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Terça, 22 Novembro 2016 10:07

O século dos desequilíbrios

Cristina Soreanu Pecequilo

No início do mês de outubro a conclusão das negociações da Parceria Transpacifico (TPP, o Pivô Asiático) foi alardeada como prova do sucesso da cooperação global.  A criação da área de livre comércio que une nações dos continentes asiático e americano foi anunciada como a maior do mundo. Sustentando essa avaliação, apresentavam-se em sua lista de membros: Estados Unidos, Japão, Canadá, México, Peru, Chile, Cingapura, Austrália, Nova Zelândia, Malásia, Vietnã e Brunei. Anunciava-se que esse passo era apenas o primeiro da nova experiência de acordos macrorregionais, que incluem as negociações secretas em andamento da Parceria Transatlântico de Comércio e Investimentos (TTIP, o Pivô Transatlântico), com previsão de conclusão em dezembro de 2015.

O mundo estaria caminhando em definitivo para uma era de prosperidade e progresso sustentada na liberalização dos fluxos de mercadorias, provando a consolidação da interdependência e da transnacionalização. A globalização, afinal, estaria voltando a seus rumos, após alguns obstáculos avaliados como menores pelos defensores dessas teses. E quais teriam sido essas barreiras?

foto do ex presidente Obama em um discurso

As crises nos Estados Unidos, de George W. Bush, e na União Europeia, que eclodiram no biênio 2007/2008, foram geradas por erros de governantes específicos. São exemplos as guerras contra o terrorismo no Afeganistão e no Iraque promovidas pelos estadunidenses depois dos atentados de 11 de setembro de 2011, que levaram a gastos excessivos, com perda de foco econômico. Por sua vez, a crise da Zona do Euro fora gerada pela irresponsabilidade dos PIIGS (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha), ao maquiar suas contas públicas para poder pertencer ao seleto clube de nações da moeda comum.

O fato de que agências de rating conhecidas, que avaliam se os países seriam ou não confiáveis economicamente, como Standard Poor’s, Fitch Ratings e Moody´s (as mesmas que rebaixaram o Brasil), terem dado nota máxima aos PIIGS pouco antes da sua implosão econômico-social é ignorado, assim como a decisão da União Europeia de aceitá-los no Euro. Os déficits estadunidenses, as ameaças periódicas de que os Estados Unidos “fechem” o governo por não terem dinheiro, é outro fato encoberto. De prático, anunciava-se: o mundo estava mudando e o Brasil mais uma vez ficava de fora.

Ora, do TPP e do TTIP não é só o Brasil que fica de fora: os demais “RICS” (Rússia, Índia, China e África do Sul) estão alijados desses processos, assim como a Organização Mundial de Comércio (OMC), instituição multilateral global que zela pelo comércio internacional livre e justo.

Nenhum desses acordos exige que padrões ambientais, trabalhistas e sociais elevados sejam seguidos pelos membros, colocando em xeque conquistas nesses setores para impedir a exploração indevida de mão de obra e garantir o desenvolvimento sustentável. Muito pelo contrário, eles traçam suas regras, ignorando esses padrões, assim como iniciativas das Nações Unidas previstas nos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) que sucedem aos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM). Apesar de pouco noticiado, o TPP já foi alvo de protestos de trabalhadores, especificamente na Alemanha.

Esta é uma era de sombras, que ignora as fragmentações contemporâneas, simbólicas, dos fracassos do século XXI e encobre uma guerra de posições. Tal disputa se manifesta em escala global, com tentativas do eixo de poder dominante, Estados Unidos-União Europeia, de barrar a ascensão dos emergentes, sintetizados no acrônimo BRICS, enquanto estes tentam traçar um modelo político-econômico de desenvolvimento e igualdade. Ambos são vulneráveis: seja por seu desejo de manter poder e suas deficiências internas, seja por sua mescla de força e fraqueza. Isso gera instabilidade, pois predomina o vácuo de poder entre os que declinam no eixo Norte, e os que não ascenderam plenamente no eixo Sul.

Ao mesmo tempo em que cria mecanismos que desafiam a ordem, como o Novo Banco do Desenvolvimento, instituição financeira organizada para o crescimento dos BRICS, e o Banco Asiático de Desenvolvimento em Infraestrutura, o Sul permanece sujeito às variações do dólar, dos fluxos de crédito e de investimentos ocidentais. A contrarreação hegemônica dos Estados Unidos não se limita a essa esfera, incluindo sua dimensão tradicional de poder: a projeção estratégica, reforçada pela criação de novos comandos militares, como o da África, que permitem sua rápida presença bélica em todos os continentes.

Houve o aumento de investimentos em regiões chave para os emergentes, como o Atlântico Sul, zona de produção de gás, petróleo do pré-sal e rota de passagem e intensificação do conflito contra as drogas na Colômbia e no México. Nunca é demais lembrar que desde o fim da Guerra Fria, em 1989, a superpotência restante esteve envolvida em quase uma dezena de guerras e intervenções com (ou sem) o aval das Nações Unidas (algumas justificadas pelo combate ao terrorismo, outras por razões humanitárias associadas à “Responsabilidade de Proteger - R2P”): Iraque (1990/1991), Ex-Iugoslávia (1992/1995), Kosovo (1999), Afeganistão (2001/2014), Iraque (2003/2011), Líbia (2011), sem mencionar os bombardeios unilaterais ao Estado Islâmico iniciados em 2014.

Como resultado, ondas de refugiados chegam à União Europeia pelo mar e pela terra, aos quais não se aplica a “R2P”, e se esquecem das convenções de direito internacional. Iniciativas como as do ODM e dos ODS são adiadas ou apenas usadas como retórica diante dos novos blocos econômicos. A xenofobia cresce, ao lado da intolerância, provocada pelo medo do diferente e da mudança. Similar à bipolaridade, dois modelos se confrontam: os do Norte e os do Sul. Muitos falam que estaríamos chegando ao futuro. Não estamos, permanecemos no passado vivendo guerras presentes: ninguém ganha e todos perdem no século dos desequilíbrios.

Cristina Soreanu Pecequilo é professora de Relações Internacionais da Escola Paulista de Política, Economia e Negócios da Unifesp (EPPEN/Unifesp), autora de Os Estados Unidos e o Século XXI, A União Europeia e O Brasil e a América do Sul

entrementes 12 nov 2015  Sumário do número 12

Publicado em Edição 12

Projeto visa facilitar a integração na sociedade brasileira

José Luiz Guerra

Um grupo de alunos da Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas do Campus Guarulhos da Unifesp (EFLCH/Unifesp) criou o Memorial Digital do Refugiado (MemoRef), projeto que visa inserir refugiados na sociedade brasileira, por meio de aulas de português, intervenções culturais e registros escritos, fotográficos e audiovisuais produzidos com base nos trabalhos, além de integrar a comunidade acadêmica a um projeto cultural de cunho humanitário.

