Sexta, 06 Novembro 2020 16:01

Uma luz que não brilhou

Publicado em Edição 13

Tema antes envolto em lendas e mistérios, agora é alvo da ciência para a discussão de suas implicações na vida dos indivíduos praticantes e da sociedade

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Imagem: Kayla Maurais / Unsplash

 

Tamires Tavares

Celebrada em sociedades ancestrais e alvo de distorções conceituais, discriminação e perseguição em algumas culturas ocidentais contemporâneas, a bruxaria desperta, ainda hoje, a curiosidade de milhares de pessoas em todo o mundo. Em um dos reinos onde esse interesse se faz mais evidente, a internet, são publicados diariamente conteúdos sobre astrologia e tarologia, associados ou não, das mais diversas vertentes. Sejam vídeos sobre astrologia védica, sejam previsões anuais com base no tarô mitológico, o que chama a atenção é a nova geração de tarólogos, composta por jovens que estudam formas de bruxaria cada vez mais descoladas do senso comum. No mês de setembro, somente um dos canais da plataforma YouTube que tratam dessa temática alcançou mais de 318 mil visualizações de seus vídeos (dados coletados em 9/set./2020).

O resgate dessa atividade pelas novas gerações, que garante a transmissão de conhecimentos tão antigos a um número crescente de pessoas, é objeto da pesquisa de Iniciação Científica realizada pela estudante Rafaela Sampaio de Souza, da Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (EFLCH/Unifesp) - Campus Guarulhos. A veterana do curso de Ciências Sociais pretende discutir, em sua investigação antropológica, a retomada de ensinamentos sobre magia e bruxaria e a prática do Tarô de Marselha como reinvenção de tradições.

Para Marcos Rufino, doutor em Antropologia Social e docente do Departamento de Ciências Sociais, a pesquisa promove a reflexão sobre a constituição da esfera do sagrado no contexto urbano atual. “Vemos, ao longo das últimas décadas, um interesse crescente pelo resgate da magia e da bruxaria por parte de inúmeros grupos. Apesar de acreditarem que estão retomando práticas antigas e ‘autênticas’, o trabalho mostra que estamos diante de uma experiência social de reinvenção do passado, sobretudo a partir da produção de um simbolismo que revela muito acerca da vontade e das estratégias de atribuir certa significação à vida cotidiana”, analisa o professor, responsável pela orientação de Souza.

Segundo a estudante, não há definição única para o termo “bruxaria”, em razão da existência de diferentes grupos que utilizam práticas mágicas e se autodenominam bruxos. Contudo, “bruxaria ancestral” refere-se ao culto de deuses anteriores às religiões modernas e ao surgimento das civilizações atuais. Para a antropóloga britânica Margaret Murray, uma das pioneiras no estudo sobre o tema, o aparecimento da bruxaria ancestral foi contemporânea dos cultos greco-romanos. A presente pesquisa questiona e discute as obras de Murray, pois delas derivam a Wicca e outras religiões de crenças pré-cristãs de grupos bruxos. 

Diversos movimentos buscaram recuperar essas crenças, destacando-se o neopaganismo, iniciado pela elite cultural da Europa Ocidental no final do século XVIII, e o New Age, na década de 1960. O primeiro pretendia ressignificar tradições e se autodeclarava portador e transmissor de uma sabedoria antiga, sendo influenciado pela literatura e por sociedades secretas. Já o segundo, nasceu a partir do esoterismo ocidental, com a proposta de uma contracultura, reavaliando conhecimentos rejeitados pela cultura dominante. Com o declínio da religião cristã, esses grupos neopagãos, principalmente a Wicca – que defende a existência de magia e de interação física e espiritual com a natureza –, popularizaram-se.

