A graduação é o momento em que os estudantes começam a tatear as possibilidades profissionais dentro da área em que escolheram atuar. A Iniciação Científica é um dos caminhos pelos quais o estudante pode optar percorrer

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Imagem: Alexandre Souza / Alex Reipert

 

Valquíria Carnaúba

Uma das metas estabelecidas no Plano Nacional de Educação (PNE), em 2014, é a de expandir o ensino superior para que, até 2024, um terço dos jovens de 18 a 24 anos estejam matriculados em algum curso de graduação. Em 2017, segundo o Censo da Educação Superior do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), 4,2 milhões de jovens entre 18 e 24 anos estavam na universidade (18% do total). 

Para comparação, naquele mesmo ano, a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) contribuiu com aproximadamente 0,3% do percentual. Parece pouco, mas se considerarmos que a taxa de contribuição da universidade equivaleu, somente naquele ano, a 13.492 estudantes, é possível ter uma dimensão de quantos jovens ingressaram na pesquisa ou no mercado com uma formação sólida em suas áreas do conhecimento. Entre 2009 e 2019, 119.591 jovens iniciaram suas carreiras na Unifesp, distribuídos entre os mais de 40 cursos de nível superior (incluindo os que foram criados ao longo do período analisado). 

Grande parte desses indivíduos trilhou o caminho da pesquisa científica, optando pela carreira acadêmica por incentivo de docentes, colegas de sala de aula e das boas experiências vivenciadas na graduação – especialmente aqueles que passaram pela Iniciação Científica (IC). A modalidade de pesquisa acadêmica é desenvolvida, atualmente, por estudantes de graduação nas universidades brasileiras em diversas áreas do conhecimento. No Congresso Acadêmico da Unifesp 2020, por exemplo, foram submetidos 1.560 trabalhos de pesquisadores de IC, entre bolsistas e não-bolsistas. 

Um dos aspectos positivos dessa preocupação com a formação do graduando é o estímulo extra para que esse estudante permaneça pesquisando. Uma pesquisa realizada pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), em 2017, revelou que os egressos do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (Pibic) têm 2,2 vezes mais chances de completar suas dissertações de mestrado e 1,51 vez maior de concluir as teses de doutorado, quando comparados aos que não passaram pela experiência.

Nossos dados confirmam essa tendência. Desde 1933, os cursos de pós-graduação stricto sensu (mestrado e doutorado) registram 3.940 concluintes que são, também, egressos da graduação na mesma universidade. De 2014 a 2020, 7.726 indivíduos ingressaram em algum dos cursos de pós-graduação stricto sensu da Unifesp. Desses, 1.767 estudantes advêm da graduação na mesma universidade. Afinando ainda mais a lupa, 470 passaram pela experiência da Iniciação Científica.

A pesquisa refere-se aos estudantes que atendem às exigências do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Cnpq), órgão responsável pelo financiamento da maioria dos projetos de pesquisa de graduação e pós-graduação no país. Entretanto, os estudantes de graduação que levam seus projetos de forma autônoma são, de igual maneira, transformados pela Iniciação Científica, uma experiência que desenvolve diversas competências, como empreendedorismo, olhar analítico e redação científica – ainda que se debrucem, futuramente, sobre outras áreas do conhecimento.

De acordo com Deborah Suchecki, docente associada do Departamento de Psicobiologia da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp) – Campus São Paulo, e coordenadora institucional do Pibic-Pibiti na universidade, a IC é o primeiro passo para a carreira acadêmica. “Muitos pesquisadores de IC seguem para a pós-graduação stricto sensu, pois desenvolvem habilidades necessárias para se tornar um cientista”, afirma. Para ela, a curiosidade e a inquietação são características muito desejáveis, que os levam a formular perguntas e a querer respondê-las. “Não é necessário que o estudante chegue com todo o conhecimento teórico do assunto que pretende estudar, mas é necessário que tenha fome de aprender, que goste de ler e queira adquirir conhecimento, direta e indiretamente relacionado com o tema da pesquisa”. 

Seu conselho para os estudantes que arriscam a Iniciação Científica é que vivenciem ao máximo os grupos mais experientes (de mestrado e doutorado), pois essa bagagem torna-se um divisor de águas na vida acadêmica. “Por meio da IC, o estudante mergulha mais profundamente em um assunto pelo qual tem certo interesse. Quando participa de congressos, conhece colegas de outras universidades e troca ideias, conhecimentos e vivências com os orientadores – algo muito gratificante”, pontua. 

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A Prograd e a IC

A Pró-Reitoria de Graduação (Prograd/Unifesp) é o órgão da Reitoria que tem como propósito promover o ensino de qualidade e garantir a formação geral e profissional dos estudantes de graduação, preparando-os tanto para uma atuação competente, crítica e ética quanto para o prosseguimento de estudos em nível de pós-graduação.

Para executar seu trabalho, a Prograd/Unifesp conta com cinco coordenadorias (Sistema de Seleção para Ingresso de Estudantes na Universidade, Projetos e Acompanhamento Pedagógico, Programas e Projetos Institucionais, Avaliação, e Desenvolvimento Docente), além de uma assessoria para assuntos de internacionalização e do Comitê Gestor Institucional de Formação Inicial e Continuada de Profissionais da Educação Básica. A responsabilidade pelos trabalhos de cada coordenadoria é conferida a um docente e a uma comissão composta por representantes das unidades universitárias.

Por meio da Coordenadoria de Programas e Projetos Institucionais, são articulados os projetos e programas vinculados à Pró-Reitoria de Graduação, induzidos pela política de educação superior do Ministério da Educação, com demandas e ações internas para a definição de políticas próprias da Unifesp para a graduação.

É nessa instância que Suchecki organiza a concessão de bolsas aos solicitantes. Todos os anos, são ofertadas bolsas de Iniciação Científica para estudantes de ensino médio e para estudantes de graduação. Os solicitantes do nível superior, ao ingressarem com pedido de aquisição de uma, podem se candidatar de acordo com o programa específico para sua atividade.

A pergunta que não quer calar: como as bolsas são atribuídas aos estudantes? 

“Dividimos a cota pelos campi a partir no número de graduandos de cada campus. Em uma primeira fase, os projetos submetidos são avaliados por assessores internos que levam em consideração três itens: histórico escolar, projeto e orientador. Com base nessa avaliação, os pedidos recebem uma graduação de prioridades, sendo P1 a maior prioridade e P3 a menor. Montamos comissões em cada campus compostas por professores internos e externos à Unifesp que selecionarão os melhores pedidos. Não levamos em consideração o critério do governo que privilegia áreas estratégicas, pois todas as áreas de conhecimento e toda geração de excelência de conhecimento são estratégicas”.

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Deborah Suchecki

Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica – Pibic

O Pibic é voltado para o desenvolvimento do pensamento científico e iniciação à pesquisa de estudantes de graduação do ensino superior, visando contribuir para a formação de recursos humanos para a pesquisa que se dedicarão a qualquer atividade profissional. O programa busca reduzir o tempo médio de permanência dos estudantes na pós-graduação, incentivar as instituições à formulação de uma política de Iniciação Científica, bem como possibilitar maior interação entre a graduação e a pós-graduação, e qualificar graduandos para os programas de pós-graduação. Ele tende ainda a estimular pesquisadores produtivos a envolverem estudantes de graduação nas atividades científica, tecnológica, profissional e artístico-cultural e também proporcionar ao bolsista, orientado por pesquisador qualificado, a aprendizagem de técnicas e métodos de pesquisa, bem como estimular o desenvolvimento do pensar cientificamente e da criatividade, decorrentes das condições criadas pelo confronto direto com os problemas de pesquisa.

Programa Institucional de Bolsas de Iniciação em Desenvolvimento Tecnológico e Inovação - Pibiti

O Pibiti foi criado com o intuito de estimular estudantes do ensino técnico e superior ao desenvolvimento e transferência de novas tecnologias e inovação, visando contribuir para a formação e engajamento de recursos humanos para atividades de pesquisa, desenvolvimento tecnológico e inovação. O programa busca a formação de recursos humanos que se dedicarão ao fortalecimento da capacidade inovadora das empresas no país, bem como para reduzir o tempo médio de permanência dos estudantes na pós-graduação e incentivar as instituições à formulação de uma política de Iniciação Científica. É seu objetivo também possibilitar maior interação entre a graduação e a pós-graduação, qualificar graduandos para os programas de pós-graduação e estimular pesquisadores produtivos a envolverem estudantes de graduação nas atividades científica, tecnológica, profissional e artístico-cultural; e ainda proporcionar ao bolsista, orientado por pesquisador qualificado, a aprendizagem de técnicas e métodos de pesquisa, bem como estimular o desenvolvimento do pensar cientificamente e da criatividade, decorrentes das condições criadas pelo confronto direto com os problemas de pesquisa.

Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica – Pibic nas Ações Afirmativas (Pibic-AF)

O Pibic nas Ações Afirmativas tem como objetivo complementar as ações afirmativas já existentes nas universidades. Seu objetivo é oferecer aos estudantes beneficiários dessas políticas a possibilidade de participação em atividades acadêmicas de Iniciação Científica.

Esse programa está inserido no Pibic e é resultado de uma parceria entre a Subsecretaria de Políticas de Ações Afirmativas da Secretaria Especial de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República (SUBPAA / SEPPIR-PR) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Bolsista de IC tem mais chances de concluir pós-graduação, aponta estudo do MCTIC 

O estudo de 2017 intitulado A Formação de Novos Quadros para CT&I (Ciência, Tecnologia e Inovação): avaliação do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (Pibic), do CGEE, é composto por análises quantitativas e qualitativas sobre a visão dos egressos e orientadores sobre a experiência Pibic, com pesquisa de opinião no período de 1 de agosto de 2013 a 31 de julho de 2014, além de avaliações comparativas entre graduandos bolsistas e não bolsistas Pibic da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Mais informações: https://www.cgee.org.br/documents/10182/734063/PIBIC-pdf

 

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Publicado em Edição 13
Quarta, 21 Outubro 2020 19:05

Profissão: amor

A história de como Fábio Cruz tornou-se docente e pesquisador e a influência da IC em sua carreira

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Docente em seu laboratório na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) / Fotografia: Alex Reipert

 

Juliana Cristina

Alguns acreditam que o lugar de onde vêm, suas experiências, a forma como são criados, as coisas que aprendem e começam a defender, são guias de suas escolhas. Outros acreditam que aquilo que nascem para ser, de alguma forma, mora dentro de si. A teoria das inteligências múltiplas, de Howard Gardner, nos diz, basicamente, que cada um possui uma inteligência diferente e predominante. Talvez, apesar de tudo, sempre haja algo que grite mais alto em nosso ser. Algo que nos inspire, nos impulsione. Algo que nos faça sorrir e sentir cada centímetro de si pulsar. Talvez, em certos casos, possamos chamar esse algo de “fazer exatamente o que sentimos ter nascido para fazer”. 