A ideia surgiu a partir das reflexões da discente de Letras da EFLCH/Unifesp e coordenadora do projeto, Marina Reinoldes, que ministrava voluntariamente aulas na ONG Oásis Solidário, na mesquita do Pari. “Comecei a dar aula em maio e fiz uma publicação chamando outros estudantes da Unifesp para ajudarem. Como a procura foi grande, decidi tentar levar o projeto para a EFLCH/Unifesp e começamos a organizá-lo”, explica. Segundo ela, o formato do MemoRef foi pensado durante cerca de cinco meses.

imagem dos Alunos do MemoRef interagindo com a Bateria Malagueta

O MemoRef trabalha em três eixos: o primeiro, ministrando aulas gratuitas de português para os refugiados, usando o idioma como meio principal de inserção dos mesmos na sociedade; o segundo, promovendo ações culturais para promover a integralização dos refugiados com a comunidade acadêmica; e o terceiro, elaborando um banco de dados construído a partir das ações culturais, que poderá servir como fonte de dados para futuras pesquisas acadêmicas.

O material didático, formulado pela equipe do MemoRef, traz lições que ensinam os alunos a usarem expressões cotidianas, conhecerem os nomes dos estados brasileiros e de objetos comuns. O grupo de ensino é atualmente formado por 11 membros, sendo uma coordenadora, uma vice-coordenadora, cinco organizadores e quatro monitores.

As aulas tiveram início em 02 de setembro, contemplando 15 refugiados vindos da Nigéria, Camarões e Síria, todos encaminhados pela Cáritas Arquidiocesana de São Paulo. Além das aulas de português, que ensinam o básico para que os alunos possam se virar em situações cotidianas, os estrangeiros são estimulados a conhecer a cultura brasileira na prática e interagir não só presencialmente, como também à distância, utilizando redes sociais, além de ter contato com particularidades da cultura nacional, como caldo de cana, caipirinha e churrasco. Em uma das atividades extraclasse, os alunos participaram de uma apresentação da Bateria Malagueta, grupo instrumental da EFLCH/Unifesp, tendo a oportunidade de conhecer os nomes dos instrumentos e tocar junto com os ritmistas.

Ingrid Albuquerque, vice-coordenadora do grupo, vê o trabalho não apenas como aulas de português, mas como uma ação de perspectiva humanitária e recíproca de ambos os lados. “Eles sentem a energia que nós passamos para eles e se sentem privilegiados quando veem que nós sabemos alguma música ou algum tópico de cultura deles”.

Dentro da Unifesp, o projeto conta com o apoio do Laboratório Interdisciplinar de Formação de Educadores (Life), ambiente voltado à realização de práticas pedagógicas, da Cátedra Sérgio Vieira de Mello, que auxiliará na seleção de dados para o memorial, realizará algumas atividades específicas sobre refúgio e mediação com o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) e da biblioteca da Unifesp, que cederá espaço para a realização de uma exposição fotográfica que apresentará o olhar do refugiado sobre a comunidade em que vive.

As coordenadoras citam os diferentes níveis de português como uma das dificuldades a serem enfrentadas no trabalho. “Alguns alunos estão com muitas dificuldades, pois só sabem o árabe e temos de dar uma atenção especial a eles. Em contraposição alguns querem entrar no ensino superior e estamos procurando atender essa necessidade”, diz Ingrid. Os alunos que têm mais dificuldades são acompanhados mais de perto por um dos monitores que dão o suporte aos professores.

Possibilidade de expansão

Quando redigido, o projeto do MemoRef previa o atendimento a um grupo de 15 refugiados em aulas que iriam de setembro a dezembro de 2015, com possibilidade de abertura de nova turma em 2016. No entanto, a aprovação do projeto no programa Pró-cultura da Unifesp e a visibilidade que a ação ganhou dentro e fora da universidade fizeram com que a organização sonhasse mais alto. “Escrevemos o projeto até dezembro porque estávamos com medo de pensar muito alto e não conseguirmos fazer o que estávamos propondo. No entanto, bateu aquele arrependimento, porque estamos vendo que é possível organizar e por isso vamos procurar outros meios de continuar o projeto”, explica Marina.

Atualmente, a cidade de Guarulhos abriga 242 refugiados, 72 deles chegaram em 2015. A intenção do MemoRef é a de que, até o final de 2016, esses refugiados passem pelo curso, meta que Marina encara como um sonho. “Espero que nós consigamos atender a essa demanda, pois faz parte do papel da universidade. É algo que eles precisam e é uma forma de nós retribuirmos à comunidade todo o aprendizado que a gente tem dentro da universidade”, finaliza.

A voz dos refugiados

Luc Tadieu Kovam, de 45 anos, veio de Camarões e é um dos estudantes do MemoRef. Ele afirma que as aulas são boas, assim como os professores. Por ter o francês como idioma nativo, sente um pouco de dificuldade com o português. “Entender é fácil. Difícil é falar. Consigo fazer tudo sozinho e quando preciso de algo que não sei o nome, aponto”. Para ele, a evolução é nítida, pois quando chegou não sabia nenhuma palavra em português. “Como você vai se relacionar com uma pessoa sem falar a língua dela? Você tem que aprender”, diz.

Já o nigeriano Ogurieti Marvin Tunde, de 30 anos, está achando fácil aprender o português e afirma que recebe muita ajuda dos professores. Assim como Luc, ele também já consegue pedir as coisas em português, mas acha o idioma difícil em comparação com o inglês, sua língua nativa. “O vocabulário do português é muito diferente e falar e escrever ainda é muito difícil”, completa.

entrementes 12 nov 2015  Sumário do número 12

Publicado em Edição 12
Terça, 22 Novembro 2016 09:06

Carta de uma negra estudante

Por um instante me questionei se no título dessa carta colocaria antes o termo “negra” ou o termo “estudante”, mas logo pensei, “que tolice a minha!”, pois antes de ter o meu diploma, antes de estar na universidade, eu sou negra; antes de abrir a boca para fazer qualquer afirmação sobre quem ou o que sou, é uma negra que veem; quando passo por humilhações como ser perseguida por um segurança em um shopping ou museu, quando me olham exalando nojo, me fazem os mais baixos julgamentos, quando me interesso por um garoto de uma etnia qualquer e penso que há a possibilidade de ser rejeitada por ele ou sua família, não é por ser estudante, mas por ser negra. Ora, o estudo implica diretamente as possibilidades de se conseguir um bom emprego, mas vejam, para muitas empresas, ser negro também se faz um fator determinante, não para que seja contratado, mas para imediata exclusão.

Poderia dizer que sou apenas mais uma garota negra estudante universitária, mas geraria a falsa impressão de que somos muitas, quando na verdade somos uma mísera porcentagem da população negra que pode se dar ao luxo das vivências acadêmicas.

Sempre me perguntei o motivo de, para tanta gente, minha cor fazer tanta diferença. Até hoje não consegui encontrar uma resposta racional e bem fundamentada. Seria possível, nessa carta, tentar explicar tais atos pela psicanálise, pela psicologia sócio-histórica ou pelo mais puro marxismo, mas optei apenas por apelar ao respeito à dignidade humana, que tanto se admira em teoria, mas tão pouco se vê na prática.

Não tente determinar o meu lugar, não tente negar o lugar que escolhi como meu, porque ainda que caia e assim permaneça por um tempo, eu vou me levantar e encontrarei outra forma para buscar o que é meu por direito. Canso de ouvir discursos apelando ao esforço individual, afirmando que “se um é capaz, por que os demais não o são?”. Nessa hora respiro fundo e penso se de fato se trata de uma cegueira política crônica ou simples falta de interesse em tentar compreender que as pessoas são diferentes em suas experiências, contexto histórico, cultural, familiar, social e oportunidades. Quem dera todos pudessem encontrar as mesmas oportunidades no caminho e quanto eu lamento por tantos estarem tão absortos nas ideologias que os inferiorizam, que não sejam nem ao menos capazes de enxergar uma oportunidade.

