Quarta, 03 Junho 2015 15:44

Edição 4 - Entreteses

banner entreteses 04 - imagem do Rio Pinheiros cheio de lixo, com um prédio refletido nele

Versão em PDF

Junho 2015

Em meio à crise hídrica que assola não só países do Oriente Médio e da África, como também a China e a Índia, este número da Revista Entreteses apresenta 23 páginas especialmente dedicadas à água, recurso abundante no Brasil, porém mal distribuído e mal administrado pela população e pela gestão pública. O recurso, que antes valia ouro, principalmente em regiões do Nordeste do país devido à pouca (ou nenhuma) oferta, é desperdiçado e mal gerido até chegar ao ponto de provocar escassez em São Paulo, principal centro financeiro da América do Sul e a 14ª cidade mais globalizada do planeta segundo o Globalization and World Cities Study Group & Network (GaWC).

O especial traz importantes pesquisas sobre qualidade da água nas represas Guarapiranga e Billings, além das envolvidas com a biorremediação para o reuso da água de refinarias de petróleo e com a remediação de solos e aquíferos. Ao final, o leitor terá uma visão mais dinâmica sobre a crise hídrica mundial (e local) na entrevista com João Alberto Alves Amorim, professor da Unifesp e especialista em Direito Internacional do Meio Ambiente e em Direitos Humanos. Amorim também é autor dos livros Direito das Águas: Regime Jurídico da Água Doce no Direito Internacional e no Direito Brasileiro e A ONU e o Meio Ambiente – Mudanças Climáticas, Direitos Humanos e Segurança Internacional no Século XXI.

As quase 90 páginas restantes desse número apresentam outras pesquisas de ponta desenvolvidas nas mais distintas áreas – como saúde mental, da mulher e do trabalhador, Neuroaudiologia, Economia em Saúde, Genética, drogas, plantas medicinais e fármacos, História, Ciências Sociais, Pedagogia, sustentabilidade e Tecnologia.

Completamos a edição com uma entrevista com Esper Abrão Cavalheiro, atual pró-reitor de Planejamento da Unifesp e ex-presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), que teve como foco a criação de um centro de estudos avançados na Unifesp, em que o neurocientista critica o excesso de formalismo que os programas de pós-graduação impõem aos pesquisadores brasileiros. Elaboramos, também, o perfil de um dos mais consagrados cientistas brasileiros, Otto Gottlieb, possibilitado pelo trabalho minucioso de pesquisa que contou com o auxílio da futura jornalista Rosa Donnangelo.

Expediente

Editorial :: Você tem sede de quê? Você tem fome de quê?

Carta da reitora :: Universidade pública assume o seu papel na crise hídrica

APG :: Corte orçamentário e o passo sem pé do governo federal

Entrevista • Esper Cavalheiro  :: Cientistas brasileiros precisam de mais ousadia

Perfil • Otto Richard Gottlieb :: “Ciência é tudo ou nada”

Especial • São Paulo (e o mundo) pede água :: Água é recurso cada vez mais escasso no mundo

Represa Guarapiranga :: Mudança de parâmetros

Represa Billings :: Opção questionável

Biorremediação :: Bactérias tratam água poluída por refinarias de petróleo

Aquíferos :: O poder do nosso solo

Entrevista • João Amorim :: Gotas que valem ouro

Vitamina D :: Um bem proveniente do sol

Saúde do trabalhador :: Síndrome metabólica é uma das principais causas de problemas cardíacos

Neuroaudiologia :: Enxaqueca pode comprometer audição

Economia em saúde :: Pesquisa avalia percepção sobre genéricos

Genética :: Estudo sugere subdiagnóstico da doença celíaca

Saúde da mulher :: Método pode ajudar no diagnóstico precoce da endometriose

Prevenção :: Visão precoce

Drogas  :: Prevenção é adotada por minoria das escolas na cidade de São Paulo

Saúde mental :: Realidade ignorada

Assistência  :: Tecnologia ajuda a decifrar sofrimento em bebês

Alimentação escolar  :: Não só o valor nutritivo determina a qualidade da refeição

Patrimônio histórico :: Antigas indústrias, novas perspectivas

Perspectivas  :: Ciências Sociais investigam o subimperialismo

Pedagogia  :: Criatividade e tecnologia transformam o ensino

Fármacos :: Pesquisa na Mata Atlântica abre perspectiva de novos medicamentos

Sustentabilidade :: Polímeros condutores à prova do tempo

Plantas medicinais :: Resposta à insulina pode aumentar com o Ginkgo biloba

Buckybombas :: Nanoexplosivos contra vírus e bactérias

Tecnologia :: Mais ordem no cais

Tecnologia :: Impressora 3D promete revolucionar mercado de próteses de mão


Outras edições da Entreteses:

banner entreteses 07
banner entreteses 06
banner entreteses 05
Publicado em Entreteses
Terça, 02 Junho 2015 16:29

Visão precoce

Estudo desmistifica a ideia de que a ocorrência da miopia é erro refracional recorrente em indivíduos que nasceram prematuros

Da Redação
Com a colaboração de Rosa Donnangelo

Entreteses04 p062 visao precoce

A ideia de que crianças prematuras desenvolvem miopia, muito disseminada entre oftalmologistas, sempre instigou Rafael Lourenço Magdaleno, médico especialista na área e mestre em Ciências pelo programa de pós-graduação em Oftalmologia da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp) - Campus São Paulo.

Pesquisas realizadas por Magdaleno, no Ambulatório de Oftalmologia do Hospital São Paulo (Hospital Universitário da Unifesp), levaram à conclusão de que não há prevalência de miopia tendo como pressuposto a prematuridade da criança. O erro refracional em questão deve ser analisado sob diversas perspectivas, entre elas a associação com a herança genética e com outros defeitos na visão. 

A prematuridade e a Oftalmologia têm pontos correlacionados. O principal deles é a possibilidade, temida por parte dos médicos, de o bebê prematuro desenvolver a doença vascular da retina, chamada retinopatia da prematuridade (ROP). Sabe-se hoje que, embora exista tratamento disponível às crianças, há grandes chances de os pacientes já tratados apresentarem miopia ou outros problemas relacionados à visão. 

A ROP manifesta-se por estágios, sendo o pior deles o descolamento total da retina. Os riscos da ROP aumentam quando o bebê tem problemas cardiorrespiratórios e é exposto ao oxigênio continuamente. 

O principal objetivo do pesquisador foi analisar os erros refrativos por meio de exames oftalmológicos, entre eles, a retinoscopia. O segundo, não menos importante, foi testar duas drogas distintas usadas para provocar a cicloplegia – paralisia da pupila do globo ocular para identificação do grau de miopia e astigmatismo. Foram avaliadas 101 crianças, com idades entre um e 12 anos e idade gestacional menor que 37 semanas; nessa amostra sete apresentavam ROP, entre as quais duas já haviam sido tratadas. 

Um dos medicamentos utilizados, o ciclopentolato, quando utilizado em concentração superior a 1% em crianças prematuras, causa alguns efeitos colaterais. A outra droga, a tropicamida, mostrou-se menos eficaz no efeito de cicloplegia com a mesma dosagem. 

Entreteses04 p063 denise de freitas rafael lourenco

Denise de Freitas e Rafael Lourenço Magdaleno

“A primeira medida era avaliar se as drogas apresentavam efeitos diferentes ou não, desde que examinadas no seu melhor tempo de ação. O efeito de uma delas - a tropicamida – é mais fugaz, enquanto o da outra – o ciclopentolato – é mais prolongado, embora se inicie de maneira mais demorada. Com a primeira droga fomos obrigado a examinar as crianças em 20/30 minutos após a instilação da segunda gota da droga. Com a outra era necessário apenas uma gota, e nós examinávamos as crianças 40 minutos após a aplicação. A segunda tem melhor efeito cicloplégico e demanda menos tempo para que o exame seja realizado”, comenta Magdaleno. 

Miopia não é a grande vilã

Após a realização dos testes, concluiu-se que o erro de refração mais frequente na amostra não foi a miopia, como esperado e previsto na literatura médica. O astigmatismo hipermetrópico composto, no qual a imagem se forma em dois focos atrás da retina, sobressaiu sob o efeito do ciclopentolato no exame de retinoscopia, com percentagens de 39,6% para o olho direito e 37,6% para o olho esquerdo. No entanto, com a utilização da tropicamida, a hipermetropia (erro de focalização e formação da imagem atrás da retina) prevaleceu, obtendo-se percentagens de 40,6% para o olho direito e 42,6% para o olho esquerdo. 

Diante dos casos analisados de retinopatia da prematuridade, o pesquisador e sua orientadora – a professora adjunta Denise de Freitas, do Departamento de Oftalmologia e Ciências Visuais da EPM/Unifesp – são otimistas. “Está declinando o número de pacientes que precisa de tratamento, ou seja, é um ganho relacionado ao melhor desempenho da UTI pediátrica. Isso é ótimo para a criança e faz com que ela tenha um desenvolvimento ocular mais próximo da normalidade. Tivemos um pequeno número de míopes, mas nunca semelhante àquele que é descrito na literatura de alguns anos atrás. A exposição correta da criança ao oxigênio é componente desse resultado”, afirma o pesquisador. 

Apesar das conclusões obtidas em relação às drogas utilizadas no exame de retinoscopia, verificou-se que a tropicamida e o ciclopentolato são em parte equivalentes e, para efeito de comparação, a diferença em dioptrias (unidade de medida de refração no sistema óptico) foi de 0,32 para o olho direito e 0,34 para o olho esquerdo. “Há coincidência parcial entre as substâncias, o que foi constatado na análise”, pontua Magdaleno.. 

Denise e Magdaleno concordam em que, na maior parte das vezes, há mais segurança ao utilizar a droga mais fraca, embora existam problemas devido ao tempo em que a droga age no sistema óptico. “Caso o médico não examine o paciente durante o período de melhor ação da droga, pode haver um erro de diagnóstico”, explica a orientadora. 

