Sua trajetória profissional confunde-se com a história da Escola Paulista de Medicina, que em 2018 completa 85 anos, como o professor

Lu Sudré

José Carlos Prates

(Imagem: Alex Reipert)

Ela foi fundada em 1º de junho de 1933. Ele nasceu pouco depois de um mês, em 5 de julho do mesmo ano. Em 2018, a Escola Paulista de Medicina (EPM) e o doutor José Carlos Prates, dois personagens importantes de uma mesma história, comemoram 85 anos. Não é possível falar dela, sem mencioná-lo. Não é possível falar dele, sem se referir a ela. Suas trajetórias estão entrelaçadas, e seus nomes cruzam-se em todos os lugares.

José Carlos Prates nasceu em Piracicaba, no interior do Estado de São Paulo. É o segundo mais velho de seis filhos, de mãe italiana e pai descendente de portugueses e alemães. Toda a sua formação foi desenvolvida em escolas do município, até o ingresso na universidade. Decidido a cursar Medicina, não quis ficar muito longe da família e optou por estudar na Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Sorocaba, a aproximadamente 1h20 de viagem da casa dos pais. Mas o destino havia-lhe preparado algo ainda maior na capital: um caminho bem mais longo, que o levaria à docência, à direção de um departamento e à direção da EPM.

Durante os anos na faculdade, Prates conheceu aquele que viria a ser seu grande mentor, Renato Locchi, por ele considerado um dos melhores professores de Anatomia da América do Sul. Mal sabia que essa disciplina também entraria em sua vida para nunca mais dela sair. Após terminar a graduação, em 1959, começou a trabalhar como interno na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, onde realizou cirurgias e auxiliou em procedimentos até o momento em que recebeu um convite de Locchi, na forma de bilhete.

“Assumi a Anatomia na Escola Paulista de Medicina. Gostaria que você viesse trabalhar comigo”, conta Prates, reproduzindo palavra por palavra daquele recado tão importante. “Ele marcou uma reunião comigo em uma quarta-feira, às 15 horas. Como o professor Locchi era muito exigente e pontual, cheguei às 14h30. Quando deu a hora, bati à porta; ele me convidou para trabalhar aqui, mas disse que não havia cargo, eu teria de colaborar gratuitamente até a abertura de uma colocação”. Recém-formado, o jovem médico analisou muito bem a situação, já que, como ele mesmo reconhecia, na Santa Casa havia a garantia de “cama e comida”.

“Pensei: trabalhar com Locchi, que era o maior professor de Anatomia do Brasil, seria como trabalhar com o papa dos papas e faria uma grande diferença para minha carreira. Aceitei e, durante vários meses, fui auxiliar de ensino, sem receber nada”, relata Prates. Posteriormente, foi contratado pela Sociedade Paulista para o Desenvolvimento da Medicina (SPDM), até passar a integrar diretamente o corpo docente da EPM, em 1961, intercalando – por algum tempo – as funções exercidas nessa instituição e na Santa Casa. Seu 1,9 metro de altura rendeu-lhe o apelido de Comprido pelos colegas professores.

A influência de Locchi deu-se na área da Medicina e na vida pessoal. Prates apaixonou-se pela Anatomia e também pelo ato de ensinar. Como professor adjunto, trabalhou muitos anos ao lado de seu mentor, que se aposentou em 1966 e passou a direção do departamento a seu antigo e fiel monitor. “Foi uma honra sucedê-lo. Nunca disse que o substituí, porque um homem como Locchi aparece a cada cem anos. Ele era uma sumidade”, destaca Prates, ajeitando os óculos no rosto e evidenciando um genuíno olhar de admiração.

Mesmo aposentado, Locchi continuou a ir à EPM e a trabalhar em sua sala no Departamento de Morfologia e Genética, no Campus São Paulo. E foi esse mesmo lugar que Prates ocupou como professor titular, após o falecimento de Locchi em 1968. Cheia de livros, papéis, fotos e desenhos, a sala é claramente um ambiente confortável e aconchegante para ele, que mantém as placas e crachás de Locchi pendurados à porta como sinal de respeito e admiração por seu grande professor.

Quando questionado sobre ser professor, Prates cala-se por um segundo, estica-se até a ponta da mesa com certa dificuldade – já que a idade lhe rendeu algumas dores nas costas – e entrega um texto que havia escrito no dia anterior à entrevista para ser publicado na revista da Academia de Medicina de São Paulo. O título era justamente Ser Professor, que para ele eram palavras curtas, mas muito significativas.

“A missão do professor é ensinar, orientar, instruir e educar cientificamente. O Mestre deve conservar-se jovem a despeito da idade. O professor deve estruturar seu espírito com uma parcela de filosofia e, no sentido clássico, de lógica de raciocínio, autocrítica, acuidade psicológica e amor ao saber, que é o equilíbrio harmônico do pensar. A função do professor requer renúncia, serenidade, bondade, tolerância, respeito aos colegas e alunos, competência e honestidade, mas requer, ainda, sensibilidade moral e social.”

Entreteses Prates por Alex Reipert

Prates segue apaixonado pela Anatomia e orgulha-se ao dizer que nunca deixou de lado essa disciplina (Imagem: Alex Reipert)

O especialista em Anatomia comenta que sempre gostou de ensinar e que costumava passar muito tempo com seus alunos, e ainda o faz, sempre que possível. Ele se lembra de cada pormenor e de como se sentiu na primeira aula como titular em 1968. “Foi muito bom”, resume, balançando a cabeça com uma saudosa expressão, enquanto desliza a mão nos cabelos brancos.

A voz rouca não se cansa quando Prates discorre sobre seus momentos marcantes enquanto professor. Ele menciona um episódio em julho de 1965, quando – ainda professor adjunto e diretor do departamento – acompanhou um jogo universitário entre os estudantes da EPM e da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), o conhecido clássico Pauli-Poli. A EPM não ganhava há cinco anos, e Prates, que já havia jogado “muita bola” com seus alunos, disse que daria um ponto a mais na média final para quem marcasse gol. O centroavante da EPM era o então aluno Ulysses Fagundes Neto, que décadas depois se tornaria reitor da Unifesp e que fez dois gols no fatídico jogo

“Fui viajar para os Estados Unidos e no meu lugar ficou o professor Durval Gurgel de Carvalho. Não é que o Ulysses foi cobrar os dois pontos na média dele para o Durval, que era um militar? Ele botou o Ulysses para fora e o reprovou. Quando voltei de viagem havia uma turma reunida no pátio para defender o colega. Conversei com o Durval, que lhe aplicou um exame e mudou sua nota. Foi uma ocorrência interessante”, lembra, rindo das peripécias de seus alunos.

A pouca diferença de idade entre Prates e os estudantes de suas primeiras turmas aproximara-os muito. É o que conta Walter Manna Albertoni, do Departamento de Ortopedia e Traumatologia, que foi reitor da Unifesp no quadriênio de 2009-2013 e tornou-se professor emérito em 2015. Tendo ingressado na EPM em 1961, Albertoni fez parte da primeira turma da qual Prates foi professor auxiliar e é por este recordado com muito carinho.

“As primeiras disciplinas que frequentamos são Anatomia e Histologia, mas Anatomia é a grande disciplina, a mais impactante para o calouro que está chegando – ter de lidar com um cadáver. Foi muito ‘legal’ para nós termos encontrado o professor Prates. Ele era assistente do Locchi, um professor excepcional, mas austero. A presença de Prates, mais jovem, e o modo como nos tratava, era muito bom”, reconhece o ex-reitor. “Ele era tão querido por nossa turma que foi o homenageado na formatura, em 1966.”

Segundo Albertoni, a disciplina em questão era difícil, mas Prates sempre foi de um acolhimento muito grande. “Passamos para o segundo, o terceiro e o quarto ano e não nos esquecemos da Anatomia. Tivemos a satisfação de recentemente comemorar os 50 anos da turma, com a presença do doutor Prates. Fizemos uma sessão na Escola e depois um almoço, e ele estava conosco. Foi uma felicidade enorme”, relembra, elogiando a postura do professor assistente na sala de aula. “Muito claro, paciente e com uma excelente didática.”

Trajetória até a diretoria

Em dezembro de 1974, ocorreu um fato importantíssimo e muito honroso para Prates. Houve a eleição para a diretoria da EPM, e – a pedido de Horácio Kneese de Mello, diretor da EPM na época – o docente integrou uma lista sêxtupla que seria enviada a Brasília. Prates não imaginava que essa ação seria determinante em sua carreira.

Enquanto assessor de Assuntos Universitários do Ministério da Educação (MEC), ele frequentemente visitava universidades federais para avaliar outras faculdades de Medicina e participar de reuniões. Foi em uma dessas ocasiões, quando estava em Belo Horizonte, que recebeu um telefonema: “Disseram que eu deveria voltar o quanto antes porque no outro dia teria de tomar posse como diretor da Escola Paulista de Medicina. Puxa! Aquela noite eu não dormi”, conta, com um sorriso enorme no rosto, refletindo um sentimento bom, de nostalgia e orgulho.

Entreteses Prates por AlexReipert

Rindo, Prates lembra-se com carinho de sua primeira aula como professor (Imagem: Alex Reipert)

“Levei o ‘maior susto da paróquia’! Não dormi de emoção, de ansiedade. Ser diretor de departamento era importante, agora ser diretor da EPM...”, continua, dando uma risada que ocupa inteiramente a sala. “Fiquei surpreso. Havia muitos professores importantes e antigos, e eu tinha 30 e poucos anos, era a ‘minhoca’ da turma”, admite o médico que saíra de Piracicaba para, a partir daquele momento, tornar-se diretor de uma das melhores faculdades de Medicina do país.

A gestão de Prates durou de 1974 a 1978. Ele relembra que ia à EPM de segunda a sábado e muitas vezes ali permanecia das 8 às 22 horas. Acabou optando por fechar sua clínica cirúrgica, que funcionava na Casa de Saúde Santa Rita. Não se arrepende, porém, dessa decisão e fala com orgulho de tudo o que fez enquanto diretor da EPM. O médico destaca as melhorias no espaço físico da instituição, que incluíram o Biotério, a ampliação da quadra de esportes e as reformas no prédio da Biblioteca Regional de Medicina (Bireme); o aumento significativo dos cursos de pós-graduação oferecidos e do corpo docente; e, em 1977, a federalização da Escola Paulista de Enfermagem como departamento da EPM, o qual viria a ser transformado em unidade universitária do Campus São Paulo. Reformas nos edifícios Leitão da Cunha e Jairo Ramos são outros feitos ressaltados. Para enumerar todas essas ações ele precisou até de um papel com anotações, já que com 85 anos a memória poderia não ajudar em algum momento.

