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Despertar para a microbiologia

Da primeira vacina contra a varíola até as atuais 14 vacinas contra a covid-19, a ciência entregou ao mundo imunizantes para mais de 15 doenças - incluindo meningite, rubéola e tuberculose. Hoje, uma das discussões mais importantes é onde aplicar cada vacina. A decisão depende de dois fatores: a forma como cada patógeno se manifesta no corpo humano e quais anticorpos precisam ser criados para o combate

coronavírus vacina

(Fotografia: Alex Reipert)

 

Sob a ótica da humanidade, 20 milhões de vidas salvas. Sob a ótica financeira, US$ 350 bilhões economizados em custos com doenças. Esses são os números trazidos à tona por 21 pesquisadores(as) da Noruega, Inglaterra, Suíça e dos Estados Unidos, em 2020, uma notícia “velha” para os atuais padrões de velocidade da comunicação, mas que continuará atual e pertinente por muito tempo ainda .

A ideia do estudo foi estimar o impacto econômico das vacinas contra 10 doenças entre 2001 e 2020 em 73 países de baixa e média renda. E, apesar desse número saltar aos olhos, a redução do custo ampliada pelo fator social chega a US$ 820 bilhões.

Foram utilizados modelos de impacto na saúde para analisar essa relação em nações apoiadas pela Aliança de Vacinas (Gavi) que possuíam cobertura vacinal contra Haemophilus influenzae tipo B, hepatite B, papilomavírus humano, encefalite japonesa, sarampo, meningite tipo A, rotavírus, rubéola, pneumonia e febre amarela.
 

As vacinas contra a covid-19

Os imunizantes disponíveis continuam salvando vidas e ajudando a conter a disseminação da doença no mundo todo. Uma pesquisa recente da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) pode ser citada aqui como um recorte do cenário mais otimista que se instalou em 2021. O estudo revelou que quase 63 mil vidas de pessoas com mais de 60 anos foram salvas no Brasil em razão da vacinação contra a covid-19.

Até encontramos números para comemorar, contudo, foram muitas perdas. Mais de 600 mil pessoas, histórias e sonhos. Mais de 12 mil órfãos(ãs) de até seis anos de idade. Cerca de 75 mil lojas e 522 mil empresas fechadas. Alimentos inflacionados em mais de 15%. Isso só no Brasil. No mundo, mais de 5 milhões de mortes e de 250 milhões de casos confirmados.

Por aqui, com cerca de 50% da população vacinada em outubro de 2021 e na preparação para avançar com a imunização entre adolescentes e crianças, fomos convidados a repensar as doses de reforço para que a distribuição das vacinas começasse a ultrapassar as fronteiras nacionais.

A “sugestão” foi feita pelo embaixador da Organização Mundial de Saúde (OMS) para o financiamento sanitário mundial e ex-primeiro-ministro britânico Gordon Brown. Seu apelo se dirigiu a todos os países do G20, do qual o Brasil faz parte, baseado na estimativa de que o número de mortes pode chegar a 10 milhões no próximo ano.

A causa dessas mortes está intimamente ligada à economia dos países em que a imunização é deficiente. No Brasil, a saber, o custo das doses previstas para 2021, mesmo que o montante não seja o suficiente para imunizar mais de 200 milhões de pessoas, é próximo a R$ 9,3 bilhões. A cifra passa longe da realidade dos países mais pobres do mundo.
 

Na conta da importação

Grande parte do valor gasto com as vacinas, no Brasil, se deve à importação da tecnologia necessária à sua preparação e aplicação. Se falarmos apenas de reagentes, por exemplo, 95% é trazido da Índia e da China, de acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Insumos Farmacêuticos (Abiquifi).

Um bom exemplo da nossa dependência dos insumos farmacêuticos ativos (IFAs) foi o atraso no envio de 3 mil litros pela chinesa Sinovac, que aconteceu em maio de 2021, a serem destinados à produção de 5 milhões de novas doses da vacina pelo Instituto Butantan. A lista de itens importados é grande, e inclui máscaras, seringas, agulhas e luvas. Dados do Ministério da Economia apontam que, em 2020, o Brasil importou US$ 49,5 milhões em agulhas e seringas, 11 vezes mais do que exportou.
 

A era da pistola

Esse verdadeiro arsenal de produtos hospitalares destinados à imunização nem sempre foi utilizado, e a memória está aí para nos contar. Ou melhor, os museus. A história das pistolas de vacinação é retratada de forma bem resumida na publicação de divulgação do acervo intitulada Objeto em Foco, encontrada no site do Museu da Vida, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

O aparato foi inventado por médicos militares estadunidenses, na década de 1950, com o objetivo de agilizar a vacinação de grandes grupos de pessoas para a erradicação da varíola. Funcionava sem agulha, com um mecanismo de ar comprimido que, quando acionado por um pedal, proporcionava uma poderosa fonte de pressão que injetava o insumo através da pele.