O tratamento para os erros de refração apontados não está fora do padrão convencional. “Compreende apenas o uso de óculos”, finaliza o pesquisador.

Entenda o que é a retinopatia da prematuridade 

Entreteses04 p063 bebe prematuro

Doença vasoproliferativa secundária, causada pela inadequada vascularização da retina imatura dos recém-nascidos prematuros, a retinopatia da prematuridade (ROP) pode levar à cegueira ou a graves sequelas visuais. 

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a ROP é uma das principais causas de cegueira prevenível na infância, estimando-se que dois terços das 50 mil crianças cegas em todo o mundo vivam na América Latina. No Brasil, entre os recém-nascidos prematuros com menos de 1.500g ou menos de 32 semanas de vida, 25% poderão apresentar a ROP em qualquer estágio; para cerca de 10% destes há a possibilidade de ocorrer a forma severa da doença com necessidade de tratamento.

Artigo relacionado:
MAGDALENO, Rafael Lourenço. Análise refracional de crianças prematuras. 2014. 92 f.  Dissertação (Mestrado em Oftalmologia) – Escola Paulista de Medicina, Universidade Federal de São Paulo, São Paulo.

 

Publicado em Edição 04
Terça, 02 Junho 2015 15:56

Expediente - edição 4

Expediente
A revista Entreteses é uma publicação semestral da Universidade Federal de São Paulo.

ISSN 2525-538X (publicação online)
ISSN 2525-5401 (publicação impressa)

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO

Reitora: Soraya Soubhi Smaili

Vice-Reitora: Valéria Petri

Pró-Reitora de Administração: Isabel Cristina Kowal Olm Cunha

Pró-Reitora de Assuntos Estudantis: Andrea Rabinovici

Pró-Reitora de Extensão: Florianita Coelho Braga Campos

Pró-Reitora de Gestão com Pessoas: Rosemarie Andreazza

Pró-Reitora de Graduação: Maria Angélica Pedra Minhoto

Pró-Reitora de Pós­-Graduação e Pesquisa: Maria Lucia Oliveira de Souza Formigoni

Pró-Reitor de Planejamento: Esper Abrão Cavalheiro

Jornalista responsável/Editor: José Arbex Jr. (MTB 14.779/SP)

Coordenação: Ana Cristina Cocolo

Reportagens: Ana Cristina Cocolo, Bianca Benfatti, Daniel Patini, Flávia Alves Kassinoff, Lu Sudré, Patrícia Zylberman, Rosa Donnangelo e Valquíria Carnaúba

Projeto gráfico e diagramação: Ana Carolina Fagundes de Oliveira Alves

Infográficos: Ana Carolina Fagundes de Oliveira Alves, Francisco F. Canzian e Reinaldo Gimenez

Revisão: Celina Maria Brunieri e Felipe Costa

Fotografias: Acervo Unifesp / Créditos indicados nas imagens

Tratamento de imagens: Reinaldo Gimenez

Conselho Editorial: Maria Lucia O. de Souza Formigoni, Débora Amado Scerni, Cristiane Reis Martins, João A. Alves Amorim, Sérgio B. Andreoli, Tania A. T. Gomes do Amaral, João Valdir Comasseto e Juliano Quintella Dantas Rodrigues

Conselho Científico desta edição: Augusto Cesar, Claudia M.da Penha Oller do Nascimento, Eliane Beraldi Ribeiro, Ieda M. Longo Maugéri, João M. de Barros Alexandrino, João Valdir Comasseto, Maria da Graça Naffah Mazzacoratti, Manuel Henrique Lente, Marcelo Silva de Carvalho, Maria Gaby Rivero de Gutiérrez, Plinio Junqueira Smith, Rosilda Mendes, Silvia Daher, Sergio Schenkman, Sergio Gama e Tereza da Silva Martins

Revista Entreteses n° 4 – Junho/2015
www.unifesp.br/entreteses | Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Publicado em Edição 04

A presença aumentada de oito genes no colo uterino, detectada por um exame ginecológico simples, poderá – no futuro – ser uma ferramenta importante para evitar procedimentos diagnósticos invasivos

Ana Cristina Cocolo

Entreteses04 p060 utero

Cerca de 15% das mulheres brasileiras sofrem de endometriose e muitas sequer sabem disso. O diagnóstico, na maioria das vezes, acaba sendo tardio – em média sete anos após a instalação da doença – e pode inclusive comprometer o sonho de uma gestação. 

Uma pesquisa realizada no Setor de Endometriose e Algia Pélvica do Hospital São Paulo, hospital universitário da Universidade Federal de São Paulo, sinaliza a possibilidade de utilização de um exame ginecológico simples – semelhante ao Papanicolau – para o diagnóstico precoce da doença, sem a necessidade de iniciar a investigação com procedimentos mais invasivos como a videolaparoscopia. No entanto, mais investigações precisam ser realizadas para confirmar o poder do método.

Os pesquisadores, que são do Departamento de Ginecologia da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp) – Campus São Paulo, consideraram no estudo 252 genes relacionados com a origem da endometriose, de acordo com a literatura médica. Desses, oito foram encontrados em quantidades elevadas no colo uterino de mulheres com o problema, quando comparadas às do grupo controle de mulheres saudáveis. “Esse é o primeiro estudo que documenta, por meio da análise gênica de material coletado do colo uterino, obtido em exame ginecológico simples, alterações em genes que estão envolvidos na origem e funcionamento da endometriose”, afirma Eduardo Schor, coordenador do setor e professor afiliado da EPM/Unifesp. “O método demonstrou ser uma promissora ferramenta não invasiva no diagnóstico da doença, ajudando a reduzir o tempo entre seu estabelecimento e o início do tratamento, já que diversos genes apresentaram expressão significativamente diferente entre os grupos estudados.”

De acordo com Alexander Kopelman, ginecologista e autor da pesquisa que foi tema de sua tese de doutorado na EPM/Unifesp, o método preenche pré-requisitos necessários para que seja incorporado à prática clínica, pois possui fácil coleta, é indolor e poderá ser utilizado com baixo custo por meio de sequências gênicas específicas, relacionadas aos genes identificados. “Além disso, ao contrário da análise do Papanicolau, que em até 8% dos casos exige interpretação de patologista experiente, a verificação da expressão gênica, por meio da tecnologia de reação de polimerase em cadeia (PCR), que é amplamente utilizada em diversos laboratórios de análises clínicas, o método possui protocolo de execução com menor dependência do operador e pode ser realizado em larga escala.” 

Marcadores 

Entre os genes com expressão elevada, três pertencem ao grupo de genes de citocinas (C3, CCL21 e CXCL14), moléculas de polipeptídeos ou glicoproteínas envolvidas na resposta do sistema imune do organismo. Os outros cinco genes analisados (CCNB1, CCNG1, CUL1, GTF2H1 e PCNA) estão relacionados ao controle do ciclo celular – conjunto de processos que ocorrem entre as divisões da célula viva. Alguns dos marcadores estudados foram encontrados em quantidade quase 14 vezes maior no colo uterino de mulheres com endometriose quando comparada à de pacientes sem a doença. 

Participaram da pesquisa dez pacientes que, havia pelo menos três meses, não faziam uso de medicações hormonais. Quatro sofriam de endometriose profunda – que atinge outros órgãos, como o intestino, e pode ser detectada por meio de exames de imagem –, e seis eram saudáveis. Como a maioria das mulheres com o diagnóstico mencionado foi inicialmente tratada com contraceptivos hormonais, as exigências para a inclusão no estudo dificultaram a obtenção de um número maior de pacientes com o perfil procurado.

Eduardo Schor explica que, nessa primeira fase, a amostragem reduzida impediu uma avaliação mais detalhada da capacidade de diagnóstico do método. “Existem ainda outras etapas a serem cumpridas para a validação do procedimento até que este possa ser incorporado na rotina clínica”, afirma. “Como utilizamos apenas mulheres com endometriose profunda, devido à possibilidade de diagnóstico prévio por meio de ressonância magnética, futuros estudos com pacientes em todas as fases da doença serão necessários para que o principal objetivo, ou seja, o diagnóstico precoce com marcadores não invasivos se estabeleça.”

Cólicas menstruais devem ser investigadas

Estudos mundiais mostram que o tempo médio para diagnóstico da endometriose é de sete anos, deixando clara a necessidade de métodos que facilitem a identificação precoce do problema. O principal sintoma é a cólica menstrual severa, que tende a se intensificar com o tempo, levando ao absenteísmo frequente e ao uso contínuo de medicações analgésicas. Outros sintomas comuns são a infertilidade e dores durante as relações sexuais.

A doença surge quando células do endométrio (camada que reveste o útero internamente) implantam-se dentro da cavidade pélvica, na região próxima aos ovários. Quanto mais cedo é realizado o seu diagnóstico, menor o risco de lesões profundas, as quais aumentam significantemente as taxas de infertilidade.

Entreteses04 p061 tabela

A forma leve dessa afecção pode ser tratada, na maioria das vezes, com medicações hormonais (pílulas anticoncepcionais). Já a forma avançada deve ser tratada por meio de cirurgia – geralmente de grande porte – com a possibilidade de ressecção de parte do intestino, bexiga e ovários.

Eduardo Schor afirma que, por problemas culturais, grande parte das mulheres, e infelizmente dos médicos também, acredita que a cólica menstrual faz parte do universo feminino. “Não é normal a mulher, ou até mesmo a adolescente, sofrer durante o período menstrual”, diz. “Se a cólica é forte, impede ou dificulta as atividades habituais e não melhora com as medicações analgésicas ou anti-inflamatórias, deve-se pensar em endometriose.”

