trajetória do ensino de Matemática nos anos iniciais do ensino fundamental.

Por conta das dificuldades apresentadas nas avaliações escolares, a Matemática é uma das disciplinas que mais chamam a atenção e requerem o desenvolvimento de estudos pedagógicos. A pesquisa mencionada, que se intitula Escolas de Práticas Pedagógicas Inovadoras: Intuição, Escolanovismo e Matemática Moderna nos Primeiros Anos Escolares, analisa ao longo do tempo as propostas inovadoras para o ensino de um dos primeiros temas matemáticos presentes na escola: o conceito de número. Foi apresentada no âmbito do programa de pós-graduação já referido, dando origem a um pôster de divulgação que recebeu menção honrosa durante o V Fórum Integrador de Pesquisadores da Unifesp.

Adotou-se, no caso, um recorte temporal de quase 100 anos (1880 a 1970), durante o qual foram selecionadas três instituições que serviram de modelo para as demais e que representaram os períodos de inovação no ensino da Matemática: Escola Americana (1880-1920), Escola Normal da Praça (1930-1950) e Escola Experimental Vera Cruz (1960-1970).

Fotografia antiga, professora e alunas estão com roupas de época em uma sala de aula

Aula de Aritmética na Escola Normal

Em diferentes momentos históricos, foram mobilizados elementos com vista à renovação dos métodos e conteúdos de ensino que poderiam proporcionar aos alunos condições mais favoráveis ao aprendizado da Matemática. Em específico, um dos expedientes presentes nessas propostas inovadoras dizia respeito ao uso de materiais didáticos que poderiam auxiliar o professor. Diferentes processos de ensino usaram desde materiais encontrados no dia a dia até sofisticados conjuntos de formas, elaborados para atender à chamada Psicologia Cognitiva.

A Escola Americana, a primeira estudada, associada à religião protestante e berço da atual Universidade Mackenzie, aboliu a prática de castigos físicos e estipulou o ensino por série, graduado, inovando no ensino de Matemática. Além disso, importou dos Estados Unidos o chamado ensino intuitivo. Nele a novidade era o objeto usado: materiais de uso diário (palitos e sementes, por exemplo), incorporados para facilitar o aprendizado. “Em se tratando do conceito de número, o primeiro conteúdo matemático ensinado, a professora levava os objetos e transformava-os em objeto de ensino por meio do diálogo, pergunta e resposta”, explica Nara.

No fim da década de 1920, outro movimento de inovação começa a vigorar – a Escola Nova –, destacando-se nesse cenário a Escola Normal da Praça, focada na experimentação da criança. No caso da Escola Americana, a criança passava a manipular os objetos apresentados pelo ensino intuitivo, e seu interesse era despertado quando aprendia noções matemáticas de forma natural, diz Nara. Já na Escola Nova, o processo era diferente: o interesse era o ponto de partida, motivado por jogos, histórias, cantigas e contos que estimulavam a atenção do aluno. O conteúdo era passado numa segunda etapa.

A partir da década de 1960, o movimento da Matemática Moderna propôs um novo método, implantado pela Escola Experimental Vera Cruz. O conceito de número deixou de ser o primeiro conteúdo a ser ensinado, por ser algo muito abstrato. A criança deveria, antes, aprender outros conceitos.

“Assim, ela iria estudar elementos da teoria dos conjuntos, aprender a classificar, a ordenar e depois entraria no conceito de número”, explica Nara. Os materiais concretos ou “estruturados” – que ainda fazem parte do ensino – tinham a função de tornar o aprendizado mais fácil, pois permitiam que o aluno entendesse a dinâmica de funcionamento daquele conteúdo.

A Escola Normal da Praça – que já absorvera os princípios da pedagogia escolanovista – ministrava um curso para formação de professores e, junto a ela, funcionava a Escola Anexa de ensino primário, cujo objetivo era treinar os professores que lecionavam na rede pública.

“Acreditamos que cada escola possui uma cultura própria, onde as políticas acontecem. Ela influi, de certa maneira, em tudo o que ocorre no processo de aplicação das reformas e nas políticas públicas”, esclarece Nara. A escolha pelo ensino primário foi determinada pelo fato de todos os projetos do Grupo de Pesquisa de História da Educação Matemática (GHEMAT) – a partir do qual o trabalho dissertativo foi realizado – incidirem sobre essa faixa escolar. Além disso, o objeto de estudo faz parte do programa de pós-graduação, que é focado na infância e adolescência.

A ideia inicial do projeto – conforme esclarece a autora – ocorreu quando estava na graduação. Na época, a pesquisadora conheceu o GHEMAT, que é coordenado por seu orientador, o professor adjunto Wagner Rodrigues Valente, da EFLCH da Unifesp – Campus Guarulhos. “O grupo é composto por pesquisadores de Matemática de vários Estados brasileiros que trabalham com projetos temáticos, e o meu é um deles.”