É bom lembrar, aliás, que a varíola está no centro da história da vacinação. Foi graças à busca por sua erradicação que a primeira vacina foi criada, em 1796, na esteira do Iluminismo, da Revolução Francesa e da Revolução Científica. Aos(às) ocultistas, uma era estreitamente ligada à passagem de plutão pelo signo de aquário - assunto, é claro, para outra ocasião.

O uso das famigeradas (e doloridas) pistolas foi abandonado, principalmente, devido à preocupação com a propagação de outros vírus transmitidos pelo sangue, como os da hepatite C e o da Aids. No final da década de 1990, as pistolas pararam de ser fabricadas.
 

Campanha de Erradicação varíola

Campanha de Erradicação de Varíola (CEV). Gestão do Secretario de Saúde Dr. Walter Leser [1967-1977], São Paulo (Acervo Museu de Saúde Pública Emílio Ribas / Instituto Butantan)

Da agulha ao spray

Apesar das agulhas serem um avanço tremendo, a ciência trouxe novas informações à Imunologia. Uma delas é a clareza sobre qual anticorpo estimular para combater a doença x ou a y, afinal sabe-se hoje que o corpo humano produz anticorpos diferentes dependendo do local onde cada patógeno se manifesta em nosso organismo.

Quando uma vacina é aplicada no músculo, estimula a produção de anticorpos dos tipos IgM e IgG, que circulam livremente no sangue e no plasma. Contudo, os anticorpos ideais para combater doenças respiratórias são os do tipo IgA, produzidos nas mucosas, presentes em grandes quantidades nesses locais e muito mais específicos para atacar patógenos como, é claro, o coronavírus.

De acordo com o infectologista aposentado da Unifesp Celso Granato, ter IgA para dar e vender depende hoje da liberação das vacinas de spray nasal. Também conhecidos como vacinas de segunda geração, esses imunizantes estão sendo desenvolvidos no mundo todo. Aqui no Brasil, inclusive, a Unifesp está envolvida em um desses projetos, em parceria com a Universidade de São Paulo (USP), sobre a qual tratamos mais a seguir, uma oportunidade de estabelecer a tecnologia necessária à sua produção em território nacional.

Dr Celso Granato

Para Celso Granato, as fake news são o principal sintoma da resistência da sociedade à ciência, que advém da desconfiança em relação ao serviço público, onde está concentrada grande parte da produção científica brasileira. “O mesmo questionamento sobre a confiabilidade das vacinas é feito por outras sociedades, mas nas populações que possuem uma relação mais amistosa com seus governos, como os suíços e os japoneses, a indagação mais comum é ‘olha, tem algumas coisas que não estão muito claras, mas se o meu ministro da saúde pediu para tomarmos a vacina, eu vou tomar’”, reflete (divulgação/ a4&holofote comunicação)

 

Sem hospedeiro, sem negócio

“Os locais mais expostos a vírus e bactérias são nariz, boca e olhos. O que a natureza fez, então? Criou mecanismos de defesa nessas portas de entrada. Com isso, temos anticorpos mais ou menos ‘locais’, como os específicos de mucosa – que não são encontrados no sangue [IgA]”, explica Granato. O imunologista pontua que esse time da natureza é tanto um trunfo do ser humano quanto uma “carta na manga” dos patógenos. Sabe aquele papo que a gente vai ter que conviver com o vírus? Está mais para sobreviver a ele.

“Quem sobreviveu a essa pandemia vai passar essa imunidade para as próximas gerações, e aparecerão pessoas naturalmente mais resistentes ao coronavírus. A curto prazo, não é indicado arriscar. Quando temos um ‘jump’, um pulo de um vírus entre uma espécie e outra, é preciso se adaptar ao novo hospedeiro. Essa adaptação, via de regra, provoca doenças graves, pois não é um trajeto muito fácil do ponto de vista biológico. Isso aconteceu com o HIV, quando passou do macaco para o ser humano. É preciso continuar vacinando até estabilizar o vírus”, elucida.

Devido à alta capacidade de transmissão, o coronavírus pode ser controlado pelas vacinas musculares, mas somente as localizadas podem cessar a transmissão e, finalmente, a pandemia. Um bom exemplo para explicar como isso ocorreria é a poliomielite. A vacina Salk, intramuscular, não interfere na multiplicação do vírus, que entra pela boca. A grande sacada da vacina Sabin foi imunização pela famosa gotinha na porta de entrada do vírus. “Seu inventor, Sabin, ganhou o Nobel por conta disso e salvou a vida de milhões de pessoas”, conta.

Enquanto a vacina em spray nasal não chega, a batalha continua sendo pela boa informação, pois a confiança da população na ciência depende disso. “Há momentos em que nós, cientistas, não conseguimos transmitir com a clareza necessária o que sabemos para a sociedade, pois somos treinados a conversar com nossos colegas de profissão. Na universidade, damos aulas para pessoas inseridas em nosso ‘universo’. Temos aprendido aos poucos a importância da etapa intermediária exercida pelos jornalistas que divulgam ciência, tornando um assunto de difícil explicação mais compreensível ao maior número de pessoas possível”, observa.