Para gostar de pesquisar, é preciso começar na hora certa

A graduação é o momento em que os estudantes começam a tatear as possibilidades profissionais dentro da área em que escolheram atuar. A Iniciação Científica é um dos caminhos pelos quais o estudante pode optar percorrer

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Imagem: Alexandre Souza / Alex Reipert

 

Valquíria Carnaúba

Uma das metas estabelecidas no Plano Nacional de Educação (PNE), em 2014, é a de expandir o ensino superior para que, até 2024, um terço dos jovens de 18 a 24 anos estejam matriculados em algum curso de graduação. Em 2017, segundo o Censo da Educação Superior do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), 4,2 milhões de jovens entre 18 e 24 anos estavam na universidade (18% do total). 

Para comparação, naquele mesmo ano, a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) contribuiu com aproximadamente 0,3% do percentual. Parece pouco, mas se considerarmos que a taxa de contribuição da universidade equivaleu, somente naquele ano, a 13.492 estudantes, é possível ter uma dimensão de quantos jovens ingressaram na pesquisa ou no mercado com uma formação sólida em suas áreas do conhecimento. Entre 2009 e 2019, 119.591 jovens iniciaram suas carreiras na Unifesp, distribuídos entre os mais de 40 cursos de nível superior (incluindo os que foram criados ao longo do período analisado). 

Grande parte desses indivíduos trilhou o caminho da pesquisa científica, optando pela carreira acadêmica por incentivo de docentes, colegas de sala de aula e das boas experiências vivenciadas na graduação – especialmente aqueles que passaram pela Iniciação Científica (IC). A modalidade de pesquisa acadêmica é desenvolvida, atualmente, por estudantes de graduação nas universidades brasileiras em diversas áreas do conhecimento. No Congresso Acadêmico da Unifesp 2020, por exemplo, foram submetidos 1.560 trabalhos de pesquisadores de IC, entre bolsistas e não-bolsistas. 

Um dos aspectos positivos dessa preocupação com a formação do graduando é o estímulo extra para que esse estudante permaneça pesquisando. Uma pesquisa realizada pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), em 2017, revelou que os egressos do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (Pibic) têm 2,2 vezes mais chances de completar suas dissertações de mestrado e 1,51 vez maior de concluir as teses de doutorado, quando comparados aos que não passaram pela experiência.

Nossos dados confirmam essa tendência. Desde 1933, os cursos de pós-graduação stricto sensu (mestrado e doutorado) registram 3.940 concluintes que são, também, egressos da graduação na mesma universidade. De 2014 a 2020, 7.726 indivíduos ingressaram em algum dos cursos de pós-graduação stricto sensu da Unifesp. Desses, 1.767 estudantes advêm da graduação na mesma universidade. Afinando ainda mais a lupa, 470 passaram pela experiência da Iniciação Científica.

A pesquisa refere-se aos estudantes que atendem às exigências do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Cnpq), órgão responsável pelo financiamento da maioria dos projetos de pesquisa de graduação e pós-graduação no país. Entretanto, os estudantes de graduação que levam seus projetos de forma autônoma são, de igual maneira, transformados pela Iniciação Científica, uma experiência que desenvolve diversas competências, como empreendedorismo, olhar analítico e redação científica – ainda que se debrucem, futuramente, sobre outras áreas do conhecimento.

De acordo com Deborah Suchecki, docente associada do Departamento de Psicobiologia da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp) – Campus São Paulo, e coordenadora institucional do Pibic-Pibiti na universidade, a IC é o primeiro passo para a carreira acadêmica. “Muitos pesquisadores de IC seguem para a pós-graduação stricto sensu, pois desenvolvem habilidades necessárias para se tornar um cientista”, afirma. Para ela, a curiosidade e a inquietação são características muito desejáveis, que os levam a formular perguntas e a querer respondê-las. “Não é necessário que o estudante chegue com todo o conhecimento teórico do assunto que pretende estudar, mas é necessário que tenha fome de aprender, que goste de ler e queira adquirir conhecimento, direta e indiretamente relacionado com o tema da pesquisa”. 

Seu conselho para os estudantes que arriscam a Iniciação Científica é que vivenciem ao máximo os grupos mais experientes (de mestrado e doutorado), pois essa bagagem torna-se um divisor de águas na vida acadêmica. “Por meio da IC, o estudante mergulha mais profundamente em um assunto pelo qual tem certo interesse. Quando participa de congressos, conhece colegas de outras universidades e troca ideias, conhecimentos e vivências com os orientadores – algo muito gratificante”, pontua. 

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A Prograd e a IC

A Pró-Reitoria de Graduação (Prograd/Unifesp) é o órgão da Reitoria que tem como propósito promover o ensino de qualidade e garantir a formação geral e profissional dos estudantes de graduação, preparando-os tanto para uma atuação competente, crítica e ética quanto para o prosseguimento de estudos em nível de pós-graduação.