Souza destaca, em seu trabalho, que a busca por origens míticas é característica da cultura jovem, que procura por interpretações da realidade distintas das religiões predominantes, como o cristianismo, ganhando espaço nas sociedades modernas. “Como observou o filósofo e especialista em história das religiões Mircea Eliade, a busca por outros métodos de salvação e a inter-relação estabelecida entre diversas práticas com origens diferentes, que foram perseguidas ou não totalmente aceitas pela Igreja cristã, como a astrologia, gnose e ritos orgiásticos, entre outras, estão cada vez mais presentes”, observa a estudante em texto de sua produção.

Isso é exemplificado por meio da tarologia, que atualmente surge como uma reinterpretação de procedimentos mágicos tradicionais. O uso do tarô – um baralho de 78 cartas com figuras – é um método esotérico para a previsão do futuro.

Souza enfatiza que a tarologia (especificamente o uso do Tarô de Marselha) pode ser compreendida pela abordagem da Psicologia Analítica, pois é desenvolvida como ferramenta de orientação para um caminho de autoconhecimento. “Utilizam-se as cartas do tarô e interpreta-se conforme o sistema simbólico no qual se está inserido; para isso, a pessoa não precisa necessariamente fazer parte de grupos de bruxos ou tarólogos, como se autodenominam, porque as imagens contidas nas cartas remetem a representações de coisas do cotidiano”, explica a graduanda. 

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A participação de Rafaela Souza nas aulas ministradas por Marcos Rufino, pesquisador em Antropologia Social, culminou na orientação prestada por esse docente à sua pesquisa de Iniciação Científica / Imagens: Arquivo pessoal

Para os participantes desses grupos, as figuras contidas no Tarô de Marselha representam personagens de diferentes culturas ao longo dos séculos. Isso confere a essas personagens um potencial arquétipo. Os arquétipos foram definidos pelo psiquiatra Carl Gustav Jung como expressões, por meio de imagens, de elementos e experiências comuns entre as pessoas, que se manifestam – por exemplo – nos sonhos, arte, mitos e rituais. Eles formam o inconsciente coletivo – representações coletivas que induzem a interpretações sobre a realidade. Ou seja, as cartas exibem figuras que têm significado em qualquer cultura; ainda que haja alteração de nome e de forma nas ilustrações, tais figuras estão presentes dentro de qualquer sistema de representações. Assim, ao ler as cartas, o indivíduo consegue “conectar-se” com elas, com o que nelas é representado, sem saber especificamente seu significado.

A orientanda observou a relação dos grupos analisados com os arquétipos do Tarô de Marselha e a aplicação do autoconhecimento. “Os arcanos maiores do tarô, conjunto composto por 22 cartas, contam a história A Jornada do Louco, por exemplo. Ao tirar as cartas de determinada forma, é preciso interpretá-las para entender qual jornada se deve realizar a partir deste plano. Todos começam do zero – um plano inicial – e, ao estudar o tarô, pretende-se saber como evoluir e transcender a outro plano. De certa forma, o objetivo é compreender qual o seu papel aqui e o que fazer para adquirir determinado conhecimento, que só é alcançável por meio do uso da magia antiga – as cartas do tarô, entre outros elementos –, atingindo-se, após isso, outro plano”, explica Souza. 

O tarô foi a porta de entrada da estudante para as discussões sobre bruxaria e para a escolha de seu tema de pesquisa. No início da graduação interessou-se pela antropologia das religiões, mas foi durante o terceiro ano que teve contato com tarólogos, que lhe deram uma nova perspectiva sobre novos movimentos religiosos e diferentes interpretações da espiritualidade. “Usavam o tarô como elemento ritual. Não apenas profissional, mas espiritual”, esclarece. Nesse período, a mãe de Souza também se interessou pelo assunto e se tornou taróloga. Com tal reforço para sua atividade, a estudante encontrou o tema que pretendia desenvolver e confirmou, por meio do aconselhamento de seu orientador, a relevância do estudo. “O trabalho de Rafaela soma-se a outros que procuram entender o lugar das formas de ‘neopaganismo’ na maneira como esses grupos compreendem a si mesmos”, avalia Rufino.