Essa história é sobre alguém que possui um brilho intenso no olhar, uma voz gentil e uma leveza ímpar ao narrar seu próprio caminho. Talvez também seja a história de alguém que nasceu para fazer o que faz. Ela começa há quarenta e um anos, em Presidente Prudente, quando o bancário João Cruz e a auxiliar de enfermagem Maria Cecília conceberam o menino Fábio. Desde seus primeiros passos, os pais decidiram que deixariam aquela que acreditavam ser a maior e melhor herança para o filho: a oportunidade de estudar. Seus pais foram seus primeiros mestres.

No primeiro dia de aula na Pré-escola Pingo de Gente, todas as crianças pareciam desesperadas! Tristes, chorando, segurando os braços de seus pais, implorando para não entrarem naquele novo lugar incomum às suas vidas. Fábio não entendia bem as outras crianças, porque sentia ansiedade em poder entrar na escola, queria logo estudar! E essa era uma alegria esperada por ele. Sua formação começou ali, nas primeiras coisinhas ensinadas pela “tia” Célia, em cada número e em cada nova letra do alfabeto. A Pingo de Gente não foi apenas onde estudou quando criança, mas tornou-se o símbolo de onde deu seus primeiros passos.

 

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Infância em Presidente Prudente ao lado dos pais João e Maria Cecilia Cruz (Arquivo pessoal)

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Estudantes da Pré-escola Pingo de Gente com professora Célia ao fundo (Arquivo pessoal)

Fábio prosseguiu seus estudos nas escolas públicas do município onde morava, carregando consigo as palavras edificantes de seus pais sobre o imensurável valor de estudar. Quando concluiu os ensinos Fundamental e Médio, decidiu que gostaria de ser médico. Prestou vestibular para cursos de Medicina, mas, apesar de sua determinação, esse não era seu caminho. Também pensou em cursar Farmácia e, dessa vez, passou no vestibular para estudar na Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Araraquara. Sua mãe logo arregaçou as mangas e voltou a trabalhar para ajudar o filho com as despesas na nova cidade. Pouco tempo depois, Fábio foi morar em uma república. Lá viviam doze ou treze pessoas, doze ou treze universos particulares. Todos muito diferentes, com diferentes níveis sociais, criações, ideias e visões de mundo. Por um lado, pode ser um tanto complicado e bastante caótico. Por outro, o lado que Fábio decidiu ver, havia a oportunidade de conviver com a grande diversidade dentro daquele ambiente compartilhado e aprender a ser mais aberto, mais tolerante.

No primeiro dia de faculdade, João Aristeu da Rosa apresentou aos calouros o Programa Especial de Treinamento (PET), um programa de formação para graduandos interessados no ingresso em cursos de pós-graduação depois de formados. A ideia era preparar os estudantes para seguirem com seus estudos na área acadêmica e o programa possuía as vertentes de pesquisa, ensino e extensão. Fábio se interessou no instante em que o professor apresentou o programa e inscreveu-se para participar. O PET lhe trouxe muitas experiências construtivas e uma das mais marcantes costumava acontecer no início do ano: todos os participantes ficavam alojados em um acampamento do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra. Os graduandos realizavam exames parasitológicos, exames da água e ministravam cursos de formação de líderes em saúde. Ali, Fábio aprendeu muito. Primeiro porque, de certa forma, se identificava com a realidade daquelas pessoas – apesar de não ter uma origem fundiária, sua procedência era também bastante humilde. E, desde aquele momento, sentiu que estava devolvendo um pouco do investimento que as pessoas estavam fazendo nele. Apesar de não ter férias nos meses de janeiro e fevereiro, sentia felicidade em estar trabalhando com aquela população e poder ensinar um pouco do que era parte de sua formação - além de aprender. Aprendia com eles sobre diversas coisas, inclusive sobre plantas medicinais que poderiam ser levadas para o meio acadêmico a fim de pesquisar suas funções e propriedades. Enquanto trabalhavam no acampamento, Fábio e seus colegas também observavam aqueles que poderiam vir a ser irradiadores das informações que eles levavam. Além disso, nos meses de julho, realizavam uma ação chamada Férias na Universidade, na qual levavam os jovens para conhecer e, acima de tudo, mostrar que a universidade pública também era deles, que tinham o direito de sonhar em estar ali.

 

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Período da Iniciação Científica de Fábio, ao lado dos colegas Adrien Falco Pizzi, Gabriela Cristina dos Santos e Marinaide Naegele (Arquivo pessoal)

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Realização de experiências durante a IC no laboratório da docente Cleópatra da Silva Planeta (Arquivo pessoal)

Do PET à IC

O PET trouxe mais uma base importante para a formação de Fábio: a Iniciação Científica. No início de seus projetos, os estudantes deveriam encontrar professores que pudessem auxiliá-los. Foi então que conheceu Cleópatra da Silva Planeta. Na época a pesquisadora havia voltado há pouco da Universidade de Harvard, em Massachussetts, e realizava seu trabalho acerca da dependência de drogas e abuso. Cleo, como prefere ser chamada, sempre demonstrou grande preocupação de que seus orientandos fossem além da pesquisa realizada no laboratório, por isso aconselhava que os pesquisadores estivessem sempre em contato com os dependentes, seus pais ou parentes próximos, para que pudessem ver realmente quem suas pesquisas poderiam impactar. Além disso, os incentivava a levarem seu conhecimento acadêmico também para a população.

A pesquisadora era uma pessoa muito responsável e empolgada com o que fazia. Mais do que ensinar, ela estimulava seus orientandos a participarem de congressos científicos, apresentarem seus trabalhos e, de alguma forma, cativá-los em relação à ciência. 

Fábio trabalhou investigando a influência do estresse na dependência de drogas e abuso e desenvolveu esse tema durante seus cinco anos de graduação. Seu gosto por aquele universo aumentava exponencialmente e, quando terminou o curso, percebeu que estava completamente apaixonado pela vida acadêmica. 

— Aquilo me transformou! Talvez se tivesse feito Medicina eu não teria essa oportunidade. Talvez eu não fizesse aquilo que tenho vocação pra fazer. 

Faltando pouco tempo para o fim da graduação, o estudante foi visitar seus pais em Presidente Prudente. Seu João estava levando o filho para casa quando simplesmente desviou o caminho. O jovem achou estranho, mas não disse nada. Então o pai passou em frente a uma farmácia pequenininha, virou para o filho e disse, orgulhosamente: “Ó, isso aqui é nosso!". 

Ele não soube como reagir instantaneamente e, em seus pensamentos, surgiu um grande dilema. Sabia que seu pai aposentado, embora não ganhasse muito, tinha seu fundo de garantia e, com isso, fez aquela surpresa. Fábio imaginava quantos de sua turma gostariam de ter a oportunidade que seu pai estava lhe dando. No entanto, ao mesmo tempo, apesar do medo de parecer ingrato, não sentia ter vocação para ser o profissional que atua em uma farmácia. Achava bonito, mas desejava profundamente seguir com a vida acadêmica – para a qual havia se preparado. De repente, viu-se atônito em meio àquele dilema. 

O impasse fez com que Fábio decidisse tentar dividir seu tempo. E então, nas férias e feriados, passou a trabalhar na farmácia. Esses meses foram suficientes para que tivesse certeza do que queria: ser farmacêutico, mas na vida acadêmica. A parte difícil seria contar para o pai sobre o caminho que escolheu. Mesmo assim, estava decidido. E, no dia de sua formatura, a mãe disse uma frase que o ajudou e marcou para sempre: “A gente é feliz fazendo aquilo que gosta”. No fim, o pai e a mãe entenderam o caminho de Fábio e o apoiaram plenamente em suas escolhas. Com isso, o jovem farmacêutico sentia que deveria se dedicar ainda mais e dar o melhor de si para mostrar aos pais que realmente “era aquilo”. 

Pouco tempo depois Fábio entrou para o Programa de Pós-Graduação em Ciências Fisiológicas na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). E, no dia da defesa de sua dissertação, os pais choraram emocionados junto ao filho. Naquele momento, não tinham mais dúvidas de que ele era feliz - feliz fazendo exatamente o que gostava. Seu João e dona Maria Cecília continuam incentivando o filho em cada um de seus passos. Sofrem, choram e vibram juntos. Acima de tudo, reconhecem a importância da educação. Seus pais são seus maiores influenciadores e sua inspiração.

Fábio prosseguiu no doutorado com a pesquisa iniciada em sua Iniciação Científica. Escolheu continuar trabalhando com o tema, não apenas por ter se identificado, mas também por uma motivação social. Desde o início de sua pesquisa, via que pessoas na situação de dependência eram deixadas de lado, como se tivessem escolhido e não quisessem mudar. Ele queria mostrar que a dependência tinha uma base neurobiológica e deveria ser tratada tal como ansiedade ou depressão. E, embora trabalhando na pesquisa básica, entendendo a Neurobiologia, sentia que seu estudo poderia influenciar na sociedade, ajudar a desconstruir o estigma em torno do tema e, consequentemente, ajudar as pessoas. Ele enxerga que a dependência é tratada como assunto de polícia, quando, na verdade, é assunto de saúde pública. 

Depois de algum tempo, já no pós-doutorado, Fábio passou em um concurso público e teve que cancelar sua bolsa de estudos. Porém, por motivos que nem ele sabe, o concurso simplesmente foi invalidado e a única coisa que havia sobrado da bolsa era um congresso nos Estados Unidos. Como já estava pago, ele resolveu ir. Surpreendentemente, um professor o reconheceu e perguntou se ele era orientando de Cleo. Os dois conversaram e, então, surgiu um convite de trabalho. Fábio, meio cabisbaixo, explicou que não teria como ir, pois estava sem a bolsa. O professor então ofereceu um salário para que ele trabalhasse contratado em seu laboratório no National Institute on Drug Abuse como pesquisador. E, claro, Fábio aceitou. Durante quatro anos ele aprendeu muito sobre o estudo molecular e teve um aprofundamento de técnicas de vanguarda. Bruce Hope, o professor que o contratou, mostrava-se grande entusiasta em desenvolver técnicas, metodologias e inovações para que as pessoas pudessem usar em seus experimentos. Lá, Fábio começou a desenvolver a linha de pesquisa que mantém até hoje, chamada neuronal ensembles, na qual procura entender a dependência como algo que envolve comportamentos de aprendizado e memória. 

Quando voltou para o Brasil, trabalhou por dois anos no Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid), liderado por Glaucius Oliva, no Centro de Desenvolvimento de Fármacos do Instituto de Física de São Carlos. Em paralelo, recebeu o Auxílio à Pesquisa Jovem Pesquisador da Fapesp e, com isso, conseguiu montar seu laboratório. Nesse meio tempo, Isabel Quadros, que havia sido sua co-orientadora nos Estados Unidos, telefonou avisando que havia sido aberto um concurso para trabalhar na Unifesp na área de Psicofarmacologia. Ele dizia que não iria, porque passar em um concurso para trabalhar na Unifesp era um sonho inatingível. Mas Quadros insistiu, incentivou e ele acabou indo. Seu sonho quase impossível, graças à sua dedicação e ao estudo, foi alcançado. Fábio passou no concurso, colocou seu laboratório dentro de um caminhão, mudou-se para São Paulo e começou a desenvolver suas pesquisas dentro da universidade. 