De acordo com ele, por vezes o diagnóstico só pode ser feito por meio da videolaparoscopia. “Os métodos de imagem, como a ultrassonografia transvaginal e a ressonância magnética, também são utilizados, mas eles diagnosticam a doença em fases um pouco mais avançadas, quando o exame ginecológico já é capaz de detectá-la.”

entreteses 04 2015  Sumário da edição 04

Publicado em Edição 04

Produtos da agricultura familiar proporcionam maior variedade ao alimento oferecido em escolas dos municípios dos Estados do Rio de Janeiro e de São Paulo

Da Redação
Com a colaboração de Patricia Zylberman

Entreteses04 p077 valor nutricao

O cardápio da alimentação escolar dos municípios brasileiros poderá melhorar significativamente com a implementação da Lei Federal n.º 11.947, de 16 de junho de 2009, que estabelece o emprego de 30% dos recursos financeiros repassados pelo governo federal para a compra direta de alimentos produzidos pela agricultura familiar. O problema é que a variedade oferecida ainda pode ser considerada pequena, o que prejudica a composição nutricional das refeições. Na prática, ainda é preciso incentivar a introdução de produtos que respeitem os hábitos alimentares locais e que sejam preferencialmente de origem orgânica ou agroecológica. Em tais quesitos diversos municípios dos Estados do Rio de Janeiro e de São Paulo ainda deixam a desejar, conforme mostra um estudo feito por Hélida Ventura Barbosa Gonçalves, nutricionista com mestrado em Ciências da Saúde (área interdisciplinar) pelo Instituto de Saúde e Sociedade (ISS/Unifesp) - Campus Baixada Santista.

Hélida sempre se interessou pelo tema da alimentação escolar, tendo atuado como agente do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) no Centro Colaborador em Alimentação e Nutrição Escolar (Cecane) da Unifesp, localizado no Campus Baixada Santista. Com a promulgação da Lei n.º 11.947/09, decidiu focar seu trabalho de mestrado nesse assunto. Sob a orientação de Veridiana Vera de Rosso e a coorientação de Elke Stedefeldt, docentes que estão respectivamente vinculadas ao Departamento de Biociências e ao Departamento de Gestão e Cuidados em Saúde, desenvolveu a dissertação denominada Da Agricultura Familiar à Alimentação Escolar: Avaliação da Qualidade dos Cardápios e do Potencial Bioativo de Frutas, Verduras e Legumes, que analisa os benefícios da produção familiar na composição do cardápio de escolas públicas de ensino básico.

Para a realização desse projeto, Hélida escolheu os Estados do Rio de Janeiro e de São Paulo, pois ambos constituem a área de abrangência do Cecane - Unifesp. Segundo o coordenador de gestão dessa unidade, professor Daniel Henrique Bandoni, também pertencente ao Instituto Saúde e Sociedade, o intuito dos Cecanes – que resultam de parceria entre instituições federais de ensino superior e o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) – é “assessorar municípios, acompanhar a implementação das compras da agricultura familiar, realizar oficinas e seminários com todos os atores envolvidos na alimentação escolar (merendeiras, nutricionistas e gestores municipais) e melhorar as boas práticas de manipulação dos alimentos, entre outras atividades”.

Baixa adesão

A primeira parte do projeto previa a obtenção de dados referentes à compra de alimentos da agricultura familiar pelos municípios selecionados e, para tanto, a autora enviou questionários com perguntas que incluíam a forma de aquisição, a composição dos cardápios e a qualidade higiênico-sanitária dos produtos. Outra questão objetivava quantificar os municípios que adquiriam no mínimo 30% dos itens por meio da produção familiar. Para surpresa das pesquisadoras, esse número estava abaixo do esperado, contrapondo-se à hipótese inicial de que a lei era seguida à risca pela grande maioria das administrações municipais.

Hélida também buscou determinar quais eram os motivos para a baixa adesão ao programa. Inicialmente concluiu que a principal limitação à implementação dessa política em cada município era o desinteresse dos próprios agricultores familiares, uma vez que, para atender à demanda local, tinham – não raro – de alterar seu plantio habitual. Como no passado muitos haviam sofrido prejuízo financeiro, por problemas causados pela má gestão municipal, os produtores – agora – encaravam a nova lei com ceticismo. A segunda razão para o baixo índice de adesão decorria da impossibilidade de atendimento das condições higiênico-sanitárias, levando-se em conta as características exigidas pela legislação federal para comercialização de alimentos. A terceira e última razão era a mudança de governo. Se, por exemplo, o governo atual exigisse a compra de itens de estabelecimentos familiares e a administração seguinte, ao assumir o poder, decidisse que seria inviável essa transação, os agricultores acabariam perdendo toda sua produção.

Mais frutas e verduras no cardápio

Entreteses04 p078 professores

Foto à esquerda: professor Daniel Henrique Bandoni
Foto à direita: coorientadora Elke Stedefeldt, pesquisadora Hélida Ventura Barbosa e orientadora Veridiana Vera de Rosso (da esquerda para a direita)

A segunda parte da pesquisa consistiu na análise dos compostos bioativos existentes nos alimentos adquiridos pelos municípios para a alimentação escolar. De acordo com Veridiana, esses compostos “são componentes presentes nos alimentos, que – diferentemente dos macronutrientes, como proteínas, lipídios e carboidratos – aparecem em menor concentração, principalmente em alimentos de origem vegetal, e apresentam ações bioativas no organismo humano”. Sua principal atuação incide sobre a prevenção de doenças crônicas não transmissíveis. Era, portanto, necessário que as nutricionistas responsáveis pela alimentação escolar nos municípios encaminhassem à pesquisadora amostras de produtos locais.

A análise desses produtos, efetuada nos laboratórios da Unifesp, detectou os teores de carotenoides, de ácido ascórbico – que é uma forma ativa da vitamina C – e de compostos fenólicos totais, além da atividade antioxidante relacionada à presença dos compostos bioativos. A principal forma de atuação desses compostos está, justamente, na atividade antioxidante: quanto maior for o seu valor, maior será o potencial benéfico do alimento para a saúde. “Os compostos bioativos têm a capacidade de desativar os radicais livres, principalmente os radicais peroxila, que são deletérios ao organismo. Quanto maior a frequência no consumo de alimentos ricos em compostos bioativos, maior o efeito ante esses radicais e a prevenção de doenças crônicas”, acrescenta Veridiana.

Para determinar o teor de compostos bioativos e a atividade antioxidante, Hélida empregou diversos métodos, na maioria baseados na desativação dos radicais ABTS e peroxila ORAC. Tais métodos tentam simular reações químicas que ocorrem no organismo humano em condições controladas de pH e temperatura.

Os resultados da avaliação relativa à variedade e ao potencial bioativo dos alimentos originários da agricultura familiar demonstraram que, embora as frutas, legumes e verduras estivessem presentes com mais frequência nos cardápios escolares após a edição da Lei n.º 11.947/09, o valor bioativo da maioria desses alimentos era pequeno. Isso decorreu da pouca variedade de espécies adquiridas, e não propriamente da forma de cultivo – convencional ou adaptada às técnicas agroecológicas. Deve-se, contudo, levar em conta que os produtos oriundos da agricultura familiar eram mais saudáveis. “Uma abordagem que usamos para essa conclusão é que, normalmente, o alimento da agricultura familiar não é processado; então, teoricamente, há nele uma conservação maior dos compostos bioativos do que, por exemplo, naquele que é processado pela indústria”, afirma Veridiana. 

“Se você consome um produto proveniente da agricultura familiar de seu município, que é, portanto, colhido em uma região próxima, a expectativa é que o alimento esteja no auge de seu potencial de nutrientes e de compostos”, afirma a coorientadora Elke.

A tríade de pesquisadoras acredita que é preciso ainda aprimorar o cardápio escolar de cada município. Os profissionais de nutrição responsáveis por essa área deveriam entrar em acordo com os agricultores familiares para conhecer o que é produzido em cada região e o que poderia ser aproveitado na alimentação escolar diária. Desse modo, seria possível planejar o cultivo de produtos, com o objetivo de melhorar a qualidade nutricional em termos de compostos bioativos. Na visão de Hélida, um prato perfeito consistiria de cereais, como feijão e arroz, uma fonte de proteínas (carnes e leite), hortaliças e verduras, podendo optar-se por cenouras ou abóboras, pois ambas são fonte de carotenoides (o que contribui para o valor da pró-vitamina A).

Elke acredita ser importante que as crianças aprendam sobre as propriedades dos diferentes alimentos, habituando-as à variedade existente. Desse modo, os alimentos provenientes do plantio familiar poderiam ser incorporados totalmente às refeições escolares. “Nós vislumbramos que, após o primeiro passo – que é a compra desses produtos e, com isso, o aumento da quantidade de frutas e hortaliças no cardápio das escolas –, cabe às autoridades dedicar maior atenção à educação alimentar e nutricional das crianças para que elas também aceitem a variedade”, finaliza a professora.

Artigo relacionado:
BANDONI, Daniel Henrique; STEDEFELDT, Elke; AMORIM, Ana Laura Benevenuto; GONÇALVES, Hélida Ventura Barbosa; DE ROSSO, Veridiana Vera. Desafios da regulação sanitária para a segurança dos alimentos adquiridos da agricultura familiar para o PNAE. Vigilância Sanitária em Debate: Sociedade, Ciência & Tecnologia, Rio de Janeiro, v. 2, n. 4, p. 107-114, 2014. Disponível em: <https://visaemdebate.incqs.fiocruz.br/index.php/visaemdebate/article/view/473/172>. Acesso em: 30 abr. 2015.