Me questionei durante a escrita se assinaria a carta, pois para alguns, saber sobre o autor é importante, mas para outros uma negrinha nada mais é que uma negrinha e por tratar-se de uma negrinha, pouco importa quem escreveu - leia negrinha como bicha, traveco, judeuzinho, gordo nojento, tribufu, puta, favelado, mongoloide, cabeça chata, aidético, enfim, conforme mandar o gosto do leitor.

Ser negra, mulher, pobre, à margem dos padrões de beleza, me faz estar na base da pirâmide social. Isso poderia me fazer chorar, e de fato já me fez por muitas vezes e me fez sofrer a um ponto que não sou capaz de expressar, mas minhas lágrimas já se secaram, às vezes algumas ainda teimam em cair, às vezes ainda tenho vontade de viver em um mundo paralelo onde fenótipo ou características inofensivas das pessoas não se façam motivo para que sejam odiadas (características que em sua essência não são, mas que pela intolerância se configuram como motivo para sofrimento).

Não me vejam como uma histérica melodramática que faz apelos aos vossos corações, me coloco como como qualquer pessoa que exige ser respeitada e questiona a intolerância, seja em sua forma mais branda ou brutal. Não tento justificar o opressor, olho pela condição do oprimido; acho fácil falar em vitimização quando não se é o alvo, só quem sente na pele a dor do racismo, da homofobia ou de qualquer opressão é que sabe o que sente. As pessoas trazem marcas diferentes em sua história, são sensíveis para coisas diferentes, em níveis diferentes, portanto não é você ou eu quem deve determinar o quanto uma pessoa deve sofrer por uma determinada situação.

Se você vê isso como vitimização, eu te vejo como indiferente, como carente de empatia; é a mesma cena vista por olhares diferentes. Felizmente eu pude aprender a quando olhar determinada situação, contextualizá-la socio-historicamente, não mais vê-la de forma isolada e mais que isso, tentar sempre me colocar no lugar do outro (independente de poder um dia vir ou não a passar por tal situação). Me canso de ver a sutil e dissimulada reafirmação de lugares e papeis sociais (mesmo que o sujeito que lidere essa ação não o faça de forma consciente). Sei que ninguém está livre de agir de forma preconceituosa, e não isento a mim mesma dessa possibilidade. A diferença está no fato de se acomodar a isso ou de por meio de um exercício diário confrontar esses conceitos pré-estabelecidos. Ser preconceituoso não é exclusividade aos discípulos de Hitler, mas pode permear o cotidiano de uma pessoa qualquer; enquanto não se for capaz de admitir tais sentimentos em si próprio, mesmo que doa, nunca se poderá mudá-los.

Em uma sociedade em que se nega enxergar as imensas desigualdades, desejar equidade é “pedir para sofrer”. Penso que esse comportamento/sentimento que se chama de vitimização possa ser sucintamente explicado pelo provérbio popular “gato escaldado tem medo água fria!”. De fato atitudes agressivas não me agradam, mas percebo que quando as pessoas têm seus direitos frequentemente negados, quando suas necessidades são tratadas como menos dignas, como questões secundárias, tendem a cair em insensatez. É comum ainda, quando me deparo com esses enfrentamentos, que eu me chateie e me feche, mas há quem coloque pra fora sua agressividade na tentativa de preservar seus direitos, sua dignidade e isso eu não vejo como vitimização, muito pelo contrário, vejo como coragem e disposição pra luta!

Peço licença e escrevo essa carta em nome de toda a escória social que polui as ruas em que caminha a classe média brasileira.

Atenciosamente,

Negrinha

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entrementes 12 nov 2015  Sumário do número 12

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Andrea Almeida Torres

Em tempos de judicialização dos conflitos sociais, acusações de racismo institucional e criminalização de estudantes acontecem na Unifesp - Campus Baixada Santista. Tempos de discussão mais do que necessária, e de forma mais participativa possível, sobre o espaço universitário aberto à comunidade para seu uso, assim como sobre a segurança que queremos nos campi. A questão racial na sociedade brasileira, na universidade federal, virou caso de polícia.

Criminalizar estudantes não é o papel da universidade em sua missão de formar futuros/as cidadãos/ãs e profissionais. Debater a questão racial na universidade pública trata-se de defender o acesso à instituição e as condições de permanência, com ensino, pesquisa e extensão de qualidade. Essa formação constitui-se de processos educativos, contínuos e transversais que perpassam o conjunto dos conhecimentos desenvolvidos no universo acadêmico e o respeito aos direitos humanos. Ela deve constar como princípio do projeto político-pedagógico dos cursos e aprimoramentos, assim como nas diretrizes da gestão acadêmico-administrativa. Isso porque é também dever da universidade combater os preconceitos, prevenir as possíveis atitudes discriminatórias e excludentes.

Para garantir a totalidade nas reflexões aqui presentes, sobre a sociedade e universidade que queremos, que se posiciona contra o racismo e outros tantos preconceitos e discriminações, não deixaremos cair no esquecimento as características da formação sócio-histórica, política e cultural brasileira: nossas bases coloniais e de exploração de classe, gênero, cor, etnia – resquícios da nossa herança “eurobranca”. E por mais que se negue no discurso, a cultura racista no Brasil ainda é preponderante, mesmo com a nossa mais do que visível miscigenação. Desigualdade social e racismo são duas faces da mesma moeda em nossa sociedade. Uma parcela considerável da população enfrenta cotidianamente esta realidade de violências e violações de direitos, principalmente os jovens negros e indígenas, de baixa renda, das regiões periféricas e desassistidas pelo poder público.

Somos todos socializados em uma ideologia discriminatória de que o/a negro/a é menos capaz, menos cidadão, sempre vistos pela ótica burguesa como “a cor da classe perigosa”. Foi possível retratar isso no recente episódio, quando do impedimento, pela polícia, de acesso de jovens negros e não brancos da periferia do Estado do Rio de Janeiro ao chegar de ônibus às praias da zona sul: “Acham que nós somos ladrões porque somos pretos” - retrato fiel de um higienismo social em curso sob o discurso racista de uma cultura dominante da falsa superioridade branca.

É preciso, portanto, desconstruir cotidianamente em todas as dimensões da vida social e das instituições, os referenciais preconceituosos enraizados culturalmente na sociedade brasileira, pois o preconceito é um julgamento a priori, superficial, pouco refletido, que valora pejorativamente; é intolerante, leva a atitudes hostis frente ao diferente que chamamos de discriminação. Isso porque o modelo que em geral orienta o pensamento social conservador no Brasil e em boa parte do mundo, é o do homem, branco, adulto, ocidental, heterossexual e dono de patrimônio. Pairamos na falsa compreensão de que somos um país caloroso, harmônico e de tolerância com as diferenças étnico-raciais e de gênero.

É mister da universidade que um fato ofensivo a qualquer membro da comunidade não desrespeite direitos e que os enfrentamentos dos conflitos superem a lógica da criminalização e penalização, com medidas alternativas e mais eficazes, como já são propostas em âmbito judicial, a modalidade “Justiça Restaurativa”. É necessário romper com a ordem punitiva como única possibilidade de responsabilização, pois o que realmente conseguiremos de justiça e reconhecimento dos valores da sociabilidade apenas criminalizando e penalizando? Qual será a efetiva transformação das consciências e das atitudes?