Um feito que registra com carinho especial é a construção do edifício Octávio de Carvalho, inaugurado em 1975 com a presença do ministro da Educação na época, Ney Braga. Prates exalta a relação que, durante sua gestão, conseguiu criar com o MEC – esse vínculo não era tão forte anteriormente e foi essencial para o desenvolvimento da instituição. Por ter atuado um bom tempo como assessor de Assuntos Universitários, era benquisto e relata que o próprio Ney Braga, muito brincalhão, subia em um banquinho para falar com ele, um médico de 1,9 metro. “Nenhum ministro viera antes aqui, até a inauguração desse prédio. Foi importante para mim”, reforça.

Outro ponto que Prates menciona enfaticamente é o auxílio da equipe que o acompanhou durante aqueles quatro anos como diretor. Faz questão de citar o nome de muitos, entre eles: Antonio Cechelli de Mattos Paiva, seu vice-diretor; Ercio Pasquini, chefe de Gabinete; Paulo de Tarso Gomes, chefe do Departamento de Contabilidade e Finanças; Paulo Xavier de Morais Leite, do Departamento Jurídico; as secretárias Wanda Mura e Edneia Vicente; Yaeko Inoue, chefe do Departamento Pessoal; e José Luciano de Medeiros Borges, tesoureiro da gestão. “Lembro-me de todo esse povo aqui, pois não se administra nada sozinho. Eu tinha uma equipe muito boa e séria”, assegura Prates, enquanto arruma a gola de sua camisa social listrada.

Entreteses Prates pessoal

Prates, o mais velho (à esquerda), com Olavo, seu irmão mais novo, e as gêmeas Norma e Luiza (Imagem: arquivo pessoal)

Entreteses Prates pessoal

Prates, no centro, e dois colegas do time de futebol do Colégio Piracicabano, em 1951 (Imagem: arquivo pessoal)

Entreteses Prates pessoal

O anatomista Renato Locchi, mentor de Prates (Imagem: arquivo pessoal)

Entreteses Prates pessoal

Prates como diretor da Escola Paulista de Medicina, em 1974 (Imagem: arquivo pessoal)

Nenhum dia parado

A relação do diretor com os demais funcionários sempre foi muito positiva e, segundo Paulo de Tarso Gomes, consolidou-se como uma relação de fraternidade. O então chefe do Departamento de Contabilidade e Finanças exerceu suas funções na EPM por 30 anos e passou por sete diretores, mas faz questão de assinalar que José Carlos Prates destacou-se pelo intenso envolvimento com a atividade profissional. “Ele foi o único que se dedicou integralmente à Escola, 24 horas por dia. É um fato notável e inédito. O trabalho dele foi muito valioso e profícuo. Na época em que foi diretor, o Hospital São Paulo não teve uma crise financeira, não ficou um dia parado”, comenta Gomes, que encorpa a voz para certificar a dedicação de vida e a integridade moral de Prates.

Hoje com 80 anos e trabalhando em seu escritório particular, Gomes acredita piamente que o prestígio da EPM aumentou com a atuação do médico anatomista. “O professor Prates é um patrimônio da instituição. Por seu saber científico, por tudo. Ele é um homem de relevância internacional na Anatomia, e isso só veio engrandecer o nome da Escola."

Essa é uma opinião universal nos corredores da universidade. Não há quem critique ou não fale com carinho de Prates, que recebe um elogio a cada esquina do Campus São Paulo. Albertoni avalia que isso se deve ao fato de que, como diretor, ele tomava cuidado para proteger os alunos, principalmente na época da ditadura. “Prates mostrou equilíbrio, uma pessoa que, quando teve ‘poder’ nas mãos, fez uma condução muito tranquila e correta. Não tenho dúvida de que marcou a história da Escola, tanto que está aí até hoje.” E está mesmo.

Prates aposentou-se há mais de 20 anos por tempo de serviço, mais precisamente em 1997, e até hoje continua indo à Escola quase todos os dias da semana… exceto quando a dor nas costas aperta. Assim, salvo em ocasiões excepcionais, sempre é possível encontrá-lo na sala que lhe é reservada no Departamento de Morfologia e Genética, entre seus livros, anotações e quadros na parede. Nesse sentido, também segue os passos de Locchi. Prates aposentou-se com a marca admirável de 150 trabalhos publicados, em âmbito nacional e internacional, além de ter orientado 46 dissertações de mestrado e 27 teses de doutorado. Sobre sua atuação acadêmica, declara emocionado: “Eu nunca abandonei ‘minha’ Anatomia”.

Quando questionado sobre pessoas especiais de seu convívio diário, ele cita – sem titubear – Silvia Abuchaim, secretária do departamento, que mais cedo, ao passar pela porta da sala, mostrara-se interessada em saber: “Está tudo bem por aí, Chefão?” Chefão – esse é o jeito carinhoso com que Silvia refere-se ao professor Prates. É possível enxergar a admiração dela por meio do cuidado com que fala e da atenção com que se dirige ao octogenário. Ela conta que começou a trabalhar com o docente em 1983, justamente no dia do aniversário dele, em 5 de julho.

“Sou suspeita para falar porque sou sua fã incondicional – ele é uma pessoa maravilhosa”, afirma, logo na primeira pergunta sobre o professor. E acrescenta que, mais do que um excelente chefe, ela o considera um excelente amigo. “Me adotou como filha, mais do que qualquer outra coisa, quando comecei a trabalhar aqui aos 20 e poucos anos. Ele realmente é uma pessoa incrível, muito humana. Do mesmo jeito que trata um diretor acadêmico, trata aquele que está limpando o pátio.”

O simpático apelido Chefão surgiu em 1997, quando Prates aposentou-se e foi substituído por Ricardo Luiz Smith, que passou a ser o novo chefe de Silvia. Claro, entretanto, que a relevância de Prates se manteve. A solução foi chamá-lo assim, de forma carinhosa, o que também é uma homenagem. “Ele é nosso cacique, nunca vai perder sua posição.”

Um "chefão" exigente, mas generoso

Entreteses Prates por AlexReipert

O professor brinca com sua altura ao posar ao lado da enorme prateleira com órgãos humanos para estudo, no Departamento de Morfologia e Genética (Imagem: Alex Reipert)

Prates interrompe a narrativa para receber a visita inesperada de sua médica, Mariza Helena Prado Kobata, professora da disciplina de Gastroenterologia Cirúrgica, responsável pelo grupo de Proctologia. Ela estava preocupada porque precisava alertar Prates para que suspendesse um remédio que estava tomando, mas não conseguira contato – na verdade, ele desligara o celular para contar um pouco de sua história. Em resposta, ele enche a boca e anuncia: “Eu já suspendi! Afinal, também sou médico, né?” – fazendo todos rirem. Satisfeita, ela se despede, dando um beijo na mão de Prates, que retribui com o mesmo carinho. “Essa aí foi minha aluna também, viu?”, complementa com animação.

Kobata confessa que tem uma “dívida de coração” com seu professor. Quando estava no terceiro ano de Medicina, participou do Projeto Rondon em São Raimundo Nonato, no Estado do Piauí. Seu pai acabara de falecer e a família não usufruía de boa condição socioeconômica. Durante a permanência naquele município, descobriu que havia ficado de “segunda época” porque se negara a prestar um exame. Precisaria voltar três ou quatro dias antes, mas o pagamento da passagem não havia sido autorizado – a viagem era financiada pelo governo federal. Nesse caso, teria de arcar com o custo das passagens de ônibus de São Raimundo Nonato para Teresina e dessa capital para São Paulo, o que não seria possível devido à sua situação financeira.

Com o auxílio da mãe, seus colegas de turma fizeram uma “vaquinha” para trazê-la de volta, mas arrecadaram apenas metade do valor. “Foi aí que o doutor Prates completou o dinheiro para que eu pudesse voltar. Nunca tive a oportunidade de agradecer-lhe como gostaria. Recentemente ele se tornou meu paciente e, então, de alguma forma, pude retribuir essa ‘dívida de coração’ que tinha com ele”, afirma Kobata, acrescentando que é um ótimo paciente, muito disciplinado.

A médica recorda que, na sala de aula, Prates era exigente, mas sempre fazia alguma graça para que os alunos gravassem o conteúdo. Ela nunca se esqueceu de uma aula que o professor ministrou sobre o peritônio, uma membrana que recobre as paredes internas do abdômen e a superfície dos órgãos digestivos. “Prates explicava de uma forma que era possível entender os conceitos profundamente. O conteúdo era difícil, mas com ele ficava fácil. Nunca mais existirá um doutor Prates nesta Escola, ele é insubstituível.” Durante a fala de sua ex-aluna, Prates a interrompe para mostrar uma foto entre as tantas que separou para que fossem publicadas neste perfil. “Olhe seu amigo aqui, com três anos”, diz o professor, apontando para um retrato de quando era pequenino, em um álbum superorganizado por ele, com direito a legendas. “O senhor era muito bonitinho e hoje é bonitão”, brinca Kobata, o que faz Prates abrir um largo sorriso e cerrar os olhos para aproveitar o elogio.

São 85 anos bem vividos, e não há dúvida de que o médico conquistou muitos admiradores ao longo de sua trajetória. Admiração que não diz respeito apenas aos títulos que colecionou e aos trabalhos que desenvolveu, mas especialmente à pessoa que é. Nem mesmo seu 1,9 metro de altura é suficiente para receber tanto carinho. Expressando o sentimento de toda uma comunidade, Silvia emociona-se ao dizer o que Prates significa para ela: “Ele é meu eterno Chefão”.

Prates já ganhou diversas homenagens ao longo da carreira. A antiga praça da Anatomia, no número 720 da rua Botucatu, no Campus São Paulo, passou a chamar-se Professor José Carlos Prates. A homenagem repete-se no edifício Leitão da Cunha, onde há um anfiteatro que também leva seu nome. O auditório do quarto andar do prédio da Reitoria, na rua Sena Madureira, também foi batizado como Doutor José Carlos Prates.