Para executar seu trabalho, a Prograd/Unifesp conta com cinco coordenadorias (Sistema de Seleção para Ingresso de Estudantes na Universidade, Projetos e Acompanhamento Pedagógico, Programas e Projetos Institucionais, Avaliação, e Desenvolvimento Docente), além de uma assessoria para assuntos de internacionalização e do Comitê Gestor Institucional de Formação Inicial e Continuada de Profissionais da Educação Básica. A responsabilidade pelos trabalhos de cada coordenadoria é conferida a um docente e a uma comissão composta por representantes das unidades universitárias.

Por meio da Coordenadoria de Programas e Projetos Institucionais, são articulados os projetos e programas vinculados à Pró-Reitoria de Graduação, induzidos pela política de educação superior do Ministério da Educação, com demandas e ações internas para a definição de políticas próprias da Unifesp para a graduação.

É nessa instância que Suchecki organiza a concessão de bolsas aos solicitantes. Todos os anos, são ofertadas bolsas de Iniciação Científica para estudantes de ensino médio e para estudantes de graduação. Os solicitantes do nível superior, ao ingressarem com pedido de aquisição de uma, podem se candidatar de acordo com o programa específico para sua atividade.

A pergunta que não quer calar: como as bolsas são atribuídas aos estudantes? 

“Dividimos a cota pelos campi a partir no número de graduandos de cada campus. Em uma primeira fase, os projetos submetidos são avaliados por assessores internos que levam em consideração três itens: histórico escolar, projeto e orientador. Com base nessa avaliação, os pedidos recebem uma graduação de prioridades, sendo P1 a maior prioridade e P3 a menor. Montamos comissões em cada campus compostas por professores internos e externos à Unifesp que selecionarão os melhores pedidos. Não levamos em consideração o critério do governo que privilegia áreas estratégicas, pois todas as áreas de conhecimento e toda geração de excelência de conhecimento são estratégicas”.

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Deborah Suchecki

Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica – Pibic

O Pibic é voltado para o desenvolvimento do pensamento científico e iniciação à pesquisa de estudantes de graduação do ensino superior, visando contribuir para a formação de recursos humanos para a pesquisa que se dedicarão a qualquer atividade profissional. O programa busca reduzir o tempo médio de permanência dos estudantes na pós-graduação, incentivar as instituições à formulação de uma política de Iniciação Científica, bem como possibilitar maior interação entre a graduação e a pós-graduação, e qualificar graduandos para os programas de pós-graduação. Ele tende ainda a estimular pesquisadores produtivos a envolverem estudantes de graduação nas atividades científica, tecnológica, profissional e artístico-cultural e também proporcionar ao bolsista, orientado por pesquisador qualificado, a aprendizagem de técnicas e métodos de pesquisa, bem como estimular o desenvolvimento do pensar cientificamente e da criatividade, decorrentes das condições criadas pelo confronto direto com os problemas de pesquisa.

Programa Institucional de Bolsas de Iniciação em Desenvolvimento Tecnológico e Inovação - Pibiti

O Pibiti foi criado com o intuito de estimular estudantes do ensino técnico e superior ao desenvolvimento e transferência de novas tecnologias e inovação, visando contribuir para a formação e engajamento de recursos humanos para atividades de pesquisa, desenvolvimento tecnológico e inovação. O programa busca a formação de recursos humanos que se dedicarão ao fortalecimento da capacidade inovadora das empresas no país, bem como para reduzir o tempo médio de permanência dos estudantes na pós-graduação e incentivar as instituições à formulação de uma política de Iniciação Científica. É seu objetivo também possibilitar maior interação entre a graduação e a pós-graduação, qualificar graduandos para os programas de pós-graduação e estimular pesquisadores produtivos a envolverem estudantes de graduação nas atividades científica, tecnológica, profissional e artístico-cultural; e ainda proporcionar ao bolsista, orientado por pesquisador qualificado, a aprendizagem de técnicas e métodos de pesquisa, bem como estimular o desenvolvimento do pensar cientificamente e da criatividade, decorrentes das condições criadas pelo confronto direto com os problemas de pesquisa.

Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica – Pibic nas Ações Afirmativas (Pibic-AF)

O Pibic nas Ações Afirmativas tem como objetivo complementar as ações afirmativas já existentes nas universidades. Seu objetivo é oferecer aos estudantes beneficiários dessas políticas a possibilidade de participação em atividades acadêmicas de Iniciação Científica.

Esse programa está inserido no Pibic e é resultado de uma parceria entre a Subsecretaria de Políticas de Ações Afirmativas da Secretaria Especial de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República (SUBPAA / SEPPIR-PR) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Bolsista de IC tem mais chances de concluir pós-graduação, aponta estudo do MCTIC 

O estudo de 2017 intitulado A Formação de Novos Quadros para CT&I (Ciência, Tecnologia e Inovação): avaliação do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (Pibic), do CGEE, é composto por análises quantitativas e qualitativas sobre a visão dos egressos e orientadores sobre a experiência Pibic, com pesquisa de opinião no período de 1 de agosto de 2013 a 31 de julho de 2014, além de avaliações comparativas entre graduandos bolsistas e não bolsistas Pibic da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Mais informações: https://www.cgee.org.br/documents/10182/734063/PIBIC-pdf

 

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