Como princípio, os direitos humanos possuem em si mesmos uma concepção de universalidade, ou seja, de todos e para todos, em quaisquer circunstâncias e contextos sociais, políticos, econômicos e culturais. Defender os direitos humanos é estabelecer uma cultura que se baseia nos valores do diálogo e respeito. O princípio da Justiça Restaurativa não é apenas o de mediar conflitos. Os atritos são reais, concretos e devem ser explicitados pelos sujeitos agredidos e agressores.

A situação de injustiça, violência ou violação não deve ser abafada ou minimizada, para que a reparação seja concreta e propositiva em termos de mudança de atitudes concretas. Agredidos e agressores enfrentam esse conflito pelo diálogo reparador das relações e, obviamente, nada garante que seja tranquilo esse enfrentamento. Porém importa a retratação e a postura de mudança. Trata-se de um princípio de não responder ao mal feito com um mal maior. Em termos jurídicos, a Justiça Restaurativa baseia-se em um procedimento de consenso, em que a vítima e agressor, assim como outras pessoas ou membros da comunidade afetados pela infração, participam coletiva e ativamente na construção de soluções dos traumas e perdas causados.

Reparar o dano é o princípio dessa metodologia, além de fazer com que as responsabilidades sejam assumidas. Trata-se de um modelo progressista na resolução dos conflitos, distanciando-se da judicialização formal, que uma universidade pública, socialmente referenciada que queremos construir, pode assumir em sua missão educacional.

A prof.ª Dr.ª Andrea Almeida Torres é do departamento de Políticas Públicas e Saúde Coletiva da Unifesp – Campus Baixada Santista. Participa da coordenação do Núcleo de Apoio ao Estudante - NAE/BS e do Núcleo de Estudos, Pesquisa e Extensão em Sistema Punitivo, Justiça Criminal e Direitos Humanos (Gepex.dh)

 

imagem com as capas das revistas Entreteses disponíveis em www.unifesp.br/entreteses

 

entrementes 12 nov 2015  Sumário do número 12

Publicado em Edição 12

Durante muito tempo, obter um diploma de ensino superior era algo tão raro que a sua mera posse, no Brasil, se tornava garantia não apenas de um bom emprego, como de uma trajetória de sucesso no mercado de trabalho. O ensino superior continua abrindo portas, porém, a massificação do sistema trouxe à tona um cenário complexo para quem deseja comparar a qualidade das diferentes universidades.

Os indicadores da qualidade do ensino superior tornaram-se, assim, ferramentas úteis para orientar a tomada de decisão, por parte tanto do estudante no momento de sua escolha em relação a que faculdade cursar, quanto do mercado para nortear a contratação de jovens profissionais, e mesmo do governo para embasar a alocação de recursos orçamentários do ensino superior. Surgiu, a partir desse quadro, uma profusão de indicadores de desempenho “independentes”, os chamados rankings universitários.

Se parece mais do que justificada a necessidade de classificar as universidades, colocando constantemente novos desafios para os seus projetos pedagógicos, os rankings precisam também ser avaliados, pois estão longe de revelar ao público uma verdade absoluta.

Recentemente, o ranking universitário promovido pelo jornal Folha de S. Paulo (RUF) atribuiu uma queda significativa na classificação geral obtida pela Unifesp. Apesar de a empresa não divulgar a metodologia, identificamos a origem do fenômeno em uma variável subjetiva que compõe o indicador: a reputação das universidades no mercado de trabalho. Notamos que, na composição do RUF, a ponderação da variável “mercado” é superestimada, o que acaba produzindo inevitáveis distorções.

Assim, ganha um grande peso, na pesquisa, a opinião de gerentes de recursos humanos de empresas a respeito de sua preferência por egressos de diferentes universidades. Ora, há aí um elevado grau de subjetividade. A preferência não necessariamente corresponde ao grau de excelência de ensino e pesquisa de instituições de ensino superior. Não raro, infelizmente, ocorre o contrário. São justamente universidades privadas, com fins lucrativos, e sem qualquer compromisso com o progresso científico e a ética na formação de seus alunos, que aparecem no top of mind dos recrutadores de pessoal, influenciados pelos milhões gastos em marketing por empresas do ensino.

Certamente outro teria sido o resultado se, em vez de opinativo, o indicador buscasse auferir fatos, como, por exemplo, a taxa de empregabilidade do egresso da Unifesp - elevada inclusive para os seus novos cursos. Além disso, muitos dos formandos da instituição buscam o serviço público, cujas empresas não estão representadas com o peso devido na metodologia adotada pelo ranking.

Incoerências metodológicas do RUF, como essas que identificamos, vêm gerando críticas há tempos por estudiosos do sistema de ensino superior. Espera-se que essas críticas sirvam para que o ranking cumpra plenamente a sua função essencial de balizar as decisões de estudantes e empresas, ainda mais por se tratar de uma classificação realizada e divulgada por veículo de mídia tão importante.

Como resultado dessas reflexões, solicitamos formalmente aos responsáveis pelo RUF esclarecimentos sobre a metodologia empregada. Ao mesmo tempo, não somos indiferentes à qualidade da imagem que projetamos na sociedade, e por isso pretendemos promover ações no sentido de aprimorá-la, tanto junto à imprensa, como ao mercado de trabalho e à opinião pública em geral.

Soraya Smaili

 

entrementes 12 nov 2015  Sumário do número 12

Publicado em Edição 12
Segunda, 07 Novembro 2016 11:32

Uma história de superações

Mariane Santos

foto de  Eltton Alysson de Andrade Oliveira segurando seu diploma

Em setembro de 2004, durante um almoço de família, Eltton Alysson de Andrade Oliveira deu um passo decisivo em sua vida. Natural de São José dos Campos, filho caçula de 4 irmãos, cursava, à época, o ensino médio. Não era um bom aluno, não gostava de Matemática, sabia um pouco de Ciências, nada além disso. O interesse pelos estudos não existia, muito menos uma ideia concreta do que gostaria de ser profissionalmente. No encontro de família, um parente de seu padrasto lhe ofereceu aulas particulares, despertando nele o interesse pela Matemática. Com os encontros, veio o gosto pela matéria e a valorização desse tempo de aprendizado.

A família, muito simples, não teria condições de pagar um bom colégio em São José dos Campos. Por isso, fez uma prova para obter bolsa de estudos em uma escola de seu interesse, mas não foi suficiente. Escreveu uma carta ao diretor da instituição, contando sua evolução nos estudos e o interesse em preparar-se para o vestibular, bem como a importância que aquela escola traria à sua vida. Deu certo. Durante um ano,dedicou-seaos estudos. Era o quarto melhor da sala, mas cortaram a bolsa. Somente os três primeiros da turma tiveram direito ao benefício. Voltou à estaca zero e teve que retornar à escola pública.

Por conta própria, comprou livros no sebo, separou as apostilas do colégio particular e dedicouhoras por dia aos estudos. O foco era o vestibular. Então, no terceiro ano do ensino médio, em 2008, entrou em um cursinho universitário gratuito, mas infelizmente não levou a sério e o resultado foi o esperado, nenhuma aprovação.