Hoje também realiza um projeto na cracolândia, o qual considera um intenso aprendizado e uma grande realização por poder ajudar as pessoas que vivem ali. Embora muito difícil, é também muito gratificante. Sente que vale a pena trabalhar com aquelas pessoas e o fato de tentar mudar a realidade de, pelo menos alguns, o motiva.

Hoje Fábio é docente na Unifesp e orienta estudantes de diversos níveis acadêmicos. Sempre procura convidar professores visitantes para que seus orientandos tenham oportunidades, assim como ele teve, especialmente aqueles que estão iniciando suas vidas acadêmicas realizando projetos de Iniciação Científica. Para ele, a IC mudou tudo em sua vida. Foi a partir dela que decidiu seguir na área acadêmica e que, hoje, se tornou o profissional que é. Além disso, foi uma das grandes motivações para que se tornasse uma pessoa entusiasta e que busca estimular e cativar seus orientandos em relação à ciência.

— Toda vez que eles chegam com o mesmo brilho nos olhos que eu cheguei em Araraquara, muito tempo atrás, me sinto responsável por eles. Nem todo dia acordo bem, mas penso: “Não, hoje tenho que ficar bem, porque o Ben, a Camila, a Giovanna, o Ricardo, a Michele vão estar no laboratório, e eu tenho a responsabilidade de não deixar eles se frustrarem com aquilo”. Toda vez que acordo, lembro deles e falo: “Vou pro laboratório e esquecer qualquer coisa adversa acontecendo fora dele”, porque acho que eles merecem o melhor, então tento ser o melhor pra eles. A Iniciação Científica foi uma oportunidade pra mim e quero que seja uma oportunidade pra eles. 

Para Fábio, mesmo os estudantes que não queiram seguir na área acadêmica, deveriam fazer Iniciação Científica, porque a pesquisa é também uma oportunidade de desenvolverem senso crítico – não repetirem métricas e receitas, mas irem além do técnico e entenderem o motivo pelo qual estão fazendo isso ou aquilo. Além disso, acredita que é preciso olhar com cuidado para os orientandos de Iniciação Científica. Que os orientadores não devem simplesmente depositar suas solicitações nesses estudantes, mas suas esperanças. Que os incentivem para que continuem fazendo o que gostam, busquem novos projetos, bolsas e tenham o melhor. Afinal, além de tudo, são eles que darão continuidade àquilo que os próprios docentes são hoje. Fábio se sente como uma extensão de Cleo e enxerga que seus orientandos serão como uma extensão dele. Como ela costumava dizer a ele: “É como um barco, uma arca na qual vão se colocando pessoas dentro e criando uma família científica muito grande”. Na ciência ou na vida, ele acredita que nada se constrói sozinho. Tudo é construído em conjunto, conversando com os colegas e com outros professores, aumentando a visão do próprio projeto e criando um caminho de coletividade. 

— É o que a gente precisa. Sermos mais coletivos dentro da universidade pública.

Ele relembra com carinho de um bom exemplo disso: Rodrigo Molini Leão também fez Iniciação Científica no laboratório de Cleo. No início, seus anseios, sonhos e incertezas eram exatamente os mesmos dos outros pesquisadores de IC. Quando iniciou seu doutorado, Rodrigo foi orientado por Cleo e co-orientado por Fábio. Mas, mais do que orientadores e orientando, os pesquisadores criaram o caminho de coletividade do qual Fábio se orgulha. Um sempre esteve ao lado do outro, dando forças quando necessário e colaborando na construção de suas carreiras. Hoje Rodrigo é professor de Farmacologia na Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e, apesar da distância física, sempre estão colaborando entre si e seus laboratórios muitas vezes são como extensões um do outro. Fábio acredita que sem a ajuda e apoio de seu amigo, muitas coisas provavelmente não teriam sido possíveis em sua própria carreira. E que, além de Rodrigo, outros de seus colegas, como Paulo Carneiro de Oliveira, Paula Bianchi, Paola Palombo, Sheila Engi, Caroline Zaneboni, Augusto Anésio, Thais Yokoyama, Natália Bertagna, Thamires Righi, Fernando Bezerra, Mayara Perillo, Gabrielle Tavares, Lara Fonteles e Jaqueline Moreira são parte importante de sua caminhada. Para ele, como diria Raul Seixas: “Sonho que se sonha só, é só um sonho que se sonha só. Mas sonho que se sonha junto é realidade”.

 

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Fábio ao lado de seus orientandos de Iniciação Científica Giovanna Victória e Ben Tagami (Fotografia: Alex Reipert)

 
Publicado em Edição 13

Docente de Didática na Unesp, Luciana Massi defende necessidade de apoio institucional aos orientadores de projetos de IC na graduação sob a perspectiva formativa

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Imagem: arquivo pessoal

 

Valquíria Carnaúba

A Iniciação Científica (IC) é uma modalidade de pesquisa acadêmica desenvolvida por estudantes de graduação, sob orientação de docentes, nas universidades brasileiras, em diversas áreas do conhecimento. Sabe-se que bolsistas de IC têm mais chances de concluir pós-graduação, a partir de dados providos pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações em 2017, e que grande parte dos projetos recebem aporte das Fundações de Amparo à Pesquisa(FAPs) de cada unidade federativa, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico(CNPq) e da Coordenação de Aperfeiçoamento Pessoal de Nível Superior(Capes).

Ao optar pelo mestrado em Ciências na Universidade de São Paulo (USP), Luciana Massi já tinha uma pergunta e o anseio por respondê-la: “por que tantos estudantes de graduação optam pela Iniciação Científica, sobretudo nas universidades públicas?” Contudo, essa atitude questionadora, segundo ela, uma característica necessária a todo aquele que visa adentrar a pesquisa acadêmica, ainda não trouxe respostas satisfatórias para essa questão – pelo menos, até o momento. A pesquisadora se deparou com um verdadeiro deserto de estudos sobre essa modalidade de pesquisa. 

Doutora em Ensino de Química pelo Programa de Pós-Graduação Interunidades em Ensino de Ciências da USP e docente do Departamento de Didática da Faculdade de Ciências e Letras (FCL/Unesp) – Campus Araraquara, Massi é uma das poucas pesquisadoras brasileiras que se debruçam sobre o tema com a seriedade necessária. Em entrevista à Entreteses, a professora abordou a Iniciação Científica como um vasto campo em pleno e franco desbravamento, compartilhando desde suas impressões sobre o perfil de indivíduo que comumente busca a IC até sua preocupação com os crescentes cortes envolvendo bolsas voltadas à pesquisa, em especial as destinadas à graduação.

Baseada em revisões bibliográficas e experiências pessoais ao redor do mundo, ela defende o modelo brasileiro de apoio aos estudantes de graduação para o ingresso na IC, pautado principalmente na definição de regras e concessão de apoio financeiro. Por outro lado, acredita que nossas universidades ainda carecem de estrutura institucional (apoio e cursos de aperfeiçoamento) que preparem os orientadores para o processo de acompanhamento dos estudantes ao longo de suas pesquisas. Para Massi, estudantes de Iniciação Científica bem orientados são a chave para a consolidação da pesquisa científica perante a academia e a própria sociedade. Naquele momento, por terem saído há pouco do Ensino Médio, estão mais próximos dos jovens e sua linguagem, podendo divulgar de forma mais compreensível suas pesquisas. No futuro, saberão dar o suporte adequado aos orientandos, caso tenham vivenciado a pesquisa como um processo formativo.

Entreteses • O que a motivou a publicar artigos acadêmicos e livros sobre a Iniciação Científica?

Luciana Massi • Estudei a Iniciação Científica no mestrado e, diante do fato de haver poucos estudos, decidi investir bastante em uma revisão bibliográfica. A princípio, estranhei a ausência de material, isso após um levantamento bem detalhado. Em seguida, fiz uma coleta com estudantes de graduação sobre o desenvolvimento da linguagem científica durante a Iniciação. De todos os resultados que obtive no mestrado, essa revisão bibliográfica foi a que mais teve repercussão, justamente pelo fato de que meu interesse na Iniciação Científica se dava para entender a própria pesquisa na universidade. Isso porque quando entrei na universidade e descobri que havia pesquisa, pós-graduação, eu queria continuar nesse caminho. Passei minha graduação no Instituto de Química da Universidade Estadual Paulista (Unesp), onde a pesquisa é muito forte. Naquela época, surgiram em mim grandes questionamentos sobre a Iniciação Científica. Por que tanta gente quer fazer? O que traz de bom? O que esses estudantes fazem? Uma das minhas primeiras hipóteses para a ausência de estudos sobre IC foi que se tratava de um tema meio perdido entre diversas áreas; pensava: “interessa para quem estudar esse tema?”. Encontrei trabalhos nas áreas da Economia, Sociologia, Administração, Medicina, e não há uma área específica que estude a modalidade. Não é um tema habitual na Educação também, pois não há linhas de estudo sobre a formação do pesquisador. 

E. Onde se faz mais Iniciação Científica: nas universidades públicas ou nas privadas?

L.M. Há mais projetos, infraestrutura e incentivo para a realização de pesquisas nas públicas, o que implica em, consequentemente, mais bolsas de IC concedidas aos estudantes. Essa discrepância não está condicionada ao modo de distribuição das bolsas pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Cnpq), mas à demanda pelas instituições de ensino do país. Há uma relação direta com a falta de investimento das universidades privadas na pesquisa, fazendo com que essas instituições tenham menos projetos e, consequentemente, menos solicitações de bolsa. No mundo, as instituições de ensino superior normalmente não possuem programas institucionais de iniciação à pesquisa tal como ocorre com as universidades brasileiras. A atividade de Iniciação Científica, quando acontece, ocorre de maneira mais informal, ou é enquadrada como pesquisa de estudantes de graduação. Essa é uma vantagem muito grande do Brasil, e infelizmente não se mantém mais esse grau de investimento, mas historicamente esse aporte foi fundamental para a competitividade brasileira na ciência. A partir de meu pós-doutorado, sobre a formação do orientador, é possível supor que o que mais influencia um docente na forma como ele vai orientar um projeto de IC é o próprio modelo de orientação que ele vivenciou como estudante. O caminho seria abrir a caixa-preta da orientação, com trocas de experiências bem-sucedidas entre os orientadores, discussões entre eles sobre problemas que tiveram com os orientandos, estratégias adotadas. Uma experiência interessante que identifiquei, na Universidade de Joanesburgo, foi um programa inteiro de especialização voltado para a formação de orientadores. Poderíamos pensar em cursos mais estruturados, que desenvolvam as habilidades que os orientadores devem ter, ou pelo menos espaços de discussão nos cursos de pós-graduação. Não temos ainda muita clareza sobre como seria uma Pedagogia da Orientação, que já está sendo discutida em outros países. Minha pesquisa apontou que a formação em Educação do orientador parece favorecer esse olhar sobre a orientação, mas não é a única possibilidade. Trazer o tema à tona seria uma contribuição muito importante para a universidade, para os programas de pós-graduação, para os orientadores e para os orientandos. 

