Segunda, 16 Novembro 2020 16:39

Opinião: Segundo turno das eleições coloca à prova baixa ansiedade eleitoral

Desenho de um homem votando em uma urna eletrônica, com mulher ruiva na fila atrás dele Desenho de um homem votando em uma urna eletrônica, com mulher ruiva na fila atrás dele

Por Rogerio Schlegel e Amanda Freitas*

Nos Estados Unidos, a disputa entre Trump e Biden gerou uma epidemia de ansiedade eleitoral que atingiu mais de dois terços do eleitorado e está sendo objeto de recomendações da American Psychological Association. No Brasil, há evidências de que o contrário ocorre com as eleições municipais: a alta voltagem de 2018 deu lugar a uma baixa ansiedade eleitoral, acompanhada de um refluxo na polarização e no compartilhamento de material político nas redes sociais em 2020. Agora, essa constatação será colocada à prova no segundo turno.

Chegamos a esse diagnóstico a partir da realização de grupos focais com eleitores de diferentes partes do país com foco nas formas de se informar e lidar com fake news em 2018 e 2020, parte da pesquisa Nova Política?, desenvolvida na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). No grupo focal, pessoas “comuns” debatem livremente temas e estímulos apresentados pelos pesquisadores. Trata-se de um método qualitativo, em que o conteúdo gerado não pode ser considerado representativo do que toda a população pensa, mas cujo ponto forte é revelar tendências atitudinais e estratégias de persuasão que podem se reproduzir na sociedade.

Atitudes dos eleitores ouvidos em três grupos focais on-line realizados na segunda quinzena de outubro constroem um relato recorrente: pessoas com envolvimento intenso em 2018, quando questionavam a escolha de conhecidos e chegaram a romper amizades, agora se sentem distantes da política, avessas aos confrontos gerados pela polarização e sem vontade para alimentar as redes sociais com repasse de material político. Não é que os estímulos não cheguem aos celulares. Na avaliação predominante, mais campanhas e de linhas políticas mais diversificadas estão lançando mão de peças digitais. O eleitor e a eleitora é que estão com menor disposição para passar as mensagens adiante.

Os próprios eleitores explicam essa mudança de comportamento. Uma das principais justificativas é o sofrimento trazido pela intensidade da mobilização de 2018. “Eu me afastei de pessoas muito próximas, como amigos que eram muito queridos, tive muito problema com isso e isso me chateou muito”, conta uma profissional liberal e pós-graduanda. Outra explicação é o fato de as eleições municipais envolverem questões menos apaixonantes, que favorecem menos a polarização e dão centralidade à gestão das cidades. “As pessoas, principalmente da quebrada, estão preocupadas com o que acontece no dia a dia, como a rua alagada”, raciocina um jovem universitário. “Quando alaga a rua da comunidade, a pessoa nem quer entender por que tá alagando, só vai culpar o político atual que tá ocupando o espaço de poder.”

Um terceiro fator com destaque é o próprio lugar ocupado pela comunicação via rede sociais. Eleitores de diferentes faixas etárias relatam estar mais atentos e céticos diante do que considerarem fake news. Talvez céticos até demais: diante de mensagens verdadeiras, participantes dos grupos focais algumas vezes deram motivos vagos para avaliarem que o conteúdo era falso, como a hashtag atrelada a um movimento de que discordam ou a baixa qualidade de uma imagem.

Nenhuma dessas tendências quer dizer que o sentimento antipolítica que ajudou a eleger Jair Messias Bolsonaro tenha passado. O desencanto que tem múltiplas causas e foi catalisado por anos de Operação Lava-Jato permanece. Algumas intervenções sugerem que o próprio Bolsonaro começa a ser incluído no que ajudou a apelidar de “velha política”. Diz uma bolsonarista da safra 2018: “Muitos candidatos ainda estão tentando surfar na onda do bolsonarismo, mas as pessoas estão cansadas”. É mais uma peça no quebra-cabeças para entender por que os candidatos explicitamente apoiados pelo atual presidente vão mal nas pesquisas de intenção de voto.

Uma questão que ainda nos intriga, como pesquisadores, é o nível de resiliência do antipetismo que marcou as últimas eleições. Ansiedade e polarização em baixa antes do primeiro turno levavam cidadãos que fizeram campanha contra o PT a demonstrarem indiferença diante de candidatos “de esquerda”. Esse estado de dormência resistirá a chances concretas de o partido e seus aliados voltarem ao poder agora ou em 2022? Em 29 de novembro, as disputas envolvendo candidatos petistas e casos como o da cidade de São Paulo, que tem PSOL contra PSDB, prometem ser um ótimo ponto de partida para responder a essas perguntas de maneira consistente.

*Rogerio Schlegel, doutor em Ciência Política pela USP e professor da Unifesp, e Amanda Freitas, graduanda em Ciências Sociais na Unifesp, coordenam a pesquisa Nova Política? O impacto eleitoral das novas tecnologias de informação e comunicação, com recursos da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp, proc. 2019/22.408-8) e aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa. A pesquisa é desenvolvida no Pimentalab – Laboratório de Tecnologia, Política e Conhecimento.

As opiniões expressas neste artigo não representam a posição oficial da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp)

 

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