Em 2009, abortou a ideia do cursinho e foi trabalhar como operador de telemarketing, mas algo veio a impulsioná-lo a provar que sim, era possível ingressar em uma boa universidade. Um comentário feito por uma pessoa conhecida, desqualificando a sua situação momentânea, despertou novamente a vontade de buscar uma boa qualificação e mostrar que poderia ter um futuro promissor.

Com isso, iniciou 2010 com o pé direito e muita disposição. Dedicava-se aos estudos das 6h às 17h30, por conta própria, e frequentava o cursinho à noite. Foi assim o ano inteiro e o resultado fantástico: aprovação em 13 universidades (nove federais e quatro particulares) com 100% de bolsa. A opção foi pelo bacharelado em Ciência e Tecnologia do Instituto de Ciência e Tecnologia da Universidade Federal de São Paulo (ICT/Unifesp)  - Campus São José dos Campos, em razão da situação de sua família. Para ele, a Unifesp oferecia muito mais para o aluno em questão de infraestrutura, material, laboratório, excelência e por ser na mesma cidade de sua residência.

A família recebeu com grande alegria a notícia e comemoraram com um churrasco. Nesse encontro, um parente leu uma carta que ele, Eltton, escreveu quando passou por um momento triste de sua vida, especificamente ao ser reprovado em um vestibular. Essa carta dizia que, por mais que ele não estivesse disposto a estudar, se dedicaria, pois não se via de outra forma, a não ser tendo um sucesso profissional.

Passado esse momento, sua mãe, com todo zelo, informou que não tinha condições de sustentá-lo com o passe escolar, alimentação, roupas e outras coisas necessárias durante o período universitário. Esse seria mais um obstáculo pela frente, mas ele deu um jeito e foi trabalhar de garçom e em um buffet infantil.

As portas foram se abrindo. No início da sua vida universitária surgiu uma oportunidade para ser professor de Matemática do cursinho universitário que o Campus Guarulhos da Unifesp oferecia para a comunidade. Ganhou até uma bolsa. A experiência foi surpreendente. Logo que pisou na sala de aula, se identificou com o ambiente e com a prática de lecionar.

Dotado de um ótimo humor e alto astral, viu que os alunos gostavam de seu jeito e da sua aula, mas infelizmente essa experiência durou um mês.A Unifesp teve que cortar a bolsa por causa de alguns ajustes orçamentários.

Na sequência, com a indicação de um professor da universidade, foi dar aulas de reforço da mesma matéria em uma pequena escola infantil em São José dos Campos. Deu tão certo que a procura pelas aulas aumentou e ele ajudou a escola a ampliar suas atividades, mas a mesma veio a fechar. Para não deixá-lo na mão, a dona o indicou para o Instituto Alpha Lumen (IAL), entidade voltada para estudantes com altashabilidades. Lá foi ele para mais um desafio. Passou no teste e se tornou professor de Matemática.

simbolo do MIT

Em novembro de 2015 soube pela direção do IAL de uma oportunidade no Massachusetts Institute of Technology (MIT) para a realização de um curso de Ciências e Engenharia voltado a professores inovadores do ensino médio. Ele pesquisou e viu que se enquadrava no perfil - professores criativos, de educação inovadora e de liderança. Foram escolhidos 25 professores de várias partes do mundo, entre eles um brasileiro.

Ganhou um curso rápido de inglês para se preparar e embarcou para os Estados Unidos no dia 23 de junho. Durante uma semana ouviu os melhores profissionais do MIT sobre variados assuntos e ficou extremamente surpreso com os projetos que esses especialistas têm voltados à educação, a preocupação com as crianças e o uso avançado das tecnologias no desenvolvimento educativo e pedagógico. Essa experiência o fez pensar em formas e maneiras de desenvolver a tecnologia nas escolas, a valorização dos profissionais que estão sendo formados e o que é preciso para alavancar a educação no Brasil.

Esse jovem persistente está no IAL até os dias de hoje. É estudante do programa de pós-graduação em Engenharia Biomédica do ICT/Unifesp.

Sua história soma várias experiências de vida. Sua passagem pela graduação da Unifesp também mostrou que sempre há muitas coisas a aprender. Para o futuro, ele pretende incentivar as crianças a se dedicarem aos estudos e a persistirem em seus sonhos e objetivos. Ele continuará dando o melhor de si. Seu objetivo é quebrar os paradigmas do ensino no país e ser uma ponte para fazer a diferença na educação.

 

entrementes 14 2016  Sumário do número 14

Publicado em Edição 14
Segunda, 07 Novembro 2016 11:15

Sobre Dilma, Rafaelas e Jéssicas

Bruno Comparato

 No discurso que fez logo após ter sido eleita presidenta da República, em 31 de outubro de 2010, a primeira vez que esse cargo passou a ser exercido por uma mulher no Brasil, Dilma Rousseff fez questão de ressaltar precisamente esse ponto: “Eu gostaria muito que os pais e as mães das meninas pudessem olhar hoje nos olhos delas e dizer: ‘Sim, a mulher pode’. A minha alegria é ainda maior pelo fato que a presença de uma mulher na Presidência da República se dá pelo caminho sagrado do voto, da decisão democrática do eleitor, do exercício mais elevado da cidadania”.

Aos ouvintes atentos, o discurso da recém-eleita presidenta não deixava margem a dúvidas: as questões de gênero e o papel da mulher na sociedade receberiam especial atenção do governo que se inaugurava. O que nem todos esperavam, contudo, foi a forte reação negativa que aquele movimento desencadearia. A política de inclusão de grande parcela dos brasileiros até então esquecidos pelos governos, que passaram a ter acesso a itens mínimos que garantem os direitos de cidadania, a partir da eleição de Lula em 2002, como a alimentação, a educação e a saúde, foi taxada de populismo por seus adversários.

As elites brasileiras nunca aceitaram o Partido dos Trabalhadores (PT) na Presidência e passaram a combater sistematicamente todos os atos do governo. Na década de 1970, Florestan Fernandes definiu em uma fórmula lapidar um traço característico do caráter brasileiro: o preconceito de ter preconceito. Algo mudou, porque hoje não são poucos os que perderam o pudor de afirmar publicamente que não gostam de pobres, pretos, gays ou nordestinos. Trata-se de algo assustador, pois uma vez que esse lixo todo saiu de dentro das pessoas, não voltará mais para dentro das suas consciências e estamos condenados a conviver com o ódio.