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Imagem: arquivo pessoal

 

E. Apesar de muitos pesquisadores serem contemplados com bolsas, uma outra parcela considerável dá continuidade às suas pesquisas voluntariamente. Ainda que se saiba que isso ocorre, principalmente, porque a quantidade de bolsas é escassa, você acredita que não obter o aporte financeiro influencia a motivação dos estudantes voluntários envolvidos nesses projetos? 

L.M. A dissertação de Camila Alves Fior, desenvolvida na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), mostrou que estudantes que adquirem bolsas se sentem mais motivados, porém vários estudos apontam para a escassez das bolsas, o que representa uma oportunidade para poucos. Trata-se de mais um fator que reforça a necessidade de cada um desses estudantes primeiro se inteirar sobre como se faz pesquisa na universidade, o que é estudado, tendo a chance de experimentar e verificar se, de fato, aquilo o interessa. São cuidados que evitariam, no mínimo, que a IC passasse a ideia de elitização, embora órgãos de fomento exijam desempenho de excelência dos candidatos a bolsas de estudo. Enfrentamos dificuldades em cursos com disciplinas de exatas, que têm exigências muito altas, como nas disciplinas de Cálculo, e há estudantes que por um baixo desempenho nessas disciplinas nunca mais conseguem bolsas, sequer de mestrado e doutorado. A bolsa acaba, infelizmente, discriminando, e nem sempre pelos motivos mais justos. Seria uma ótima oportunidade de a universidade mostrar a esses estudantes outros recursos, outros caminhos para quem gosta de realizar pesquisa. Além disso, há estudantes que assumem um projeto de IC com o objetivo de seguir a carreira acadêmica. Com os crescentes cortes e a condição atual de realizar pesquisa no Brasil, qual o estímulo dessas pessoas? Ainda que os estudantes possam atuar de forma voluntária na IC, é importante que esses projetos sejam institucionalizados, pois cria-se um cenário que estimula aquele pesquisador a entregar um relatório e participar de eventos, abrindo a possibilidade de vivenciar essa experiência de forma mais completa, o que só agrega à sua formação. 

E. Existe pessoalismo na escolha, pelos orientadores, de projetos e estudantes a serem orientados?

L.M. Existe e ele é muito importante. Como se trata de uma relação muito próxima, se a expectativa de um em relação ao outro não é atendida, a chance de o projeto dar errado é muito grande. Se o encaixe não existir, quando falamos de estilo de trabalho, expectativa e motivação, o processo pode ficar comprometido. Claro que tudo não pode se resumir a características pessoais, e o ideal é objetivar um pouco mais as escolhas. 

E. Da parte do estudante, existe um perfil que mais comumente se aproxima da IC?

L.M. O perfil do estudante não nasce com ele. A Iniciação pode favorecer determinadas habilidades não tão presentes, a princípio, e é por meio da IC que ele tem a chance de desenvolvê-las, e é obrigação da universidade oferecer as melhores oportunidades para todos. A referência sempre é a pesquisa. Se, ao pesquisar, o estudante sentir uma inquietação muito grande e desejar responder a uma pergunta pelas vias científicas, isso envolve investimento nessa curiosidade para saber que, talvez, no final do processo, ele não obtenha toda a resposta que queria. 

Tem pessoas que acreditam que a ciência é feita de certezas. Eu acredito que quem tem essa visão não deveria seguir a carreira acadêmica. A ideia é que você não queira ficar livre de sua pesquisa. Você fez uma pergunta, não conseguiu respondê-la plenamente e continua perguntando de outras formas para obter respostas, ainda que parciais, sobre a mesma questão. 

Acredito que não seja um perfil muito comum de estudante. Perceber se um estudante se dispõe a investir em torno de um ano para responder a uma única pergunta já é um critério a ser considerado no desenho desse perfil. Para quem gosta de coisas mais pragmáticas e imediatas, acredito que o próprio mercado de trabalho será mais satisfatório.

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E. Participar de um projeto de IC na graduação favorece a entrada no mercado de trabalho?

L.M. Determinadas qualidades que o estudante desenvolve durante a IC, como responsabilidade, maturidade e criatividade, com certeza repercutem no mercado de trabalho. Um estudo da Vera Lúcia Alves Breglia, docente da Universidade Federal Fluminense (UFF), mostrou que os orientadores acreditam que estudantes que passaram pela IC têm um diferencial no mercado justamente por já ter tido espaço para desenvolver essas competências. Porém, é importante saber que essa não é a principal função da IC; ela prepara para a pesquisa acadêmica. 

E. A Iniciação Científica é uma oportunidade de ensinar aos estudantes, desde cedo, como efetuar a divulgação e a comunicação da ciência à sociedade?

L.M. É um aspecto a mais a ser explorado nos projetos de IC. A vantagem, para o estudante de graduação, é que ele está muito mais próximo da sociedade, dos estudantes de ensino médio (há meses atrás ele próprio estava naquela posição). Ele tem uma vantagem em relação à linguagem, algo mais difícil para o pesquisador que já está há mais tempo na universidade e se distanciou dessa forma de comunicação. Por outro lado, devido à orientação em cascata e ao modelo de IC comum nas universidades públicas brasileiras, corre-se o risco de que o estudante sequer entenda seu projeto; e se não entende, não está apto a explicá-lo. Volto naquele questionamento anterior: “Qual o sentido de o estudante estar envolvido em um projeto que ele sequer entende?” Há um grande potencial no desenvolvimento da divulgação científica aí, e a própria universidade poderia pensar em outras formas de comunicação, por exemplo, nos Congressos de Iniciação Científica. Depende muito, também, do tipo de pesquisa que é desenvolvida. Há pesquisas que se aproximam muito mais dos interesses da sociedade e há outras que são muito específicas – o que dificulta ao estudante de IC traduzir esse conteúdo. 

E. Qual o cenário sobre o entendimento do papel da Iniciação Científica na graduação?

L.M. Há estudos, mas eles são poucos, destaco, como o de Lucia Cristina da Cunha Aguiar, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que apresentam a orientação de projetos em cascata – um perfil comum nos programas de pesquisa no Brasil. Na prática, isso significa que é comum observar um pesquisador com pós-doutorado orientar outro no doutorado, um pesquisador no doutorado orientando um estudante de mestrado, e um estudante de mestrado orientando um estudante de IC. Proporcionalmente, orientar um estudante de IC é muito trabalhoso, principalmente se a opção é por um viés mais formativo, e não é isso que os docentes costumam priorizar. Sobre a autonomia do estudante na IC, há projetos em que os estudantes atuam meramente como técnicos de laboratório e outros em que ocorre a inserção do estudante por meio do projeto do grupo, denominado por Lívia Mathias Simão de Projeto Integrado - em detrimento de um projeto próprio, denominado Projeto Individual. São casos que podem dificultar que o estudante entenda mais profundamente aquilo que pesquisa. Já o orientador que não adota a orientação em cascata e o projeto integrado acaba se deparando com um processo mais trabalhoso. Isso por que, para um orientando de IC, o docente precisa ensinar muitas outras questões envolvidas na pesquisa, como normas da ABNT, o que é Currículo Lattes e a própria escrita científica. O economista brasileiro Cláudio Moura Castro defende que 50% do tempo da orientação concentra orientações sobre língua (estilo, clareza e adequação). Existe um investimento do orientador naquele processo e se ele não o enxerga como uma atividade formativa, não investe. Qual a publicação que será gerada de uma pesquisa de IC? Se o docente se envolver em um projeto de IC com potencial de publicação, talvez o estudante não consiga desenvolver devido à complexidade. Se a pesquisa for mais adequada para o discente, provavelmente não vai converter-se em um resultado original e publicável. Os orientadores acabam fazendo, portanto, escolhas. Talvez o que falte seja uma estrutura institucional, uma rede de apoio para o orientador nesses processos, por exemplo, contar com estrutura da biblioteca para ensinar sobre revisão bibliográfica, normas da ABNT, plágio, etc., assim como o apoio de outros docentes mais focados na parte da escrita. Nesse sentido, a IC seria mais eficiente. Tanto nas universidades públicas como nas privadas. Esses profissionais estão disponíveis. O problema é que, institucionalmente, essa rede de apoio não é mobilizada, faltam programas que orientem as capacitações. 

 

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Luciana Massi apresenta o livro Aprendizagens da Docência no Ensino Superior,  organizado por ela e por José Guilherme da Silva Lopes,  professor associado da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) / Imagem: arquivo pessoal

 

E. Essa distorção da finalidade da Iniciação Científica faz com que o estudante priorize a metodologia em detrimento da dedução, engessando seu desenvolvimento?

L.M. Isso vai ao encontro de um questionamento comum sobre o momento certo de um estudante de graduação ingressar na Iniciação Científica. Muitos autores defendem que a entrada antecipada pode ser uma faca de dois gumes. Por um lado, a chance de se envolver na pesquisa científica, se aprofundar e avançar são maiores. Por outro, se ele escolhe uma área específica para estudar logo cedo, a tendência é ele permanecer nessa linha ao longo de toda a sua jornada acadêmica, afastando-o da experiência com outras áreas. Se ele fica extremamente especializado perde a dimensão do todo. 

E. Quais os mecanismos que as universidades dispõem, atualmente, para o enriquecimento da experiência na IC por estudantes e docentes?

L.M. O Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (Pibic) surge na década de 1980 como grande incentivador das bolsas de IC nas universidades. Porém, o programa obriga apenas que a instituição tenha um processo seletivo para a distribuição das bolsas, organize eventos de divulgação dos resultados das pesquisas e que os discentes produzam relatórios. Isso faz com que cada orientador conduza o processo de pesquisa de uma forma completamente diferente e individualizada. Desde esses modelos de orientação em cascata até os projetos integrados, o que provavelmente, para o estudante, vai ter uma contribuição formativa mínima, dado que executará funções meramente técnicas, sendo acionado quase que como um funcionário, até esses modelos que exigem todo um investimento de ensino global, que o orientador tenha que fazer sozinho, meu questionamento é esse: “por que não há uma regulamentação, um acompanhamento da orientação mais precisa pela universidade?” Ninguém se forma para ser orientador; e talvez esse mesmo docente não perceba o potencial formativo da orientação de Iniciação Científica. Como cobrar isso dele, então? Institucionalmente, poderiam ser criados mecanismos não de avaliação, punição e controle, mas de suporte e de acompanhamento. Resultados da pesquisa de Jamile Cristina Ajub Bridi, conduzida na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), revelam que, entre 400 estudantes avaliados, 53,8% já experimentaram algum tipo de decepção na IC, sendo com o orientador a mais frequente (17,7%). Temos que tomar cuidado, no entanto, para não demonizar os orientadores, que estão executando uma tarefa para a qual não foram formados, ao que se soma sua disponibilidade cada vez menor e a falta de suporte institucional organizado.