Publicado em Edição 04
Terça, 02 Junho 2015 15:26

Um bem proveniente do sol

Estudo avalia a prevalência de hipovitaminose D em pacientes com osteoporose em tratamento ambulatorial

Da Redação
Com a colaboração de Patricia Zylberman

Entreteses04 p045 sol

A diminuição da exposição das pessoas aos raios de sol pode causar deficiência da vitamina D, com prejuízo à saúde e, consequentemente, ao bem-estar. A principal fonte de vitamina D para os seres humanos é a própria pele, onde ocorre a primeira reação química para a produção desse nutriente, sob a ação dos raios ultravioleta, emitidos pelo sol. Com o aumento das pesquisas sobre a vitamina D, principalmente na última década, foi confirmada sua importância para a manutenção da saúde óssea da população, bem como para o tratamento da osteoporose. A hipovitaminose D e a osteoporose são prevalentes em idosos – para os quais a capacidade de produção cutânea desse tipo de vitamina pode estar reduzida. Verificar o status de vitamina D nesses pacientes é importante para a otimização do tratamento da osteoporose.

Buscando ampliar o conhecimento sobre essa questão, a endocrinologista Marília Brasilio Rodrigues Camargo desenvolveu a tese de doutorado Fatores Determinantes do Status de Vitamina D em Pacientes de um Ambulatório Especializado em Osteoporose e sua Interferência sobre a Absorção Intestinal de Cálcio. O trabalho, orientado por Marise Lazaretti Castro, professora adjunta de Endocrinologia da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp) – Campus São Paulo, teve como foco os pacientes do ambulatório de osteoporose, que é vinculado à mencionada instituição de ensino. 

A pesquisa foi motivada por necessidades sentidas na prática clínica, conforme explica Marília: “Na ocasião do estudo, não tínhamos disponível a dosagem de vitamina D no sangue. Por essa razão, fazíamos uma avaliação clínica por meio de exames que nos davam alguma ideia sobre a adequação ou não das quantidades do nutriente identificadas em nossos pacientes.” Para reduzir o risco de fraturas osteoporóticas e melhorar a saúde óssea, é necessário que os pacientes com osteoporose apresentem uma concentração entre 30 e 40 ng/mL [nanogramas por mililitro] de vitamina D (25-hidroxivitamina D) no sangue. Esses valores são aceitos pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia como “os valores ideais almejados de vitamina D”, que parecem ser alcançados – segundo a pesquisadora – com a administração de doses diárias de 1.000 a 2.000 unidades de colecalciferol (vitamina D3). No Brasil, infelizmente, o Sistema Único de Saúde (SUS) não disponibiliza gratuitamente esse produto farmacêutico aos pacientes.

Metodologia

Entreteses04 p046 pesquisadora

A pesquisadora Marília Brasilio Rodrigues Camargo junto à máquina usada para efetuar a densitometria óssea, instalada no ambulatório de osteoporose da Unifesp

Participaram da pesquisa 363 voluntários (homens e mulheres), atendidos no Ambulatório de Doenças Osteometabólicas da disciplina de Endocrinologia da EPM. Na primeira fase, foram realizados exames para determinar os pacientes que mantinham níveis adequados de vitamina D e os que apresentavam deficiência desse nutriente. Os componentes da amostra foram também submetidos a exame de densitometria óssea e responderam a questionários para a avaliação de hábitos alimentares e de vida, tipos de pele, grau de exposição solar, existência de doenças concomitantes, uso de suplementação oral de vitamina D (colecalciferol) e capacidade funcional. A densitometria óssea é um exame seguro e não invasivo que permite medir a densidade mineral óssea em regiões específicas do corpo, como fêmur, coluna lombar e antebraço. Utiliza a técnica conhecida por DXA ou absorciometria por emissão dupla de raios X, constituindo o melhor recurso disponível para diagnosticar a osteoporose, mediante o emprego de fonte de raios X. 

Na segunda fase da pesquisa, buscou-se avaliar a influência do status de vitamina D na absorção intestinal de cálcio. Em razão da dificuldade do experimento e de seu alto custo, apenas um grupo de mulheres, cujo histórico médico atendia a determinadas condições, foi convidado a participar dele. Assim, para o atendimento das condições previstas, as mulheres não deveriam apresentar distúrbios como hipercalcemia, calculose renal, diarreia crônica, doenças hepáticas crônicas, doenças gastrointestinais e insuficiência renal crônica. Além disso, não poderiam fazer uso de corticosteroides e anticonvulsivantes.

Inicialmente as voluntárias foram divididas em dois subgrupos – um com deficiência e outro com suficiência de vitamina D. O método escolhido para a avaliação do cálcio absorvido pelo intestino foi o teste de sobrecarga oral de estrôncio, que verifica essa absorção de forma indireta e utiliza o estrôncio como marcador substituto do cálcio. O procedimento inicia-se com a coleta de amostra de sangue das pacientes em jejum. Administra-se, então, por via oral, uma pequena quantidade de estrôncio (dose padronizada) a cada uma delas. Seguem-se novas coletas de amostras de sangue aos 30, 60, 120 e 240 minutos após a administração da dose oral mencionada. Posteriormente, mensuram-se as concentrações de estrôncio nas amostras coletadas e calcula-se a quantidade desse elemento que foi absorvida pelas pacientes. 

Admitia-se a hipótese de que as pacientes com deficiência de vitamina D, ou seja, com concentrações de 25-hidroxivitamina D no sangue menores ou iguais a 20 ng/mL, apresentariam menor absorção intestinal de cálcio. Após a conclusão dos estudos, a hipótese inicial de Marília foi refutada, não sendo observadas diferenças entre os dois subgrupos de pacientes (deficientes e suficientes em vitamina D). Esses resultados sugerem que as concentrações de 25-hidroxivitamina D no sangue não refletem necessariamente a quantidade de cálcio que é absorvida no intestino. O metabólito – ou seja, o produto do metabolismo – ativo da vitamina D (1,25-di-hidroxivitamina) é apontado como o regulador/facilitador da absorção de cálcio através da mucosa intestinal. No estudo desenvolvido por Marília, todas as pacientes apresentaram concentrações normais de 1,25-di-hidroxivitamina D no sangue. “Esta pode ter sido uma das razões para a falta de diferenciação entre os dois subgrupos com relação à absorção intestinal de cálcio. Talvez o fato de não termos muitas pacientes com 25-hidroxivitamina D abaixo de 10 ng/mL e que apresentavam concentrações normais de 1,25-di-hidroxivitamina D, fez com que não conseguíssemos encontrar diferenças na população estudada. Outro fato, que deve ser mencionado, é que as pessoas incluídas no estudo estavam sob acompanhamento médico especializado no tratamento da osteoporose e recebiam orientações dietéticas para manter um consumo adequado de cálcio. Isto também pode ter influenciado os resultados da pesquisa.”

Entreteses04 p047 sol bicicleta

Para garantir o benefício dos raios solares na produção da vitamina D pelo organismo, a exposição da pele deve ocorrer diariamente, por um período variável entre 15 e 30 minutos, em horário anterior às 10h ou posterior às 16h

Vitamina D: nutriente milagroso?

Pesquisas realizadas na maioria dos países industrialmente desenvolvidos detectaram um grande aumento no número de pessoas com deficiência em vitamina D. Os Estados Unidos, por exemplo, comprovaram – por meio de um estudo com 3.000 voluntários – que 90% desses indivíduos apresentavam taxas insuficientes desse nutriente no organismo.

O aumento das pesquisas sobre os benefícios da vitamina D no combate a diferentes doenças, por vezes graves, tem contribuído para que especialistas a chamem de “nutriente milagroso”. Um estudo recente realizado por cientistas da Universidade da Califórnia e da Escola Médica da Universidade Creighton revelou que há uma relação entre a dosagem de vitamina D nos níveis sanguíneos circulantes e a prevenção de doenças. No entanto, há muita controvérsia na literatura médica sobre esse tema.

Apesar de não haver ainda comprovação científica sobre os benefícios da suplementação de vitamina D no organismo, muitos especialistas avaliam que, para a prevenção de doenças como o câncer, o diabetes tipo 1 e a esclerose múltipla, é recomendável que um adulto ingira concetrações bem maiores dessa vitamina do que a dosagem de 400 a 800 unidades/dia preconizadas . No entanto, o excesso de suplementação sem orientação médica pode provocar a calcificação de vários tecidos, sendo o rim o órgão mais afetado.

Artigos relacionados:

CAMARGO, Marília Brasilio Rodrigues; KUNII, Ilda Sizue; HAYASHI, Lilian Fukusima; MUSZKAT, Patrícia; ANELLI, Catherine Gusman; MARIN-MIO, Rosângela Villa; MARTINI, Lígia Araújo; FRANÇA, Natasha; LAZARETTI-CASTRO, Marise. Modifiable factors of vitamin D status among a Brazilian osteoporotic population attended a public outpatient clinic. Arquivos Brasileiros de Endocrinologia & Metabologia, São Paulo, v. 58, n. 5, p. 572-582, 2014. Disponível em: <dx.doi.org/10.1590/0004-2730000003393>. Acesso em: 26 mar. 2015.

CAMARGO, Marília Brasilio Rodrigues; VILAÇA, Tatiane; HAYASHI, Lilian Fukusima; ROCHA, Olguita G. Ferreira; LAZARETTI-CASTRO, Marise. 25-Hydroxyvitamin D level does not reflect intestinal calcium absorption: an assay using strontium as a surrogate marker. Journal of Bone and Mineral Metabolism, [s.l.], 24 maio 2014. Publicação on-line. Disponível em: <dx.doi.org/10.1007/s00774-014-0592-8>. Acesso em: 26 mar. 2015.

VILAÇA, Tatiane; CAMARGO, Marília Brasilio Rodrigues; ROCHA, Olguita G. Ferreira; LAZARETTI-CASTRO, Marise. Vitamin D supplementation and strontium ranelate absorption in postmenopausal women with low bone mass. European Journal of Endocrinology, [s.l.], v. 170, n. 4, p. 469-475, abr. 2014. Disponível em: <dx.doi.org/10.1530/EJE-13-0899>. Acesso em: 26 mar. 2015.

