A Unifesp e os rankings: o que fazer?

Na última nota publicada aqui - Dívidas do ICT serão quitadas hoje segundo a Reitoria - comentei que a Unifesp tem condições de se tornar uma universidade de classe mundial. Em dezembro de 2013 o jornal Entrementes da Unifesp publicou o artigo abaixo onde eu busquei levantar alguns pontos que julgo relevante nessa discussão.

 

 

A Unifesp e os rankings: o que fazer?

por Luiz Leduíno de Salles Neto, docente do ICT-Unifesp, atualmente também diretor eleito do campus São José dos Campos

Esse artigo tem como objetivo fomentar a discussão, principalmente em nossa universidade, sobre três temas que julgo estarem interligados: 1. a qualidade da Unifesp (pós-expansão); 2. o posicionamento da Unifesp nos rankings de universidades; 3. o que precisamos fazer para consolidar a Unifesp como uma das melhores universidades do mundo?

Começando pelos rankings, que teve início em Xangai quando o governo chinês objetivou selecionar as melhores universidades do mundo para custear, nelas, o estudo de milhares de seus estudantes, é notório que  a Unifesp tem melhorado, ano a ano, sua posição nos mais conceituados e comentados rankings de universidades, com exceção do IGC-MEC. Por exemplo, no ranking das melhores universidades latinoamericanas elaborado pela QS University Rankings em 2013, a Unifesp ocupa a décima sétima posição. Em 2011 estava na posição número 31. Nesse ranking cada universidade receber um indicador calculado pela seguinte fórmula: QS= 0,30 x1 + 0,20 x2+ 0,10 (x3+x4+x5+x6+x7), onde x1 é a reputação acadêmica (índice determinado por meio de pesquisa realizada com acadêmicos da América Latina); x2 é a reputação dos empregadores (índice determinado por meio de pesquisa pesquisa realizada com empregadores da América Latina); x3 é o número de artigos publicados; x4 é o número de citações por artigo; x5 é a  qualidade do ensino sendo estimada pelo quociente número total de alunos matriculados por número de professores em tempo integral; X6 é a proporção de professores com doutorado; X7 é o impacto na web. O score da Unifesp foi 78,40 [ver 1].

Tendo em vista os indicadores utilizados nesse ranking específico, podemos concluir que as vinte primeiras universidades são, de fato, de muito boa qualidade? A resposta depende, obviamente, do que consideramos uma boa universidade. Olhemos para a nossa. Segundo o seu estatuto, a Unifesp tem como missão “desempenhar, com excelência, atividades indissociáveis de ensino, pesquisa e extensão”. O número de artigos publicados, o número de citações por artigo e a quantidade de professores doutores são indicadores conhecidos e muito utilizados para aferir a qualidade da pesquisa científica de uma instituição, sem a ilusão de que sejam perfeitos e únicos. No que diz respeito à qualidade do ensino, a opinião dos empregadores dos nossos alunos é muito relevante. Creio ser um consenso que ensino e pesquisa de excelência são condições necessárias para a universidade também promover uma extensão de excelência. Assim, o ranking QS parece ser uma boa medida de qualidade da universidade.

Um corolário do acima exposto é que a Unifesp tem melhorado sua qualidade, sendo uma das melhores universidades do país, mesmo com diversos problemas de infraestrutura decorrentes de sua “pouca idade” como universidade e de sua corajosa e necessária expansão. Isso não deveria ser surpresa se olhássemos o histórico das duas melhores universidades do país, por qualquer ranking, e na opinião de boa parte dos acadêmicos brasileiros: USP e UNICAMP.

Vale conhecer a seguinte descrição:

“O edifício apresentava indícios de ter sido mal dimensionado em seu projeto para abrigar uma instituição de ensino(…) Um exemplo era o espaço destinado à biblioteca. Além de acanhado para a sua finalidade (em torno de 40m2), localizava-se no primeiro andar, considerado inadequado devido ao peso que os volumes das publicações exercem sobre a estrutura(…) Uma única sala permaneceu no térreo, mas a péssima acústica era motivo de queixas rotineiras devido aos sons no piso do primeiro andar(…)

Carpetes colados no teto foram improvisados como revestimento acústico para minimizar o desconforto. E mais: tapumes de madeira passaram a dividir salas de seminários e salas de aulas maiores para acomodar monitores e professores recém-chegados(…)

No quesito improvisação, porém, nada se comparou à criação de salas para abrigar pós-graduandos depois de o Instituto implantar programas de mestrado e doutorado. A extravagante solução encontrada praticamente transformou a área externa do edifício em um cortiço.”

Poderia ser a descrição de um dos novos campi da Unifesp, mas trata-se de um trecho do livro“IMECC, 40 anos – A trajetória do Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica da Unicamp“ de Paulo César Nascimento, e fala do início do IMECC, na década de 70. Esse instituto hoje é referência internacional nas áreas de matemática, matemática aplicada e estatística, possuindo programas de pós-graduação com notas máximas na CAPES e superou há muito tempo as dificuldades com a infraestrutura física.

Ao afirmar que o maior patrimônio de uma universidade é a sua comunidade, docentes, estudantes e técnicos-administrativos, não estamos dizendo que a infraestrutura não seja importante, mas que é natural a existência de dificuldades no início de um campus ou até de uma universidade.