A influência da figura materna também foi importante na escolha do curso. Antes de ingressar no ensino médio, a curitibana de 21 anos teve contato com as áreas de Sociologia e Antropologia graças à mãe, que é pedagoga. Ao se formar em uma escola técnica estadual, aos 16 anos, optou pelo ensino superior a distância em Ciências Sociais enquanto trabalhava. No ano seguinte, prestou o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e foi aprovada na Unifesp. A localização do campus da EFLCH/Unifesp pesou na escolha, pois, durante a infância, havia morado em Guarulhos, e seus avós ainda residem nessa cidade.

No curso de Ciências Sociais, optou pela licenciatura e decidiu completar o estágio antes de se inserir no programa de Iniciação Científica. Por meio deste, pôde explorar um ramo de seu interesse e discuti-lo com outros docentes, além do orientador. Nesse processo, encontrou alguns desafios, como a falta de financiamento. Com o projeto concluído, teve de escolher entre abandonar a pesquisa ou desenvolvê-la voluntariamente, pois o corte de verbas impediu a conquista de uma bolsa de estudos. “Era importante ter financiamento, principalmente para frequentar os rituais que estudo, que ocorriam em regiões distantes”, comenta. O tempo também representava um obstáculo. Durante a pesquisa não poderia perder os rituais sazonais que se realizavam nos meses de recesso acadêmico. “Eu já estava com o projeto pronto, e era um assunto que gostaria de compreender melhor; foi o que me motivou a prosseguir apesar das dificuldades”, lembra a estudante, que pretende aprofundar-se no tema na pós-graduação.

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Reprodução/Youtube - Paula Prado Tarot

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Reprodução/Youtube - Amada Evolução

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Reprodução/Youtube - Amanda Eliazar Tarot

Milhares de internautas buscam conteúdo sobre magia na plataforma YouTube. Praticantes e especialistas em tarologia, astrologia, búzios e runas difundem essas e outras atividades por meio de vídeos com orientações – desde o ensino voltado a principiantes até previsões mensais sobre o futuro

 
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Estudante de Farmácia testa compostos sintéticos visando neutralizar os efeitos negativos da droga no sistema nervoso central

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Imagem: Ana Carolina Fagundes, arte com imagens do Pixabay

 

Valquíria Carnaúba

A cocaína é uma droga recreativa, consumida na maior parte do mundo, após ser extraída e purificada por complexos processos químicos. Hoje considerada ilícita, há 5 mil anos já era bem conhecida por sociedades peruanas, como a inca. A forma original de uso, distinta das mais comuns (aspirada, fumada ou injetada), consiste em mastigar as folhas de coca, hábito que persiste ainda hoje entre as populações andinas e tem a finalidade de suprimir o sono, a fome e a fadiga.

O Brasil ocupa o segundo lugar no ranking dos maiores consumidores da substância psicoativa, ficando atrás apenas dos Estados Unidos. De acordo com o II Levantamento Nacional de Álcool e Drogas - Lenad, de 2012, isso significa que mais de seis milhões de brasileiros já experimentaram a droga em diversas formas – seja por meio do fumo (que utiliza a base livre, como o crack e a merla), seja pela via intranasal (aspirada) ou pela injetável, sujeitando-se a seus efeitos nocivos. Diversos estudos, aliás, já enumeraram tais efeitos: complicações cardiovasculares, dificuldades respiratórias, transtornos psiquiátricos (como sintomas psicóticos), infecções transmitidas pelo sangue (como as hepatites B e C, introduzidas por vírus), comportamentos violentos e morte prematura. 

A maior parte desses problemas deriva da forma como a droga atua nos neurônios do sistema nervoso central, especialmente do sistema de recompensa do cérebro, ou seja, do circuito que processa a informação relacionada à sensação de prazer ou de satisfação. Essa interferência química cerebral constante pode-se manifestar como uma forma de toxicidade, conhecida por neurotoxicidade (descrita pelos efeitos nocivos permanentes ou reversíveis decorrentes da exposição do sistema nervoso a agentes físicos, biológicos ou químicos, que afetam sua estrutura e/ou função). O tema referido chamou a atenção de Laísa Aliandro dos Santos, estudante do curso de Farmácia do Instituto de Ciências Ambientais, Químicas e Farmacêuticas (ICAQF/Unifesp) - Campus Diadema, que se lançou à Iniciação Científica para investigar o papel neuroprotetor das moléculas sintéticas LINS-01003, LINS-01004, LINS-01011 e LINS-01018. 