E. Como você analisa a influência da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão no desenvolvimento da IC?

L.M. A Iniciação Científica começou logo após a criação das primeiras universidades no Brasil. O Cnpq foi um dos principais órgãos que estimulou a criação da Iniciação Científica e a oferta de bolsas remonta a 1963, um modelo fortalecido após a instituição do Pibic na década de 1980. O aumento do número de bolsistas veio acompanhado da assimetria na distribuição de bolsas e no incentivo à pesquisa pelo país. Excetuando-se São Paulo, onde a presença da Fapesp é muito forte, os outros estados contam com poucas bolsas das FAPs, dependendo muito mais do Cnpq como órgão de fomento, embora a Iniciação Científica se expanda e abranja hoje, inclusive, estudantes de ensino médio. Com a adoção da indissociabilidade, a partir da Lei da Reforma Universitária de 1968, houve um fortalecimento da pesquisa nas universidades. Parece-me que, nas universidades públicas, essa questão está bem resolvida, mas, por outro lado, há uma dimensão da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão não tão presente. A ideia inicial era que a pesquisa se tornasse objeto de ensino e se transformasse em uma ação de extensão. Esse modelo funciona se o que eu pesquiso for, necessariamente, aquilo que eu ensino e levo à população. 

Mas volto ao questionamento: todas as pesquisas têm condições de atender a esse critério? Há pesquisas necessárias que nem sempre possuem implicações diretas na sociedade, nem precisam ser objeto de ensino na graduação, por exemplo. Tratam-se dos estudos mais teóricos ou aprofundados sobre um tema específico, que podem chegar à sociedade - porém, não de forma imediata.

 
Publicado em Edição 13

O embate entre o método científico e as formas de contestação à ciência em questões como a imunização pelo uso de vacinas, o surgimento de pandemias e o aquecimento global

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Arte: Ana Carolina Fagundes , com imagens: ESO/Igor Chekalin (estrelas), Pixabay (árvores secas), standret / Freepik (crianças), rostichep/Pixabay (abelha morta)

Da redação

Agradecemos a Zysman Neiman, pesquisador e professor associado da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que efetuou a revisão técnica deste artigo. O docente foi um dos redatores do tema transversal voltado ao Meio Ambiente, dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) para o Ensino Fundamental do MEC (1998), e atualmente preside o Conselho Curador do Instituto Physis - Cultura & Ambiente e a Sociedade Brasileira de Ecoturismo (SBEcotur), uma entidade científica. É autor de diversos livros nas áreas de Ecologia, Educação e Meio Ambiente, além de editor-chefe da Revista Brasileira de Ecoturismo (Qualis B1) e da Revista Brasileira de Educação Ambiental (Qualis B2).

É fato aceito pela maioria da comunidade científica – embora contestado por uma parcela de seus membros – que as mudanças climáticas são produzidas pela atividade humana, gerando graves consequências para o meio ambiente como: perda da biodiversidade, acidificação de oceanos, colapso de ecossistemas, extinção de espécies, derretimento de geleiras e mantos de gelo das regiões polares (com a consequente elevação dos níveis do mar e avanço sobre ilhas e zonas litorâneas), surgimento cada vez mais frequente de pandemias e repetição de eventos extremos como secas prolongadas, chuvas torrenciais e tufões. De acordo com Yuval Noah Harari, autor do livro 21 Lições para o Século XXI, “se continuarmos no curso atual, isso [degradação de habitats e extinção de animais, plantas e ecossistemas] não apenas causará a aniquilação de um grande percentual de todas as formas de vida como poderá também solapar os fundamentos da civilização humana”.

As pandemias estariam ligadas às mudanças climáticas e, principalmente, à perda do habitat natural de animais silvestres, devido ao desmatamento; esses animais, então, aproximar-se-iam de assentamentos humanos, transmitindo doenças. A escritora e repórter Eliane Brum, em seu artigo O Futuro Pós-Coronavírus Já Está em Disputa, publicado em abril de 2020 no jornal El País, aponta que a chegada da covid-19 pode ser considerada o maior desafio do século XXI. A gripe espanhola, em 1918, que guarda certas semelhanças com a atual pandemia, matou de 17 a 50 milhões de pessoas no mundo. A peste bubônica, na década de 1340, matou aproximadamente um terço da população da Europa (os dados não são precisos), embora essa epidemia sempre ressurgisse em surtos em diferentes locais e épocas.

Há pensadores que compreendem a crise climática como geradora desses eventos e há ainda, infelizmente, os que seguem às voltas com dilemas do século XX, nos quais o dogma do crescimento é construído sobre a possibilidade de explorar infinitamente os recursos de um planeta com recursos finitos. Em 2018, o Relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) apontou que a temperatura média global na superfície terrestre subiu 1oC desde a era pré-industrial e que haverá um aumento de 1,5oC até 2030 se não forem adotadas medidas consentâneas com o desenvolvimento sustentável, tais como aproveitamento de novas fontes de energia, alteração radical nos padrões de consumo e transformação dos sistemas produtivos.

Entre os inúmeros trabalhos sobre o tema, citamos o estudo de pesquisadores das Universidades de Berna (Suíça) e Múrcia (Espanha), publicado na revista Nature, que reconstruiu as condições climáticas dos dois últimos milênios, concluindo que o aquecimento global, a partir do século XX, foi o maior no período analisado. Os registros climáticos foram obtidos a partir de dados instrumentais e, indiretamente, pela análise de anéis de árvores, corais e sedimentos de lagos. Os achados do estudo indicaram que o aumento das temperaturas médias ocorreu simultaneamente em mais de 98% do globo terrestre e que as taxas de aquecimento excederam claramente a variabilidade natural.

Os céticos argumentam, entretanto, que o clima da Terra é cíclico, alternando períodos de resfriamento e aquecimento, razão pela qual não se pode atribuir a causa deste último ao aumento do efeito estufa pela ação humana. Mesmo que se admita a existência dessa alternância cíclica, é fato razoavelmente comprovado pelos dados já obtidos por cientistas em todo o mundo que as ações humanas têm acelerado o processo de aquecimento. Como o fenômeno das mudanças climáticas não está, ainda, totalmente esclarecido, é mais sábio obedecer ao princípio da precaução, optando pela conservação de recursos naturais e pela adoção de práticas sustentáveis.

Diante das questões expostas anteriormente, é possível concluir que a negação da realidade passa pela rejeição dos métodos científicos empregados, até o momento, para chegar às conclusões aceitas globalmente – ao menos, no que tange às mudanças climáticas. Essa negação pode ser intencional e caracteriza um método de manutenção do poder que pode ter vários efeitos sobre os cidadãos, sendo o principal deles, nos tempos atuais, o de ocupar o noticiário e sequestrar o debate com falsos dilemas, como o do “isolamento ou não isolamento,” ou da “saúde versus economia”, no caso das pandemias. Pode denotar, também, falta de confiança na ciência, decorrente da falta de entendimento sobre como opera o método científico. 

Independente do motivo que o faz manifestar-se, o problema maior da negação da realidade é que ela produz novas realidades, muitas vezes danosas à sociedade. A pandemia do coronavírus veio e escancarou esse fato, do qual ninguém poderá mais fugir. Cabe à ciência trazer novas respostas aos dilemas do século XXI, sob o risco de não sobrevivermos enquanto espécie, caso ela fracasse nessa tarefa. Por isso, o desafio que se impõe aos jovens cientistas é imenso, e o fortalecimento da confiança na ciência dependerá do diálogo e das estratégias de aproximação que pesquisadores e instituições se propuserem a realizar com a sociedade, 

Aos estudantes de graduação que se engajarem nos projetos de Iniciação Científica, por exemplo, compete aceitar a tarefa de difundir o conhecimento científico, superando as barreiras que separam a academia do cidadão comum. Nesse sentido, a divulgação e a popularização da ciência deveriam constar dos objetivos prioritários desses programas institucionais, que já preveem a exposição de pôsteres e a apresentação pública de trabalhos. Além de constituir um instrumento para a prestação de contas à sociedade sobre os recursos públicos canalizados para determinado projeto, a divulgação científica – conforme ressalta o professor Ennio Candotti – promove a circulação de ideias e resultados alcançados em uma pesquisa, permitindo avaliar seus impactos sociais e culturais.

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Descartes (à dir.) criou o sistema de coordenadas cartesianas, enunciou as leis de reflexão e refração da luz e, como filósofo, instituiu o método racional, cujas regras permitiriam estender a certeza matemática a todas as áreas do saber. Galileu estudou a queda dos corpos e o movimento uniformemente acelerado; aperfeiçoou o telescópio refrator e fez importantes observações astronômicas. Acusado de heresia pelo Santo Ofício, abjurou a doutrina do heliocentrismo, que defendia. 
Arte: Ana Carolina Fagundes , com imagens: ESO/Igor Chekalin (estrelas) e Wikimedia Commons (Tales de Mileto, Galileu Galilei, Nicolau Copérnico, Principia philosophia, manuscrito Timeo, Cosmographia

Principais sistemas explicativos desde a Antiguidade

Efetuando um breve retrospecto sobre as principais teorias e sistemas explicativos sobre o cosmo que vigoraram desde a Antiguidade, devem-se mencionar inicialmente os filósofos pré-socráticos (séculos VI e V a.C.), que, mediante especulações filosóficas, desenvolveram um conhecimento racional sobre o universo, sem recorrer a explicações derivadas da mitologia. Entre os temas sobre os quais discorreram, figuram: o conhecimento verdadeiro (oriundo da razão) em oposição ao conhecimento captado pelos sentidos; a constituição do mundo material pelos elementos originários (physis); a mutabilidade das coisas e a unidade do ser; e o paradoxo do movimento, analisado por meio de argumentos lógicos. Nomeamos alguns desses filósofos: Tales de Mileto (c. 625 a.C. - [?]), Pitágoras de Samos (séc. VI a.C.), Parmênides (c. 540 - c. 450 a. C.), Heráclito de Éfeso (544 - 480 a. C.) e Demócrito (460 - 370 a. C.). 

No século IV a.C., Aristóteles (384-322 a.C.) produz uma obra de alcance universal, que até hoje continua a ser referência nas áreas de lógica, ética, política e retórica. Para esse filósofo, a ciência deve apresentar coerência interna, reportar-se à realidade e articular de modo lógico as verdades enunciadas. Pode-se chegar a uma conclusão verdadeira por meio do silogismo, que é o modelo de raciocínio que relaciona duas premissas – a maior e a menor –, sendo ambas também verdadeiras. Nesse caso, temos a dedução (ou o método dedutivo), que é própria da demonstração matemática. O conhecimento empírico também fornece base à formulação de conceitos científicos, de caráter geral. Por meio da indução (ou do método indutivo), chega-se à generalização na forma de um conceito, partindo-se da observação de casos singulares que se repetem.

A física aristotélica – de natureza qualitativa e integrada às concepções metafísicas desse filósofo – foi superada pelas descobertas de Nicolau Copérnico (1473 - 1543), astrônomo polonês, que propôs o heliocentrismo. Esta doutrina alterou a concepção vigente sobre a estrutura do universo, refutando também o geocentrismo de Ptolomeu (século II d.C.), que vigorou por 14 séculos.