Além do ranking QS das universidades latino-americanas, a Unifesp está bem posicionada no ranking QS 2013 mundial, onde está na posição 411-420 - há apenas três universidades brasileiras à frente; no Ranking Universitário da Folha, onde é a 11a melhor universidade do país.

Com isso não temos dúvidas que a Unifesp tem condição e potencial de se tornar uma universidade de classe mundial, assunto que abordaremos em seguida. Mas antes, cabe perguntar por que a nota da Unifesp está diminuindo na avaliação feita pelo MEC? Muitos dirão que é devido à expansão. Estão certos. Outros poderão concluir, então, que a expansão piorou a qualidade da Unifesp. Esses, creio, estão equivocados, vide os rankings supracitados, mas também a forma como o IGC é calculado.

O professor do ITA Armando Milioni, ex-diretor do ICT-Unifesp, explica de forma muito didática algumas opções não usuais do INEP/MEC no Cálculo do IGC contínuo em [2]. Para o cálculo do IGC o INEP/MEC calcula um indicador para graduação, um para o mestrado e outro para o doutorado. O indicador da graduação (Grad) é obtido a partir da média ponderada dos Conceitos Preliminares de Curso (CPC)  atribuídos a cada curso de graduação da instituição. O fator de ponderação é o número relativo  de matrículas do curso e o CPC, que é um número entre um e cinco, é calculado a partir do desempenho dos alunos no ENADE (Exame Nacional de Desempenho de Estudantes), da qualidade do corpo docente e da infraestrutura da instituição.  Os indicadores de mestrado (Mest) e doutorado (Dout) são obtidos a partir das médias ponderadas das notas dadas pela CAPES aos programas  da instituição. O fator de ponderação também é o número relativo de matrículas no programa. Só são levados em consideração os programas com nota igual ou superior a três e as notas dos programas superiores a cinco são reduzidas a cinco - vale observar que essa forma de calcular os indicadores de mestrado e doutorado prejudica a nota obtida pela Unifesp, pois nossa universidade possui diversos programas notas 6 e 7.

Vamos aos números para ficar mais paupável. Consideremos os indicadores obtidos pela Unifesp e pela UFRGS, respectivamente primeira e segunda colocadas no ranking do IGC divulgado em 2009 pelo INEP/MEC. A Unifesp obteve Grad 3,20, Mest 4,52 e Dout 3,40. A UFRGS obteve Grad 3,75, Mest 4,73 e Dout 3,58. Vale notar que nos três indicadores a UFRGS ficou à frente da Unifesp. É, assim, natural indagar por que a Unifesp obteve um IGC 440, maior que o IGC da UFRGS, que foi 422, se, segundo os indicadores, a UFRGS possui graduação, mestrado e doutorado melhores do que a Unifesp? Isso não seria um paradoxo? Se levarmos em conta tanto as definições de otimalidade e dominância utilizadas nas áreas de otimização multiobjetivo e multicritério quanto o bom senso, certamente sim. Em [2] os autores esmiuçam os cálculos e mostram que o paradoxo ocorre devido a fatores de ponderação de cada um dos três indicadpres utilizados para o cálculo do IGC. Esses são basicamente o número relativo de alunos equivalentes de Graduação, Mestrado e Doutorado da Instituição. A Unifesp “fica à frente” da UFRGS, e de outras universidades federais melhor avaliadas em cada um dos critérios, por ter uma grande número de alunos de doutorado em relação ao número de alunos de graduação. Como a cada ano o número de estudantes de graduação da Unifesp aumenta, a tendência a curto prazo, se mantida a metodologia do INEP/MEC, é o IGC contínuo da Unifesp continuar caindo. Entretanto, mesmo com essa duvidosa ponderação, como também está em curso um aumento do número de estudantes de doutorado nos diversos programas já aprovados nos novos campi [ver 3], o IGC contínuo da Unifesp deve voltar a subir em alguns anos.

Voltando aos rankings internacionais, se podemos concluir que a Unifesp está bem posicionada em relação às universidades brasileiras, é também notório que estamos muito atrás das melhores universidades do mundo. E aí reside um fator muito  importante para analisarmos. O que essas universidades tem que nós não temos? Urge discutirmos isso e definirmos políticas que levem nossa universidade a ser uma das melhores do mundo, por que não? A sociedade brasileira seria a grande beneficiada.

 O Foresight estratégico “Unifesp 2033”, proposto pela pró-reitoria de planejamento, pode ser um meio para formularmos, conjuntamente, um projeto de universidade de classe mundial e pelitearmos o apoio do MEC e do MCTI, que até hoje não deixaram de financiar bons projetos da nossa universidade. Também temos a Fapesp, que financia todo projeto considerado meritoso. Mas é preciso que ser uma universidade de classe mundial seja uma prioridade institucional e de toda a comunidade interna. Não existe atalho para a excelência, precisamos de tempo e condições para trabalharmos no desenvolvimento do ensino, da pesquisa e da extensão e em suas políticas e ações.  Em frente!

Referências

[1]http://www.topuniversities.com/university-rankings/latin-american-university-rankings/2013.

[2] Milioni, A. Z.  et al. UMA ANÁLISE DOS RESULTADOS DO IGC USANDO DEA, Anais do XLIII SBPO, 2012.

[3] Salles-Neto, L. L., “O REUNI e a qualidade, o caso da Unifesp”, http://www.andifes.org.br/?p=20705