Sob a orientação de Raphael Caio Tamborelli Garcia e coorientação de João Paulo dos Santos Fernandes, docentes do Departamento de Ciências Farmacêuticas, a estudante testou essas moléculas em cultura de células SH-SY5Y. Seu estudo visou avaliar os efeitos neuroprotetores dessas novas moléculas diante da CL50 de cocaína, ou seja, diante da concentração da droga que costuma causar mortalidade de 50% às células expostas durante determinado intervalo de tempo. Serão avaliadas, ainda, as proteínas caspase-3, caspase-9 e caspase-8/-10, envolvidas com a apoptose (morte) celular.

As caspases são uma família de enzimas importantes para manter a homeostase por meio da regulação da apoptose (morte) e inflamação das células.

A estudante, moradora do bairro Jardim Monte Líbano (situado no município de São Paulo, na divisa com Diadema), sempre teve um imenso interesse nos efeitos das drogas de abuso. Já na universidade, percebeu a chance de contribuir, por meio dessa pesquisa e ainda que indiretamente, para a minimização dos efeitos negativos da cocaína entre seus usuários. "Onde moro, saber de pessoas tão próximas a mim, da minha idade, entrando por esse caminho, me preocupa muito", relata.

O projeto está em andamento, mas os resultados prévios mostraram que as células SH-SY5Y responderam positivamente ao efeito neuroprotetor de todas as moléculas LINS utilizadas no estudo. “Quando incubados com cocaína por 48 horas, todos os compostos LINS-01003, 01004, 01011 e 01018 foram capazes de prevenir, em parte, a neurotoxicidade causada pela cocaína, em diferentes níveis”, explica a orientanda.

Os pesquisadores notaram, porém, que três dos quatro grupos de moléculas não influenciaram a taxa de sobrevivência das células nervosas, mesmo após exposição à concentração mais alta, equivalente a 100 µM (micromolar). Nessa concentração, a porcentagem de células sobreviventes para os compostos LINS foi, respectivamente, 88% (LINS-01003), 93% (LINS-01004) e 91% (LINS-01011). Somente o composto LINS-01018 provocou uma ligeira diminuição na viabilidade celular quando utilizado em concentração mais alta, permitindo que 72% das células SH-SY5Y testadas sobrevivessem. “Com exceção desse grupo, a série LINS, em geral, não mostrou efeitos neurotóxicos nos testes in vitro”, resume Aliandro.

Relativamente à liberação da enzima LDH (lactato desidrogenase), que extravasa da célula para o meio de cultura quando há ruptura da membrana celular, observaram que todos os compostos LINS foram capazes de diminuir a atividade da enzima detectada no meio, quando associados à cocaína. “A enzima intracelular é rapidamente liberada para o meio de cultura quando a membrana celular é danificada”, explicam. “A cocaína, isoladamente, aumenta em cerca de 2,5 vezes a atividade da LDH, mas – quando associada aos compostos LINS – essa atividade diminui”. Esse resultado específico sugere que uma das vias de morte celular, a necrose, foi prevenida pela ação dos compostos sintetizados. 

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O mecanismo de ação da cocaína, no Sistema Nervoso Central, consiste em aumentar a liberação e prolongar o tempo de atuação dos neurotransmissores dopamina, noradrenalina e serotonina (responsáveis pelas sensações de prazer) nas fendas existentes entre os neurônios, onde ocorrem as sinapses / Imagem: Thiago Esser

Neurobiologia da cocaína

As células SH-SY5Y, cópias sintéticas de células de neuroblastoma (câncer que surge no tecido nervoso), são fundamentais para o estudo da neurotoxicidade da cocaína, pois sintetizam um dos principais neurotransmissores envolvidos na ação reforçadora da droga – a dopamina (C8H11NO2). Esse mediador químico é encontrado em grande quantidade na fenda sináptica do circuito de recompensa do cérebro de usuários. É nesse espaço entre os neurônios que ocorrem as sinapses, comunicação mediada por neurotransmissores (dopamina, noradrenalina, acetilcolina, serotonina, glicina e glutamato).