“São muitas as histórias que vivi aqui, dá para fazer uma novela”, enfatiza o médico. Tais histórias, porém, transformaram-se em livro. José Carlos Prates: a Anatomia de uma Vida Dedicada à Medicina, escrito pelo médico e professor José Aderval Aragão, foi lançado recentemente e conta com detalhes sua trajetória. Não há dúvida: a história da EPM e a do renomado anatomista cruzaram-se para crescer juntas. “A Escola é a base da minha vida”, resume Prates, emocionado. Temos certeza disso, nosso “querido e eterno Chefão”. Muito obrigado.

“MINHA SEGUNDA CASA”

“Eu sempre digo que a Escola é minha segunda casa. Mas minha esposa diz que não, que – na verdade – a Escola é a primeira”, conta, soltando uma risada que só endossa o que Dona Nadir, como é carinhosamente chamada, defende. Também médica especialista em Anatomia e professora aposentada da Universidade de São Paulo (USP), Nadir Eunice Valverde Barbato de Prates conheceu o marido quando este levou um professor do Canadá para visitar sua instituição. Eles se encontraram mais algumas vezes e começaram a namorar.

Tanto ele quanto ela foram presidentes da Sociedade Brasileira de Anatomia, cuja proposta de fundação foi apresentada por Renato Locchi. De 1986 a 1990, Prates ocupou o posto pela primeira vez e, de 1994 a 1998, pela segunda vez. Já Dona Nadir presidiu a entidade de 2002 a 2006. O apoio mútuo entre os dois grandes médicos foi um aspecto importante no casamento. “Ele sempre me apoiou, nunca ficou enciumado quando, por exemplo, eu ia a um congresso, e ele não. Há homens que abafam as mulheres, mas ele é muito bom nesse sentido, sempre me incentivou. Acredita que eu tenho de exercer minha profissão, minha carreira, e ter independência”, ressalta a companheira de Prates nos últimos 43 anos, que, depois de alguns minutos de conversa, faz uma confissão. “Ele tem o gênio forte do avô… É mais bonzinho com os alunos do que em casa”, graceja.

Para Dona Nadir, a melhor característica de Prates é exatamente o jeito único que ele tem e que o torna muito querido. É “umcerto charme”, segundo ela, que faz com que os pacientes se apaixonem por ele. “O Prates dedicou a vida inteira à Medicina, e tudo isso o transformou na pessoa que é. E ele é muito feliz; por isso, apoio que continue a ir à EPM. Há pacientes que até hoje levam presentes em casa. O mesmo acontece com seus alunos e colegas – é uma unanimidade”. O respeitado senhor faz sucesso igualmente com a família, que está representada em sua sala por meio de fotos apoiadas na janela ou fixadas na parede. “Ele é adorado pelos filhos; os netinhos também o curtem muito”, menciona Dona Nadir.

São cinco filhos: Marcelo, que seguiu a mesma profissão do pai; Márcia, representada em uma foto na qual toca violino; José Carlos Prates Filho, que também atua na área de Medicina; Carla Rosana Prates e Alfredo Valverde Prates, o caçula, de 36 anos, com quem havia almoçado no dia da entrevista. Como todo pai orgulhoso, Prates aponta para as fotos e afirma em alto e bom som: “Todos com formação universitária." Em seguida, faz outra observação: “Olhe o Júnior, ele era um capetinha”, dando a entender que já teve muito trabalho no exercício da função paterna.

E, como todo avô, é na hora de falar dos cinco netinhos que Prates se derrete. “Esta é a Duda, aquela ali é a Ana Maria Clara, que chamamos de Cacau, e há também a Ana Vitória. Os mais novos são meninos”, explica com a maior atenção, enquanto puxa a carteira do bolso e mostra duas fotos 3x4. “O Antonio é um sapequinha. Olhe a cara dele. Tem um ano e meio. Já este aqui é o Leonardo, de quatro anos. Ele é terrível”, brinca o avô. “Minha casa está cheia de fotos de todos eles, são nossos xodós. Minha esposa – Nossa Senhora! –, o que ela compra e faz por eles não está escrito... Netos são filhos duas vezes.”

Entreteses Prates por Alex Reipert

Aos 85 anos, o renomado anatomista tem muita história para contar (Imagem: Alex Reipert)

DITADURA CENSURA ATÉ “LIBERDADE BIOLÓGICA”

Apesar de uma saudável dinâmica presente em suas aulas, o ano de 1968, um dos mais repressivos da ditadura militar brasileira (1964-1985), foi difícil em muitos aspectos. Certo dia, ministrando aula no laboratório, Prates expôs aos alunos a liberdade biológica do homem, o que lhe rendeu uma ligação para pedir explicações. “Usar a palavra liberdade naquela época era complicado. Terminei a aula e imediatamente recebi um telefonema. Perguntei qual era o problema e responderam: ‘Você afirmou que na formação da célula, quando os polos são diferentes, há liberdade biológica’. Aí eu repliquei: ‘Diga àquele loiro cabeludo, que estava sentado no final da sala, que ele é muito ignorante’. Havia um infiltrado na turma, mas eu percebi porque os alunos eram calouros e carecas. Ficou por isso mesmo, mas foi um absurdo”, revela Prates.

Esse fato não chega perto dos relatos que descrevem as atrocidades cometidas durante a repressão, como torturas e assassinatos. O próprio Prates relembra que fora várias vezes ao prédio do Destacamento de Operações de Informações/ Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi) em São Paulo, localizado na rua Tutoia, a pedido do professor Horácio Kneese de Mello, diretor da EPM na época. Este recebia muitos pais de estudantes que não sabiam o paradeiro dos filhos e pedia ajuda a Prates para que fosse até aquele órgão do Exército e tentasse encontrá-los.

“Em 1968, houve um congresso da União Nacional dos Estudantes, em Ibiúna, no qual muitos da EPM foram pegos. Eu era sócio do Círculo Militar, tinha contato com alguns militares e eles me confirmavam se os alunos estavam no Departamento de Ordem Política e Social (Dops) ou não. Eu assumia a responsabilidade sobre eles, fazia o que podia. Depois disso, eles ficavam quietinhos, não me davam trabalho… Mas olhe que responsabilidade, hein? Um dos alunos desacatou um militar e apanhou muito”, declara o professor de 85 anos, apontando o dedo indicador e movimentando a mão como quem reafirma a gravidade da situação.

Em março de 2015, a Comissão da Verdade Marcos Lindenberg (CVML), da Unifesp, relembrou esse momento tenebroso da história de nosso país e realizou uma audiência pública no Campus Guarulhos para que a comunidade conhecesse os fatos que envolveram Crimeia Alice Schmidt de Almeida, Luiz Carlos Aiex Alves e Regina Elza Solitrenick, três dos estudantes que foram presos no referido XXX Congresso da UNE.

Durante a Operação Bandeirantes, em 1969, o episódio repetiu-se, e Prates consolidou sua atuação em defesa dos estudantes de Medicina.

Entreteses Prates por Alex Reipert

Aposentado há mais de 20 anos, Prates ainda comparece ao Departamento de Morfologia e Genética quase todos os dias (Imagem: Alex Reipert)

Publicado em Edição 10
Quarta, 07 Dezembro 2016 12:29

Ninguém aprende a nadar por manual

Antonio Saturnino

Quando tinha seis anos, Rodrigo More criou uma história em quadrinhos com caravelas e navios, revelando sua paixão pelo mar desde muito cedo. Seu sonho de criança era um dia servir à Marinha, o que não aconteceu. Acabou estudando em colégio militar, em uma escola preparatória de cadetes. Não seguiu carreira e, alguns anos depois, estudou na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP).

O curso da vida, aparentemente, o afastara da sua paixão pelo mar. Mas o Direito se encarregou de levá-lo para as águas. Hoje ele é membro do Grupo de Trabalho (GT) da Comissão Interministerial para os Recursos do Mar, integra a delegação brasileira na Organização das Nações Unidas (ONU), na discussão sobre a ampliação da plataforma continental brasileira, e leciona no Campus Baixada Santista da Unifesp, no Departamento de Ciências do Mar. “No meu mestrado e doutorado, desenvolvi teses sobre Direito Internacional Público, sempre abordando assuntos políticos estratégicos ligados a segurança e defesa. Isso me aproximou muito do sistema do mar, já que hoje o espaço brasileiro mais relevante, do ponto de vista estratégico, para as próximas décadas, é o espaço oceânico”, comenta.

Nascido em 1973, em São Paulo, aos seis anos mudou-se com seus pais e os três irmãos mais novos para Marília. Lá o pai tinha uma empresa e proporcionava uma vida confortável à família. Porém, durante o Plano Bresser o negócio quebrou. “Às vezes não sabíamos como compraríamos comida. Houve muitos dias que nós tínhamos apenas feijão e farinha à mesa. Eu e meus irmãos estudávamos no melhor colégio da cidade, e havia o risco de termos que mudar de escola”.

Religioso, ele se lembra de pessoas iluminadas que cruzaram seu caminho e o ajudaram naquele período. O colégio onde estudava propôs aos seus pais que pagassem quando tivessem condições. Ao todo foram quase quatro anos sem pagar. Depois, aos quinze anos, voltou a São Paulo, pois queria fazer um curso preparatório para a Marinha. Nesse período morou com a avó e um tio, que custeou os estudos. “Eu estudava como um louco, cerca de 12h por dia. Se eu fosse bolsista, passasse em primeiro lugar, eu devolveria 100% do investimento para o meu tio. Nós éramos pobres, era importante devolver o dinheiro. Consegui devolver uma parte e, dos 17 concursos que eu prestei, passei em 11, muito bem colocado em muitos deles”, lembra emocionado.

Porém, no concurso que ele almejava acima de todos os demais, o da Marinha, ele não foi aprovado. No dia da prova teve o famoso “branco”. Eliminou algumas opções, e decidiu ingressar na Escola Preparatória de Cadetes do Exército, em Campinas. Ele descreve a experiência como fantástica, em razão do nível do ensino e dos valores que aprendeu, como honra, verdade, camaradagem e o espirito de corpo e de união.

