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De viagem espacial a vida em Marte

A década de 2020 começou com ares de ficção, acelerando importantes conquistas da ciência. A covid-19 é apenas a ponta do iceberg

capa ciencia e novos medicamentos

(Composição criada com imagens de: NASA, Marcelo Seabra/Ag. Pará, NIAID, arquivo pessoal)

 

Valquíria Carnaúba

Contágio ou Eu Sou a Lenda? Quando a vida imitou a arte, não faltaram recomendações de filmes sobre pandemias nas redes sociais. A obra de Steven Soderbergh (2011), de viés mais científico, foi produzida com o apoio de consultores, entre os quais se incluía um professor de Epidemiologia da Universidade Columbia, W. Ian Lipkin. Já Eu Sou a Lenda (2007), baseado no livro de Richard Matheson (1954), é um longa-metragem sobre a solidão humana e nossa necessidade de convivência social. O ponto convergente entre as duas histórias, porém, é o vínculo com fatos e questionamentos comuns à humanidade: o que nos ameaça enquanto espécie.

É na esfera do desconhecido que residem alguns dos mais importantes frutos da arte e da ciência, pois traduzem nosso receio da morte e da extinção. As principais conquistas científicas de 2020 são um retrato dessa busca incessante por caminhos para a sobrevivência. Além da pesquisa pela cura da covid-19, o ano anterior foi marcado pela primeira viagem espacial a partir do território americano, em nove anos, levada a cabo por Elon Musk. O bilionário hoje vislumbra algo mais audacioso que a exploração espacial: é ele o responsável pelo projeto Space X- Mars, que tem o objetivo ambicioso de colonizar Marte.

Quando passa o espanto e nos atrevemos a imaginar que essa proposta é apenas um devaneio, chegam outras notícias. Em agosto do mesmo ano, a Nasa anunciou ter encontrado um asteroide que possui uma quantidade de minérios de valor proporcional a todas as riquezas da Terra. Nos meses seguintes, contam-nos que há água na Lua e um planeta habitável aqui mesmo, no sistema solar. Quando Isaac Asimov escreveu a trilogia Fundação, entre 1942 e 1950, era comum ouvir das gerações anteriores que exploração espacial “não passava de ficção.” Quem não tem uma avó ou avô com uma história para contar sobre as portas automáticas? Elas foram novidade há uns 50 ou 60 anos.

Foi esse sentimento que nos acompanhou por todo o começo desta década: assombro. Ainda que a ficção de algumas décadas atrás seja hoje um registro de fatos comuns à humanidade. O epidemiologista consultado para o filme Contágio, por exemplo, certamente sabia que já haviam surgido ao menos duas ocasiões similares à atual na história. Se uma pandemia é uma doença que se alastra rapidamente e alcança vários países, podemos falar, nesse caso, da peste negra, que matou mais de 50 milhões de pessoas no século XIV, e da gripe espanhola, com mais de 20 milhões de mortos entre 1918 e 1919.

Foi em razão da luta travada para debelar eventos como esses que a Medicina avançou em sua trajetória histórica. É o caso da busca pela cura da aids, cujo progresso notável foi noticiado pela Entreteses em 2018. De acordo com a reportagem, uma pesquisa da universidade, coordenada por Ricardo Sobhie Diaz, mostrou ser possível reduzir drasticamente a carga viral de soropositivos por meio de medicamentos à base de nicotinamida e auranofina. A síndrome da imunodeficiência adquirida (aids), até há pouco tempo considerada uma pandemia, atinge milhares de pessoas anualmente. De acordo com o Departamento de Doenças de Condições Crônicas e Infecções Sexualmente Transmissíveis (Ministério da Saúde), cerca de 920 mil pessoas convivem atualmente com o HIV no Brasil. Em 2020, até outubro, cerca de 642 mil pessoas estavam em tratamento antirretroviral. Em 2018 eram 593.594 pessoas em tratamento.

O coronavírus em si, cujo nome científico é Sars-CoV-2, mobilizou instituições de pesquisa, laboratórios e cientistas do mundo todo. A forma inédita como esse patógeno age no corpo humano e seu alto potencial de transmissão foi o que acelerou a busca pela prevenção e cura, e hoje os tratamentos apontados como promissores englobam vacinas, soros e medicamentos. Muitos fármacos – avaliados por cientistas, inclusive – já existem e são usados para o tratamento de outras doenças, como a heparina e a imunoglobulina intravenosa.