Durante a Idade Média, prevalece o teocentrismo, atribuindo-se autoridade científica aos textos bíblicos. Nesse período, filósofos cristãos buscaram conciliar em seus escritos a razão e a fé, corporificadas nas teorias de Platão e Aristóteles e nas verdades contidas nas escrituras sagradas.

No século XVII, o surgimento de novas teorias científicas e processos investigativos propiciaram um avanço extraordinário da ciência. Os filósofos que então produziram os conteúdos mais relevantes na área da metodologia científica foram Francis Bacon (1561-1626) e René Descartes (1596-1650). O primeiro, adepto do empirismo, sistematizou os procedimentos que deveriam levar à construção do conhecimento científico, instituindo o método indutivo para a enunciação de leis científicas. O segundo, matemático e cientista, formulou o método racional-dedutivo, baseado no modelo matemático, por meio do qual seria possível estabelecer um sistema de conhecimentos seguramente verdadeiros.

Nessa época, uma das figuras de maior preeminência foi Galileu Galilei (1564-1642), professor de matemática e autor de estudos pioneiros na área de física e astronomia. Defendeu a teoria heliocêntrica de Copérnico e formulou os princípios do método matemático-experimental, que se baseava em experimentos e medição dos fenômenos observados. Enunciou leis físicas, expressas matematicamente, invalidando a física qualitativa de Aristóteles.

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Arte: Ana Carolina Fagundes , com imagens: ESO/Igor Chekalin (estrelas), Freepik (cientista, painel solar), Jan Alexander/Pixabay (setas),  Alex Reipert (planta), WikiImages/Pixabay (planeta terra)

Contestação à ciência

O esforço para construir o conhecimento racional sobre a realidade material exigiu o emprego de técnicas e procedimentos cada vez mais rigorosos que demarcaram os limites entre o que era ou não considerado científico. A ciência, que serviu de base à tecnologia, avançou, possibilitando o enorme progresso em todos os setores da atividade humana, mas seus benefícios não foram distribuídos igualitariamente (avalie-se, por exemplo, a atenção insuficiente dedicada ao estudo das doenças tropicais). Nesse contexto, cabe refletir sobre a finalidade do saber produzido e os princípios éticos que o orientam. O filósofo e historiador Michel Foucault (1926 – 1984) faz uma conexão entre conhecimento e poder, intelecto e vontade. Para o autor, não só o conhecimento gera poder, mas o poder produz conhecimento, de modo que o cientista não atua externamente ao seu momento histórico e não ocupa um lugar privilegiado de total liberdade, pois o conhecimento por ele produzido se torna poder para a esfera política dominante.

Secundariamente, questiona-se até mesmo a crença na infalibilidade do método experimental, erigido em dogma pelo cientificismo. Essa doutrina filosófica, vinculada ao positivismo, postula a superioridade da ciência sobre todas as outras formas de conhecimento, embora não tenha aceitação irrestrita entre os cientistas. Mais recentemente, as ciências humanas retomam essa discussão e transformaram os próprios “saberes tradicionais” em objeto de pesquisa, numa busca de valorização de outras lógicas empíricas (ou não) na busca de conhecimento.

A questão do método parece também impulsionar a onda atual de contestação à ciência, que é disseminada pelas redes sociais. Segundo Tatiana Roque e Fernanda Bruno, docentes da Universidade Federal do Rio de Janeiro, aponta-se uma crise nos modos de aferição da verdade que fundamentam o método científico, pois há desconfiança em relação à competência de especialistas, que selecionam determinadas evidências em detrimento de outras, também relevantes. Obviamente, pode-se arguir – no caso – que o método é neutro, embora sua adequada aplicação dependa da intencionalidade do pesquisador e de seu compromisso em especificar as condições nas quais as hipóteses foram testadas. Há também limites impostos à ciência, os quais dependem de fatores contingentes como recursos financeiros, pressões externas e interesse objetivo do profissional no desenvolvimento da pesquisa.

A contestação aos argumentos científicos, substituídos por crenças e valores individuais, aparece também em outras questões polêmicas, que analisaremos a seguir. O relatório da organização britânica 

Wellcome Trust, publicado em 2019, analisou os níveis de compreensão, interesse e confiança na ciência em uma amostra de 140 mil indivíduos pertencentes a mais de uma centena de países. No Brasil, por exemplo, as convicções religiosas têm primazia para 75% dos entrevistados, quando há um confronto entre ciência e religião. Nos Estados Unidos, esse percentual corresponde a 60%.

O mesmo relatório aponta que a desconfiança em relação à eficácia das vacinas é maior nos países desenvolvidos. Esse fato é comprovado pelo aumento de 400% no número de casos de sarampo na Europa, os quais – segundo a Organização Mundial da Saúde – saltaram de 5.273 para 21.315 entre 2016 e 2017. Na França, um terço da população demonstra ceticismo em relação à segurança dos imunobiológicos, atitude que é em parte explicável considerando-se que, em 1998, houve a publicação de um artigo do cirurgião Andrew Wakefield na revista Lancet, o qual relacionou a tríplice viral a casos de autismo (essa relação foi negada em estudos posteriores, tendo sido também verificada a manipulação de dados por parte de Wakefield). No Brasil e em países com baixos índices de desenvolvimento social – como Bangladesh e Ruanda – , a ampla maioria da população reconhece os resultados benéficos das vacinas.

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Imagem: Pixabay

 

Pesquisas no mundo todo buscam explicar se (e como) ação humana interfere no clima

Ação humana como principal fator associado às mudanças climáticas é consensual, e posicionamentos contrários carecem de evidências consistentes

A climatologia está no centro de um dos debates mais polarizados da atualidade, que se apresenta como confronto entre os defensores do aquecimento global antropogênico e aqueles que rejeitam sua existência. A instituição-chave para a elucidação desse tema é o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, mais conhecido pela sigla IPCC (de sua denominação em inglês: Intergovernmental Panel on Climate Change), uma organização político-científica criada em 1988 no âmbito das Nações Unidas (ONU) por iniciativa do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e da Organização Meteorológica Mundial (OMM). Seu propósito é o de sintetizar e divulgar o conhecimento produzido por cientistas do mundo todo sobre as mudanças climáticas que afetam o planeta – especificamente, o aquecimento global –, apontando seus efeitos e riscos para a humanidade e o meio ambiente e sugerindo maneiras de combater suas causas.

Principais fatos da evolução da ciência climática ligada aos gases de efeito estufa (até a década de 1960)

  • Na década de 1820, Jean-Baptiste Joseph Fourier (1766-1830), físico e matemático francês, observou que a energia do sol (“calor luminoso”) atravessava a atmosfera e aquecia a superfície terrestre, ao passo que o “calor não luminoso” (radiação infravermelha) não retornava facilmente para o espaço.
  • Por volta de 1860, John Tyndall (1820-1893), físico irlandês, supôs que as mudanças climáticas estariam ligadas às variações na composição da atmosfera. Seus experimentos mostraram que o vapor d’água e o dióxido de carbono tinham a propriedade de reter o calor.
  • Na década de 1890, o químico sueco Svante Arrhenius (1859-1927) verificou que se intensificara a concentração de dióxido de carbono em razão das emissões naturais – oriundas, por exemplo, da atividade vulcânica – e da queima de carvão pelas fábricas. Essa condição produzia certo grau de aquecimento. Segundo os cálculos de Arrhenius, haveria um aquecimento médio de 5ºC a 6ºC na temperatura se a quantidade de dióxido de carbono fosse duplicada.
  • Em 1938, Guy Callender (1898-1964), engenheiro inglês, afirmou que as concentrações médias de CO2 haviam crescido 10% em cem anos, desde o século XIX. Comparando esses dados com os registros de temperatura disponíveis, observou uma tendência de aquecimento. Previu que, nos séculos seguintes, as temperaturas manter-se-iam em níveis mais altos. As conclusões de Callender foram criticadas em relação à seleção dos dados e porque seus cálculos deixaram de considerar variáveis importantes.
  • A partir de 1945, o estudo dos processos atmosféricos foi aprimorado por meio de equipamentos que incorporavam novas tecnologias.
  • Na década de 1950, o surgimento de computadores possibilitou a elaboração de um volume enorme de cálculos, que incluíam a absorção da radiação infravermelha pelas camadas da atmosfera. Nessa época já se sabia que os oceanos podiam absorver parte considerável do dióxido de carbono, mas – conforme atestavam vários especialistas – essa capacidade era insuficiente em razão das emissões desse gás, que aumentavam a taxas cada vez mais rápidas.
  • No final da década de 1950, iniciou-se o monitoramento dos níveis de CO2 por meio de estações de medição instaladas em vários pontos do planeta.
  • Em 1967, Syukuro Manabe, em parceria com Richard Wetherald, desenvolveu o primeiro modelo computacional que simulava o clima global. Com essa ferramenta, foi possível verificar que o movimento do calor por convecção impedia o aumento máximo da temperatura na camada de ar próxima à superfície terrestre.

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Tercio Ambrizzi, docente do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas e vice-diretor do Instituto de Energia e Ambiente (IEE), ambos da Universidade de São Paulo (USP). Membro do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), foi um dos revisores dos dois últimos relatórios da organização (2007 e 2013-2014)

Ambrizzi acredita que cientistas do mundo todo superaram a discussão anteriormente mencionada. Para ele, hoje não se questiona mais (de modo geral) se a atmosfera está aquecendo ou se somos nós que contribuímos para a ocorrência desse fenômeno. O que se tenta prever é quanto esse aquecimento influenciará nossa atmosfera e a frequência dos eventos que se seguirão a esse impacto (secas, chuvas em excesso ou ventanias) – já que os eventos extremos são uma reação atmosférica ao aumento da temperatura. 

“Avaliando a progressão populacional desde o início do século XIX, percebemos que o avanço da expectativa de vida foi sistemático a partir do século passado. Vários fatores contribuíram para isso, mas principalmente a ciência médica. Diminuímos a mortalidade de jovens e adultos com o desenvolvimento de medicamentos e vacinas. 

Desse modo, o usufruto do planeta foi-se tornando mais agressivo, pois, se há um número maior de pessoas, demandam-se mais alimentos, mais medicamentos, mais consumo de água e uso do solo. Soma-se a isso o consumo de energia gerada a partir de combustíveis fósseis. As emissões de gases poluentes também aumentaram, aumentando, por conseguinte, a temperatura global.

Essa conclusão não é nova: no século XIX, uma experiência do cientista sueco Svante Arrhenius calculou que a temperatura da Terra aumentaria 5°C com o dobro de CO2 na atmosfera. A hipótese sobre a mudança do clima veio muito tempo depois, após a 2ª Guerra Mundial. Melhoramos nosso conhecimento, por exemplo, sobre os sistemas atmosféricos na medida em que surgiram os satélites comerciais na década de 1970. 