Hoje, olhando para trás, ele percepe que tudo na vida tem um propósito. “Eu fui o cadete que dançou com Vanessa, minha esposa, em sua festa de 15 anos. Se eu tivesse entrado na Marinha, não teria entrado no Exército, não dançaria a valsa com ela e não teria encontrado a mulher da minha vida”.

Quando comunicou a seu pai que não seguiria carreira militar, o patriarca dos More tentou demovê-lo da ideia e perguntou o que ele faria ao sair do colégio. Ele falou a primeira coisa que lhe veio à mente: “Direito na USP”. A rotina intensa de estudos no colégio o ajudaram a estar bem preparado para o vestibular.

Na universidade ele desenvolveu sua principal característica, tanto no âmbito pessoal quanto profissional: ser um mediador. “Foi um divisor de águas para mim. Saí de um ícone ligado à ditadura militar para uma instituição que podia ser considerada um símbolo da luta contra o regime. Eu era, e sou, um cara de centro. Nunca fui radical nem para um lado e nem para outro. Meu perfil é de intermediação. Se é preciso ser um pouco mais agressivo, eu sou um cara duro, mas com uma postura mais conciliadora”.

Casado com a debutante com quem ele dançou quando tinha 18 anos, More tem um filho de dez anos, o Enzo, e sua esposa está esperando o segundo filho, que nascerá em janeiro. O nome já está escolhido, Matteo. “Dizem que é como se fosse tudo igual de novo. Tenho minhas dúvidas, pois somos pessoas diferentes após dez anos, estamos mais calejados. Talvez eu seja menos rígido na minha segunda experiência da paternidade”, comenta emocionado mais uma vez.

Ele sabe, porém, que haverá uma grande diferença na criação do segundo filho: a escassez de tempo que poderá passar com ele, em razão das muitas viagens que realiza por causa do seu trabalho. Muito ligado à família, More diz que quando viaja, não vê a hora de voltar. Adora sua casa e ama estar junto da sua família. Quando fica fora por muito tempo, inclusive, leva seu travesseiro. “Adoro meu travesseiro. Não consigo sequer dormir em um hotel sem ele”.

Em 2011, ele escreveu o artigo intitulado Quando os Cangurus Voarem. O título faz alusão ao episódio conhecido como “Guerra da Lagosta”, da década de 1960. À época, Brasil e França tiveram divergência diplomática, pois o governo brasileiro autorizou navios franceses a pescar em nosso território e eles começaram a capturar lagostas, o que incomodou muito os lagosteiros da região. A justificativa que eles deram foi que eles apenas capturavam quando elas saltavam, e que nesse momento ela virava peixe. O almirante Paulo Moreira retrucou: “Se lagosta quando salta vira peixe, quando o canguru pula, torna-se uma ave”.

O texto de More aborda uma resolução feita para a Comissão Interministerial para os Recursos do Mar, que permitiu que fossem feitas pesquisas sobre petróleo em áreas ainda não recomendadas pela ONU, e o conhecimento científico é muito importante para defender a soberania territorial. “A lagosta é um crustáceo do meiobêntico. É um ser vivo do fundo marinho e não pode ser ‘pescado’. É um conhecimento importante para a proteção do seu recurso. Usei a brincadeira para dizer que a ciência é necessária para o conhecimento do mar e sua defesa jurídica. Conhecer o oceano é essencial para defender a sua soberania”, comenta.

Ele conta a história: “Naquela época fui a uma palestra no Rio de Janeiro. Cheguei mais cedo e encontrei com o almirante Jair Alberto Ribas Marques, que é perito nosso na ONU. Me apresentei, e ele falou ‘Você é o rapaz do canguru. Minha assistente gosta muito dos seus artigos. Você precisa ir lá nos visitar. Estamos indo agora para a Dinamarca e na volta você vai nos visitar’. Lá o assessor do primeiro ministro e o advogado deles perguntaram onde estava o advogado da delegação brasileira, que ainda não existia. Ele, com muita perspicácia falou que havia ficado no Brasil. Saindo de lá ele foi para Nova York e me ligou, dizendo: “Dr. More a partir de agora você é nosso advogado de plataforma continental”.

Foi tão bem aceito que passou a integrar o GT do Plano de Levantamento da Plataforma Continental Brasileira (Leplac) na Comissão Interministerial para os Recursos do Mar, sendo depois designado para o GT responsável pela elaboração da proposta política (final) que seria apresentada à ONU. “Não poderia haver melhor oportunidade para mim. Costumo dizer que ninguém aprende a nadar por meio de manuais, precisa pular na água. Eles me jogaram na água, não poderia ter havido uma experiência melhor”. Por ser um membro do GT, em agosto desse ano foi convidado a compor a delegação que apresentou a Submissão Parcial Revista da Margem Sul ao plenário da Comissão de Limites da Plataforma Continental, na ONU.

Foto de Rodrigo More sorrindo

Sobre as pessoas importantes na sua carreira, ele menciona: “Conheci pessoas iluminadas, que foram e são extremamente importantes na minha vida. Araminta Mercadante, Vicente Marotta Rangel, Guido Soares e o Fernando Mourão. Serei sempre grato a eles, que me ajudaram muito no início da minha carreira. Minha família, que me apoiou em todos os momentos e, principalmente, meu tio Benê, que reconheço como meu segundo pai.Acho que a melhor forma de devolver o que eles investiram em mim é compartilhar o que aprendi e vivi”.

Ele completa: “Eu queria estar no mar. Dei uma volta imensa, passando pelo Exército, para chegar onde eu queria. Mas cheguei bem acompanhando e feliz. Hoje eu leciono em Santos, estou dentro da praia e o mar é a minha vida. Se hoje eu sei nadar, não é porque fiquei lendo um manual, mas porque um dia me jogaram na água”.

entrementes 12 nov 2015  Sumário do número 12

Publicado em Edição 12
Terça, 06 Dezembro 2016 12:32

Mundo virtual estimula laços superficiais

Carine Mota

“Estamos diante de uma geração que utiliza os meios tecnológicos como recurso principal para lidar, superficialmente, com seus problemas de relacionamento”, afirma Denise De Micheli,chefe da disciplina Medicina e Sociologia do Abuso de Drogas (Dimesad) do Departamento de Psicobiologia da Unifesp. Em entrevista, Denise discute algumas das características do perfil dos adolescentes usuários de internet e mídias digitais, e a possível influência desse comportamento na sua qualidade de vida. Boa parte dos dados foram obtidos a partir de uma pesquisa para dissertação de mestrado orientada por Denise e apresentada em 2014 por Fernanda Davidoff ao Programa de Pós-Graduação em Educação e Saúde na Infância e na Adolescência da Unifesp.

Entrementes - Há uma relação entre o aumento no uso das redes sociais com o crescimento dos casos de depressão e suicídio?

Denise De Micheli - Não há, até onde sabemos, uma relação linear. O que se percebe é que devido ao aumento no uso de redes sociais pelos adolescentes, esses estão construindo outros níveis de amizade e sociabilidade. Níveis estes considerados distantes e superficiais, sem aquisição de vínculo. Isso sim sabe-se que é muito prejudicial.

E – É possível um uso controlado das redes sociais e aplicativos de relacionamentos?

DDM -Em se tratando de adolescentes, a questão do controle é mais complicada, pois o momento que eles vivem, do ponto de vista neurobiológico, não permite ainda um controle dos impulsos e autorregulação. Nesse caso, são necessárias interferência e monitorização dos pais, por meio do estabelecimento de regras de uso e tempo.Quando se trata dos adultos, o controle também não é tão simples, embora do ponto de vista neurobiológico o adulto já tenha maior controle de impulsos. Já existem alguns estudos que mostram que a navegação na internet, como em casos de jogos, por exemplo, ativa alguns neurotransmissores (a dopamina em especial) em áreas de recompensa do cérebro e isso causa prazer. É extremamente reforçador. Neste caso, o autocontrole também acaba sendo difícil. Por essa razão já existem alguns serviços para atender dependentes de redes sociais.

E -Pessoas que buscam relacionamentos em aplicativos, portais e sites têm que tomar quais precauções?

DDM -As pessoas devem tomar muito cuidado. Uma das questões que se observa na rede é que as pessoas, em geral, expõem seu melhor lado e muitas vezes mentem ou omitem informações de acordo com sua conveniência. Esse é o maior perigo. Os pais devem monitorar os filhos, orientando-os a não manter conversas com desconhecidos, a não fornecer informações pessoais a ninguém.;

E - Quais os prejuízos do uso excessivo das tecnologias, principalmente antes de dormir?

DDM -O indivíduo que se mantém conectado antes de dormir não permite que seu corpo e mente relaxem. Não são raras as pessoas que adormecem com o celular nas mãos, por estarem conectadas e interagindo em redes sociais até tarde da madrugada. Isso impede o completo relaxamento, não permite que o indivíduo tenha as horas de sono necessárias para seu bem-estar no dia seguinte. E, com isso, tem-se uma pessoa cansada física e mentalmente.

E - Como os pais podem orientar seus filhos ao utilizarem as redes?

DDM -Uma conversa transparente e verdadeira é sempre o melhor caminho. Explicar os perigos reais que crianças e adolescentes podem correr ao se exporem, mantendo contato com estranhos na internet, é sempre o melhor a se fazer. Os jovens precisam entender as razões pelas quais eles não devem se conectar a estranhos. Caso contrário, não fará sentido esse alerta e certamente irão burlar ou infringir as regras. Eles devem saber que podem correr perigo ao passar informações pessoais, como endereço, telefone, entre outras coisas.

E - Por que atualmente os jovens e adultos têm mais dificuldade para interagir fora do mundo virtual?

DDM Cada vez mais as pessoas apresentam dificuldades em lidar com seus sentimentos e dificuldades. A internet e as redes sociais acabam alimentando essa dificuldade, uma vez que proporcionam um contato à distância e de forma superficial. Hoje muitos adolescentes iniciam e terminam um relacionamento por meio do WhatsApp, e com isso não estabelecem vínculos, tampouco vivenciam a expectativa do sim do início do namoro e nem a tristeza do término. Tudo fica banal e simples, não se lida com sentimentos.

foto de um rapaz e uma moça usando o celular

E - Como os pais podem perceber que seus filhos sofrem cyberbullying e como os jovens podem se proteger dessas agressões?