Cinco fotos mostram os materiais utilizados no ensino intuitivo

Materiais utilizados para o ensino intuitivo

Importado dos EUA, o ensino intuitivo utilizava-se de objetos como tornos, tábuas pequenas, pauzinhos, sementes e mapas de Parker para facilitar o aprendizado

 
Fotografia de cinco páginas de livros de matemática

Materiais utilizados para o ensino escolanovista

Na primeira etapa do aprendizado escolanovista, o interesse pela matéria era motivado por jogos, histórias e cantigas. Nas fotos, respectivamente na primeira e segunda fileiras (da esquerda para a direita), árvore de cálculo, encartes da revista Billiken, jogos de calcular e frações

 
Fotografias com cubos de madeira e formas geométricas coloridas de plástico

Materiais utilizados para o ensino de Matemática Moderna

Materiais estruturados, como blocos lógicos ou multibase, ainda utilizados no ensino de Matemática Moderna, permitem o entendimento da dinâmica de funcionamento do conteúdo trabalhado

 

Artigos relacionados:

PINHEIRO, N. V. L. Como concretizar a abstrata matemática moderna: o arquivo pessoal Lucília Bechara Sanchez, a Secretaria de Educação de São Paulo e a formação continuada de professores nos anos 1970. Revista Brasileira de História da Matemática, 2013.

VALENTE, W. R.; PINHEIRO, N. V. L. Práticas pedagógicas para a construção do conceito de número: o que dizem os documentos do arquivo Lucília Bechara Sanchez? Zetetiké – Revista de Educação Matemática, 2014.

PINHEIRO, N. V. L. Dos materiais concretos aos estruturados: as transformações na abordagem do conceito de número na escola primária. In: ENCONTRO NACIONAL DE EDUCAÇÃO MATEMÁTICA, 11., 2013, Curitiba. [Curso de curta duração ministrado].

Cubos e outros materiais de madeira colorida
Publicado em Edição 02
Segunda, 02 Junho 2014 16:02

Excluídos da história

Pesquisa retrata a invisibilidade social dos que vivenciam o fracasso escolar

Rosa Donnangelo

* As fotografias que ilustram a matéria são da pesquisadora Elizane Henrique de Mecena

Em uma rua esburacada, crianças voltam da escola - elas tem mochilas nas costas. O dia está cinza e chuvoso.

A situação estrutural da escola e a área ao redor dela caracterizam o ambiente que é frequentado por alunos, professores e funcionários, podendo ser, entre outras causas, agravantes do fracasso escolar. A conclusão é de uma pesquisa realizada pela pedagoga Elizane Henrique de Mecena, apresentada como dissertação de mestrado na Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (EFLCH) da Unifesp – Campus Guarulhos.

Sob orientação de Marcos Cezar de Freitas, livre-docente e coordenador do programa de pós-graduação em Educação e Saúde na Infância e Adolescência, a pesquisadora analisou as causas do baixo desempenho da escola que recebeu os piores índices entre todas as existentes em região periférica da cidade de São Paulo, de acordo com o Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo (Saresp). “O fracasso escolar é atravessado pela forma como o cotidiano social chega e impacta um lugar específico, a saber, as periferias das grandes cidades”, afirma Elizane.

O olhar da pesquisa voltou-se prioritariamente para o interior da instituição e seus principais personagens. “Nossa proposta foi a de mergulhar no cotidiano das pessoas que, de alguma forma, estavam vinculadas (simbólica ou diretamente) à escola, e compreender as nuances do fracasso escolar a partir das representações dos que o vivenciaram”, explica a pesquisadora. Assim, a situação estrutural da escola pesquisada e a área que a circunda determinam o contexto a que têm acesso os alunos, professores e funcionários e são agravantes do fracasso escolar.

“O ‘esquecimento’ político predominante, perceptível nas ruas abandonadas e cobertas pelo lixo nos bairros mais distantes das metrópoles, é também sentido no cotidiano da escola, em particular sob a forma de ausência dos professores. Além disso, a falta de água que atingia a escola e o atraso na chegada de materiais didáticos – habitualmente enviados pelo governo para o início das aulas – também são pequenos exemplos de que o fenômeno não se processa fora de seu lugar de origem”, argumenta Elizane.

Entre os fatores que compõem o processo de fracasso escolar está o absenteísmo dos professores, em geral desmotivados pelas diversas barreiras que enfrentam ao longo de sua trajetória profissional. Elizane cita ainda outros exemplos, como a condição estrutural da escola, inapropriada para comportar a demanda de alunos, e o fraco desempenho do alunado. “A baixa expectativa com relação ao uso do espaço escolar, pouco atraente para os alunos, profissionais do ensino e familiares, e o próprio resultado cotidiano dos alunos são evidências de que a escola é, infelizmente, palco de vivência do que geralmente chamamos de fracasso escolar”, continua a pedagoga.