Publicado em Edição 04
Terça, 02 Junho 2015 15:23

Mais ordem no cais

Sistema computacional integrado desfaz o gargalo gerado no desembarque de carvão mineral no país, reduz custos e causa menor impacto ao meio ambiente

Ana Cristina Cocolo

Entreteses04 p104 mais ordem cais

Terminal da Praia Mole - Porto de Tubarão, Vitória (ES)

Organizar a ordem de atracagem dos navios, de descarregamento e de saída de um dos portos mais importantes do país e que recebe a maior carga de carvão mineral vinda dos EUA e China para abastecer as siderúrgicas brasileiras, não é tarefa fácil. Ainda mais quando toda essa estratégia é traçada à mão e com base nos anos de experiência.

Para facilitar e otimizar esse processo no porto de Tubarão, em Vitória, no Espírito Santo, pesquisadores do Instituto de Ciência e Tecnologia (ICT/Unifesp) – Campus São José dos Campos – e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) desenvolveram um sistema computacional capaz de fornecer dados para uma logística integrada, diminuindo o tempo de descarga dos navios, o custo energético e o impacto ambiental, já que se utiliza menos combustível e, consequentemente, a poluição é menor.

“O projeto é apenas uma amostra da contribuição que a universidade pode dar à sociedade para melhorar a competitividade e o comércio exterior do país”, afirma Luiz Leduíno de Salles Neto, diretor acadêmico do ICT-Unifesp, que coordena o projeto. De acordo com ele, com a modelagem matemática e a pesquisa operacional é possível melhorar a infraestrutura já existente nos portos brasileiros, principalmente em um momento de crise de energia e de água, como esta pela qual estamos atualmente passando no Brasil.

O projeto, que foi financiado pela empresa Vale e pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), por meio do Programa de Apoio à Pesquisa em Parceria para Inovação Tecnológica (Pite), gerou uma dissertação de mestrado e a concessão de uma patente, esclarecendo-se, neste caso, que 25% da propriedade intelectual pertence à Unifesp, outros 25% à Unicamp e a metade restante (50%) à empresa financiadora.  O Pite permite o estreitamento das relações entre as universidades e institutos de pesquisa brasileiros e empresas (nacionais e estrangeiras) para a realização de projetos de pesquisa cooperativos e cofinanciados.

Entreteses04 p107 descarregadores

Vista dos descarregadores de navios e do pátio de estocagem de carvão mineral no terminal de Praia Mole

Menos tempo, menos multas

Salles Neto explica que o sistema é capaz de agilizar todo o processo e pode ser aplicado em qualquer porto ou terminal que opere com navios graneleiros, principalmente em situações de “gargalo”, como acontece nesses locais.

Entreteses04 p106 logistica integrada

O sistema é classificado como integrado porque organiza não somente a sequência dos navios que irão atracar, mas também em qual berço (setor do porto onde encostam e são amarradas as embarcações) cada um deles ficará, especificando quais e quantas máquinas descarregadoras (guindastes) serão utilizadas para cada navio, em quais esteiras o carvão será depositado para ser levado aos pátios de armazenamento e, finalmente, o tempo total de todo o processo e o horário de saída das embarcações do cais. “O desenvolvimento de uma logística integrada para o porto de Tubarão é totalmente estratégico, já que o país não possui reservas de carvão mineral – o segundo combustível fóssil mais utilizado na matriz energética mundial – e 70% do produto que abastece as siderúrgicas brasileiras entra por esse terminal”, explica o coordenador do projeto.

O benefício do processo em questão recai, segundo ele, principalmente sobre o custo para a empresa, já que os equipamentos são utilizados por menos tempo e o número de multas geradas pelo atraso no descarregamento diminui consideravelmente. “No caso do porto de Tubarão, como a Vale já possui uma programação mensal de navios que atracarão e suas respectivas cargas, o sistema calcula toda a operação com bastante antecedência.”

O próximo passo é aplicar a nova tecnologia no terminal de cargas gerais da Vale, no porto de Praia Mole, também no Espírito Santo, por onde se exportam grãos, principalmente de soja, e fertilizantes.

Dos pátios para o trem

Entreteses04 p106 luiz leduino

Luiz Leduíno de Salles Neto, coordenador do projeto

Ainda de acordo com o docente responsável, a carga armazenada nos pátios, que seguirá para as siderúrgicas por caminhão ou trem, é outro problema sério que precisa ser resolvido. Com esse propósito, as pesquisas avançaram e um novo programa, que prevê, inclusive, um gasto menor de energia na operação, está sendo desenvolvido para ser incorporado ao sistema já patenteado. No entanto, a previsão é que o software esteja disponível para comercialização daqui a dois anos, quando a patente provavelmente estará liberada.

Outros sistemas de logística integrada, desta vez para navios que transportam contêineres, estão em estudo pela equipe de Salles Neto. “O setor portuário brasileiro é responsável por 95% do volume de nosso comércio exterior”, afirma. “Se mantida a taxa de crescimento dos últimos anos, os portos brasileiros terão que aumentar sua capacidade de atendimento em cerca de 40% até 2017, ou seja, o equivalente a um porto de Santos a cada três anos”.

Patente:
INSTITUTO NACIONAL DE PROPRIEDADE INDUSTRIAL. Luiz Leduíno de Salles Neto, Bruno L. Honigmann Cereser, Antonio Carlos Moretti. Sistema para otimizar a relação entre custos de carregamento de navios e transporte de cargas em navios atracados. BR1020140157492, 25 jun. 2014.

Publicado em Edição 04

Software desenvolvido por pesquisadores da Unifesp automatiza a identificação de expressões de dor em recém-nascidos

Valquíria Carnaúba

Entreteses04 p075 choro bebe

A Associação Internacional para o Estudo da Dor define essa sensação como “uma experiência sensorial e emocional desagradável, associada a uma lesão tecidual real ou potencial, que pode ser descrita nos termos dessa lesão”; assim, “a dor é sempre subjetiva” (1979). A dor e suas implicações motivam constantes avanços na Neonatologia, pois afligem recém-nascidos e prematuros, que chegam ao mundo sem saber expressá-la, muito menos fisiologicamente maduros para lidarem com ela. Daí a relevância de projetos como o conduzido por Ruth Guinsburg, professora titular do Departamento de Pediatria da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp) – Campus São Paulo, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp): um software concebido para detectar, em tempo real, expressões faciais de dor em bebês.

Os estudos iniciais para a criação desse software foram realizados há mais de dez anos pela fisioterapeuta especialista em Fisioterapia Respiratória Pediatrica e mestre em Engenharia Biomédica, Tatiany Marcondes Heiderich. Entretanto, o projeto foi colocado em prática somente em 2009 - com a aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Unifesp -, durante o curso de doutorado em Ciências Aplicadas à Pediatria na EPM. “Meu interesse pelo assunto foi despertado quando percebi que nessa faixa etária todas as análises eram visuais e apontadas manualmente. Foi o contato com a Engenharia Biomédica que me inspirou a buscar ferramentas para automatizar esse processo”, afirma a pesquisadora.

A metodologia que Tatiany utilizou abrange a detecção de dor por meio da escala Neonatal Facial Coding System (NFCS), um guia que determina pontos dos rostos dos recém-nascidos que indicam a presença de dor. Capaz de aferir a sensação utilizando-se de um conjunto de parâmetros, como fronte proeminente com aproximação das sobrancelhas, olhos espremidos, fenda nasolabial aprofundada e lábios esticados de forma horizontal ou vertical, a escala é uma das mais bem conceituadas na literatura da área por ter uma especificidade muito alta e uma reprodutividade interessante.

Biometria

A validação do software – que busca assegurar o fornecimento de resultados confiáveis – foi realizada a partir da captação de imagens de 30 recém-nascidos na unidade de Neonatologia do Hospital São Paulo/Hospital Universitário da Unifesp, entre junho e agosto de 2013. Os bebês, cujo tempo de vida variava entre 24 e 168 horas, não apresentavam malformações congênitas e não necessitavam de suporte ventilatório ou sonda gástrica.

Antes do início das gravações, os bebês foram fotografados em momentos de relaxamento para que as imagens fossem usadas como parâmetro em relação à mudança de expressões. As imagens posteriores foram realizadas simultaneamente por três câmeras, durante 24 horas por dia, permitindo o mapeamento de mais de 60 pontos da face; tais pontos levaram à padronização utilizada pelo sistema de identificação biométrica, uma característica do programa.

Todos os relatórios gerados pelo software foram avaliados por seis profissionais especializados em Neonatologia, que compararam as fotos dos bebês antes, durante e depois de passarem por procedimentos médicos dolorosos e determinaram a presença ou não de dor em cada uma delas. Com base nessas constatações, o programa mostrou-se eficaz na identificação dos sinais de dor de todos os bebês flagrados em algum momento de sofrimento. No entanto, quando o mesmo documento foi repassado a médicos e enfermeiros da área, apenas 77% deles conseguiram detectar as expressões de dor.

De acordo com a pesquisadora, o desenvolvimento posterior do software tornará viável a geração de um relatório baseado na escala NFCS, que indicará quantas vezes o paciente apresenta face de dor no período de tempo em que é filmado. Isto poderá abrir caminhos para o controle da analgesia sistêmica em recém-nascidos (além de seus efeitos colaterais), a eliminação de lacunas existentes nos métodos de avaliação da dor por escalas, a supressão do sofrimento nas unidades de tratamento intensivo (UTIs) e, claro, a queda da mortalidade infantil.

Projeto em fase inicial

Entreteses04 p076 ruth guinsburg

Para Ruth Guinsburg, o software poderá auxiliar profissionais de saúde a detectar o sofrimento de bebês internados em UTIs

Apesar da inovação ser muito bem-vinda, o projeto encontra-se em sua fase nascente. O sistema de captação de imagens – que é composto de um computador central e de três câmeras à beira do leito – depende ainda da posição do neonato para garantir sua eficácia. “O que fizemos até o momento foi a validação do software para situações de um bebê a termo [bebê nascido após o período normal de gestação] com dor aguda, permitindo-se que a programação traduzisse a face da criança”, explica Ruth. “Porém, o programa ainda precisa de uma série de melhorias para só então ser colocado em prática”.

