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Sons da reintegração

Exploração do universo musical afeta percepções subjetivas e pode trazer o real sentido de viver em família

José Luiz Guerra

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Imagem: Pusteblume0815 Pixabay

Dados do Cadastro Nacional de Adoção (CNA), vinculado ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ), indicam que cerca de 8.400 crianças e adolescentes estão cadastradas no banco de dados do órgão para adoção. Antes do processo de adoção, no entanto, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) indica que é necessária a tentativa de reintegração familiar, ou seja, tentar reatar os laços com a família de origem, pai e mãe, ou com a família extensa, como tios e avós.

Entretanto, de que forma uma família na qual os filhos estão separados dos pais por algum motivo poderia ser novamente reestruturada? Foi esse o foco da tese de doutorado de Ana Paula Cascarani, defendida na Escola Paulista de Enfermagem (EPE/Unifesp) - Campus São Paulo, sob orientação de Ana Lucia de Moraes Horta.

Inicialmente, Cascarani pretendia desenvolver sua tese voltada para a adoção internacional de crianças, tema com o qual já trabalhava. “Fui convidada para fazer um trabalho com crianças brasileiras que seriam adotadas por franceses. E como eles não falavam a mesma língua e por eu ter uma formação em Musicoterapia, utilizei a música nesse processo do estágio de convivência, por achar que seria um recurso muito interessante para propiciar confiança e abrir canal de comunicação entre eles”.

No entanto, outro convite, feito pela equipe do abrigo no qual estavam essas crianças, a fez mudar de ideia. “Estava convicta em fazer uma tese sobre adoção internacional e a psicóloga do abrigo veio com uma contraproposta para estudar reintegração familiar, por ser a primeira condição, segundo o ECA, para conviver em família”, explica.

Dessa forma, já participaram do estudo três famílias em processo de reintegração e uma família pós reintegrada, com crianças vítimas de maus tratos e abandono. As estratégias utilizadas para a coleta dos dados foram a observação participante, a entrevista mediada pelo fazer musical e a entrevista semiestruturada realizada também com a psicóloga da instituição, na qualidade de informante da experiência. A pesquisa foi elaborada a partir das premissas do Interacionismo Simbólico e dos pressupostos analíticos da Teoria Fundamentada nos Dados buscando a construção de um modelo teórico.

Por que o fazer musical?

Cascarani explica que a música e o som projetados nos instrumentos musicais podem expressar algo desconhecido e algo mais do que o indivíduo quer dizer. “O instrumento musical pode ser considerado um material projetivo, um prolongamento do corpo, que, ao ser tocado por alguém, ganha vida. A junção da sonoridade do instrumento com a musicalidade do indivíduo compõe uma nova obra”. O resultado, no entanto, não costuma ser o de uma música conhecida ou uma trilha musicoterapia 74 Unifesp EntreTesesjulho 2018 sonora programada. “É uma musicalidade que vai se formando na hora, naquele momento, fazendo com que a comunicação, a criatividade e a interação aconteçam de forma natural e espontânea”, completa.

A experiência com as famílias

Durante a pesquisa, foram entrevistadas quatro famílias indicadas pela instituição, situada na Zona Sul de São Paulo, na qual as crianças estavam abrigadas. Devido à impossibilidade ética de identificação dos nomes das pessoas entrevistadas, a pesquisadora as nomeou da seguinte forma: Família Clave de Sol, formada pela tia, que é irmã do pai, e por três crianças; Família Clave de Fá, composta pela mãe e por sete crianças; Família Clave de Dó, da qual participaram o pai, sua namorada e o filho; Família Pentagrama, já reintegrada, da qual foram entrevistados a avó materna, o tio, irmão biológico da mãe, além de duas crianças.