A cocaína bloqueia temporariamente a receptação neuronal de dopamina, prolongando seu tempo de atuação na sinapse, o que pode ser apontado como responsável pelo efeito estimulante da droga. "Com o acúmulo desses neurotransmissores excitatórios, a cocaína produz sensação de euforia e bem-estar, estado de alerta e outras manifestações", esclarecem os pesquisadores. 

Quimicamente, uma das consequências da alteração desse mecanismo é o estresse oxidativo – o desequilíbrio entre a quantidade de radicais livres e a sua remoção pelas células. Essas moléculas, capazes de atacar as células até destruí-las, possuem elétrons altamente instáveis e reativos, que podem causar doenças degenerativas de envelhecimento e morte dos neurônios por apoptose ou necrose. 

As substâncias H3R e H4R, sintetizadas pelo Laboratório de Insumos Naturais e Sintéticos (Lins), que é coordenado pelo professor Fernandes, são capazes de amenizar a degeneração dos neurônios imposta pela cocaína. Cada uma das numerações, por sua vez, indica um grupo específico de moléculas, catalogadas de acordo com a capacidade de se ligar a determinados receptores neurológicos sem ativá-los, ou seja, são capazes de interferir na liberação excessiva de dopamina por ter uma estrutura similar e afinidade forte com o receptor, impedindo assim a ativação do processo comandado pela cocaína nas fendas sinápticas. “Esses antagonistas são promissores para o tratamento de transtornos relacionados ao abuso de outras substâncias, como o etanol”, complementa Tamborelli.

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A estudante Laísa Aliandro dos Santos no Laboratório de Inflamação e  Farmacologia Vascular (Campus Diadema) / Imagem: arquivo pessoal

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Os alunos de IC de Raphael Caio Tamborelli Garcia, durante o XXI Congresso Brasileiro de Toxicologia: Gabriela Otofuji Pereira, Laísa Aliandro dos Santos, Rafaela Yolanda Silvino de Almeida e Emidio Piñeiro Lopez Junior (da esq. para a dir.), em 2019 / Imagem: arquivo pessoal

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A cultura de células SH-SY5Y em placas circulares / Imagem: arquivo pessoal

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Vista ao microscópio / Imagem: arquivo pessoal

Independência acadêmica

O orientador responsável pela pesquisa atua há algum tempo na investigação da neurotoxicidade causada por drogas de abuso. Quando Aliandro e mais três colegas de turma do curso de Farmácia se aproximaram do docente, interessados em desenvolver um trabalho nessa área de estudo, ele já havia elaborado um projeto pré-aprovado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), que carecia, porém, de elementos importantes para ser estruturado. 

“Estávamos, na época, montando nosso laboratório; então, contamos com o apoio de Gustavo Pereira e Rodrigo Ureshino, docentes dos campi São Paulo e Diadema, respectivamente. Ou seja, fizemos a ponte com a estrutura de São Paulo e iniciamos alguns experimentos no Instituto de Farmacologia e Biologia Molecular (Infar) com a cultura de células que escolhemos para essa pesquisa”, pontua Tamborelli.

De sua parte, Aliandro menciona os desafios inerentes a uma universidade pública na atualidade, tais como a estrutura deficitária. “Em nossa pesquisa compartilhamos um laboratório com estudantes e docentes do campus, com divisão nos horários de uso. Além disso, o apoio dos professores tem sido grande”, relata. 