Os próximos passos para a aplicação definitiva do software incluem a observação de seu desempenho dentro de uma unidade de terapia intensiva e o refinamento de suas funções, como enumera Tatiany. “É preciso reestruturá-lo e implementar métodos de análise da orelha, língua e área (delimitada) superior da face, que ajudarão a detectar novos movimentos – como o tremor de queixo –, além de aperfeiçoar o método de captura das imagens.”

Quanto a outras aplicações, Ruth é otimista: “Existe a possibilidade de, no futuro, profissionais da área adequarem a aplicação do programa em crianças acometidas por deficiências graves que não conseguem expressar a dor.”

Expressões de dor no recém-nascido, segundo a escala NFCS

Entreteses04 p076 expressao

O sistema desenvolvido é baseado na escala Neonatal Facial Coding System (NFCS), utilizada no reconhecimento de movimentos faciais de dor, convertida em linguagem de computador com o suporte do Departamento de Informática em Saúde (DIS) da Escola Paulista de Medicina (EPM)

Entreteses04 p076 expressoes

Artigo relacionado:
HEIDERICH, Tatiany Marcondes; LESLIE, Ana Teresa Figueiredo Stochero; GUINSBURG, Ruth. Neonatal procedural pain can be assessed by computer software that has good sensitivity and specificity to detect facial movements. Acta Paediatrica, [s.l.], v. 104, n. 2, p. e63-e69, fev. 2015. Disponível em: <onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/apa.12861/pdf>. Acesso em: 8 abr. 2015.

Publicado em Edição 04
Terça, 02 Junho 2015 14:59

Mudança de parâmetros

Pesquisa questiona eficácia de índice utilizado para avaliação da qualidade da água e mapeia pontos sensíveis ao desenvolvimento massivo de microrganismos tóxicos

Ana Cristina Cocolo

grafismo agua
Entreteses04 p025 represa guarapiranga

Além do impacto com a ocupação de suas margens, a represa Guarapiranga também sofre com os produtos químicos lançados na água para o controle de algas e de cianobactérias

Uma das atuais ferramentas de avaliação da qualidade de água oficialmente adotada no Estado de São Paulo, o Índice de Qualidade da Água (IQA) não é tão eficiente quanto parece e precisa ser revisto. 

A conclusão é de um estudo realizado por pesquisadores do Instituto de Ciências Ambientais, Químicas e Farmacêuticas da Universidade Federal de São Paulo (ICAQF/Unifesp) do Campus Diadema na represa Guarapiranga, segundo maior sistema de abastecimento de água potável da região metropolitana de São Paulo e responsável por atender cerca de 20% dessa população. 

Décio Semensatto, professor adjunto do Departamento de Ciências Biológicas do instituto, e Tatiane Asami, bióloga que apresentou a pesquisa como seu trabalho de conclusão de curso (TCC) na universidade, debruçaram-se nos dados históricos da Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb) – ligada à Secretaria do Meio Ambiente do Governo do Estado de São Paulo – sobre a qualidade da água da represa entre os anos de 1978 e 2010 em nove parâmetros: coliformes fecais, pH, demanda bioquímica de oxigênio, nitrogênio total, temperatura, turbidez, resíduos sólidos totais, fósforo total e oxigênio dissolvido. 

Além de analisar a degradação histórica da água da represa Guarapiranga nesse período, paralelamente, eles também verificaram a eficácia de duas ferramentas utilizadas para monitorar as tendências de qualidade: o IQA (que possui cinco classes: excelente, boa, regular, ruim e péssima) e Análise de Componentes Principais (PCA), em inglês Principal Component Analysis, que trabalha com diversas variáveis ambientais integradas. A PCA é um procedimento estatístico de análises multivariadas.

No ponto da represa com melhor índice de IQA, considerada excelente, 97% de oxigênio dissolvido medido e 94% das concentrações totais de fósforo ultrapassaram o limite legal. A mesma situação foi encontrada com relação a coliformes fecais e concentrações de oxigênio dissolvido em pontos classificados como bons pelo mesmo índice.

De acordo com Semensatto, até a década de 1970 a represa Guarapiranga era um reservatório com pouca entrada de esgoto e IQA bom. “Na década de 1980, mais precisamente entre 1986 e 1987, já percebe-se um primeiro declínio, mas ainda assim, predominantemente, a água permaneceu boa, com alguns episódios de classificação regular”, afirma. “Em 1995 houve uma grande piora nesse índice, justificado pela descarga direta de esgoto não tratado e pelo grande número de assentamentos irregulares no local. Já se passaram 20 anos e o reservatório ainda não conseguiu recuperar o nível de qualidade, mantendo-se razoável, mas com maior tendência de piora. O que variava entre regular e boa, hoje varia de regular para ruim”.

PCA e esgoto puro

O estudo separou as análises de um ponto específico da represa em períodos distintos por três décadas: 1978 a 1987, 1988 a 1997 e 1998 a 2010. 

Entreteses04 p026 trabalho em campo

Trabalho em campo: professor Décio Semensatto (de colete) com os alunos, à época, Adriana Rodrigues e Philipe Leal

Para se ter uma ideia do declínio da qualidade da água, em um dos parâmetros avaliados no PCA, os casos de não conformidade da concentração de coliformes fecais avançaram de 46% em 1978-1987 para 87,5% em 1988-1997 e para 96% em 1998-2010.

“Apesar das variáveis levadas em conta no IQA, ele frequentemente manteve-se relativamente estável na classificação da qualidade da água ao longo do tempo, principalmente em parâmetros importantes que indicam uma significativa degradação do reservatório, como os coliformes fecais, nitrogênio total e concentração de fósforo”, explica o pesquisador. “Dessa forma, a avaliação com a PCA representou uma alternativa mais eficaz para a gestão da qualidade da água”.

A coleta também mostrou que fatores distintos, como a ocupação das margens e as diferentes fontes de poluição ambiental, influenciaram nesse índice em diferentes regiões do reservatório. Essencialmente, segundo Semensatto, o que está sendo jogado dentro da represa Guarapiranga é esgoto doméstico. “No entanto, encontramos metais pesados devido ao sulfato de cobre, um sal metálico jogado na água pela companhia de saneamento para controlar a proliferação de algas e de cianobactérias”.

Entreteses04 p026 guarapiranga

Até a década de 1970, a represa Guarapiranga era um reservatório com pouca entrada de esgoto e IQA considerado bom

Bactérias prejudiciais à saúde, as cianobactérias podem provocar desde alergia até comprometimento do fígado e do sistema nervoso central devido à sua toxicidade. 

O pesquisador explica que apesar desses materiais decantarem e acumularem-se no sedimento do reservatório, as chuvas de verão causam turbulência nas águas e fazem com que essas substâncias suspendam e atinjam a coluna da água que vai para tratamento e posterior consumo humano. “O tratamento é feito de forma correta e elimina os poluentes já conhecidos, como coliformes fecais, entre outros”, afirma. O problema, de acordo com ele, são os poluidores emergentes, como os fármacos, hormônios e nanopoluentes, que são empregados em uma infinidade de produtos utilizados diariamente. “Ainda não temos definida uma concentração máxima aceitável de vários desses poluentes”. 

Mapeamento das cianobactérias

O despejo irregular de esgoto doméstico e industrial, causados principalmente pela ocupação irregular das margens de mananciais, propicia a eutrofização das águas. Nesse fenômeno, o excesso de compostos químicos, ricos em fósforo e nitrogênio, prejudica o índice de qualidade das águas superficiais e estimula o crescimento de algas e microrganismos muitas vezes prejudiciais à saúde, como as cianobactérias. 

Semensatto coordenou outra pesquisa, ao lado do biólogo Danilo Boscolo, na época professor do Campus Diadema, que teve por finalidade propor um mapa-piloto de sensibilidade ambiental às florações massivas de cianobactérias na represa Guarapiranga, mais especificamente as do gênero Microcystis, frequentemente encontradas nos reservatórios brasileiros e com toxicidade significativa. 

Entreteses04 p027 mapa sensibilidade ambiental

Mapa de sensibilidade ambiental às florações massivas de cianobactérias no Reservatório Guarapiranga

O trabalho – que também foi apresentado como TCC para obtenção do título de bacharel em Ciências Ambientais pela aluna Adriana Rodrigues e em Ciências Biológicas por Philipe Riskalla Leal – integrou levantamentos físicos e biológicos da represa e socioeconômicos do entorno. A área estudada envolveu todo o perímetro do reservatório, que abrange os municípios de São Paulo, Itapecerica da Serra, Embu-Guaçu, Embu, Cotia, São Lourenço da Serra e Juquitiba, com uma superfície aquática de mais de 3.600 hectares. 

A combinação dos parâmetros avaliados resultou em 72 valores de Índice de Sensibilidade Ambiental (ISA), que foram organizados em ordem decrescente e divididos em seis classes de sensibilidade ambiental, usando-se o ISA e adotando-se as nomenclaturas CS1 até CS6. Quanto maior a classificação numérica, maior a sensibilidade do local com relação à ocorrência de florações massivas de cianobactérias. 

As informações levantadas em campo, juntamente com as bibliográficas, foram compiladas e integradas a um banco de dados que auxiliou a elaboração do mapa e sua finalização em escala 1:10.000, permitindo uma rápida identificação dos elementos que compõem a paisagem e os parâmetros para avaliar os níveis de sensibilidade ambiental associados (veja a reprodução do mapa na página anterior). 