As 1.400 horas de pesquisa de campo foram empregadas na tentativa de criar uma base para a compreensão do fracasso escolar, a partir das indicações fornecidas pelos próprios envolvidos no ambiente da instituição. A pesquisadora estava determinada a dar voz aos excluídos, normalmente percebidos apenas como números de uma análise estatística. “Um diferencial importante foi poder enxergar o fracasso além do fracasso; dar voz a um grupo de pessoas encerradas em suas próprias vidas”, diz. “Lembro-me de ter ouvido de diversos professores, funcionários da escola, alunos, familiares e moradores que ninguém queria saber deles e de suas existências.”

O diário de campo, as entrevistas e o grande diferencial do projeto – o registro fotográfico – integraram o método de trabalho adotado, baseado no conceito etnográfico (o contato intersubjetivo entre o pesquisador e a comunidade). “A etnografia como metodologia é inescapável, porque é o recurso que temos para nos aprofundarmos nas pesquisas”, explica Marcos Cezar de Freitas.

Uma lousa velha, escrito em giz "Como está a distribuição etária no mundo? Explique o que é migração, imigração e emigração?"

Lousa de sala de aula em péssimas condições de uso

A fotografia, paixão antiga da pesquisadora, permitiu-lhe maior aproximação da comunidade. “Eles não estavam somente sendo ouvidos, estavam sendo fotografados também.”

Apenas números

Os graves problemas estruturais das escolas brasileiras são, não raro, reduzidos a meros índices de desempenho, mesmo por parte de instituições governamentais, que deveriam ter como principal preocupação desenvolver estudos para superar as dificuldades apontadas.

O orientador, de sua parte, questionou os sistemas de avaliação, em geral nem um pouco condizentes com a realidade das escolas de periferia. “A avaliação pode ser um processo positivo e necessário. Contanto que efetivamente não seja um instrumento de regulação, controle e disciplinarização”, esclarece.

Os questionamentos de Elizane também foram feitos nesse sentido, principalmente levando-se em conta o fato de que a esfera da escola não se limita somente ao âmbito pedagógico, mas também integra o cultural e o social. Para fazer uma crítica adequada dos sistemas e métodos de avaliação, a pesquisa, que é interdisciplinar, combinou contribuições da Antropologia, da Sociologia e da Pedagogia.

Elizane explica que a dificuldade maior, apesar do esforço necessário para produzir o conteúdo, foi lidar com a violência urbana, muito alta na região. Para contornar essa situação, recebeu ajuda de um policial e não se intimidou.

Freitas também se referiu a essas dificuldades, mas enalteceu o fato de a pesquisa retratar a realidade, sem deixar de dar voz a quem realmente pertencia à escola, mesmo que indiretamente.

“A maior dificuldade é deixar a realidade falar. Praticar o autopoliciamento e evitar que nos dirijamos à realidade para comprovar categorias que já conhecemos”, acentua. “A coisa mais fácil, em situações como essa, é trabalhar com dualidades falsas, descrevendo o céu onde eu estou e o inferno onde eles moram. Só é possível conhecer o cotidiano das pessoas se o vivenciarmos para tirar dele uma teia de significados.”

Elizane e Freitas conseguiram reunir um amplo material sobre as dificuldades enfrentadas pelas crianças que vivem e estudam nas periferias. “A pesquisa permitiu aproximar-me de uma realidade documentada mas, diante da perspectiva de quem a vive, ainda temos muito campo de estudo, e muitos são os caminhos que se inter-relacionam no que chamamos de fracasso escolar, ainda mais em um campo específico como são as periferias das grandes cidades”, afirma a pesquisadora.

fotografia de uma sala de aula, as paredes tem marcas de fuligem, o sol entre por uma janela, mas ela está cheia de grades

 Sala de aula que foi incendiada em um final de semana

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À esquerda. a via de entrada da escola  - demonstração de abandono. No centro, acima, evidenciando o desinteresse pelas aulas, alunos abandonam os livros na sala de aula. Centro, abaixo, fechadura de porta de sala de aula, semelhante às de celas de prisão; os inspetores ficam com a chave mestra e decidem quem entra no ambiente e quem dele sai. À direita, a quadra da escola evidencia o descaso com o ambiente escolar e com os alunos.

A fotografia mostra vários alunos sentados, esperando.

Alunos em aula vaga - cena recorrente

Fotografia da pesquisadora

Elizane Henrique de Mecena

Artigo relacionado:

FREITAS, M. C.; MECENA, E. H. Vulnerabilidades de crianças que nascem e crescem em periferias metropolitanas: notícias do Brasil. Revista Latinoamericana de Ciencias Sociales, Niñez y Juventude, Manizales (Colômbia): Universidad de Manizales, v. 10, n.1, p. 195-203, jan.-jun. 2012.

 
Publicado em Edição 02
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