DDM - Os pais devem sempre estar atentos a qualquer manifestação de comportamento diferente dos filhos, seja para o lado do isolamento e depressão, seja para o lado da euforia e extroversão. Qualquer um dos extremos deve ser observado com atenção.

E - Quais fatores do cyberbullying fazem os jovens chegarem ao ponto de pensarem no suicídio?

DDM - O jovem que pensa em suicídio já vivencia uma situação interna emocional grave. O cyberbullying somente vem a agravar a situação.

Brasil lidera em tempo gasto nas redes

 

O número de usuários de telefones móveis cresceu 7% no Brasil de outubro de 2014 para março de 2015, correspondendo a quase 39 milhões de novos adeptos. O país é líder global em maior tempo gasto nas redes sociais e elas atendem a uma demanda social 60% maior que a média mundial.

São gastos em média 21 minutos em cada rede, tempo 60% maior que a média mundial; 650 horas nas redes sociais/mês e 290 horas a mais nelas do que navegando em portais. Segundo a ComScore, o sistema Android corresponde a 72% do acesso móvel dos brasileiros, seguido por 15% do sistema IOS.

O percentual de brasileiros de 10 anos ou mais que são usuários de internet chegou a 55%, o que corresponde a 94,2 milhões de usuários. A atividade mais realizada pelos usuários nos três meses anteriores à pesquisa é o envio de mensagens instantâneas, como por exemplo o chat do Facebook, Skype ou WhatsApp (83% dos usuários de internet). A participação em redes sociais figura entre as ações mais citadas, com 76%.

Os dados são da 10ª edição da pesquisa TIC Domicílios, divulgada pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), por meio do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br).

entrementes 12 nov 2015  Sumário do número 12

Publicado em Edição 12
Segunda, 05 Dezembro 2016 15:59

Redes acentuam epidemias psíquicas

Multiplicação de aplicativos, chats e redes dedicadas a relacionamentos coincide com o crescimento global da solidão, depressão e de taxas de suicídio entre jovens

Carine Mota

Multiplicação de aplicativos, chats e redes dedicadas a relacionamentos coincide com o crescimento global da solidão, depressão e de taxas de suicídio entre jovens O mundo contemporâneo apresenta um paradoxo: a internet multiplica quase ao infinito as possibilidades de encontros entre pessoas, ao passo que também há uma epidemia global de casos de solidão, depressão e aumento no surgimento de doenças psíquicas. Algumas são versões de aflições antigas, apenas renovadas pela era da banda larga móvel. Outras são específicas dos novos tempos. São bem conhecidas, e usadas por milhões, as redes sociais, aplicativos, chats, portais e sites de relacionamentos, como o Facebook, Tinder, Happn, Flert, DateMe, Par Perfeito, Namoro On, Pof e muitos outros. Há também aplicativos mais especializados - como o Coroa Metade, Amor de Peso, Scruff, Grindr, Namoro Estável - que oferecem opções variadas, por exemplo, para pessoas com idade acima de 40 anos, obesos, homossexuais, funcionários públicos ou para aqueles que buscam relacionamentos casuais.Mas, o isolamento físico, típico do usuário que fica horas diante da tela do computador, contribui para piorar os sentimentos de depressão e solidão.

Um estudo realizado em 2012 pelo Human-Computer Interaction Institute, da Carnegie Mellon University, dos Estados Unidos, com 1,2 mil usuários do Facebook, aponta que o uso excessivo da rede social acentua a solidão. Especialistas alertam para o fato de que há uma diferença entre a palavra solidão e estar sozinho. Estar sozinho é uma escolha e a pessoa sente prazer nisso. Já a palavra solidão expressa algo mais profundo, o estado de quem se acha ou se sente solitário. Já o psiquiatra Aderbal Vieira Jr., professor e pesquisador da Unifesp, nota que nem toda tristeza é depressão. “A depressão não é qualquer estado de angústia, e nem a internet é um transtorno etiológico que causa a depressão. Mas uma pessoa tímida que usa a internet pode ser depressiva”.

Suicídios

Segundo estatísticas da Organização Mundial de Saúde (OMS), o suicídio já é a segunda principal causa de morte em todo mundo para jovens de 15 a 29 anos (1,3 milhão morrem no mundo anualmente, vítimas de causas evitáveis ou tratáveis). No Brasil, o índice é de 6,9 casos para cada 100 mil habitantes, relativamente baixo, se comparado aos países que lideram o ranking - Índia, Zimbábue e Cazaquistão, com mais de 30 casos. O Brasil é o 12º na lista de países latino-americanos com mais mortes desse tipo. O número de mortes nessa faixa etária só perde para acidentes de trânsito (11,6%); já para os casos de suicídio a porcentagem é de 7,3%. De acordo com a OMS, 800 mil pessoas tentam se matar todos os anos – para cada morte há pelo menos outras 20 tentativas fracassadas.

A chefe da disciplina Medicina e Sociologia do Abuso de Drogas da Unifesp (Dimesad) Denise De Micheli afirma que não há uma relação linear entre o uso exacerbado de redes sociais com o aumento no número de suicídios (veja a entrevista, na página ao lado). Renato Cruz, jornalista e colunista do jornal O Estado de S. Paulo, diz ser difícil estabelecer uma relação de causa e efeito entre as tendências ao aumento do uso de redes sociais e os casos de depressão e de suicídio. “Uma não é correlação da outra. Tem que estudar a metodologia das duas causas”.

Uma tese de mestrado, apresentada em 2014 por Fernanda Davidoff ao Programa de Pós-graduação em Educação e Saúde na Infância e na Adolescência da Unifesp, reportando uma pesquisa com 264 estudantes entre 13 e 17 anos, revela que 68% sofrem de dependência moderada em relação às tecnologias atuais (como smartphones, tablets e internet), enquanto que 20% são dependentes graves. “Possivelmente, estamos diante de uma geração que utiliza os meios tecnológicos como recurso principal para lidar, superficialmente, com seus problemas de relacionamento”, conclui Denise, orientadora da pesquisa.

O amor on-line

Erica Queiroz, consultora em relacionamentos, conheceu seu atual marido em uma rede social há 8 anos. A consultora escreveu um livro e mantém um blog para ajudar pessoas a encontrar sua alma gêmea. “As pessoas sempre têm que se precaver, coletar o máximo de informações que puderem sobre a pessoa em questão e passá-las para alguém, por segurança. Também marcar o primeiro encontro em um local público, cheio de gente”, ressalta.

Outra usuária conheceu seu marido há quase 3 anos em um chat. A conversa passou para o Facebook e depois para o Skype, onde podiam se ver e se falar. “Acredito que nosso relacionamento deu certo porque nos aproximamos por interesses em comum e a química acabou ficando para um segundo momento”, conta. Hoje ela mora com o parceiro e eles têm um filho de dois anos. Apesar disso, reconhece que há uma certa tendência de pessoas com problemas de relacionamento usarem a internet como refúgio. A usuária recomenda desconfiar e usar a intuição, pesquisar muito sobre a pessoa antes de encontrá-la pessoalmente. Uma boa opção é utilizar ferramentas de vídeo para se comunicar.

Assédio virtual cresce no Brasil

No Brasil, onde é vertiginoso o crescimento do uso das redes sociais (veja o box, na página ao lado), há uma crescente apreensão, por parte de pais e responsáveis, sobre a exposição de crianças e adolescentes. Uma pesquisa feita por uma agência especializada, a TIC Kids Online Brasil, mostra que 35% deles se preocupam com o desempenho escolar, 23% com um eventual tratamento abusivo por outras crianças, 32% com a exposição a conteúdos inapropriados e 41% com a abordagem de estanhos.

De janeiro a junho de 2014, 108 casos de exposição de imagens íntimas (prática criminosa chamada de sexting) foram registrados no país, segundo dados da ONG SaferNet (organização que trabalha no enfrentamento de crimes e violações aos direitos humanos na internet).No mesmo período, em 2013, houve39 ocorrências. O aumento não se deve necessariamente ao número de incidentes,e sim ao aumento das denúncias. A maioria das vítimas é composta de mulheres (77,14%), das quais 35,7% são adolescentes com idades entre 13 e 15 anos e 32,1% são jovens adultas de 18 a 25 anos. “A internet cria a possibilidade de alguém mandar uma foto, provocar o vazamento e gerar uma situação traumática. Possibilita a atitude inconsequente, mas não é causa”, alerta Aderbal Vieira Jr.

A violência praticada contra alguém por meio da internet, uma conduta repetida, persistente e recorrente recebe a denominação de cyberbullying (assédio virtual). Uma pesquisa de 2014 da SaferNet aponta que 12% dos jovens entrevistados, com idade entre 18 e 23 anos, já sofreram bullying nas redes sociais, 35% já tiveram um amigo que sofreu e 49% têm medo que esse tipo de violência aconteça com eles.

Uma mensagem disponibilizada de forma acidental não caracteriza cyberbullying. Segundo Raquel Lemos, professora e consultora jurídica, há também uma diferença dessa ação entre jovens e adultos. “Essa violência está muito vinculada a jovens e crianças. Já nos adultos se chama assédio moral”. Raquel observa, ainda, que o trauma provocado pelo ataque é agravado pela falta de ambiente para discuti-lo dentro de casa. “É importante ter diálogo, pois no ambiente doméstico ainda há muito constrangimento”, afirma. Em qualquer caso de cyberbullying é necessário recorrer a ajuda do Departamento Estadual de Investigações Criminais (DEIC).

entrementes 12 nov 2015  Sumário do número 12

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Segunda, 05 Dezembro 2016 15:22

Unifesp mostra a sua arte

Evento abriga 1º Concurso de Fotografias, Poemas Curtas-metragens

Valquíria Carnaúba

Promovida pela Coordenadoria de Política Cultural da Pró-Reitoria de Extensão (Proex), a primeira edição da Semana Unifesp Mostra a sua Arte, com realização planejada para ocorrer entre os dias 16 e 19 de novembro, integra-se ao esforço para difundir, integrar e fomentar a produção artística entre a comunidade acadêmica. Simultânea às atividades que ocorrem durante a Semana de Consciência Negra, a ideia foi concebida em um formato inédito, dentro de uma proposta multi-campi.