No plano da luta política, esse movimento se traduziu pela recusa em aceitar o resultado da eleição de 2014. Tudo se passou como se a oposição tivesse ressuscitado a funesta fórmula com a qual Carlos Lacerda resumia os sentimentos das elites de então em relação à campanha de Getúlio Vargas à Presidência em 1950: “Getúlio não pode ser candidato. Se for, não pode vencer. Se eleito, não pode tomar posse. Se empossado, será destituído”. Horas apenas após a proclamação do resultado, os adversários passaram a contestar o veredicto das urnas e a trabalhar para derrubar o governo, demonstrando que não estavam mais dispostos a fazer parte do jogo democrático. Trata-se de um fato grave, pois rompeu-se o grande mistério, e que é por essa razão o maior encanto, da democracia, que é o consentimento dos perdedores.

foto de manifestação com um homem segurando uma bandeira escrito "Impeachment sem crime é golpe, #NAOVAITERGOLPE"

Ao longo da década de 1970, os países latino-americanos se acostumaram com golpes de Estado por meio dos quais o poder político era tomado por atores-chave da burocracia estatal: os militares. Recentemente, um movimento semelhante parece estar se reeditando, com a diferença que agora esses atores se encontram em instituições políticas fundamentais para a democracia, como o Poder Judiciário, o Ministério Público, a Polícia Federal, os Tribunais de Contas, que, por ironia do destino, tiveram seus poderes e independência garantidos e reforçados pelos governos republicanos e democráticos que ajudaram a derrubar. Com o apoio dos grandes conglomerados de mídia e desses atores que nunca receberam um voto sequer da população, o grupo político derrotado nas últimas eleições presidenciais se instalou no poder e passou a implementar um programa de governo impopular que foi derrotado várias vezes nas urnas. Golpe duplo, portanto. A desculpa do combate à corrupção não resiste a uma análise mais detida, pois, apesar da vida da presidenta afastada ter sido vasculhada, não foi encontrada nenhuma irregularidade, ao contrário dos seus adversários.

Não se trata de quem deve ou não deve, ou de ter a consciência limpa, pois para isso deve haver um pressuposto de que a justiça funciona e é imparcial, de que podemos confiar nos juízes. E o que o cidadão comum enxerga é uma justiça que trata as diferentes situações de maneira desigual, que é incapaz de investigar e julgar para valer os responsáveis pelo massacre de Eldorado dos Carajás, de Corumbiara, pelos mortos do Carandiru, pela chacina da Candelária, pela de Vigário Geral, os crimes de maio de 2006, quando a polícia matou em alguns dias o que costuma matar em um ano, ou os crimes da ditadura.

Passemos sobre o triste espetáculo das ignomínias, acusações mentirosas, julgamentos enviesados, traições de todo tipo, pois apesar dos jornais estarem hoje cheios delas, a história não lembrará quase nada dessa intriga toda, pois se já é difícil entender hoje o emaranhado de interesses espúrios que movem tantas acusações e manobras, daqui a algumas décadas será impossível contar. Os grandes movimentos é que permanecerão.

E o que as gerações futuras lembrarão dessa história é a injustiça da derrubada de uma presidenta legitimamente eleita pelo voto popular. Dilma foi taxada de bandida e terrorista durante a campanha eleitoral e acabou por ser afastada como uma delinquente qualquer, pois ousou conceder alguns avanços para muitos brasileiros que sempre foram ignorados pelas elites.

Ao conquistar a primeira medalha de ouro brasileira nos jogos olímpicos do Rio de Janeiro, em agosto de 2016, a judoca Rafaela Silva relembrou a humilhação a que foi submetida ao ser desclassificada na Olimpíada anterior: “Lembrando do sofrimento que passei em Londres, que me criticaram, que eu era uma vergonha para minha família, e hoje eu pude fazer todos os brasileiros felizes com essa medalha aqui dentro da minha casa. O macaco que tinha que estar na jaula em Londres hoje é campeão olímpico dentro de casa e hoje eu não fui uma vergonha para a minha família”.

A mesma elite que agora acusa a Dilma despreza as Rafaelas. Ela só as aceita como empregadas domésticas e costuma dizer que são “parte da família”, quando na verdade as ignora, explora, xinga, prende, escraviza, estupra, e até mata, pois no fundo tem medo das Rafaelas, sobretudo quando elas lutam judô e ousam dizer o que pensam.

Em 2002, Lula se tornou presidente com a promessa de erradicar a fome e de garantir a todos os brasileiros três refeições por dia. Buscava assim eliminar o abismo social identificado por Josué de Castro que, na década de 1950, assegurava que a humanidade se divide em duas categorias: a dos que têm fome e a dos que têm medo de quem tem fome. Passados treze anos os que têm fome assustam mais ainda, por que não têm mais fome apenas de comida, mas de dignidade, educação e respeito.

Ao receber um prêmio, este ano, pelo filme Que horas ela volta?, no qual ela narra a história de Jéssica, a filha de uma empregada doméstica que entra na universidade, a cineasta Anna Muylaert confessou que achava a personagem um tanto quanto utópica demais, até o filme ser lançado e ela ouvir de vários jovens que eles se identificavam com a Jéssica, pois são a primeira pessoa nas suas famílias a entrar na universidade. Uma realidade que conhecemos bem na Unifesp, e que acompanha o padrão recente, de acordo com o qual um terço dos alunos atualmente nas universidades públicas são a primeira pessoa nas suas famílias a cursar o ensino superior.

Precisamos nos aproximar das Jéssicas e dos Jéssicos que frequentam a universidade e ouvir o que eles têm a dizer. Afinal, como escreveu João Guimarães Rosa: “Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende”. Só assim poderemos enfrentar os tempos difíceis que se anunciam com coragem e esperança no futuro e nessa pátria desalmada, Brasil.

Bruno Konder Comparato é docente na Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (EFLCH/Unifesp) - Campus Guarulhos

 

 

entrementes 14 2016  Sumário do número 14

Publicado em Edição 14
Segunda, 07 Novembro 2016 10:46

Necessidade de mudanças impõe o impeachment

Bolivar Godinho de Oliveira Filho

 O processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff é um assunto relevante, com manifestações a favor e contra a mudança de governo. Os professores não podem ficar alheios a esse debate. Mais do que externar opiniões ideológicas e frases de efeito, devemos analisar os indicadores econômicos recentes para entender se a vida do povo brasileiro melhorou com o governo Dilma ou se uma mudança de rumos é necessária. 

A presidente Dilma, com a visão de que o Estado deve intervir na economia, implementou as seguintes políticas: utilização de subsídios como indutor de investimentos, incentivo ao consumo, política externa focada em afinidades ideológicas e não no comércio exterior e indisciplina fiscal.

Como exemplos de intervenção do Estado na economia podemos citar: a redução da conta de luz em 2012 e a política de preços dos combustíveis da Petrobrás. A redução média da conta de luz em 20%, em 2012, foi determinada pela Medida Provisória nº 579, que foi convertida na Lei nº 12.783/ 2013 a qual antecipou o vencimento das concessões de geração e transmissão de energia elétrica que venceriam entre 2015 e 2017. Com a seca no período de 2013 a 2015 as usinas hidrelétricas reduziram a produção de energia e houve o acionamento das usinas termelétricas com custo de geração mais elevado. 

As empresas distribuidoras de energia elétrica compraram energia no mercado de curto prazo e ficaram inadimplentes na Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), que teve que tomar empréstimos em bancos no valor de R$ 21 bilhões.  Conforme Acórdão nº 2.565/ 2014 do Tribunal de Contas da União (TCU), a Medida Provisória nº 579 gerou custos para a Conta de Desenvolvimento Energético (CDE) no valor de R$ 61 bilhões entre 2013 e 2014. A sustentabilidade do setor elétrico foi colocada em risco, uma vez que as distribuidoras dependiam de aportes do tesouro e empréstimos para honrar a compra de energia junto à CCEE. Para remediar o desastre, o governo autorizou aumento médio de 51% da conta de energia para o consumidor em 2015. O reajuste na cidade de São Paulo foi de 70%. 