Naquele momento, começávamos a ter condições de comparar as novas informações com dados do passado para tirar conclusões mais específicas. Foram colocados, lado a lado, os primeiros números registrados pelo homem (1850), informações obtidas em testemunhos de gelo (amostras capazes de revelar informações climáticas de até 800 mil anos atrás) e medições atuais. Concluiu-se que, no passado (há mais de 15 mil anos), houve ligeiros aumentos de temperatura em função da maior quantidade de gás carbônico emitido na atmosfera, mas a variabilidade do CO2 nessa camada se manteve uniforme.”

mudancas climaticas luiz carlos molion

Luiz Carlos Molion, meteorologista brasileiro e docente aposentado da Universidade Federal de Alagoas (Ufal)

Molion não discorda de que há períodos de aquecimento do planeta, mas questiona o fato de que o fenômeno seja causado pelo homem. Para ele, os modelos aplicados pelo IPCC possuem fragilidades no seu rigor científico. Sua visão sobre as oscilações na temperatura da Terra baseia-se na hipótese de Svensmark, formatada por Henrik Svensmark, físico e professor no instituto dinamarquês responsável pela pesquisa em ciência e tecnologia do espaço (Denmark’s National Space Institute – DTU Space), localizado próximo a Copenhague. A hipótese é que, quando o vento solar está fraco, mais raios cósmicos penetram na atmosfera, o que aumenta a formação de nuvens de baixa altitude, que refletem uma parte da radiação solar de volta para o espaço, esfriando o planeta. Svensmark detalhou seu trabalho no livro The Chilling Stars (2007).

“Acredito que o aquecimento observado entre 1916 e 1946 foi natural e ocorreu, muito provavelmente, em decorrência do aumento da atividade solar. O astro tem um ciclo de aproximadamente cem anos e, a partir de 1920, sua atividade se intensificou. 

A redução de 5% na cobertura total de nuvens do planeta é capaz de levar a um aumento de 4 W/m2 no fluxo de radiação absorvida pela superfície terrestre. Esse valor resultaria em um aumento de 1,4°C na temperatura média global. Observa-se que a temperatura aumentou em 0,38°C até 2000 e se estabilizou após esse período com a estabilização da cobertura de nuvens. 

Além disso, é sabido que os eventos El Niño injetam grandes quantidades de calor na atmosfera, tanto na forma de calor sensível como na de calor latente, afetando a temperatura e o clima global. O fenômeno do ano de 1997 elevou a temperatura média global em 0,74°C. 

Concluo que fica claro, também, que a redução de cobertura de nuvens e a alta frequência de eventos El Niño, observada no período de 1983-2000, foram as causas físicas naturais do aquecimentoglobal que decorreu no mesmo período.

A dinâmica movida pela atividade solar e pelos oceanos terrestres é a maior controladora do clima do planeta Terra. Os oceanos, evaporando mais ou menos, regulam a cobertura de nuvens. E, quando se perturba o sistema, surgem outros processos que restabelecem o equilíbrio.”

Referências:
GLOBAL Warming. Criação e produção de conteúdo por Roy Spencer. Desenvolvido com a assistência de Jamon Holmgren, 2008. Apresenta artigos científicos sobre o aquecimento global, cujas causas são atribuídas a processos naturais e não à atividade humana. Disponível em: <http://www.drroyspencer.com/>. Acesso em: 11 ago. 2020.
HANSEN, J. et alii. Climate simulation for 1880-2003 with GISS modelE. Climate Dynamics, Berlim: Springer, v. 29, n. 7-8, p. 661-696, dez. 2007. Disponível em: <https://link.springer.com/article/10.1007/s00382-007-0255-8>. Acesso em: 9 ago. 2020.
KIEHL, J. T.; TRENBERTH, Kevin E. Earth’s Annual Global Mean Energy Budget. Bulletin of the American Meteorological Society, Boston (Massachusetts, EUA): AMS Publications, v. 78, n. 2, p. 197-208, fev. 1997. Disponível em: <https://journals.ametsoc.org/doi/pdf/10.1175/1520-0477%281997%29078%3C0197%3AEAGMEB%3E2.0.CO%3B2>. Acesso em: 9 ago. 2020.
SVENSMARK, H. et alii. Increased ionization supports growth of aerosols into cloud condensation nuclei. Nature Communications, [s.l.], n. 8, 2.199 [nº do artigo], dez. 2017. Disponível em: <https://doi.org/10.1038/s41467-017-02082-2>. Acesso em: 11 ago. 2020.
THE EARNEST C. Watson Lecture Series: Clouds and Climate Tipping Points. Produção: Caltech Academic Media Technologies. Conferência proferida por Tapio Schneider. Pasadena (Califórnia, EUA): California Institute of Technology, 24 abr. 2019. Canal YouTube, gravação digital (46min44s). Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=eGshzvKAM3w>. Acesso em: 11 ago. 2020.

Referências (gerais do artigo):

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BAPTISTA, Gustavo M. O planeta está realmente esquentando? Folha de S.Paulo, São Paulo, 6 jan. 2010. Tendências/Debates, p. A3. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz0601201009.htm>. Acesso em: 20 mar. 2020.

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Publicado em Edição 13

Editorial

Esta edição da revista Entreteses tem como foco a Iniciação Científica (IC), um programa direcionado à formação científica de jovens durante o percurso da graduação. São reportadas e celebradas diferentes experiências de estudantes de graduação como protagonistas e colaboradores em pesquisas e na produção científica de cada um dos campi da Unifesp.

Nossos cursos de graduação oferecem – de acordo com os respectivos projetos pedagógicos – unidades curriculares (UCs) direcionadas à metodologia científica, além de UCs com aulas práticas, em laboratórios e/ou visitas de campo, que propiciam o contato com os métodos de observação e experimentação próprios a uma área específica do conhecimento. Por meio do programa de Iniciação Científica1, o estudante tem a oportunidade de aprofundar essa vivência, participando ativamente do processo de construção do conhecimento em todas as suas etapas.

Vinculado à linha de pesquisa de um docente da Unifesp, o tema de estudo é definido pelo estudante de IC, em conjunto com o primeiro, incumbindo a ambos a tarefa de estruturar a redação do projeto de pesquisa. O segundo, por sua vez, participa da execução do estudo, com a realização de experimentos e observações, a coleta de dados, a produção de entrevistas e/ou aplicação de questionários, cujos resultados serão posteriormente organizados e interpretados na forma de relatório de pesquisa. Inserido em atividades do grupo de pesquisa do orientador, o estudante de IC amplia a convivência e o aprendizado com outros pesquisadores, pós-graduandos e os próprios colegas. Decorrido um ano, deverá apresentar no Congresso Acadêmico da Unifesp o trabalho desenvolvido, por meio de exposição oral e pôster, perante avaliadores e/ou debatedores da comunidade acadêmica e o público externo. A participação no congresso simboliza uma parte importante do ciclo de produção do conhecimento científico, que resulta do compromisso de divulgação da pesquisa realizada para a comunidade científica e a sociedade em geral.

A experiência em um programa de IC pode ser marcante na definição da trajetória profissional do estudante, sendo apontada por docentes e pesquisadores como um ponto de inflexão na escolha pela carreira acadêmica, conforme nos conta o professor Fábio Cardoso Cruz em artigo desta edição. Apesar de utilizar métodos e procedimentos científicos, a experiência com a pesquisa científica é cheia de imprevisibilidades e desafios. Equipamentos que precisam de manutenção, reagentes importados que demoram a chegar, voluntários que faltam às entrevistas, animais de pesquisa com intercorrências durante o experimento, além de resultados que podem indicar evidências opostas à hipótese da pesquisa, geram – às vezes – a necessidade de reprogramar as atividades previstas originalmente. Para o estudante em formação, essas ocorrências podem trazer angústia e frustração – e, por isso, a necessidade de acompanhamento próximo e acolhimento por parte do orientador e do grupo de pesquisa. Tais atitudes podem, inclusive, ser determinantes para que a experiência da IC seja positiva e construtiva. Em entrevista que concedeu à Entreteses, a professora Luciana Massi, da Unesp, discute a importância do orientador na preparação dos estudantes de IC e no desenvolvimento da pesquisa no país. 

Na Unifesp, a organização do Pibic/CNPq e suas modalidades está a cargo da Pró-Reitoria de Graduação (ProGrad), na perspectiva de que tais iniciativas constituem, antes de tudo, uma oportunidade de formação para nossos jovens universitários. Embora a Iniciação Científica transcorra muitas vezes no mesmo espaço e contexto das atividades de pós-graduação e pesquisa, é necessário priorizar as demandas específicas do orientando no processo de construção do conhecimento. Na ProGrad, a Comissão Institucional de Iniciação Científica, formada por representantes de cada uma das unidades universitárias, responde pela execução ampla do programa, elabora e publica os editais de bolsas, avalia os projetos e organiza a apresentação dos estudantes de IC no Congresso Acadêmico da Unifesp.

O compromisso da Unifesp com o programa de IC é também evidenciado pela manutenção, desde 2009, de uma cota adicional de bolsas remuneradas pelo orçamento da instituição. Essa cota institucional garante anualmente 50 bolsas adicionais a estudantes e projetos aprovados, os quais não seriam contemplados devido à limitação de nossa cota no CNPq. Por outro lado, com a crescente demanda para concessão de bolsas de IC e a escassez dos subsídios, tornou-se importante viabilizar e reconhecer a atuação de estudantes voluntários em projetos de IC. Desde 2010, os projetos e estudantes voluntários, cadastrados na ProGrad, são formalmente reconhecidos, dando direito à certificação da atividade realizada.

Que o conteúdo dos artigos que integram este número da revista estimule nossa comunidade acadêmica a investir na Iniciação Científica como um processo valoroso de formação e construção do conhecimento em proveito de nossos estudantes! Boa leitura! 

[1] Neste texto vamo-nos referir de maneira genérica ao Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (Pibic) e às atividades de IC, entendendo que esse programa inclui a modalidade de Iniciação em Desenvolvimento Tecnológico e Inovação (Pibiti), além do Pibic - Ações Afirmativas, destinado a estudantes que ingressaram na universidade por meio das cotas.

editorial Isabel Marian Hartmann

Isabel Marian Hartmann de Quadros - Pró-Reitora de Graduação (José Luiz Guerra)

 
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carta placa sol

Carta da reitora

Apresentamos aqui a edição nº 13 da Entreteses. A revista é um importante meio de comunicação não apenas com a comunidade Unifesp, mas também com a sociedade. Tornou-se um veículo de visibilidade e apresentação institucional, além de cumprir um papel relevante na divulgação de nossa produção científica.

Este número da Entreteses tornou-se ainda mais especial por duas razões. Inicialmente porque os dois últimos números foram realizados no contexto dos 25 anos de criação da universidade. Discorremos sobre pesquisa, extensão, projetos, figuras humanas nas diferentes escolas e institutos, representando nossas ações e nossa missão, construída a partir do ponto inicial, em 1933, até alcançarmos a condição de universidade plena, em 2019. No final do ano, o aniversário e as belas homenagens às pessoas e à universidade.

