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“Não existe fim, não existe início, apenas a infinita paixão da vida”

Álvaro Nagib Atallah provavelmente é a personificação da frase de Federico Fellini, seu diretor de cinema preferido

Álvaro Nagib Atallah

(Fotografia: Alex Reipert)

 

Juliana Cristina

Em menos de um minuto, Álvaro retorna a ligação. De seu rosto, só é possível enxergar olhos atarefados e parte dos cabelos modificados pelo tempo. O doutor está usando uma face shield e duas máscaras cirúrgicas por baixo. “Espere um minutinho”, pede. E então começa a se desvencilhar de todo apetrecho de proteção que cobre suas feições. Quando, enfim, consegue se libertar do equipamento, marcas avermelhadas permanecem agarradas em sua pele, indicando horas de pressão sob o resguardo do anteparo necessário. Ele pede mais alguns segundos, se ajeita e explica que os aparelhos auditivos – seus novos acessórios por causa de um trauma acústico recente – caíram ao tirar as máscaras, por isso precisou do tempo extra. “Você me ouve bem?”, pergunta num tom paternal.

Álvaro Nagib Atallah já estudava Medicina quando descobriu que seu nome marcante foi escolhido em homenagem a outro médico. Era o ano de 1949, um sábado de carnaval alegre, quando o clínico geral Álvaro Soares foi surpreendido no interior da sala de cinema do pequeno município de Tabapuã, em São Paulo, por Michel Atallah, esposo de uma de suas pacientes. Ofegante, Michel anunciou: “A bolsa estourou!.” Rapidamente o médico saiu para atender a paciente. Naquela época os partos eram feitos em casa e, na hora do nascimento da criança, ocorreram complicações inesperadas, por isso foi necessário realizar o parto com fórceps e o bebê precisou ser submetido a uma transfusão de soro às pressas. Apesar dos contratempos, os procedimentos foram bem sucedidos. Naquela tarde, Victória Gimenes Atallah concebeu o menino que decidiu chamar de Álvaro – como o doutor que os ajudou naquele dia.

Alguns anos se passaram desde o episódio do sábado de 1949. O filho que Victória alfabetizou cedo já estava pronto para prestar vestibular. Decidiu tentar Agronomia e Medicina. A prova de Agronomia tinha três fases, mas logo na primeira, Álvaro sentiu que a metodologia era arcaica demais e não quis ir em frente. Quando prestou Medicina, percebeu que os métodos eram muito mais modernos, práticos e objetivos – para ele, uma diferença secular! Então reconheceu que era aquilo o que queria. Apesar de ainda não sentir grandes convicções científicas, decidiu seguir o conselho de seu pai e fazer o curso “científico” e, depois, optou por estudar Biologia, inspirado pela maneira agradável que sua professora ministrava as aulas.

Cerca de quatro décadas depois, o menino que optou pelos estudos mais modernos se transformou num senhor gentil, de óculos retangulares, riso fácil e reconhecido internacionalmente por seu trabalho. Apesar do tempo que se passou, seu entusiasmo natural pela profissão continua inalterado. “Apesar de ser uma luta constante contra a dor, a doença, o sofrimento e, muitas vezes, a morte, ainda assim eu faria tudo de novo, várias vezes!”

Após anos trabalhando em diversos setores dentro da área de Medicina, dando plantões em terapia intensiva, realizando serviços de diálise, transplante, clínica médica e consultório, Álvaro também ajudou a trazer novos métodos de ensino e pesquisa para o Brasil. Em 1996 participou da fundação do Centro Cochrane no país, do qual atualmente é diretor, um dos centros de colaboração de uma rede mundial que busca contribuir para que decisões de diferentes áreas da saúde sejam tomadas com base nas melhores evidências científicas existentes. A massa crítica de conhecimento e pesquisa científica construídas junto à equipe do Cochrane o estimulou a criar o Programa de Pós-Graduação Saúde Baseada em Evidências e o auxiliou na estruturação de setores do Ministério da Saúde, do ponto de vista de avaliação de tecnologia, além de ter motivado a criação da Lei nº 12.401, de 28 de abril de 2011, que exige a incorporação de novas tecnologias no SUS baseadas nas principais evidências.

Sua curiosidade continua o impulsionando, e desperta seu desejo por nunca parar de estudar, investigar, pesquisar e enxergar pacientes com um olhar de quem seleciona perguntas na intenção de reduzir a incerteza das respostas, a fim de construir bases cada vez mais sólidas para a Medicina Baseada em Evidências.

Álvaro tem consciência de seus feitos e fica bastante contente por seus trabalhos poderem ser aplicados para ajudar a humanidade. Em relação aos diversos prêmios recebidos, incluindo o ranking internacional que o elencou como um dos principais cientistas nos quesitos Impacto do(a) pesquisador(a) ao longo da carreira e Impacto em um único ano (2019), sente que são reconhecimentos fundamentais que, claro, o incentivaram e entusiasmaram. “Entusiasmo, acho que quer dizer ‘Deus dentro de si’, então, parece dar vida e fôlego pra ir em frente, sabe?”

Ele conta que sua corrida pessoal sempre foi essencialmente atrás de dignidade, tentar ser útil, ter autocrítica e, o mais importante, buscar chegar perto de se tornar a pessoa que seu pai foi – em suas palavras, a pessoa mais humilde que já conheceu.

Apesar de sentir um contentamento genuíno em relação ao seu trabalho e ao reconhecimento recebido até então, modestamente, Álvaro revela que a maior de todas as suas realizações é ter sua família – incluindo dois cachorrinhos, um gato que o adotou na Bahia e a maritaca Sol. E que seu grande sonho, nunca antes revelado, é falar inglês como os(as) nativos(as) – para que possa assistir aos filmes pelos quais se apaixonou aos cinco anos de idade no cinema que ficava próximo à sua casa na pequena cidade de Tabapuã.

Álvaro Attalah com seus mascotes

Álvaro em uma tarde no sítio com dois de seus mascotes (Arquivo pessoal)

Álvaro Attalah Homenagem dos residentes

Homenagem dos(as) residentes de Medicina de Emergência no Cepatis da EPM/Unifesp (Arquivo pessoal)