Para abrir a semana, foi planejada uma exposição e divulgação dos trabalhos vencedores inscritos no 1º Concurso de Fotografias, Poemas e Curtas-metragens (veja o box). Além disso, ocorrerão palestras, saraus e exibições de filmes ao longo dos quatro dias para contemplar as expectativas da comunidade acadêmica, a quem foi oferecida a oportunidade de vivenciar novamente a experiência do I Congresso Acadêmico, realizado em junho: as apresentações do Palco Aberto.

Assim como antes, são previstas diversas apresentações artísticas, de duração máxima de 10 minutos, com práticas denominadas “artes da cena” (música, dança, teatro, performance, circo e poesia).

Cultura: política institucional

Diversos esforços para a consolidação de uma política cultural na universidade marcam a Proex em 2015. Como estratégia para integração da universidade, composta por diversos campi cujas características estão intimamente relacionadas às regiões em que se localizam, surge a promoção das iniciativas culturais de forma a criar uma nova prática de produção de conhecimento.

Nesse contexto, ações institucionais são desenvolvidas atualmente com o apoio da Pró-Reitoria de Extensão (Proex), da Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis (Prae) e de outras instâncias da universidade. Porém, não há uma diretriz conjunta para essas iniciativas, tampouco existem recursos suficientes para que as atividades continuem a fomentar novas ações e formar outros agentes. A Coordenadoria de Política Cultural surge então como proposta para estimular tanto a produção como a circulação de atividades artísticas e culturais nos e entre os campi.

Fotos dos artistas fazendo suas apresentações durante o concurso

Ana Maria Pimenta Hoffmann, professora adjunta de História da Arte na Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Unifesp (EFLCH/Unifesp) - Campus Guarulhos, à frente da coordenadoria, afirma que é constante a busca por interlocução com as câmaras técnicas de extensão e direções acadêmicas de forma a mapear, promover e dar visibilidade a artistas e coletivos da comunidade acadêmica. “Cada vez mais, é consensual a ideia de que a dimensão cultural, tanto na universidade como fora dela, desempenha um papel central no processo de formação. Por meio dela, pode-se abrir caminho para a diversidade e o pluralismo, redefinir determinados valores e recriar a própria vida em comunidade”.

As propostas da atual gestão englobam apoio ao projeto Rede Procultura Unifesp e à formação de núcleos de produção e difusão, realização de módulos de rodízio de curta duração, organização de editais pró-cultura, promoção de seminários sobre arte, manutenção e continuidade dos grupos e companhias artísticas, estímulo à Residência Artística, além do planejamento de mostras culturais itinerantes e de festivais de arte.

“Paralelamente, já existiam notáveis impulsos institucionais para a elaboração de planos de cultura em todos os campi. A Semana Unifesp Mostra a sua Arte deve acontecer como resultado direto dessa nova fase na Proex”, afirma Ana. Ela afirma ainda que a expectativa é que formatos semelhantes ao evento de novembro cheguem para ficar na grade da programação universitária e integrem outras ações culturais, a exemplo das oficinas no campus de extensão da zona leste e parcerias cumpridas entre o Ministério da Educação e o Ministério da Cultura.

Universidade realiza concurso de fotografias, poemas e curtas-metragens

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Em outubro, foram abertas as inscrições para o 1º Concurso de Fotografias, Poemas e Curtas-Metragens da Unifesp, com participação aberta a discentes regularmente matriculados nos cursos de graduação, pós-graduação lato ou stricto sensu e extensão da Unifesp, além de residentes e funcionários (docentes, técnicos administrativos ou terceirizados).

Cada concorrente teve a oportunidade de inscrever quantas fotografias, poemas ou curtas-metragens desejasse, com a temática “Convívio”, e ter suas obras avaliadas pela Coordenadoria de Políticas Culturais da Pró-Reitoria de Extensão da instituição.

Como prêmio, os três primeiros colocados de cada categoria foram contemplados com um tablet. Já os dez trabalhos mais bem avaliados receberam certificação, livros da Editora FAP-Unifesp e terão seus trabalhos ampliados e expostos durante o festival Semana Unifesp Mostra sua Arte, permanecendo disponíveis ao público de todos os campi por mais uma semana após o final do evento.

entrementes 12 nov 2015  Sumário do número 12

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Quinta, 01 Dezembro 2016 13:03

Lançamentos da Editora FAP-Unifesp

imagem da capa do livro Olhares que constroem

Porto de Santos

Saúde e trabalho em tempos de modernização

Maria de Fátima Ferreira Queiróz, Rosana Machin e Marcia Thereza Couto

Este livro procura investigar as singularidades do processo de modernização do Porto de Santos, sobretudo com as transformações socioeconômicas ocorridas no país nos anos 1990, e suas consequências para a saúde dos trabalhadores.

Os autores questionam como uma categoria profissional associada à valorização de atributos morais como coragem, força, honra e virilidade – e cuja representação predominante no imaginário social ainda é vinculada a atividades essencialmente masculinas e baseadas na força muscular – tem lidado com a modernização e com a nova gestão do emprego portuário. O resultado é uma profícua análise de como tais mudanças ecoam nas formas de sociabilidade e, também, nas experiências fisiológicas, orgânicas e simbólicas de saúde e adoecimento.

A redução da força de trabalho, a ampliação das inovações tecnológicas, a flexibilização e a desregulamentação dos direitos sociais e a introdução de novas formas de gestão são exemplos de medidas que vêm evidenciando uma intensa transformação, caracterizada por precarização, automação e heterogeneização do trabalho.

Ancorada na articulação entre ciências da saúde e ciências sociais em saúde, esta obra oferece uma visão interdisciplinar que associa diferentes olhares sobre a modernização portuária. A investigação de pesquisadores com sólidas formações em suas áreas específicas é combinada com a narrativa dos próprios operários do porto, que se colocam em face de uma realidade de perdas e desestruturações do seu trabalho, percebido como uma atividade complexa, gigantesca, por vezes penosa, mas da qual sobressai a ideia de gosto e satisfação.

Imagem da capa do livro O cego e o Coxo

Poder na França no Século XX

Jean-Yves Mollier

Jean-Yves Mollier, um dos melhores historiadores da edição contemporânea, reconstrói, nesta obra, a história de um século do tumultuado triângulo amoroso composto pelo comércio de livros, pela imprensa e pelo poder.

Se a história mostra que os jornais e as editoras tradicionalmente ignoravam e até combatiam a dinâmica do poder político, o século XX, por sua vez, foi marcado pelo estabelecimento de vínculos escusos e pela crescente harmonização entre esses dois mundos. Tentar decifrar esse movimento incessante de proximidade é a tarefa a que se propõe o autor, que evidencia o papel significativo que as diversas instâncias do poder – estatais, financeiras, políticas e religiosas – desempenham na evolução das empresas do setor editorial, misturando a política e a ideologia com a cultura e a economia.

Possibilitado pela recente e tardia liberação de acesso a importantes fontes primárias, como os arquivos da gigante Librairie Hachette, esse estudo apresenta uma síntese inédita que tenta abarcar no mesmo olhar o conjunto do sistema midiático, da imprensa escrita à internet. Partindo da ideia de que, atualmente, a mídia audiovisual se integra em conglomerados que englobam editoras, revistas e diários, o livro desvenda o processo de formação dos grandes grupos de comunicação que agregam imprensa e edição e disputam entre si o domínio dos mercados de educação, entretenimento e informação na França.

Jean-Yves Mollier é doutor em história pela Universidade Paris I (Panthéon-Sorbonne) e professor da Universidade de Versalhes Saint-Quentin-en-Yvelines. Dedica suas pesquisas sobretudo à história do livro e das mídias impressas e eletrônicas.

Imagem da capa do livro Desemprego e protestos Sociais no Brasil

Fanny e Margot, Libertinas

O aprendizado do corpo e do mundo em dois romances eróticos setecentistas

Mariana Teixeira Marques

Dois livros publicados quase simultaneamente e de enorme êxito perante o crescente público leitor do século XVIII; duas protagonistas, de origem humilde, que contam suas próprias histórias e relatam como, tendo entrado para o mundo da prostituição e da libertinagem, conseguem chegar a uma vida de conforto material; dois autores acusados de obscenidade que tiveram de prestar contas a autoridades policiais. Essas são algumas das semelhanças entre Memoirs of a Woman of Pleasure (1748-1749), de John Cleland, e Margot la ravaudeuse (1750), de Fougeret de Monbron, romances que instigaram esta análise comparada de Mariana Teixeira Marques.

A autora conduz o leitor pelas veredas da produção da literatura erótica na Inglaterra e na França setecentistas, narrativas que circularam com bastante vigor, mas que apenas a partir de meados do século XX passaram a ser vislumbradas pela crítica. Além disso, esta obra aprecia um aspecto crucial para a compreensão da literatura europeia da época: trata-se das trocas, dos cruzamentos, das apropriações e influências culturais entre os dois países em questão, o que favorece a compreensão dos pontos de contato entre ambas as tradições literárias. Ao mesmo tempo, cada uma das narrativas tem sua origem em um universo socioeconômico e cultural particular, dentro da perspectiva iluminista, cujas especificidades também são contempladas pela autora.

A ficção libertina é uma das múltiplas conexões entre as literaturas da França e da Inglaterra e, nesse sentido, pode servir de convite a aspectos da experiência cultural europeia nem sempre alumiados pela crítica literária tradicional.

Imagem da capa do livro Onde Tem fumaça Tem Fogo

Democracia e Estado de Exceção

O aprendizado do corpo e do mundo em dois romances eróticos setecentistas

Edson Teles

Há muito mais de estado de exceção nas democracias contemporâneas do que gostaríamos de admitir. Essa é a provocação central que Edson Teles nos desperta ao mesclar a experiência do vivido com o exercício da reflexão.

Tomando como ponto de partida uma original comparação entre os processos de acerto de contas com as violências do apartheid sul-africano e da ditadura civil-militar brasileira, este livro nos convida a um percurso teórico pela Filosofia Política no qual os conceitos vão sendo construídos e definidos, criticamente, na própria fluidez do texto.