Foto de uma manifestação com mulheres segurando cartazes. um dizendo "nao somos palhaços" e a outra com cartaz dizendo: "chega de oba-oba"

O governo utilizou a Petrobrás para tentar conter os índices de inflação. O congelamento dos preços dos combustíveis com preços de venda abaixo do custo, no período de 2011 a 2015, gerou prejuízos de mais R$ 60 bilhões. A empresa reduziu os investimentos e se endividou para cumprir a determinação do governo. A Petrobrás está em situação financeira delicada: registrou   prejuízos de R$ 22 bilhões em 2014, R$ 35 bilhões em 2015 e deve R$ 370 bilhões (dívida líquida).

Os subsídios foram largamente utilizados no Programa de Sustentação do Investimento (PSI). Esse programa, apelidado por alguns analistas de Bolsa Empresário, foi lançado em 2009 e mantido até 2015. O PSI consistia no repasse de recursos do Tesouro Nacional ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). O BNDES financiava as empresas por prazo de até dez anos com taxas de juros de 4% a 8% ao ano, conforme a modalidade. Foram mais de R$ 500 bilhões de repasses do tesouro para o BNDES com taxas subsidiadas. O Tesouro Nacional captava recursos no mercado pagando taxas de 11% a 14% ao ano e repassava a subvenção financeira ao BNDES para a realização de financiamentos para empresas com taxas de 4% a 8% ao ano. A sociedade está pagando uma conta elevada por esses subsídios.

Os investimentos das empresas, medidos pela formação bruta de capital fixo, não tiveram evolução significativa. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), houve crescimento da formação bruta de capital fixo em 2010, mas recuaram nos anos posteriores. A concessão de subsídios é uma volta ao passado. Na década de 1970 os produtores rurais receberam muitos subsídios para investimentos por meio do crédito rural e foi constatado que grande parte dos recursos foram desviados para a compra de carros de luxo e construção de casas.

O BNDES subsidiou o governo de Cuba com o financiamento de US$ 682 milhões para ampliação e modernização do Porto de Mariel. Informações obtidas no site do BNDES indicam que os primeiros contratos no valor de US$ 152 milhões foram liberados em 2009 e 2010 no governo Lula. No governo Dilma foram liberados US$ 530 milhões. A taxa média dos financiamentos foi de 4,84% ao ano e o prazo 25 anos.; O BNDES não tem captação para esse prazo, o bônus internacional de prazo mais longo, captado pelo BNDES, vence em 2023 e tem custo de 5,75% ao ano. Considerando um prazo médio de 13 anos e rentabilidade negativa de 0,91% ao ano, o BNDES perdeu US$ 80 milhões com esse financiamento.

A política fiscal foi expansionista no governo Dilma; a elevação dos gastos, que culminou em déficit de R$ 115 bilhões em 2015, aumentou a dívida pública, que passou de 51,3% do PIB em 2011 para 66,5% do PIB em 2015. O aumento da inflação foi consequência da irresponsabilidade fiscal, do aumento das tarifas e da elevação da cotação do dólar. Vale ressaltar que o ex-ministro da Fazenda Joaquim Levy, em seu curto tempo no governo, tentou mudar o rumo da política econômica, mas não havia sintonia entre a atuação do Ministério da Fazenda, do Planejamento e Banco Central. Deixar a cotação do dólar subir foi uma decisão acertada, porque possibilitou o aumento das exportações.

A presidente Dilma afirma ser honesta e não haver motivos para o impeachment. Sendo ela responsável pelas nomeações dos ministros e pelas decisões mais importantes do governo, não dá para entender como houve tantos desvios na Petrobrás e nas obras públicas. O país saiu de uma rota de crescimento e ascensão social para recessão e desemprego. Com dois meses de governo o presidente interino Michel Temer propôs medidas que aumentaram a confiança dos agentes econômicos. No acumulado do ano (até 18/07) o índice da Bolsa de Valores subiu 30,3%, o dólar caiu 16,4% e o risco-país medido pelo Credit Default Swap (CDS) caiu de 500 pontos para 290 pontos.

O Brasil precisa de mudanças, o impedimento da Presidente cria a possibilidade de implementá-las.

Bolivar Godinho de Oliveira Filho é docente na Escola Paulista de Política, Economia e Negócios (EPPEN/Unifesp) – Campus Osasco

entrementes 14 2016  Sumário do número 14

Publicado em Edição 14
Segunda, 07 Novembro 2016 10:01

Eleições testam limites da democracia

Hillary Clinton (democrata) e Donald Trump (republicano), candidatos à presidência, despertam desconfiança na maioria dos eleitores

Cristina Pecequilo

foto de Hillary Clinton em um discurso

Em 8 de novembro de 2016, os eleitores estadunidenses irão às urnas para escolher quem ocupará a Casa Branca a partir de 2017. Os candidatos ao pleito foram definidos nas convenções nacionais dos partidos no mês de julho: Hillary Clinton pelo Partido Democrata e Donald Trump pelo Partido Republicano. Porém, ambos não representam nomes de consenso em seus partidos e sua escolha tem gerado inúmeras críticas e fragmentações. Dos dois lados, representantes dos partidos e eleitores já anunciaram que não votarão segundo a orientação partidária, optando ou pelo outro lado ou por simplesmente não sair de casa. 

Por sua vez, Hillary e Trump seguem suas campanhas, tentando convencer todos da normalidade deste ciclo eleitoral que, na prática, já tem se mostrado um dos mais controversos. Afinal, se há tanto desconforto com relação a essas duas candidaturas, como os dois conseguiram chegar a essa reta final? Quais as particularidades do sistema estadunidense que levaram à polarização Hillary-Trump? Por que Obama será sucedido por forças que podem ser consideradas retrocesso?

 Em 2008, a eleição de Barack Obama ocorreu em um contexto de profunda crise econômica e social, reflexo das políticas militaristas no exterior e de desregulamentação doméstica do governo republicano de George W. Bush. Sustentado em um discurso de esperança e possibilidade, Obama venceu sua então adversária, Hillary Clinton (que depois viria a ser sua secretária de Estado), nas primárias, seguindo para uma vitória sólida na eleição presidencial. Jovem, afro-americano, progressista em temas sociais, Obama tornou-se o primeiro negro a ocupar a Casa Branca, conseguindo sua reeleição em 2012. 

Em termos de resultados, o presidente conseguiu recuperar a economia estadunidense, encerrar duas guerras, no Oriente Médio, Afeganistão e Iraque, e iniciar uma ofensiva de contenção aos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), mantendo a hegemonia do país. Além disso, promoveu a retomada das relações diplomáticas com Cuba e as reformas internas na lei de imigração e ampliou direitos sociais no campo da saúde, educação e gênero. 

Porém, esses sucessos não eliminaram problemas estruturais domésticos relativos à fragmentação do tecido social, marcado pela crescente queda da renda das famílias, a deterioração dos direitos trabalhistas (e rebaixamento da condição dos empregos), polarização ideológica, racial e religiosa, que se expressam em recorrentes explosões de violência internas. No exterior, a ascensão do Estado Islâmico e o desarranjo geopolítico do Oriente Médio, que gera crises como a dos refugiados, o prolongamento da guerra civil na Síria, dentre outras são pontos de estrangulamento.