De acordo com o levantamento, a classe de sensibilidade ambiental mais frequente no entorno da Guarapiranga é o CS4, seguido pelo CS5 e CS6, presentes em 16% e 24% dos segmentos, respectivamente. 

O pesquisador explica que em várias regiões do reservatório é comum verificar o uso direto da água pelos habitantes, aumentando o risco de contaminação pelas toxinas por meio do contato dérmico ou de sua ingestão. “O modelo de mapa desenvolvido pode ser estendido a outros mananciais e colaborar para uma melhor gestão da qualidade hídrica e da manutenção da segurança ambiental e da saúde pública”. 

Parcerias em busca da história 

Os pesquisadores do Instituto de Botânica do governo do Estado de São Paulo, Denise de Campos Bicudo e Carlos Eduardo de Mattos Bicudo, estão coordenando um estudo mais complexo sobre os reservatórios que abastecem a região metropolitana de São Paulo, no qual envolve várias universidades, entre elas a Unifesp. 

Um dos segmentos dessa pesquisa está sob a responsabilidade de Semensatto. Nele o professor está analisando o comportamento das tecamebas presentes na represa Guarapiranga, especificamente, desde antes de o local se transformar em reservatório. 

Entreteses04 p028 tecamebas

Diversas espécies de tecamebas: além de servirem como alimento a outros organismos, elas também servem como bioindicadoras da ação do homem no meio aquático

Microrganismos unicelulares, as tecamebas são consumidoras de bactérias, fungos e algas, além de substâncias e detritos orgânicos. Elas participam do ciclo biogeoquímico representado pela movimentação natural de elementos químicos no ecossistema entre seres vivos, ou seja, a matéria orgânica que resulta da morte de um organismo é degradada por agentes decompositores e seus elementos químicos retornam ao ambiente para serem reaproveitados por outro organismo vivo. 

Entreteses04 p028 coleta sedimento represa

Pesquisadores coletando o sedimento da represa para verificar as mudanças em diversos indicadores ambientais

As tecamebas também servem de alimento a outros protozoários e pequenos peixes e como indicativo de interferências da ação do homem no meio aquático. Recebem esse nome por abrigarem-se em “conchas” (tecas) construídas a partir de material secretado pela própria célula ou por partículas, geralmente grãos de quartzo, disponíveis no meio ambiente. 

Como várias pesquisas com as algas do reservatório apontam que a poluição mudou o comportamento das mesmas, Semensatto acredita que o mesmo possa ocorrer com as tecamebas. “Dados preliminares analisados de colunas de sedimentos retirados da represa, a uma profundidade de 1,5 metros, dizem que sim”, explica ele.

Essa coluna de sedimento – chamada de testemunho e analisada centímetro a centímetro – é capaz de contar a história de décadas de contaminação e de alteração do ecossistema lá existente.

O pesquisador esclarece que todos os ecossistemas têm capacidade de absorver impactos (até um certo limite) e reorganizar-se até atingir um novo nível de estabilidade. No entanto, o estudo de alterações ambientais deve ocorrer em uma perspectiva de teia de interações, já que os organismos vivos se relacionam em série. “Quando interferimos em uma espécie, essa alteração se propaga como uma onda pela rede inteira de conexões”.

Artigos relacionados:

SEMENSATTO, Décio; ASAMI, T. . Water quality history of the Guarapiranga Reservoir (São Paulo, Brazil): analysis of management tools. In: 2nd IWA Specialized Conference ‘Ecotechnologies for Sewage Treatment Plants’ - EcoSTP 2014, 2014, Verona, Itália. Proceedings: EcoSTP 2014. Verona, Itália, 2014. v.1. p. 808-812.

RODRIGUES, A. ; LEAL, P. R. ; BOSCOLO, D. ; SEMENSATTO, Décio . Mapa de sensibilidade ambiental às florações massivas de cianobactérias no Reservatório Guarapiranga, São Paulo. In: X Encontro Nacional de Águas Urbanas, 2014, São Paulo. Anais do X Encontro Nacional de Águas Urbanas. Porto Alegre (RS): Associação Brasileira de Recursos Hídricos, 2014. p. 1-4

SAAD, A.R. ; MARTINEZ, S. S. ; GOULART, M. E. ; SEMENSATTO, Décio; VARGAS, R. R. ; ANDRADE, M. R. M. . Efeitos do Uso do Solo e Implantação da Estação de Tratamento de Esgoto sobre a Qualidade das Águas do Rio Baquirivu-Guaçu, Região Metropolitana de São Paulo. Revista Brasileira de Recursos Hídricos, v. 20, p. 147-156, 2015.

SOUSA, R. S. ; SEMENSATTO, Décio . Qualidade da Água do Rio Piracicaba: estudo de caso do efeito da Estação de Tratamento de Esgoto
Piracicamirim, município de Piracicaba (SP). Revista Brasileira de Recursos Hídricos, v. 20, n. 3, no prelo, 2015.

grafismo agua
Publicado em Edição 04

Membro titular da Academia Brasileira de Ciências e pró-reitor de Planejamento da Unifesp, Esper Abrão Cavalheiro defende a criação de um centro de estudos avançados na instituição

Da Redação
Com a colaboração de Flávia Kassinoff

Entreteses04 p011 Esper Abrao Cavalheiro

Neurocientista, professor titular do Departamento de Neurologia e Neurocirurgia da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp) – Campus São Paulo e atual pró-reitor de Planejamento da instituição, Esper Abrão Cavalheiro já presidiu o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e foi secretário do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Cavalheiro critica o “excesso de formalismo” que os programas de pós-graduação impõem aos pesquisadores brasileiros, como decorrência das demandas por resultados imediatos oriundas das agências de fomento. O resultado, afirma, é a transformação do jovem pesquisador em “soldadinho de chumbo”, com o engessamento da criatividade. E propõe ideias inovadoras para que a Unifesp avance no debate sobre os rumos da ciência e na produção de pesquisa. Entre elas, está o projeto de criação de um centro de estudos avançados.

Entreteses - Quando e como surgiu a proposta de criação de um centro de estudos avançados na Unifesp?

Esper Cavalheiro - A ideia de um centro de estudos avançados não é nova na Unifesp. Nas instituições de ensino superior com mais tradição acadêmica, a presença de espaços abertos às discussões de temas de fronteira, ainda em processo de maturação ou experimentação, tem sido fundamental na abertura das universidades para o novo, o não previsto, e para os novos desafios enfrentados pela sociedade.

Um espaço onde a discussão de questões atuais, próprias ao país e à sociedade, possa ser feita sem a rigidez do espaço acadêmico, entre pessoas da própria instituição ou com a participação de convidados, com o objetivo de esclarecer, trazer uma luz sobre temas que são palpitantes no mundo de hoje.

Na Unifesp, a ideia passou a ser discutida entre os titulares que participam do Consu. A partir daí, no processo de diálogo com os demais integrantes da Reitoria, começamos a dar forma a uma proposta que permita à Unifesp criar um espaço intelectual por excelência, com relevância para o debate científico mais atual.

E. Como irá funcionar esse centro? As discussões serão feitas de forma interdisciplinar?

E.C. Eu prefiro não colocar a palavra “disciplinaridade” no projeto, pois ao mencioná-la tenho a impressão de que estará sempre presente. O centro ou instituto não deverá ser interdisciplinar nem transdisciplinar, mas promover a convergência do conhecimento. O conhecimento deverá convergir na busca de soluções originais para “velhos” problemas humanos. Deverá refletir a busca de um caminho que facilite a compreensão dessas questões, cuja solução dificilmente seria encontrada pelo ângulo exclusivo de uma ou duas disciplinas. Assim, e dentro desse contexto, nós não esperamos que haja um corpo formal para o centro ou instituto. Precisaremos, sim, de pessoas que façam a parte administrativa, mas espera-se que toda a instituição possa participar da organização do trabalho propriamente dito, inclusive com sugestões de tema. Aceitam-se também propostas de convidados. Não há limitações. Esse ambiente é o que nós consideramos ideal. Queremos ter um espaço onde a transgressão intelectual seja possível.

Entreteses04 p012 Conselho Deliberativo CNPq

Posse do Prof. Esper na presidência do CNPq (gestão 2001-2003). Da esquerda para a direita, Evando Mirra (presidente que deixou o cargo) e o então ministro de C&T, Ronaldo Sardenberg

Entreteses04 p012 Posse do Prof Esper na presidencia do CNPq

Prof. Esper presidindo sessão do Conselho Deliberativo do CNPq

E. Quais são as perspectivas para a ciência nesta década? Quais são os maiores desafios?

E.C. É voz corrente que o Brasil deu um salto de qualidade na ciência aqui produzida e que a Unifesp acompanhou esse crescimento, fazendo parte dele. Toda vez que você abre o jornal ou lê um artigo especializado vê que o Brasil continua galgando postos no grupo de países produtores de ciência. Nós podemos ser considerados proficientes em ciência, mas precisamos atingir a excelência. Somos proficientes, ou seja, sabemos fazer, mas ainda estamos distantes daqueles que ditam a “ordem do dia” e que apresentam processos disruptivos – para usar palavras do mundo da inovação.

E. E o que falta?

E.C. Acredito que falta ousadia. Nosso país é muito formal na execução da ciência. A pós-graduação, que nos ajudou a formar tanta gente competente, apresenta limites à nossa ousadia. Pelas próprias regras, pela necessidade de financiamento, pela necessidade de regular e normatizar o trabalho acadêmico, ela impõe um limite de atuação que nos impede de mostrar ousadia. E a ousadia é o que faz o belo da ciência. Normalmente ela se manifesta em uma faixa etária precoce, mas nós engessamos muito os jovens. As regras são rígidas, os próprios programas de pós-graduação inibem o sistema. O jovem que hoje entra na pesquisa parece mais um “soldadinho de chumbo” que vai executar uma tarefa e repetir a fórmula de seu orientador.