De um lado, a lenta e controlada transição brasileira turvou o acesso à memória política, consagrando a impunidade dos torturadores. Medidas de reconhecimento esparsas e pouco articuladas entre si expressam o mal-estar de um passado que não passa. De outro, a mudança de regimes na África do Sul foi pautada pela criação de uma esfera pública de partilha dos sentimentos de horror após décadas de segregação racial. Em vez de silenciamento e esquecimento, emergiu um potencial redentor da narrativa, contribuindo decisivamente para a reconstrução dos laços sociais e da confiança cívica nas instituições do Estado. Em contrapartida, apesar de reconhecer os avanços da Comissão da Verdade e Reconciliação criada por Mandela, o autor não deixa de apontar as contradições desse processo. As exigências por justiça seguem em uma sociedade ainda marcada pela desigualdade econômica e pelo preconceito.

Essa obra consiste em uma contundente denúncia dos bloqueios que ainda temos de romper para fazer frente às violências que não cessam. Seu maior mérito é nos mostrar a importância de mobilizar a memória das violações de direitos humanos como uma forma de radicalizar a democracia nos dias atuais.

entrementes 12 nov 2015  Sumário do número 12

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Sexta, 25 Novembro 2016 13:48

Futuro do ensino depende das lutas sociais

Roberto Leher, reitor da UFRJ, discorre sobre principais dificuldades enfrentadas pela maior universidade federal do país

Da redação,

Colaborou João Gabriel

Roberto Leher, 54 anos, eleito em julho ao cargo de reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), uma história de vida e militância marcada pela luta em defesa do ensino público, gratuito e democrático que, no ano 2000, o conduziria ao cargo de presidente do Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes). Em entrevista ao Entrementes, o reitor Leher comenta o papel das greves no atual contexto nacional, fala sobre os desafios postos para as instituições públicas de ensino superior, suas consequências e os caminhos para enfrentar os problemas estruturais, sempre mantendo os princípios que escolheu defender ao longo de sua trajetória

Entrementes: Como a atual conjuntura - especificamente o ajuste fiscal e as medidas do governo - afeta o projeto de educação pública no Brasil?

Roberto Leher: A educação pública brasileira ainda não é uma educação universalizada, particularmente no ensino superior. Quando o ajuste fiscal incide sobre gastos sociais e, particularmente, gastos da educação, isso afeta de maneira estrutural a universidade. O ajuste fiscal traz restrições que podem levar à desarticulação de projetos de pesquisa importantes ou comprometer a participação dos estudantes em grupos de pesquisa por falta de infraestrutura: nós temos hoje um número grande de professores jovens nas universidades que não têm gabinete de trabalho.Tudo isso desorganiza a universidade, podendo acarretar prejuízos estruturais para o futuro do ensino, da pesquisa e da extensão no país.

E: Se chegou a falar em 50% de corte nas verbas da UFRJ. Esse dado é correto? Quanto foi cortado para este ano?

RL: Na realidade nós tivemos um corte de 50% de recursos de investimento e 10% de recursos de custeio. Mas esses cortes devem ser agregados aos cortes de 2014 que em geral não são muito mencionados. A UFRJ teve R$ 70 milhões contingenciados, inclusive recursos próprios, no ano passado, que fizeram com que o orçamento deste ano fosse duramente restrito, por isso chegaremos ao final deste ano com um déficit muito grande. Estamos trabalhando junto ao Ministério da Educação (MEC) para buscar uma forma de equacionar esse enorme déficit que hoje a maior universidade federal do país possui.

E: Como o corte afeta a universidade? Quais os setores serão mais afetados e quais serão priorizados?

RL: Hoje o investimento que temos que fazer em infraestrutura afeta muito diretamente a pesquisa, pois interfere na tecnologia. Os alojamentos estudantis e restaurantes universitários são insuficientes, considerando que a UFRJ traz estudantes do país inteiro – um quarto dos nossos estudantes vem de fora do Rio de Janeiro – e isso significa que nós precisamos de uma política de assistência estudantil robusta, compatível com o tamanho da instituição. Hoje não temos infraestrutura suficiente para dar suporte a muitos grupos de pesquisa que apresentam projetos, que demandam novos investimentos. Isso trava os grupos de pesquisa e cria uma situação de incerteza em relação ao futuro. Temos, hoje, uma situação muito grave, e particularmente uma expectativa dos novos professores e técnicos na universidade para os quais nós, literalmente, não temos local de trabalho para todos.

E: Vimos nos últimos anos uma política de privatização, terceirização e parcerias público-privadas na educação. Qual a consequência disso para a educação em geral e universitária especificamente?

RL: Obviamente nos preocupa o fato de que a aposta para a expansão da educação superior tenha como pressuposto que, no Brasil, ela vai ser assegurada pela ampliação da rede privada mercantil. Entretanto, essas instituições privadas são majoritariamente parte de uma engrenagem vinculada a fundos de investimento, os private equity, que são espaços de investimento de fundos de pensão de vários países, que têm como objetivo central o próprio fundo e não as instituições de ensino. Isso reconfigura de maneira radical a natureza dessas instituições privadas. Enquanto no período de 2007 a 2014 os recursos de investimento das federais foram de cerca de R$ 9 bilhões, somente em 2014 o FIES demandou R$ 13,5 bilhões do orçamento federal. Isso mostra uma prioridade muito problemática e que, ao nosso ver, tem que ser revista, pois o correto é a expansão do ensino público, pois é este que melhor responde às demandas da sociedade brasileira, da juventude, e sobretudo às demandas que a sociedade busca na universidade: uma capacidade crítica de produção de conhecimento novo e de buscar outra forma de solução dos grandes problemas que atingem os povos.

E: Agora na posição de reitor, como lidar com as greves da comunidade acadêmica em crítica a uma política que não está propriamente nas mãos do reitor, mas com a qual ele tem que lidar?

RL: A relação tem sido muito dialógica e estreita no que diz respeito à preocupação com o comum. Quando os estudantes entram em greve demandando mudanças na política de assistência estudantil; os professores, melhorias na carreira; e os técnicos administrativos, o aperfeiçoamento de carreira, da organização do trabalho, ou por serem contra os cortes orçamentários, as relações são vistas, por parte da Diretoria, como um processo de apreço à universidade; entendemos como pautas construtivas, somos solidários a ela. A Reitoria tem sua própria institucionalidade, os movimentos têm sua própria forma de auto-organização. Deve haver uma separação nítida e precisa do movimento - que deve ser sempre autônomo – e da Reitoria, mas compreendendo que essas lutas fazem parte de um processo que produz uma convergência no sentido de que todos estamos preocupados com o futuro da universidade pública.

E: Diante desse quadro que vimos, como enfrentar esses problemas estruturais partindo do conceito de educação pública pelo qual você sempre lutou?

RL: Eu creio que devemos retomar a reflexão que Florestan Fernandes fez, ao final dos anos 1980, na qual destacou que o futuro da educação pública dependeria necessariamente de um amplo protagonismo social. Os setores dominantes do Brasil têm uma visão instrumental e restrita da educação, basicamente pensada como capital humano e um capital humano para um capitalismo dependente. Ou seja, para inserção da juventude em forma de trabalho simples. Daí a ideia de que é possível formar de maneira minimalista a população. A contratendência a esse processo depende de amplo engajamento de movimentos sociais, entidades acadêmicas, movimentos sindicais, setores que estão comprometidos historicamente com a questão da educação pública, de modo que seja possível ampliar o protagonismo social e pressionar para que a educação ocupe outro lugar nas prioridades do Estado brasileiro. Esse é o grande horizonte, a formulação de Florestan com a qual estou de total acordo.

 

entrementes 12 nov 2015  Sumário do número 12

Publicado em Edição 12
Sexta, 25 Novembro 2016 13:26

Um debate necessário

Expansão das universidades federais coloca novos desafios para o seu funcionamento democrático, incluindo a questão central da paridade

Mayara Toni

Nos últimos anos, o sistema federal de educação superior passou por um intenso processo de expansão, promovido pelo governo federal e incentivado pela sociedade em geral. Novas universidades federais, novos campi, novos cursos de graduação, pós-graduação e extensão estão sendo oferecidos, ampliando o acesso à educação pública de qualidade, embora ainda aquém das necessidades do país.

Esse crescimento trouxe consigo também o aumento do número de profissionais que pudessem suprir a demanda inevitável. Mais do que nunca, o novo quadro coloca em pauta a questão da democracia no âmbito da universidade pública. Como enfrentar os inúmeros problemas provocados por uma crônica falta de recursos? Como integrar milhares de novos professores e alunos à vida universitária, preservando a autonomia da instituição, a liberdade de cátedra e a qualidade do ensino? Como assegurar um processo de interlocução transparente e produtivo com a sociedade?

Todas essas questões, e muitas outras que poderiam ser agregadas, remetem ao processo decisório no âmbito das universidades, reintroduzindo com força o debate sobre a paridade, tema recorrente na luta pelo ensino público, gratuito e de qualidade no Brasil. A ideia da paridade consiste em um processo de eleição nas universidades que garantem aos três segmentos, estudantes, professores e técnicos administrativos, o direito ao voto com igual peso.

Os desafios postos pelo processo de expansão são sentidos de forma particularmente intensa pela Unifesp, dadas as características específicas da universidade: em menos de uma década, o número de estudantes na graduação foi multiplicado por oito em apenas seis anos – de 1.200 para quase 10 mil. Cerca de 1.400 docentes atuam em diferentes áreas, nos seis campi situados na Grande São Paulo, na Baixada Santista e em São José dos Campos. Por outro lado, houve pouco aumento no número de técnicos administrativos. Como resultado, a estrutura ficou deficiente.

Como tentativa de criar um quadro de reflexão capaz de apontar perspectivas, não apenas para o seu próprio futuro, mas para as universidades públicas federais em geral, a Reitoria da Unifesp propôs a realização de um Fórum em Defesa da Educação Pública, em 10 de abril, com um debate realizado no anfiteatro central da Unifesp, e outros organizados em todos os campi. Procurou-se, com isso, estimular a participação da comunidade acadêmica, tanto no processo de reflexão quanto na elaboração de uma prática capaz de assegurar a democracia na instituição.

Na ocasião, foi aprovado um manifesto que vincula o processo de democratização à adoção de políticas públicas capazes de estender o ensino público superior ao conjunto dos jovens e trabalhadores brasileiros: “Os desafios da democratização do acesso à educação superior de qualidade ainda estão longe de serem vencidos. Uma das metas do atual Plano Nacional de Educação é a de elevar a taxa de matrícula para 33% da população de 18 a 24 anos e assegurar a qualidade da oferta e expansão para, pelo menos, 40% das novas matrículas, no segmento público. Para além da expansão quantitativa, é fundamental a defesa da qualidade do ensino superior, assim como a garantia de recursos adicionais de custeio proporcionais à expansão já alcançada, ampliando ações afirmativas e de assistência estudantil”.