É nesse vácuo que surge a candidatura de Trump e sua consolidação, primeiro subestimada, depois confirmada e agora questionada no Partido Republicano. Os Estados Unidos se recuperaram apenas parcialmente e suas fragmentações são exploradas verbalmente com violência por Trump, que vive o cenário eleitoral como um reality show, solapando seus adversários. Desde 2015, o pré-candidato, hoje candidato, tem prometido uma revolução, contra tudo e contra todos que considera não estadunidenses, externalizando os problemas do país.

Todos são inimigos, em um quadro que prega a homofobia, a misoginia e a xenofobia e poucas foram as respostas. O que muito se observou foi o silêncio e poucas manifestações corajosas, mesmo dentro de seu partido, rechaçando essa visão para os conservadores. O erro não está só em Trump, mas principalmente nesta inércia que permite que suas manifestações surjam como verdades.

 É nesse mesmo vácuo que surgiu outra candidatura que se autodenominou revolucionária, a de Bernie Sanders, que concorreu com Hillary Clinton entre os democratas e também fragmentou o partido. Com promessas classificadas como de esquerda nos Estados Unidos, Sanders prometeu a universalização dos serviços públicos, a geração de empregos, investimentos e um posicionamento contra o sistema. Tanto Trump quanto Sanders apoiaram-se em um papel midiático, que descola a política da realidade e a torna apenas populista e messiânica. Ainda assim, Sanders atraiu apenas uma parcela de jovens e eleitores brancos de maior renda, insatisfeitos, em nenhum momento consolidando-se entre a base das minorias democratas hispânica e negra. Com isso, Hillary Clinton conseguiu completar o ciclo que iniciara em 2008, interrompido por Obama.

É nesse mesmo vácuo que surgiu outra candidatura que se autodenominou revolucionária, a de Bernie Sanders, que concorreu com Hillary Clinton entre os democratas e também fragmentou o partido. Com promessas classificadas como de esquerda nos Estados Unidos, Sanders prometeu a universalização dos serviços públicos, a geração de empregos, investimentos e um posicionamento contra o sistema. Tanto Trump quanto Sanders apoiaram-se em um papel midiático, que descola a política da realidade e a torna apenas populista e messiânica. Ainda assim, Sanders atraiu apenas uma parcela de jovens e eleitores brancos de maior renda, insatisfeitos, em nenhum momento consolidando-se entre a base das minorias democratas hispânica e negra. Com isso, Hillary Clinton conseguiu completar o ciclo que iniciara em 2008, interrompido por Obama.

Hillary é o nome da continuidade pós-Obama e tradicional na política contemporânea dos Estados Unidos, cuja carreira foi construída a partir da gestão do presidente Bill Clinton (1993-2000), após o escândalo sexual que levou ao processo de impeachment em 1999/2000. Por isso, muitos a definem como carreirista, sem jogo de cintura, carisma e empatia. Clinton é uma volta ao passado recente, mas representa uma opção menos problemática que Trump. 

Os democratas buscam fortalecê-la em várias frentes: como a mulher, mãe e avó que rompeu barreiras, a competente advogada, primeira dama, senadora e secretária de Estado que trabalha incansavelmente, a futura presidente que levará estas qualidades a Washington, a opção menos pior para os republicanos moderados e os independentes e convencer os eleitores de Sanders a votar pela opção que traria menos riscos. A questão é se Hillary corresponderá a essas imagens, evitando igualar-se a Trump. Pesquisas eleitorais em agosto indicam um empate técnico, sintoma de um país polarizado.

Independente de quem vença, a campanha 2016 revela-se de baixo nível, explorando o medo, a agressividade e os preconceitos. No vácuo da ação progressista, a política assume uma lógica sem diálogo, que procura evitar o debate para gerar falsas unanimidades. A autocrítica é necessária para todos. Qualquer vitória parece ser a do retrocesso, tanto para o mundo, quanto para os Estados Unidos.

Cristina Soreanu Pecequilo é docente na Escola Paulista de Política, Economia e Negócios (EPPEN/Unifesp) – Campus Osasco e autora de Os Estados Unidos e o Século XXI

entrementes 14 2016  Sumário do número 14

Publicado em Edição 14
Quinta, 03 Novembro 2016 12:55

Mulheres são 63% dos servidores

Daniel Patini

foto da Equipe envolvida no processo do 1° Censo de Servidores da Unifesp

O 1º Censo de Servidores da Unifesp, após dois anos de trabalho, apresenta seus principais resultados. Importante instrumento para a promoção do bem-estar no local de trabalho, o censo foi realizado pelas Pró-Reitorias de Administração (ProAdm) e de Gestão com Pessoas (ProPessoas).

Para Pedro Chadarevian, pró-reitor adjunto de Administração e coordenador da comissão do censo, esse trabalho é um marco para a universidade, sendo inédito entre as instituições federais de ensino superior (Ifes).

“É um documento que ficará à disposição dos gestores da instituição para entender melhor quem somos, como funcionamos e como se dão as nossas relações de trabalho. Ele é fruto de uma reflexão coletiva da comunidade acadêmica”, analisa.

Além do relatório final do censo, que apresentará um recorte por categoria e campus, a base de dados poderá ser consultada sob demanda. Ainda está prevista uma segunda etapa, baseada em grupos focais para uma análise qualitativa.

De acordo com os resultados obtidos dos 4.065 formulários preenchidos, no geral, houve participação elevada nos diferentes campi da instituição (acima de 80%). Os dados foram colhidos durante junho de 2015 e março de 2016.

Perfil socioeconômico

Mulheres são maioria na instituição (63%). Servidores têm idade média de 46 anos, 85% de brancos entre docentes e 69% entre TAEs, 6% possuem algum tipo de deficiência, maioria está nas classes B e C (64%).

Quanto à origem, 84% dos TAEs e 77% dos docentes são da Região Sudeste e 5% dos docentes são estrangeiros.

Experiência

O ano médio de admissão na Unifesp para TAEs é 2001 e docentes 2005. Os TAEs com mais de 20 anos de serviço público representam 33%, enquanto que entre docentes esta proporção é de 28%.

Clima Organizacional

O sentimento de utilidade no desempenho de sua função foi alto em ambas categorias: docentes (96%) e TAEs (95%). Foi constatada ainda elevada satisfação com o ambiente de trabalho (docentes 80% / TAEs 78%) e com a chefia imediata (docentes 79% / TAEs 73%).

A minoria dos participantes reclamou de “pressão” ou cobrança indevida (TAEs 22% / docentes 16%). Já a falta de espaço para decisão foi considerada um problema maior entre os TAEs (32%) do que entre os docentes (13%), assim como o sentimento de trabalho repetitivo: TAEs (76%) e docentes (40%).

A percepção de salário baixo em relação ao volume de trabalho foi de 86% entre os docentes e de 75% entre os TAEs.

Gestão com Pessoas

A política de capacitação foi elogiada por 70% dos entrevistados, que se consideraram satisfeitos com ela. A jornada flexibilizada de 30 horas foi vista de forma positiva pelos TAEs: 81% deles constataram aumento na produtividade. Já os docentes ficaram divididos sobre a questão. O serviço oferecido pelo Núcleo de Assistência à Saúde do Funcionário (Nasf) foi aprovado pela maioria dos entrevistados das duas categorias (docentes 73% / TAEs 62%).

entrementes 14 2016  Sumário do número 14

Publicado em Edição 14