A ousadia nos obriga a dar mais tempo, a esperar erros com maior frequência, mas o sistema atual não trabalha bem com os erros e desacertos. Ele está tão fechado que impede novas experiências. Você hoje se desespera caso seu aluno, durante o mestrado e o doutorado, não consiga resultados publicáveis. Nós não apostamos no desconhecido. Eu ouso dizer que grande parte da ciência nacional, atualmente, busca o que já conhece, só atualiza o método. Devemos procurar outro caminho para que o inédito possa surgir, tem que haver espaços reflexivos e não só laboratórios de pesquisa. Mas vejo que temos muito receio em trilhar essa estrada. Temos muitos compromissos com quem nos financia e com o dinheiro que nos é dado. Mas refletir, buscar alternativas, tentar o inédito não é fazer mau uso do dinheiro público, muito longe disso. As tecnologias de informação e comunicação surgiram em “cabeças” e ambientes muito distantes dos tradicionais. E isso é raro no Brasil.

E. Em quais áreas o Brasil é inovador na pesquisa?

E.C. Uma das áreas em que o Brasil tem contribuído mais significativamente é a biotecnologia – tanto que existe hoje o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol, o qual é um ambiente muito propício para o desenvolvimento da pesquisa. A utilização dessa fonte de energia, no caso dos automóveis, constituiu um ineditismo nacional. A agricultura tropical foi considerada a mais avançada do mundo. Somos líderes em levar essa informação a outros países tropicais que não têm agricultura tão desenvolvida e rica quanto a nossa. O trabalho que a Embrapa fez neste país foi fantástico. Mas devemos lembrar, também, das mais antigas instituições de Agricultura e Agronomia como a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (USP) e o Instituto Agronômico de Campinas. Foram ambientes únicos, que deram espaço de formatação para a Embrapa que temos hoje, espalhada pelo Brasil todo e que detém esse grande potencial da agricultura tropical.

Também não há dúvida de que a pesquisa de prospecção de petróleo em águas profundas efetuada pela Petrobras é a mais avançada do mundo. A Petrobras deu conta de formar grupos de pesquisadores, junto com a Coppe - Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia, pertencente à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que provavelmente foi uma das razões pelas quais chegamos ao pré-sal.

Outro exemplo foi o desenvolvimento do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), com a Embraer, que hoje é uma empresa privada, mas que possibilitou um espaço muito grande de pesquisa.

Podemos falar também da área de informática: temos alguns polos muito desenvolvidos no Brasil. Um deles está em Recife, oriundo de um grupo da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), que abriu espaço para o trabalho de muitos jovens e para o surgimento de produtos inovadores. Outro polo importante de informática é aquele de Santa Catarina, com origem na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Os estudos e pesquisas realizados pelo grupo do professor José Galizia Tundisi, no setor de recursos hídricos, são muito importantes e reconhecidos em todo o mundo. Tivéssemos escutado suas recomendações, provavelmente não estaríamos vivendo a atual crise de água, com ou sem os problemas meteorológicos. Outras áreas de destaque são aquelas dedicadas ao estudo das doenças tropicais, com institutos e grupos de pesquisa reconhecidos em todo o Brasil, incluindo o Instituto de Medicina Tropical da Amazônia, hoje transformado na Fundação de Medicina Tropical Doutor Heitor Vieira Dourado. O Instituto Butantan, então liderado pelo professor Isaias Raw, e sua capacitação para a produção de vacinas são uma experiência à parte. Aqui, a determinação e qualidades intelectuais de uma pessoa, aliadas à capacidade de luta, sem o receio de enfrentar as formalidades burocráticas do país – para o desagrado de muitos –, tornaram o país autossuficiente nessa área. Hoje, existe também o cenário dos  institutos nacionais de ciência e tecnologia (INCTs), iniciativa do governo que surgiu há sete ou oito anos, com o objetivo de criar redes nacionais de pesquisa. Esse conjunto de INCTs agrega os mais produtivos do país, que têm sido chamados de “joias da coroa nacional em ciência e tecnologia”.

Entreteses04 p014 Esper Abrao Cavalheiro

E. Em termos mundiais, quais seriam os maiores desafios para a ciência?

E.C. Em minha opinião, o primeiro trata da reemergência das doenças tropicais. Acredito que a emergência ou reemergência de patologias que dizimam muitas pessoas em curto espaço de tempo merece atenção redobrada. O segundo trata do envelhecimento populacional. As pesquisas, hoje, dedicam-se predominantemente à compreensão das alterações patológicas que surgem nessa faixa etária, mas não sabemos ainda o que fazer para que elas não surjam. Isto é, o que fazer ao longo da vida, o que mudar, para ter uma velhice saudável? É um grande desafio.

Outro grande problema é o da mobilidade urbana. Nós estamos com dificuldade para compreender a nova dinâmica da população humana. Está previsto que as populações da Ásia e da África devam, ainda, crescer muito. Dois países da Ásia – a China e a Índia – já comportam um número de pessoas assustador, e parte delas começa a circular mais facilmente pelo mundo. No Brasil estamos sentindo dificuldade em lidar com a imigração proveniente de países mais pobres, como o Haiti. Essas pessoas vêm para cá em busca de uma vida melhor, quando muitos brasileiros não têm uma boa condição de vida; ao mesmo tempo, não podemos virar as costas para esses imigrantes. Vamos ter que dar conta dessa mobilidade e inseri-los no meio social com dignidade. Outro exemplo é como a instabilidade nos países árabes está expulsando imigrantes para a Europa. Como dar dignidade a essas vidas? Como a humanidade pretende resolver essa questão? Em quais aspectos a ciência pode e deve envolver-se? 

Outra questão que vem acoplada ao tema da mobilidade, mas que tem causas diversas, trata da violência, que não é apenas um problema nacional. No Brasil ela é mais escancarada, desavergonhada e doentia, mas não é um problema exclusivo nosso. Nós precisamos buscar solução na emergente “ciência dos conflitos”. Não é possível que no mundo atual tenhamos tão poucos bons estudos a respeito. Ao observar o surgimento do chamado Estado Islâmico, devemos perguntar: “O que deixou de ser feito? Onde erramos? Como, no século 21, podemos aceitar tanta maldade e barbárie?” As desgraças tribais na África não nos afligem mais, nós as aceitamos com a mesma passividade com que vemos a corrupção, os desmandos políticos e os pedintes nos faróis de trânsito deste país.

Quando eu trabalhava no Ministério da Ciência e Tecnologia, o então ministro Ronaldo Sardenberg (1999 – 2003) criou uma conferência internacional, bastante interessante, na qual invocava a ciência para a paz. É muito difícil que consigamos encontrar o mínimo de paz insistindo nos mesmos modelos socioeconômicos que encontramos hoje. Seria um desafio interessante convocar os cientistas das mais diversas latitudes para pensarem a paz como objetivo de seus trabalhos, independente das áreas em que atuam. Os seres humanos sempre são capazes de soluções criativas, e sua imaginação não para. A busca pela compreensão do universo é uma dessas áreas fascinantes, em que não paramos de nos surpreender com as novas descobertas. Essa busca do desconhecido, esse limite esfumaçado entre ciência e ficção povoa a imaginação da juventude. É nessa capacidade imaginativa que devemos investir.

E. É possível traçar um paralelo entre a ciência, a Filosofia e a arte, no sentido de todas expressarem a inquietação humana?

E.C. A Filosofia é um grande exemplo dessa inquietação, e no retorno aos primeiros filósofos para entender o presente descobrimos que as grandes questões são as mesmas. É óbvio que, na atualidade, temos mais conhecimento sobre a natureza e o mundo em que vivemos, mas a inquietude humana manifestada nas obras de Aristóteles, Platão e outros não é muito diferente daquela que sentimos. Mas, hoje, temos tanta coisa para fazer que não temos tempo para inquietudes “básicas” – como indagar: “Para que eu estou aqui?” E o mais triste é quando você  nem sabe que pode fazer essa pergunta. Aceita-se a vida como um dado adquirido. Nascemos e pronto. 

A arte é outra expressão da humanidade que questiona, que indaga, que se antecipa ou retrata aquilo que acontece. As múltiplas formas da expressão artística, das tradicionais às atuais, têm um imenso poder de fascinação justamente por nos inquietar. Às vezes, diante de alguma expressão artística, pergunto-me como o autor conseguiu expressar tão bem algo que eu queria dizer, mas que apenas sentia. Nesse sentido, as manifestações artísticas em suas mais variadas formas são, para mim, libertadoras da mente humana.

Como se vê, a ciência é um grande espaço onde se manifesta a inquietação humana, mas não é o único onde isso acontece. Necessitamos que esses espaços se encontrem, convirjam, olhem as questões humanas ao mesmo tempo e com a mesma curiosidade. E, ao lado dessas manifestações humanas, não podemos deixar de falar das religiões, que trazem outro olhar sobre a discussão. A religião é um espaço de representação humana importante que atrai por oferecer outra forma de resolução às nossas inquietações.

E. Já que o senhor citou a religião, é possível – para um cientista e pesquisador – conciliar a ciência e a crença religiosa?

E.C. Totalmente.

E. A ciência não ocupa o lugar da religião?

E.C. De modo nenhum. A religião está baseada na fé; a ciência, na busca da verdade. E querer transformar uma coisa na outra é tão pouco útil quanto fazer ciência conhecendo o resultado de antemão. A ciência não fornece certezas, suas verdades são transitórias. Com a fé não há espaço para esse tipo de discussão.

Assim, dizer que uma cede lugar à outra, não é possível. Da mesma forma que é bobagem fazer da ciência, religião. De forma nenhuma. Para mim são expressões humanas que, por meio de caminhos distintos, tentam explicar-nos o mundo, a vida, a razão das coisas. Qual o melhor caminho? Não há comparação possível, já que usamos métodos e procedimentos diversos.

Publicado em Edição 04
Página 1 de 4