O fórum previa a criação de um processo de interlocução permanente junto à comunidade universitária, parlamentares, intelectuais, entidades representativas e organizações sociais afins, em defesa do orçamento da educação e do financiamento que garanta o crescimento e consolidação da educação pública e de qualidade. “É fundamental que tenhamos uma política econômica que permita os diretos da Educação. Esse é o início de um movimento com o qual acreditamos conquistar a adesão por parte de reitores, entidades, organizações e a sociedade. Temos esperança que o novo ministro da Educação e a presidente Dilma tenham a sensibilidade da educação como direito e estamos aqui para ajudar e apresentar as nossas capacidades para a pátria educadora”, afirmou a reitora Soraya Smaili.

foto em audiência pública, com Roberto Leher, Soraya Smaili e Álvaro Costa
Encontros

Como desdobramento desse processo, a Reitoria organizou audiências públicas concentradas no debate sobre experiências de democratização nas universidades, incluindo a questão da paridade, reivindicação constante dos servidores públicos e da comunidade acadêmica. Em agosto, participaram a reitora Soraya Smaili, o reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Roberto Leher, o vice-reitor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Álvaro Penteado Costa e o assessor da Reitoria da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Marco Antonio Zabotto.

A audiência foi aberta pela apresentação dos sistemas de participação da comunidade nas universidades, dando a palavra aos representantes componentes da mesa. A Unifesp procurou trazer para o debate experiências diferentes das que a instituição vive atualmente, com a finalidade de agregar conhecimento para os presentes. “Nós buscamos trazer experiências que já são de longa data como a federal do Rio de Janeiro, a federal de São Carlos e também a Unicamp”, explicou Soraya Smaili.

Diante das experiências apresentadas, o debate foi aberto para a comunidade apresentar suas questões sobre o assunto. Entre reivindicações e dúvidas, o assunto sobre paridade prevaleceu. As perguntas foram pontualmente respondidas pelos presentes. “O tema da paridade faz parte dessa experiência de democracia nas nossas universidades”, apontou Soraya.

Em setembro, dando continuidade à ação, estiveram presentes na universidade o Prof. Dr. André Rubião Resende, representante da Unifenas e Faculdades Milton Campos (MG) e autor do livro História da Universidade: Genealogia do Modelo Participativo, o presidente da Associação dos Docentes da Unifesp (Adunifesp), Prof. Dr. Rodrigo Medina Zagni e o Prof. Dr. Félix Ruiz Sanchez, representando a Reitoria da Unifesp.

Na ocasião, os presentes foram contemplados com palestras e discussões presentes no livro citado, no qual Rubião conta como os modelos históricos de gestão das universidades pelo mundo influenciam as decisões modernas, além de demonstrar formas de praticar as questões de paridade e democratização com base nesses estudos.

entrementes 12 nov 2015  Sumário do número 12

Publicado em Edição 12
Quinta, 24 Novembro 2016 11:12

Acordo consolida o caminho das 30 horas

Em 2014, a Reitoria iniciou um processo de flexibilização da jornada de trabalho dos servidores da universidade, considerando também o Hospital São Paulo, hospital universitário (HSP/HU/Unifesp), segundo o decreto e a regulamentação estabelecidos pelo Conselho Universitário (Consu).

foto da Reunião com TAEs do Campus Osasco acontecendo

Dessa forma, sete setores e 200 TAEs do HU tiveram sua jornada de trabalho flexibilizada com a finalização da segunda fase do projeto piloto aprovado pelo conselho.

Em 5 de agosto de 2015, após audiência pública, foi proposta a formação de uma Comissão Especial de Flexibilização da Jornada dos Servidores da Enfermagem do hospital com o intuito de ampliar as 30 horas para os demais setores.

Por ser uma das principais reivindicações do Sintunifesp durante o período de greve, foram realizadas várias reuniões entre o sindicato e a Reitoria a fim de se estudar as possibilidades e de apresentar as propostas para essa implementação.

O acordo

Em portaria publicada no dia 23 de outubro de 2015 foram estabelecidas as etapas para a flexibilização da jornada de trabalho dos demais 742 servidores de enfermagem de 42 setores do HU e ambulatórios, que voltaram ao trabalho no dia 24 de outubro.

O acordo proposto pela Comissão Especial de Flexibilização, pelo Conselho Gestor, Superintendência, Diretoria de Enfermagem do Hospital São Paulo e pelos representantes dos servidores técnico-administrativos estabeleceu as seguintes resoluções:

- Jornada de 6 horas diárias para os 379 servidores da enfermagem que atualmente trabalham 6h15 por dia, acrescentando uma folga;

- Adequação do número de folgas para flexibilização dos 300 servidores de enfermagem que cumprem jornada de 12/36, com a manutenção das folgas estabelecidas anteriormente e o acréscimo de uma folga em meses alternados;

- Flexibilizar para 6 horas a jornada dos 63 servidores que cumprem 7 horas por dia, com adequação das folgas de forma que a carga não seja inferior às 30 horas semanais;

- Acerto de folgas devidas, referente ao ano de 2014, conforme acordo com a Direção do hospital;

- Publicação da portaria da comissão para gestão do Adicional por Plantão Hospitalar (APH) na instituição.

Próximos passos

Em etapa posterior, a ser realizada a partir de 2016, após a conclusão efetiva da implementação apresentada acima, a Comissão Especial de Flexibilização dará continuidade às suas atividades, com o acompanhamento e avaliação desse processo.

Ainda nessa segunda etapa, estão previstos deslocamento de APH de outros setores para enfermagem e realização de concurso público de 2015 (em publicação).

 

entrementes 12 nov 2015  Sumário do número 12

Publicado em Edição 12
Quarta, 23 Novembro 2016 13:02

Sintunifesp faz balanço positivo da greve

foto da Reunião com TAEs do Campus São José dos Campos durante a greve

Mariane Tescaro e Daniel Patini

O movimento grevista nacional de trabalhadores técnico-administrativos em educação foi encerrado com a saída unificada dos trabalhadores no dia 08 de outubro. Segundo a Federação de Sindicatos de Trabalhadores Técnico-Administrativos em Instituições de Ensino Superior Públicas do Brasil (Fasubra), foram 133 dias de paralisação, 65 instituições federais de ensino participantes e a adesão da maioria dos trabalhadores.

A Unifesp incorporou-se ao movimento desde o início, a começar pelo Campus São Paulo e Hospital São Paulo, Reitoria e depois a adesão de todos os campi (Baixada Santista, Diadema, Guarulhos, Osasco e São José dos Campos).

O Entrementes esteve na antiga sede do Sindicato dos Trabalhadores da Unifesp (Sintunifesp) para ouvir os representantes, José Ivaldo da Rocha, coordenador geral, e Maria do Socorro Limeira da Silva, membro do Comando Local de Greve, para saber os desfechos e a avaliação da greve, considerada uma das mais longas, segundo a Fasubra.

Rocha, mais conhecido entre os seus pares como Zezinho, enumerou algumas das principais e importantes reivindicações do eixo nacional: reposição de 27,3% das perdas salariais do período de 2012 a 2015, aumento do step para 5% (diferença entre um nível e outro na tabela salarial); dissídio coletivo para 1º de maio; luta contra a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (EBSERH); reenquadramento dos aposentados na carreira; fim das terceirizações e abertura de concursos públicos; diminuição nos impactos do ajuste fiscal proposto pelo governo.

Diante desse cenário, alguns assuntos tiveram bom êxito, como: o índice de reajuste referente a reposição das perdas salariais para agosto de 2016, que será de 5,5%, e janeiro de 2017, de 5%; inclusão de 0,1% de reajuste no step. Já os benefícios serão reajustados a partir de janeiro de 2016, nos seguintes índices: auxílio saúde, 22,8% (diferenciado por idade e faixa salarial); auxílio pré-escolar hoje com valores variáveis, de 66 a 95 reais, passa para R$ 321,00; e o auxílio alimentação sobe de R$ 373,00 para R$ 458,00.

Na Unifesp

Foi criado durante a paralisação um comando unificado de greve abrangendo todos os campi da universidade. Dessa forma foi possível estabelecer o eixo de reivindicações para a Reitoria. “O movimento gerou um relacionamento histórico muito importante, pois houve o envolvimento e consonância dos técnicos administrativos de todas as unidades”, explica Maria do Socorro.

Zezinho avalia o desfecho da greve como bom, somando aos resultados obtidos. “Nós temos uma perspectiva muito positiva. Essa greve é consequência de um trabalho de reorganização da nossa categoria, da recuperação da nossa entidade sindical em termos de atuação, de prática política e posições”, comemora.

O coordenador geral do Sintunifesp considera ainda os ganhos da Unifesp até maiores dos que as conquistas de nível nacional. “Consideramos uma greve vitoriosa também pelo resultado material, teórico e intelectual, de perspectivas futuras, principalmente com relação à carreira da categoria. Foi uma semente de fortalecimento da nossa organização como representação de classistas e a experiência de realizarmos uma paralisação com uma gestão oriunda de um movimento político e sindical da nossa universidade”.

Em meio a tantas solicitações, os representantes chamaram a atenção do tema paridade, que é assunto do eixo nacional e tem reflexos na Unifesp. “A gente entende aqui na universidade como uma questão crucial e reivindicamos o seu encaminhamento”.

Os técnicos administrativos em educação (TAEs)retornaram ao trabalho no início de outubro, porém os trabalhadores do Campus São Paulo/ Hospital São Paulo, predominantemente da enfermagem, decidiram continuar com o movimento a fim de obter a jornada de trabalho de 30 horas para todos, que resultou em uma flexibilização para 942 servidores daquela área com carga horária de 30 horas e 33 minutos semanais, após a publicação de uma portaria no dia 23 de outubro [mais detalhes na matéria abaixo].

O Sintunifesp conta hoje com aproximadamente 2.300 associados e com uma sede própria, localizada à Rua Pedro de Toledo, nº 386, Vila Clementino

entrementes 12 nov 2015  Sumário do número 12

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