Nesse sentido, o caminho encontrado por Tamborelli na busca pela supressão dessas dificuldades foi o do estímulo à independência de seus orientandos. “Tenho como base minha experiência como orientando, que sempre foi de muita autonomia. Essa é a visão que busco passar aos estudantes, diferentemente da atuação do orientador que insiste o tempo todo em determinar o que tem de ser feito. As dificuldades fazem parte do nosso cotidiano e precisamos encará-las com as condições que temos.” 

Aliandro pretende continuar na área acadêmica e, por isso, preocupa-se com a queda na oferta de bolsas na graduação e pós-graduação e com o consequente sucateamento da pesquisa no país. Seu orientador pensa o mesmo. “Prevejo que, seguindo nesse ritmo, a competição será tão grande que ficará cada vez mais difícil para os pesquisadores jovens, como nós, conseguir bolsas para ter espaço na pós-graduação”, finaliza.

 
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Sexta, 23 Outubro 2020 19:29

Olhando para o futuro

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Projeto do curso de Terapia Ocupacional revela a importância do envolvimento de pais, mães e cuidadores em atividades lúdicas na primeira infância

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Paula Garcia

Divertir-se infantilmente; entreter-se em jogos de crianças”, essa é a primeira definição do verbo intransitivo “brincar” no Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa (2010). Brincar, porém, denota também um meio em si para alcançar objetivos sérios e valorosos, de acordo com Carla Cilene Baptista da Silva e Beatriz Ferreira Monteiro Correia, respectivamente docente e estudante do curso de Terapia Ocupacional do Instituto de Saúde e Sociedade (ISS/Unifesp) - Campus Baixada Santista. Por meio do projeto O Brincar, as Famílias de Crianças com Deficiência Física ou Múltipla e a Terapia Ocupacional, realizado com cinco famílias de crianças de 2 a 5 anos, com deficiência física ou múltipla, ambas trouxeram à tona a importância da relação entre a visão de pais – ou cuidadores – e a principal atividade da infância.

O projeto de Iniciação Científica tem como objetivo compreender como esses parentes enxergam o brincar e seu papel para o desenvolvimento das crianças. “Foi possível observar que, para os familiares entrevistados, a questão lúdica das crianças com deficiência física ou múltipla é complexa. Um ponto importante diz respeito ao retorno da pesquisa, pois, à medida que os resultados são apresentados e discutidos com a equipe, isso proporciona também uma reflexão por parte dos profissionais, principalmente os terapeutas ocupacionais, sobre a possibilidade de mais investimento em intervenções no cotidiano lúdico dessas crianças”, afirma Silva.

Na pesquisa, Correia e sua orientadora usaram um roteiro de entrevista semiestruturado com base em um instrumento de avaliação do Modelo Lúdico. “Trata-se de um material criado pela terapeuta ocupacional canadense Francine Ferland, cujo objetivo é o que ela descreve como ‘desejo de redescobrir a riqueza extraordinária do potencial terapêutico do brincar mediante a abordagem da criança em um domínio que lhe é próprio, o brincar’. O material é composto pela entrevista inicial com os pais (EIP) e a avaliação do comportamento lúdico (ACL). A EIP permite conhecer a criança e sua família, além de ter uma descrição de seu cotidiano lúdico, diante da visão dos pais – no caso deste projeto, dos familiares. Já a ACL é uma análise por meio da observação direta, feita pelo terapeuta ocupacional”, explica a estudante.

A família e o cotidiano lúdico da criança

O projeto se desenvolveu entre os anos de 2018 e 2019, no Centro de Reabilitação de Paralisia Infantil (CRPI), voltado para crianças com deficiência física e múltipla na cidade do Guarujá. De início, após a autorização da instituição e do Comitê de Ética, o CRPI ajudou no contato do público-alvo e na indicação das famílias que mais se encaixavam no tema proposto. A coleta de informações com esses parentes foi estabelecida por meio de entrevistas agendadas, sem a participação das crianças, que continuaram seu atendimento enquanto eram apenas observadas pelas pesquisadoras.