A segunda razão diz respeito ao que assistimos depois – o início de 2020 com notícias que nos preocuparam e que rapidamente nos levaram a ações de reformulação e até de reestruturação das atividades. Uma epidemia mundial, que nos desafiou e tem-nos desafiado desde os primeiros dias. A Unifesp, entretanto, não parou; ao contrário, trabalhou ainda mais. O elemento assustador nos fez reinventar e crescer, com muito esforço e muita dedicação das equipes de trabalho. Após seis meses de atividade na vigência da pandemia, nosso foco continua no ensino, pesquisa e extensão, bem como na assistência proporcionada por nossas estruturas de atendimento.

Por tais motivos e por ter sido uma edição elaborada em meio a um esforço coletivo, quero fazer um agradecimento especial e parabenizar a todos os que se dedicaram à sua realização.

Sem dúvida, o conteúdo é excepcional, pois traz exemplos da qualidade das pesquisas desenvolvidas pela Unifesp. Algumas delas, como a da bengala eletrônica, a da utilização de software livre na criação de equipamento de ultrassom de baixo custo e a da otimização do PCR em tempo real no diagnóstico hospitalar, geraram novas tecnologias e realçam o valor da produção no âmbito da inovação social. Corretamente descrita por nossa agência de inovação (Agits), a inovação social pode colocar-se a serviço de políticas públicas e da assistência em saúde pelo SUS. Ainda no tocante ao avanço da ciência com inserção tecnológica, vemos os estudos para otimizar o armazenamento de hidrogênio. Apreciamos as pesquisas sobre a saúde mental, o desenvolvimento infantil e a relação entre vínculo maternal e desenvolvimento neurológico. Verificamos a busca de novos fármacos para o combate à neurotoxicidade causada pela cocaína, a evolução da Química, capaz de eliminar agentes tóxicos da água, a acidificação dos oceanos e a discussão sobre o marco legal do saneamento básico no Brasil. A Unifesp tem-se destacado e tem sido pioneira na Antropologia e Arqueologia forenses, e esse tema também está presente. A compreensão de elementos culturais ancestrais e as questões do envelhecimento na sociedade têm igualmente espaço neste número.

A importância da ciência é reafirmada nos textos e na entrevista principal, mas – em especial – ressalta-se o mérito dos programas de Iniciação Científica e a dedicação dos professores que se envolvem com a formação de nossos estudantes. Porque, para nós, a formação profissional é também acadêmica e deve ser a mais completa possível. Conhecer a Iniciação Científica e nela atuar é fundamental para o desenvolvimento da universidade, o aprimoramento da pesquisa e, principalmente, a formação de novos pesquisadores. Mesmo aqueles que não pretendem seguir como profissionais no campo da pesquisa podem beneficiar-se da clareza do método científico na tomada de decisões e no conhecimento que é baseado em evidências. Nossos estudantes são a razão da universidade, e esse é o sentido presente em todas as atividades que realizamos. É desse modo que se constitui uma universidade, de um ambiente de estímulo intelectual e da troca constante entre professores, técnicos e estudantes, que juntos buscam o conhecimento e a construção de um mundo cada vez melhor.

Um abraço a todos e boa leitura.

carta Soraya Smaili Reitora MG 0544

Soraya Smaili - Reitora da Unifesp (Fotografia: Alex Reipert)

 
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Edição traz pesquisas desenvolvidas por estudantes em projetos de IC

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Quarta, 14 Outubro 2020 16:52

Expediente - edição 13

Expediente

A revista Entreteses é uma publicação semestral da Universidade Federal de São Paulo.

ISSN 2525-5401 (publicação impressa)
ISSN 2525-538X (publicação on-line)

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO

Reitora: Soraya Soubhi Smaili

Vice-Reitor: Nelson Sass

Pró-Reitora de Administração: Tânia Mara Francisco

Pró-Reitor de Assuntos Estudantis: Anderson da Silva Rosa

Pró-Reitora de Extensão e Cultura: Raiane Patrícia Severino Assumpção

Pró-Reitora de Gestão com Pessoas: Elaine Damasceno

Pró-Reitora de Graduação: Isabel Marian Hartmann de Quadros

Pró-Reitora de Pós-Graduação e Pesquisa: Lia Rita Azeredo Bittencourt

Pró-Reitor de Planejamento: Pedro Fiori Arantes

Jornalista responsável/Editor: Walter Teixeira Lima Junior (MTB 23.663/SP)

Coordenação: Valquíria Carnaúba

Reportagem: Daniel Patini, Denis Dana, José Luiz Guerra, Juliana Cristina de Paula, Matheus Campos, Paula Garcia, Pedro de Biasi, Tamires Tavares e Valquíria Carnaúba

Projeto gráfico e diagramação: Ana Carolina Fagundes

Infografia e ilustração: Ana Carolina Fagundes / Créditos indicados nas imagens

Revisão: Celina Maria Brunieri e Felipe Costa

Fotografia: Alex Reipert / Créditos indicados nas imagens

Capa: Alexandre Nunes de Moura e Souza e Alex Reipert 

Tratamento e pesquisa de imagens: Alex Reipert / Ana Carolina Fagundes

Conselho Editorial: Lia Rita Azeredo Bittencourt, Karen Spadari Ferreira, Débora Cristina Hipólide, Camilo Lelis, Ricardo Pimenta Bertolla, Andréa Slemian, Marimélia Aparecida Porcionatto, Vera Raquel Aburesi Salvadori

Conselho Científico: Ivo Silva Junior, Olgária Chain Feres Matos, Renato Janine Ribeiro, Ruy Ribeiro de Campos Jr., Paulo Schor e Fulvio Alexandre Scorza

Revista Entreteses n° 13 – Outubro/2020 
www.unifesp.br/entreteses 
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Tiragem: 2.000 exemplares

DEPARTAMENTO DE COMUNICAÇÃO INSTITUCIONAL

Direção: Walter Teixeira Lima Junior 

Jornalismo: Daniel Patini, José Luiz Guerra, Juliana Cristina de Paula, Paula Garcia, Tamires Tavares e Valquíria Carnaúba

Design: Ana Carolina Fagundes e Alexandre Nunes de Moura e Souza

Fotografia: Alex Reipert

Audiovisual: Gabryelle Pereira da Silva, Jean Carlo Silva, Loiane Caroline Vilefort e Reinaldo Gimenez (coordenação)

Mídias sociais: Rosangela Gonçalves Martins

Revisão: Celina Maria Brunieri e Felipe Costa

Técnica em secretariado: Juliana Mastrullo

Assessoria de imprensa: Ex Libris Comunicação Integrada Tel.: (11) 3266-6088 - ramais: 201, 208 e 225

Redação e administração: 

Rua Sena Madureira, nº 1.500 - 4º andar - Vila Clementino CEP: 04021-001 - São Paulo - SP - Tel.: (11) 3385-4116 Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. - www.unifesp.br

 
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Terça, 13 Outubro 2020 18:44

Edição 13 - Entreteses

Iniciação Científica: desenhando o futuro

Expediente

Carta da reitora :: O desafio de iniciar estudantes na pesquisa científica

Editorial :: Experiência que orienta a escolha profissional 

Mudanças Climáticas :: Negacionismo: a onda de ceticismo sobre o valor da ciência 

Entrevista • Luciana Massi :: Crescente importância da pesquisa na universidade ressalta papel dos orientadores

Perfil • Fábio Cruz :: Profissão: amor

Iniciação Científica :: Para gostar de pesquisar, é preciso começar na hora certa

Congresso Acadêmico :: Seis anos de integração entre ensino, pesquisa e extensão

Ensino à Distância :: Gamificação em cursos on-line na produção de conhecimento

Acessibilidade :: Bengala eletrônica de baixo custo se comunica com tecnologias de smart cities

Educação :: Brincadeiras em família, para além da diversão

Sustentabilidade :: Olhando para o futuro

Meio Ambiente :: Química Verde no combate à poluição

Toxicologia :: Moléculas artificiais amenizam neurotoxicidade da cocaína 

Identidades Brasileiras :: O papel da Antropologia Forense na identificação da população brasileira

Antropologia :: Resgate de culturas ancestrais por intermédio da tarologia 

Longevidade :: A lógica por trás do envelhecimento

História da Economia :: Uma luz que não brilhou

Combustíveis :: Hidrogênio na corrida pela energia limpa

Engenharia Biomédica :: Prototipagem eletrônica viabiliza aparelho de ultrassom acessível

Oncologia :: Metodologia otimiza custo de teste molecular no Hospital São Paulo

Neurociência :: Vínculo materno e desenvolvimento neurológico

Sociedade :: Fenômeno social e direito humano

Tratamento de Efluentes :: Nova Lei do Saneamento Básico em pauta na graduação

Panorama :: Uma longa viagem começa por um passo

Outubro 2020

Em 2020, a importância da ciência ganhou notoriedade com a pandemia de Covid-19. Pesquisadores de diferentes países se voltaram para o entendimento sobre como o vírus se comporta em seu hospedeiro acidental, o ser humano, para desenvolver coquetéis ou vacinas e, assim, frear a sua propagação. Independentemente de haver, nesse contexto, interesses difusos econômicos e políticos, de instituições públicas e privadas, a ciência foi acionada, mais uma vez, para servir à sociedade.

Instituições de pesquisa, ensino e difusão científica permaneceram ativas, a fim de levar adiante o conhecimento para além dos muros da academia. E é com esse tom que diversos estudantes da Unifesp são instigados a arriscar o caminho da Iniciação Científica (IC) – o tema da atual edição da revista Entreteses. A modalidade de pesquisa acadêmica é desenvolvida na graduação de universidades brasileiras, em diversas áreas do conhecimento, e se apresenta como um dos inúmeros caminhos pelos quais os universitários podem se enveredar (como o de projetos de extensão e o das empresas juniores).

Pela primeira vez, trazemos ao leitor a possibilidade de compreender melhor esse universo: tratamos de 17 projetos, oriundos dos sete campi da Unifesp (São Paulo, Osasco, Guarulhos, Baixada Santista, Diadema, São José dos Campos e Zona Leste), além do desenvolvido no âmbito da Universidade Aberta do Brasil (UAB/Unifesp). Todos eles têm algo em comum: foco na transformação social. Para um mundo cada vez mais inclusivo, uma bengala eletrônica de baixo custo que se comunica com tecnologias de inteligência artificial aplicadas ao ambiente físico das cidades. Para um planeta que precisa de alternativas em energia limpa, novos métodos de armazenagem de hidrogênio como combustível veicular. Para uma educação em transformação, estratégias educacionais inovadoras inspiradas na gamificação. Para uma sociedade que deseja entender-se a si própria, uma abordagem científica sobre a busca pela espiritualidade.

Além desses temas, trazemos duas novidades que se propõem a auxiliar na compreensão das transformações contemporâneas: a seção Artigo, onde falamos sobre o negacionismo sobre as mudanças climáticas e; a seção Panorama, para a qual convidamos docentes de diferentes áreas para discutir sobre o novo papel da China na geopolítica e economia mundiais.

A Entreteses permanece focada no seu propósito: divulgação científica. O que perseguimos com mais afinco em 2020, contudo, são novas formas de aproximar a produção da ciência na universidade do seu cotidiano.

Desejamos uma boa leitura!

 

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