Nas entrevistas, Cascarani utilizou instrumentos de percussão, como tambor e pandeiro, e outros harmônicos e melódicos, como violão e teclado, que, na sua avaliação, chamariam menos a atenção das crianças. Entretanto, a pesquisadora se surpreendeu ao ver que alguns dos entrevistados optaram por usar os harmônicos. “Os instrumentos musicais de percussão levam o indivíduo a acompanhar uma música que já esteja sendo tocada por meio das ‘batidas das mãos’, enquanto que o violão e o teclado requerem que o indivíduo toque ‘corretamente’ para ser compreendido por todos, porque irá liderar um movimento e convidar os demais para acompanhá-lo”, diz. Ela explica que, por serem instrumentos mais complexos, a pessoa sente uma necessidade de ‘tocar bonito’. “Isso é natural e importante, porque a busca pela manifestação da estética pode revelar crenças, valores e aspectos culturais, porém, quando utilizamos a expressão musical para ampliar a comunicação e interação, o foco está na manifestação da energia de vida, do movimento, da criação de conceitos a partir da experiência e não no 'tocar bonito'", completa.

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Ana Paula Cascarani, autora da pesquisa

Ao longo das entrevistas, Cascarani percebeu, por meio dos sons emitidos pelos instrumentos de percussão, a ideia de algo em construção. “Começaram a pegar os instrumentos e bater como se fossem um martelo e a família toda acompanhou, como se fosse uma obra”. O que a surpreendeu, no entanto, foram as músicas escolhidas ao apertarem os botões do teclado que reproduzem sons que estavam salvos na memória. “Não induzi a nada. Eles apertaram o botão e disseram: É essa! E escolheram canções como Noite Feliz e Torre de Londres, enquanto na percussão eles faziam um pulso como se fosse uma construção”.

Em outras duas famílias, foram escolhidas a Marcha Nupcial, Noite Feliz, La Cucaracha e canções de ninar. A pesquisadora explica que esse fato traz à tona o que as famílias sofreram antes e durante o processo de reintegração e suas expectativas. “O abandono não é só da criança, mas envolve todo o sistema familiar, além de ser recursivo”, pontua.

Ao final dos encontros, Cascarani convidou as famílias para compor o tema de cada uma delas, com suas próprias palavras e escolhendo seus ritmos de preferência. Três delas compuseram funk e a outra um rap. “A composição vem e fecha com um ideal, uma expectativa: sair dali, formar uma família sólida no ponto de vista deles. E o que precisa para ser sólida? Precisa ter mais churrasco, precisa ter salada... a fome, a comida, a promessa de que ninguém vai apanhar... tudo isso veio nas letras das músicas”, ressalta ela.

Por fim, Cascarani conclui que, para as famílias entrevistadas, o desejo de “ser” surge como um ideal. "Quando perguntei a eles o que significava ‘estar em família’, eles disseram que é ter festa, ganhar presente, muita alegria e felicidade, casa grande e bonita. Ou seja, na experiência deles, parece que para ‘estar em família' é preciso ‘ter’ e ‘ser’ e se tem e do que se é. Eu fiquei com uma curiosidade, talvez para um próximo trabalho, de compreender se há diferença entre o ‘estar presente’ e o ‘ser presença’ e qual desses é necessário na experiência deles, para se chegar no ideal de ser a ‘família Doriana’”, finaliza.

Tese relacionada:

CASCARANI, Ana Paula. Tentando reconstruir o que foi quebrado: a família compondo a trilha sonora de seu processo de reintegração. 2015. 121f. Tese (Doutorado em Ciências) - Escola Paulista de Enfermagem, Universidade Federal de São Paulo. São Paulo. 2015.

Artigo Relacionado:

CASCARANI, Ana Paula. Família compondo a trilha sonora de seu processo de reintegração: modelo teórico. Revista Brasileira de Enfermagem, v. 71, n. 3, jun. 2018. Disponível em: www.scielo.br/pdf/reben/v715s3/pt_0034-7167-reben-71-s3-1298.pdf. Acesso em: 22 jun. 2018