Nenhum deles foi ainda reconhecido para o tratamento da covid-19, mas a prescrição off label é bastante recorrente aqui e em outros países. Do ponto de vista histórico, ocorreu em outras epidemias e pandemias. Durante a época da gripe espanhola, por exemplo, era comum o Serviço Sanitário do Estado de São Paulo indicar o sal de quinino para o tratamento preventivo da doença. As recomendações eram divulgadas sob o título Conselhos ao Povo. Em 2020, as indicações off label ao redor do mundo se basearam, no caso da hidroxicloroquina, nos “conselhos” do médico francês Didier Raoult.

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Hospital militar de emergência durante a pandemia de gripe espanhola, que matou cerca de 675 mil pessoas apenas nos Estados Unidos. Na foto: Acampamento Funston, Kansas, 1918 (Imagem: U.S. Army/ Wikipédia)

Cem anos depois, a história se repete

“No começo de 2020, descobrimos que meu sogro estava com um linfoma, razão pela qual precisou ser internado. Eu e minha esposa nos revezamos para cuidar dele quando veio o pico da covid-19. Como estávamos no hospital, pegamos e infectamos outras pessoas em casa, inclusive minha filha de dois anos e nove meses. Utilizei a proteção preventiva com ivermectina e reservei em casa hidroxicloroquina, azitromicina, reconstituintes da flora intestinal, zinco e soro. Tive febre por quatro noites, disenteria, muita indisposição e dor no corpo. Em oito dias, eu fiquei bem. Minha companheira, que não fez uso de nenhuma interação medicamentosa, ficou mais tempo com os sintomas”, conta Thiago Valério, 38 anos, morador do município paulista de Campinas.

Ele admite que adquiriu os medicamentos após prescrição médica e que aceitou as indicações devido ao desespero diante do número de mortes e à ausência de informações concretas sobre a doença. Dadas as incertezas, paira a pergunta no ar: o médico pode indicar um tratamento não reconhecido para determinada doença? De acordo com Aluisio Marçal de Barros Serodio, relator do Comitê de Ética em Pesquisa e professor adjunto do Centro de Bioética do Departamento de Cirurgia da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp) - Campus São Paulo, sim. A prática é denominada prescrição off label.

Para Serodio, todos os médicos podem prescrever o tratamento que julgarem mais adequado para determinado paciente – seja um medicamento, seja uma cirurgia –, desde que haja transparência com a pessoa atendida e alguma evidência científica que apoie sua decisão. “Supõe-se que esses profissionais possuam base técnica, vivência profissional e atualização por meio da literatura científica.” Essa autonomia, lembra o especialista em Bioética, vale inclusive para remédios não aprovados para uma doença específica.

Mesmo para os casos em que são indicados, os medicamentos podem ter efeitos colaterais. “Mas são efeitos esperados. Quando há prescrição off label, as incertezas são maiores, trazendo mais riscos ao paciente. Os médicos, por sua vez, assumem uma responsabilidade redobrada, expondo-se a denúncias”, discorre. Para ele, a prescrição sem comprovação pode ocorrer desde que o médico conheça muito bem seu paciente, o fármaco e a doença.

O docente menciona o livro A História das Epidemias ao refletir sobre o que realmente mudou nos últimos cem anos. “Hoje, as pesquisas clínicas são muito mais bem desenvolvidas, o filtro para as promessas milagrosas é maior.” Nesse contexto, o fato é que nem as melhores evidências científicas disponíveis até agora demonstraram a eficácia de qualquer medicamento no tratamento precoce da covid-19. “Embora haja relatos de casos e estudos observacionais sugerindo que pacientes que aceitaram a prescrição off label não evoluíram para a forma grave da doença, isso representa uma evidência científica limitada”, argumenta.

Ainda que mais de 250 vacinas contra o coronavírus estejam sendo testadas e fabricadas no mundo, no momento em que for finalizada a imunização em massa conheceremos sua efetividade sobre a população. “Além disso, esse vírus parece ter uma grande capacidade de mutação, gerando novas cepas que podem ser resistentes à vacinação. A busca por fármacos que possam ser usados para o tratamento da doença permanece, pois, importante.”

Na Unifesp, diversos estudos estão sendo desenvolvidos a fim de preencher essas lacunas. Três deles - coordenados pelos docentes Rodrigo Ureshino, Carla Máximo Prado e Igor Tadeu Lazzarotto Bresolin - mostram como a pesquisa acadêmica pode inovar a Medicina, aumentando a longevidade da população ou apresentando novos fármacos cuja eficácia pode ser competitiva no mercado.

Aluisio Marçal de Barros Serodio

Aluisio Marçal de Barros Serodio, professor do Centro de Bioética do Departamento de Cirurgia da EPM/Unifesp (Fotografia: Alex Reipert)