“Do nosso ponto de vista, as entrevistas aparentemente foram um desafio para as famílias, já que abordavam questões que muitas vezes passam despercebidas por seus membros. Ao falarem sobre o brincar de seus filhos, permitimos que essas pessoas refletissem sobre o tema, parassem para pensar sobre aquilo de que o filho gosta ou não, como ele brinca, com quem mais brinca, quais são suas atitudes lúdicas para com a criança, bem como sobre quais os impedimentos relativos ao brincar que encontra no cotidiano. Esse diálogo mostrou, inclusive, um espaço para os participantes trazerem outras questões sobre o desenvolvimento da criança”, comenta a orientadora. “Além disso, o trabalho tem permitido fomentar a discussão do brincar, no caso de crianças com desenvolvimento atípico, e trazer maior visibilidade ao Modelo Lúdico utilizado pela terapia ocupacional. Esse modelo acredita na importância do brincar pelo brincar, permitindo identificar as principais características do lúdico na criança e, a partir daí, estabelecer formas de proporcionar o desenvolvimento infantil”, completa.

Com os resultados obtidos ao longo do estudo, foi possível concluir que as entrevistas efetuadas confirmaram o que a literatura sobre o tema propõe a respeito das dificuldades que crianças com algum tipo de deficiência podem encontrar ao realizar brincadeiras, e a importância de estímulos e da participação dos familiares na atividade. Para além da diversão, o brincar tem relevância significativa não só para o desenvolvimento motor, cognitivo e social, mas também como estímulo ao prazer, à descoberta, à criatividade e à expressão de todos os pequenos.

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De cima para baixo: as estudantes Thyelly Romanin e Beatriz Correia com a docente responsável pela orientação das pesquisas, Carla Cilene B. da Silva

Avaliação do Modelo Lúdico: o brincar no cotidiano de crianças com deficiência 

“Por meio das matérias da grade comum comecei a me interessar pela infância. Quando procurei a professora Carla, minha atual orientadora, para ingressar em um programa de Iniciação Científica relacionado a crianças, ela me apresentou suas linhas de pesquisa. A questão da deficiência e o brincar foi a que despertou minha curiosidade de aprender mais”, relata Thyelly Brandão Romanin, estudante do curso de graduação em Terapia Ocupacional do ISS/Unifesp, que, após ler o livro de Ferland sobre o Modelo Lúdico e inspirada no trabalho de Correia, começa o seu projeto com uma bolsa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Utilizando os mesmos instrumentos e a mesma metodologia do estudo anterior, a pesquisa desenvolvida por Romanin é realizada no Centro de Reabilitação II, em Santos. “Enquanto o outro projeto tinha por objetivo conhecer o cotidiano lúdico de crianças com deficiência física ou múltipla, no meu caso as entrevistas vêm ocorrendo com familiares de crianças com diagnóstico ou suspeita de transtorno do espectro autista (TEA)”, esclarece a estudante.

Nesse novo trabalho observou-se que os dados relativos ao brincar dessas crianças, a partir da perspectiva de seus pais e/ou responsáveis participantes, vêm ratificando o que a literatura afirma: que essas crianças demonstram pouco interesse por brincadeiras e brinquedos novos, sendo que a maioria brinca sozinha ou com adultos. “Esse dado nos leva a confirmar que os obstáculos ou dificuldades encontradas entre as crianças com deficiência física e múltipla são distintas das encontradas entre as crianças com TEA. Outro ponto importante é que a realização dessas pesquisas poderá contribuir para que a Terapia Ocupacional avance nas propostas de intervenção relativas às atividades lúdicas, que vão para além dos espaços de atendimento nos centros de reabilitação. Devem ser, portanto, repensadas as formas de intervenção no contexto do cotidiano dessas crianças – como, por exemplo, na escola, na própria casa, nos espaços comuns dos prédios ou nos bairros onde moram”, finaliza Silva. 

Com a conclusão do segundo projeto de Iniciação Científica, Silva pretende escrever um artigo com as estudantes envolvidas nas pesquisas, contemplando e discutindo os resultados encontrados nos dois centros de reabilitação.

 
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